13 de março. Polícia controla acesso ao SVB. Clientes correram a levantar depósitos após colapso do banco.
Desde começos de março, quando faliu o
Silicon Valley Bank, repetem-se as declarações dos poderes públicos
afiançando a segurança do sistema financeiro norte-americano e europeu.
Os factos, porém, mostram que as ameaças de falências persistem sem que
os remédios produzam as melhoras desejadas. De facto, os avisos que
apontam para um mal de raiz afectando todo o sistema financeiro
ocidental, e possivelmente mundial, afirmam sem sombra de dúvida que o
problema ultrapassa em muito os colapsos até agora verificados.
Para além dos problemas resultantes
de uma finança hiper-desenvolvida, sem proporção com os valores reais da
economia, há hoje a considerar uma questão com contornos inéditos: a
competição, levada ao extremo, entre blocos económicos que vão quebrando
os laços que os uniam até há pouco e vão abrindo, em ritmo acelerado,
um fosso entre dois mundos.
Coloca-se o desafio de saber em que
medida este factor, relativo à ordem política global, condicionará a
evolução dos acontecimentos, seja no imediato quanto ao descalabro
financeiro que se anuncia, seja a respeito das mudanças na economia
mundial nos próximos anos, seja ainda no âmbito do confronto geral entre
grandes potências, confronto este que seguramente determinará a
configuração do mundo num futuro próximo.
Factos notórios
A fonte do problema mais recente está
nos EUA, tal como em 2008, tendo desta vez começado em bancos
regionais de média dimensão, alguns deles especializados no
financiamento de startups dos sectores tecnológicos de ponta. Em menos de dois meses, três deles foram à falência e outros ameaçam ter o mesmo destino.
Apesar das vozes em contrário e dos
apelos à calma, deu-se em poucos dias uma propagação rápida a outros
sectores bancários o que levou à intervenção do banco central dos EUA
(Fed) com receio de que o contágio se generalizasse e atingisse os
grandes bancos. Segundo testemunhos abalizados, centenas de bancos dos
EUA estão falidos (Nouriel Roubini), ou mesmo metade dos 4.800 bancos
que constituem a rede bancária norte-americana (Amit Seru, Stanford
University).
A crise não se confina aos EUA, razão
pela qual responsáveis norte-americanos e europeus trataram
imediatamente de concertar medidas paliativas. Mas a evolução das
últimas semanas não aliviou as ameaças: a corrida ao ouro dá sinal da
insegurança sentida por investidores e especuladores diante da
perspectiva real de uma recessão nos EUA, facto que levou os estrategas
do JPMorgan, um dos maiores bancos do mundo, a admitir que essa poderá
ser uma defesa contra aquilo a que chamam “um cenário catastrófico”.
(Bloomberg, 5 maio)
Na Europa, foi o Crédit Suisse a
afundar-se e a ser absorvido pelo seu concorrente UBS, numa corrida
contra-relógio conduzida pelo Estado suíço para evitar uma falência
estrondosa de consequências imprevisíveis. A causa próxima do
desmoronamento do CS (prevista ainda antes dos colapsos desencadeados
nos EUA) terá estado na recusa de investidores sauditas (o Saudi
National Bank) em reforçarem o capital do banco, provocando forte
desconfiança nos meios financeiros.
Dias antes deste desenlace,
responsáveis da banca suíça tinham manifestado desagrado com a decisão
do seu governo em alinhar com as sanções à Rússia, decretadas logo após o
início da guerra na Ucrânia — sanções essas, lembremos, ao abrigo das
quais o Ocidente congelou e usurpou centenas de milhões de euros de
capitais russos. (Financial Times, 8 março)
Esta pirataria de alto coturno terá
levado “centenas” de capitalistas asiáticos (chineses e outros) a
recearem depositar o seu dinheiro na Suíça, temendo que lhes acontecesse
o mesmo que aos russos. (Idem)
Este facto, denunciado pelas próprias
autoridades suíças, mostra como o confronto desencadeado pelos EUA
contra a Rússia e a China, arrastando consigo os europeus, está a ter
papel nesta crise bancária, somando-se aos problemas intrínsecos da
hiper-financeirização do capital ocidental.
Recuando uns anos
A crise financeira de 2008 foi
mitigada com injecções maciças de dinheiro para cobrir as perdas e
evitar as falências dos bancos, de outras instituições financeiras e de
empresas das áreas comerciais e industriais. Os níveis de crédito foram
assim sustentados à custa de uma multiplicação gigantesca de papel em
circulação. Com os problemas resultantes da pandemia, que paralisou
grande parte da actividade económica, repetiu-se o procedimento dos
bancos centrais: injectar dinheiro.
