segunda-feira, 1 de janeiro de 2024

As mudanças na situação internacional e a crítica à caracterização da Rússia como país imperialista.

A partir de posições comunistas, tem fundamento a caracterização da Rússia como Estado imperialista e, consequentemente, da guerra actual como guerra inter-imperialista?


 As mudanças na situação internacional e a crítica à caracterização da

Rússia como país imperialista

Angeles Maestro



A luta ideológica, sobretudo em tempos de guerra, é uma necessidade premente.

Para os comunistas, o termo imperialismo não é nem uma categoria moral nem um insulto. É uma definição cuja aplicabilidade a um determinado Estado depende de uma série de critérios muito concretos.

1. Nada de novo na subordinação da social-democracia à NATO e no enfraquecimento da consciência anti-imperialista.

Um dos factos mais marcantes da situação política da esquerda no Estado espanhol é a grande fraqueza das mobilizações das organizações operárias e populares contra a NATO e o imperialismo euro-norte-americano. Este facto é ainda mais gritante quando comparado com as grandes manifestações que tiveram lugar por ocasião do Referendo da NATO em 1986. Apesar da esmagadora campanha de propaganda levada a cabo pelo governo PSOE, quase 40% das pessoas que votaram, votaram NÃO, e a maioria no País Basco, na Catalunha e nas Ilhas Canárias. Isto mostra as mudanças abismais na consciência da classe trabalhadora, que ainda mantém o elevado grau de organização e luta ideológica dos últimos anos da Ditadura. A Transição e as enormes consequências do desaparecimento da URSS ainda não as tinham destruído.

Do mesmo modo, mais recentemente, as manifestações contra a invasão do Iraque - com um forte conteúdo anti-imperialista - trouxeram milhões de pessoas às ruas e estiveram entre as mais maciças do mundo; embora se deva recordar que estas mobilizações também responderam aos objectivos eleitorais do PSOE e da IU, bem oleados pelos meios de comunicação social a eles relacionados.

Actualmente, o longo processo de destruição ideológica, política e organizativa da consciência de classe e anti-imperialista, reflectindo tanto o trabalho realizado pelo PSOE como, sobretudo, por Unidas Podemos, e na enorme fraqueza das organizações revolucionárias, traduz-se numa derrota ideológica que permitiu que o discurso imperialista se expandisse com quase nenhuma resistência.

A tudo isto há que acrescentar a enorme propaganda de guerra levada a cabo por todos os principais meios de comunicação social. A censura dos meios de comunicação russos e o veto a opiniões diferentes foram levados a cabo de forma coordenada por todas as empresas de «comunicação social. Desta forma, responderam com disciplina militar - nunca melhor dito - à Iniciativa de Alerta Precoce TNI1, liderada pela BBC em Londres, que foi criada na sequência da pandemia de Covid. O efeito sobre a consciência anti-imperialista das massas tem sido devastador. A caracterização de Putin como o grande mau da fita e, por extensão, da Rússia como o culpado na guerra contra a Ucrânia e responsável pela grave deterioração das condições de vida da grande maioria da população - apesar da sua ligação directa às sanções impostas à Rússia pelos EUA e, sobretudo, pela UE – contribuem decisivamente para justificar a intervenção da NATO, o envio de armas para a Ucrânia fascista e o aumento sem precedentes dos gastos militares, com muito graves repercussões no aumento do custo de vida e o desmantelamento dos serviços públicos.

Todas estas decisões, incluindo o desaparecimento prático do direito à informação – agravado pela criação do Forum contra a Desinformação 2 no quadro da Estratégia de Segurança Nacional e dirigida pelo General Ballesteros - passaram, sem oposição relevante da esquerda institucional, incluindo as chamadas esquerdas independentistas, também alinhadas no fundamental com um nem-neimismo que na prática neutraliza posições anti-imperialistas.

A este respeito, pode concluir-se que tanto os grandes sindicatos como a esquerda institucional são instrumentos do Estado e não têm uma lógica diferente da dos aparelhos de poder da burguesia.

A posição de outras organizações extraparlamentares - anticapitalistas, anarquistas ou trotskistas - tem também um longo percurso; parte da sua caracterização da URSS como um país imperialista e tem-se concentrado, desde o  seu desaparecimento, na desqualificação dos governos dos diferentes países que sofreram ataques por parte das potências imperialistas.

Estes colectivos vêm mantendo discursos descritos como nem-neims, que equiparam sistematicamente os líderes dos países atacados pela NATO, ou pelas potências imperialistas, com os seguintes slogans: nem Bush, nem Saddam; nem NATO, nem Milosevic; nem NATO, nem Kadhafi, etc. Estas declarações, que estão agora a ser reimpressas com "nem Putin, nem NATO" contribuíram, e continuam a contribuir, para sustentar o discurso oficial e para justificar na prática as agressões imperialistas.

II. A partir de posições comunistas, tem fundamento a caracterização da Rússia como Estado imperialista e, consequentemente, da guerra actual como guerra inter-imperialista?

 2.1 As mudanças na posição política da Rússia.

Nenhuma das atitudes acima referidas é nova. O que aparece pela primeira vez em cena é a análise levada a cabo por organizações revolucionárias comunistas com possível influência em novas organizações que também se afirmam comunistas e que são referências sobretudo na Catalunha e no País Basco.

A partir destas posições, auto-definidas como marxistas-leninistas, o Estado russo é identificado como imperialista. Por outro lado, embora afirmando a defesa do Direito de Autodeterminação das Nações, apenas de forma muito vaga se relaciona este direito democrático básico, central à posição leninista, com a reivindicação concreta dos povos do Donbass, massacrados pela Ucrânia fascista e que parece ser o desencadeador imediato da intervenção militar russa. Do mesmo modo, passa-se ao lado tanto da história da NATO desde a sua criação como instrumento militar e político do imperialismo contra o primeiro Estado operário da história, como do seu decisivo papel na subordinação da UE pelo imperialismo norte-americano após o desaparecimento da URSS.

