"Se existe uma preocupação genuína com o povo venezuelano, chegou a hora de suspender as sanções econômicas, acabar com os bloqueios financeiros, restituir os activos venezuelanos mantidos no exterior e permitir que o país comercialize livremente com o resto do mundo. Não por mera liberalidade, mas por uma questão de justiça e respeito à soberania nacional."
De: André Abeledo Fernandez
A melhor ajuda para a Venezuela é o levantamento do bloqueio.
As imagens que chegam da Venezuela após os terremotos devastadores estão comovendo o mundo. Milhares de famílias afectadas, infraestrutura destruída e uma tragédia humana de proporções enormes exigem uma resposta imediata baseada na solidariedade internacional. Nestes momentos iniciais, é essencial enviar equipes de resgate, pessoal médico, equipamentos especializados, alimentos, medicamentos e toda a ajuda material possível para salvar vidas e auxiliar aqueles que perderam tudo.
Mas, uma vez superada a emergência inicial, é importante fazer uma pergunta fundamental: do que a Venezuela realmente precisa para se reerguer e se reconstruir?
Numerosos economistas e especialistas em desenvolvimento internacional vêm apontando há anos um facto que muitos governos ocidentais preferem ignorar: nenhum país pode se recuperar totalmente de uma catástrofe se, ao mesmo tempo, permanecer sujeito a sanções econômicas, bloqueios financeiros e restrições comerciais que sufocam sua capacidade de agir.
É difícil não perceber a contradição. Os mesmos governos que expressam preocupação com o sofrimento do povo venezuelano são, em muitos casos, os que apoiaram medidas que limitam o acesso do país a recursos financeiros, dificultam suas operações comerciais e retêm bens pertencentes ao Estado venezuelano. Milhões em ajuda são anunciados enquanto mecanismos que privam a Venezuela de somas muito maiores permanecem em vigor.
A verdadeira solidariedade não se resume a enviar ajuda emergencial. Significa também deixar de impedir que um povo reconstrua seu futuro por meio de seus próprios esforços.
Se existe uma preocupação genuína com o povo venezuelano, chegou a hora de suspender as sanções econômicas, acabar com os bloqueios financeiros, restituir os activos venezuelanos mantidos no exterior e permitir que o país comercialize livremente com o resto do mundo. Não por mera liberalidade, mas por uma questão de justiça e respeito à soberania nacional.
Porque a reconstrução da Venezuela não pode depender para sempre da caridade internacional. Nenhuma nação quer viver de ajuda externa. As pessoas querem trabalhar, produzir, comercializar e decidir o próprio destino. O que a Venezuela precisa é poder usar seus próprios recursos para reconstruir escolas, hospitais, estradas, moradias e serviços públicos.
A história recente oferece exemplos que servem de alerta. O Haiti recebeu enormes promessas de ajuda após suas tragédias, intervenções internacionais, missões estrangeiras e uma presença constante de organizações internacionais. No entanto, décadas depois, o país permanece preso em uma crise permanente, com instituições fragilizadas, pobreza extrema e um clima de insegurança que impede até mesmo o funcionamento normal da vida cotidiana. A ajuda chegou, mas o desenvolvimento nunca se concretizou de facto.
Esse não pode ser o futuro da Venezuela.
A reconstrução deve estar nas mãos do próprio povo venezuelano. A comunidade internacional pode e deve colaborar, mas sempre respeitando a soberania nacional e garantindo que o país tenha acesso a todos os recursos que lhe pertencem.
Portanto, além da ajuda humanitária urgente, há uma reivindicação política que deve ser ouvida em alto e bom som em todo o mundo: basta de sanções, basta de bloqueios e basta de punições colectivas contra um povo que acaba de sofrer uma tragédia de proporções enormes.
Se realmente queremos ajudar a Venezuela, vamos ajudar aqueles que precisam ser resgatados, alimentados e cuidados hoje. Mas amanhã, vamos fazer algo ainda mais importante: deixar a Venezuela viver em paz, recuperar o que é seu por direito e ser capaz de se reerguer por conta própria.
Porque nenhuma nação pode ser reconstruída com discursos de compaixão enquanto permanecer presa a grilhões econômicos. As nações são reconstruídas com soberania, com recursos e com a liberdade de trilhar seu próprio caminho.
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