Somado a isto, as taxas de juro
baixas, ou mesmo negativas, visaram igualmente difundir o crédito, na
ideia de estimular o crescimento económico, que teima em manter-se
anémico e que anémico se manteve apesar de todos estes esforços dos
poderes públicos.
A quantidade de dinheiro em
circulação (não só dinheiro propriamente dito, mas também todas as
múltiplas formas de crédito, que acabam por representar uma capacidade
aquisitiva, pelo menos potencial) ultrapassa em muito o valor real dos
bens efectivamente criados e disponibilizados pelos sectores produtivos
da economia.
Crédito, alavanca do consumo
Porque tem sido necessário manter o
crédito em alta? Nas últimas décadas (praticamente desde os anos de
1970) o capitalismo mundial sofre de um mal incurável. Dito
simplesmente: a enorme capacidade produtiva que atingiu não tem
correspondência na capacidade de compra do mercado; a sobreprodução de
bens depara-se com um subconsumo crónico.
Deve-se isto, em última análise, ao
enorme progresso tecnológico, responsável tanto pelo aumento exponencial
do volume de produção e pela correspondente redução do valor unitário
dos bens, por um lado; como pela diminuição tendencial da força de
trabalho empregue e da quebra dos montantes salariais, por outro lado.
Alimentar o crédito generalizado tem
sido essencial nas últimas décadas para manter os negócios em
funcionamento. Com efeito, sendo o capitalismo contemporâneo cada vez
mais um capitalismo de baixos salários (Fred Goldstein), a quebra global
dos salários reais resulta numa quebra do poder de compra global só
atenuada pelo alargamento das linhas de crédito para as mais diversas
finalidades de consumo.
Mas, ao colocar-se o consumo na
dependência do crédito, cria-se um “sistema artificial de extensão
forçada do processo de reprodução” do capital. Acontece que “num sistema
de produção em que todo o edifício complexo do processo de reprodução
assenta no crédito, se o crédito cessa bruscamente (…) é fácil de ver
que uma crise tem então de se produzir” (K. Marx).
É por isso que “à primeira vista,
toda a crise se apresenta como uma simples crise de crédito e de
dinheiro”. Na verdade, porém, “na base de toda a crise” está “um volume
de compras e vendas [representadas por títulos de crédito] que
ultrapassa de longe as necessidades da sociedade”, isto é, a sua
capacidade aquisitiva. Por isso também, “nenhuma legislação bancária
poderá afastar uma crise” (idem).
A estagnação permanece, contudo
A estagnação do crescimento
económico, que afecta sobretudo o capitalismo ocidental (como os dados
mais recentes do insuspeito FMI vieram confirmar), tem resistido a todas
as medidas que a visavam combater. E mais: contrasta com a enorme
multiplicação do capital fictício — capital que, não encontrando
condições para uma aplicação e valorização produtiva, se dedica à
especulação financeira na busca de rendimento.
Dentro da massa enorme de activos
financeiros, tem especial relevo o mundo obscuro dos chamados derivados.
Segundo dados do Banco de Compensações Internacionais, o mercado de
derivados eleva-se a mais de 632 biliões (milhões de milhões) de
dólares, seis vezes o valor do PIB mundial! (Réseau International, 13
abril)
A causa primeira da inflação
galopante que se desencadeou de há dois anos para cá está, pois, nos
próprios remédios dados à crise financeira de 2008: o fornecimento à
banca, às instituições financeiras e à grandes empresas de “liquidez”
praticamente ilimitada por parte dos Estados.
Ao terreno assim adubado pelos
poderes públicos, veio juntar-se a quebra das cadeias de abastecimento
resultante da pandemia (causando escassez de bens, atrasos de
fornecimento, subida dos preços dos transportes) e também a guerra
económica contra a Rússia e a China desencadeada pelos EUA e seguida
pela UE (afectando energia, cereais, fertilizantes, matérias primas
diversas).
Efeitos secundários de alto risco
A subida dos juros é a medida que no
Ocidente está a ser aplicada para combater a inflação. Os efeitos de uma
inflação descontrolada são sabidos. Um exemplo é a redução do poder de
compra, pela desvalorização do dinheiro, reforçando a tendência para a
quebra da procura global com que o capitalismo se debate. Outro exemplo é
a desvalorização das dívidas, facto particularmente preocupante para os
credores das gigantescas dívidas dos Estados. Que dirão, por exemplo,
os credores alemães e franceses da dívida do Estado português se ela for
paga pelo valor nominal do euro desvalorizado em 9 ou 10% por efeito da
inflação?
A subida dos juros tem, no entanto,
consequências indesejadas por quem a promove, mas inevitáveis. Provoca
contracção dos negócios, agravando o marasmo da economia. Reduz o
investimento, comprometendo a perspectiva de crescimento futuro. Fomenta
as falências no sistema financeiro, desvalorizando os activos
(carteiras de acções, de títulos do tesouro, etc.) por ele detidos. Gera
desemprego, reduzindo o poder de compra, multiplicando a pobreza e
criando terreno para agitação social.
A ironia de tudo isto é que cada
medida tomada para tratar de um mal gera outro mal que tem de ser
remediado por medidas contrárias. O exemplo mais recente vem das
falências dos bancos norte-americanos: para combater a inflação, a
Reserva Federal subiu os juros, visando reduzir o volume de dinheiro em
circulação; a subida dos juros desvalorizou os activos dos bancos e
levou-os à falência; para evitar que as falências se sucedessem em
dominó, o Estado teve de prometer segurar todos os depósitos de qualquer
montante, injectando dinheiro no sistema financeiro…
Uma espada sobre a cabeça
A crise financeira de que o mundo
volta a abeirar-se, desencadeada em pleno ou mitigada, permanece como
uma espada sobre a cabeça de todo o sistema económico capitalista e
obviamente sobre a cabeça das populações assalariadas.
Uma crise financeira, como vimos, não
é “só financeira”. As crises económicas aparecem sempre sob a forma de
crises financeiras porque, no capitalismo contemporâneo, é através da
finança, particularmente através do crédito, que todo o sistema
económico é gerido e a sua evolução é determinada.
A ausência de crescimento, a ameaça
de recessão, etc., apresentam-se ainda mais negras se entendermos que os
tremores que abalam a finança antecipam a ameaça de um sismo económico
de proporções inéditas. Por outras palavras, as recorrentes crises
financeiras são sinal de uma crise económica que se arrasta sem solução,
acumulando um potencial explosivo inédito — não apenas no estrito plano
da economia mas também na esfera política.
Daí as ameaças crescentes de guerra
entre as grandes potências que lutam pela primazia mundial, dando conta
de que as disputas económicas não cabem já nos limites da competição em
torno dos negócios, mas pelo contrário transbordam para o terreno do
confronto político e militar.
Na situação presente, portanto, para
além dos factores intrínsecos ao mecanismo de um capitalismo em pane, há
que ter em conta factores de natureza política e de competição mundial
que afectam de modo igualmente determinante o curso dos acontecimentos.
As actuais ameaças ao sistema
económico e financeiro desenrolam-se num quadro geral novo, marcado pela
tendência que se vai afirmando para a partição do mundo em blocos — um
formado pelas potências imperialistas (o “Ocidente alargado”, na
expressão das próprias), outro que se vai constituindo por oposição ao
primeiro (o chamado “Sul Global”).
Não é possível ignorar o papel que este grande confronto tem no desenrolar da crise actual.
De onde deriva esta mudança?
Depois de trinta anos de desenfreada
mundialização, em que o capitalismo imperialista tomou conta de dois
territórios imensos que lhe tinham estado vedados, a Rússia e a China, e
se pôde expandir sem oposição externa por todos os cantos do globo, eis
que surgem fenómenos novos com novos actores: o reerguer da Rússia como
potência nacional e militar, respaldada nos imensos recursos de que
dispõe; e a revelação da China como potência económica capaz de desafiar
a hegemonia dos EUA e associados.
O mundo que tinha sido montado, sob
batuta norte-americana, desde a segunda grande guerra — e que dera aos
EUA a condição não apenas de potência imperialista de primeiro plano,
mas também de força hegemónica do capitalismo imperialista mundial —
esse mundo chegou de certo modo a um limite. A teia que os EUA urdiram
para seu próprio benefício passou a ser um colete de forças desde o
momento em outras potências puderam desafiar o seu domínio.
É isto que explica o facto de os EUA —
até há pouco os campeões da livre circulação de quase tudo (bens,
capitais, cultura, informação) — se terem remetido a um proteccionismo
próprio das nações e das economias acossadas.
O toque a reunir, que vem de antes da
guerra na Ucrânia, e com o qual os EUA procuram rodear-se dos aliados
fiéis (submetendo-os) para tentar isolar a China e a Rússia, é sintoma
de duas coisas: da fraqueza que atinge os EUA, progressivamente
incapazes de competir com os adversários mais poderosos no estrito plano
económico; e do recurso crescente a meios outros, que não os
económicos, na tentativa de travar esses adversários, isto é, a força
militar.
As tarifas aduaneiras sobre produtos
estrangeiros, as sanções dirigidas aos concorrentes (países e empresas),
a confiscação de somas astronómicas de adversários ou simples vítimas
(Rússia, Irão, Venezuela, Iraque, Afeganistão), os propósitos
(largamente ilusórios) de re-industrialização — todas estas medidas
adoptadas pelo “Ocidente alargado” são a evidência do confronto
gigantesco que se vai desenhando entre dois mundos.
A situação lembra um pouco o final do século XIX. Dizia F. Engels, cerca de 1886, numa nota a O Capital,
que “estas protecções aduaneiras não são mais do que as armas
destinadas à batalha geral da indústria, que decidirá finalmente da
dominação sobre o mercado mundial”.
Há todavia uma diferença
significativa. Na época, era a Inglaterra a potência dominante e era ela
que pugnava por eliminar as barreiras; e os seus concorrentes
rodeavam-se de medidas de protecção para sobreviverem. Hoje, é a China
que, confiante da sua força económica, se bate pela liberdade de
comércio; e os EUA, em perda, acoitam-se atrás de barreiras de toda a
espécie.
Uma questão nova
Esta divisão do mundo coloca uma
questão, em grande medida inédita, a respeito da ameaça
financeira-económica-social-institucional que impende sobre a
civilização burguesa ocidental. Em que medida o colapso financeiro que
se anuncia a partir dos EUA e da Europa afectará todo mundo? Em que
medida o corte que se aprofunda entre dois mundos manterá a salvo a
China, a Rússia, a Índia, o Irão e os países que alinham por esse lado?
Da resposta que a realidade der a
esta questão poderemos concluir sobre o ritmo a que o afundamento do
“Ocidente alargado” se processará.
A directora-geral do FMI, Kristalina
Georgieva, fez recentemente uma visita à China que proporciona dados
interessantes. Falando em Pequim, no Fórum de Desenvolvimento da China,
disse que até 90% das economias avançadas terão uma queda do PIB em
2023, mas que “a Ásia será um foco de luz” na penumbra geral.
A China e a Índia conjuntamente
representarão metade do crescimento mundial. A China, passados os
condicionamentos da pandemia, dará “um forte salto” com um crescimento
de 5,2% em 2023, contribuindo com um terço do crescimento mundial. Por
um efeito de arrasto, cada 1% de crescimento da China induzirá um
crescimento de 0,3% nas restantes economias da Ásia.
A economia global crescerá (apesar
destas ajudas) menos de 3% em 2023, e o mesmo marasmo continuará nos
próximos cinco anos, o pior desempenho desde 1990. Os EUA esforçam-se
por alcançar em 2023 um crescimento de 0,7%, a UE de 0,8% e o Japão de
1,3%, todos eles puxando para baixo a média geral.
Georgieva alertou ainda para os
“riscos de fragmentação geo-económica” que podem conduzir a uma “divisão
do mundo em blocos económicos rivais”. Em consequência, poderá dar-se
uma quebra do PIB mundial de 7% (7 biliões de dólares), o equivalente à
produção conjunta do Japão e da Alemanha, ou mesmo de 12%. Por tudo
isto, as previsões para a economia mundial a médio termo “permanecem em
baixo”. (RT, 26 março)
Acresce, como se viu, que as medidas
tomadas no Ocidente para debelar a inflação, que nalguns países chega a
ultrapassar os 10%, são factor suplementar para fazer cair o consumo, o
emprego e a economia. Enquanto isso, a inflação na China mantém-se
abaixo de 1%, o consumo interno cresce, existe uma forte procura de
crédito na economia real e não há necessidade de subir as taxas de juro.
(Global Times, 20 abril)
A manterem-se estas tendências —
somadas à perda de papel do dólar e à consolidação de organizações
alternativas de dimensão mundial, como os BRICS e o Novo Banco de
Desenvolvimento, a Organização de Cooperação de Xangai, a nova Rota da
Seda — parece inevitável que se abra um fosso entre dois blocos rivais,
como temia Georgieva.
Presenciamos as contradições, cada
vez mais extremadas, de um capitalismo senil, incapaz de dar resposta às
exigências de progresso da humanidade. O mundo, concretamente o mundo
ocidental, encontra-se “no atoleiro sem saída de uma depressão
permanente e endémica”. Cada medida tomada para tentar solucionar uma
crise “contém em si o germe de uma crise futura bem mais poderosa”.
Mesmo à distância de quase 140 anos, estas palavras de F. Engels parecem
especialmente dedicadas ao momento que vivemos.
———
Citações de K. Marx e F. Engels: O Capital, livro terceiro, capítulo XXX Capital-dinheiro e capital real
Fred Goldstein, Low-wage capitalism: colossus with feet of clay (World View Forum, 2009)
Réseau International, L’économie mondiale dans l’expectative, Jean-Luc Baslé
Via: "jornalmudardevida.net"