Após o colapso da URSS em 1991, a NATO comprometeu-se com a Rússia, em troca da dissolução do Pacto de Varsóvia, a não se expandir para Leste. Desde então, 14 países da órbita soviética aderiram à NATO e é evidente que o cerco do país com os maiores recursos naturais do mundo e a sua desconexão da UE,  independentemente do seu carácter capitalista, é um objectivo prioritário do imperialismo dos EUA.

Ao mesmo tempo, e desde o fim da Segunda Guerra Mundial, a aliança da NATO na Europa, primeiro com os remanescentes do nazismo alemão ocupando posições de liderança no exército da RFA e chefes das Forças Aliadas da NATO para a Europa Central,3 e hoje com grupos nazis europeus, especialmente os dos países da órbita soviética - entre os quais se destacam os ucranianos - tornou-se a ponta de lança da penetração imperialista organizando e «executando bem documentados actos terroristas.4

A interpretação materialista dos processos sociais requer análises concretas da realidade concreta e da sua evolução. O processo seguido pelo Estado russo desde o desaparecimento da URSS, e especialmente desde o desaparecimento de Ieltsin, mostra como, embora permanecendo um Estado capitalista, muda as suas alianças internas e de política externa, em função das ameaças "ocidentais".

Os oligarcas russos construíram o seu poder económico sobre as privatizações em larga escala que vieram com o desmantelamento da URSS sob a batuta do imperialismo.

Como disse um técnico norte-americano5 que testemunhou o desmantelamento maciço das estruturas económicas e sociais da União Soviética: "Percebi rapidamente que o plano de privatizações da indústria russa ia ser levado a cabo de um dia para o outro, com custos muito elevados para centenas de milhares de pessoas (...) dezenas de milhares de postos de trabalho iam ser exterminados. Mas, além disso, as fábricas que iam ser encerradas proporcionavam à população escolas, hospitais, cuidados de saúde e pensões desde o berço até ao túmulo.

Relatei tudo isto a Washington e disse-lhes que não ia restar qualquer rede de segurança social. Compreendi claramente que era precisamente disso que se tratava; queriam eliminar todos os possíveis resquícios do Estado para que o Partido Comunista não regressasse”.

As terríveis consequências para a população russa em termos de aumento da mortalidade, suicídios, alcoolismo, analisei-as aqui6, e curiosamente foi a Bielorrússia de Lukashenko que inverteu as privatizações, opondo-se aos mandatos do FMI. Os resultados em termos de mortalidade por tuberculose podem ser vistos aqui:


A chegada de Putin ao poder em 31 de Dezembro de 1999, embora não alterando o carácter capitalista do Estado russo, significa ainda assim um declínio progressivo do poder económico e da influência política dos oligarcas mais estreitamente ligados ao "Ocidente". São os que obtiveram os seus bens com o roubo maciço de empresas públicas e recursos naturais da URSS e actuaram como cabeças-de-ponte para a penetração do imperialismo norte-americano e das alianças políticas  correspondentes.

Valha como exemplo a prisão e expropriação de potentados como Vladimir Gussinsky e Mikhail Khodorovsky. Estes, tal como outros oligarcas russos, construíram os seus empórios durante as maciças privatizações de propriedade pública da URSS na era Ieltsin. O processo, que causou uma sobre-mortalidade estimada em 6 milhões e destruiu a sociedade dos países da ex-URSS, foi liderado principalmente pelo vice-primeiro-ministro de Ieltsin, Anatoli Chubais, ligado ao programa da USAID, administrado pelo director do Harvard Institute for International Development (HIIDD)7.

Vladimir Gussinsky, firme apoiante de Boris Yeltsin, criou ao abrigo da Perestroika o empório dos meios de comunicação social 'Media Most' - proprietário do principal canal privado de televisão - em 1989, juntamente com a empresa de consultoria norte-americana APCO. Em 1994 criou um dos maiores bancos privados da Rússia, o Most Bank, e uma série de empresas de construção. Fundador e presidente do Congresso Nacional Judaico. Preso em Espanha em 2000, por pedido de extradição do Procurador-Geral russo, foi libertado pelo Juiz Garzón.

Vendeu os activos das suas empresas por 300 milhões de dólares. Em 2007 obteve a cidadania espanhola e continuou os seus negócios com os media em outros países, como Israel e Ucrânia 8.

Mikhail Khodorkovsky, também assessor de Ieltsin, foi nomeado Ministro Adjunto dos Combustíveis e Energia da Rússia em Março de 1993. Durante a época das grandes privatizações comprou através do seu banco Menatep a companhia petrolífera estatal Yukos.

Em 2003, Khodorovsky era o homem mais rico da Rússia e 16º na lista da Forbes, com um património líquido de 15 mil milhões de dólares. Foi preso pelo governo de Putin sob acusações de fraude fiscal, desvio de fundos e lavagem de dinheiro. Os activos da empresa foram congelados e transferidos para as empresas estatais russas Rosneft e Gazprom em 2006.9 . Foi considerado prisioneiro de consciência pela Amnistia Internacional. Vive actualmente em Londres.

Estes e muitos outros personagens que exerceram influência favorável aos EUA em meios de comunicação social e organizações políticas, e que foram tratados pelos meios de comunicação social ocidentais como vítimas de censura política por um Estado totalitário que persegue os democratas, são uma boa expressão da viragem política do governo russo após a chegada ao poder de Putin. Muitos outros, como Petr Avn, que trabalha para a Royal Academy em Londres, ou Mikhail Friedan, ligado à Universidade de Yale, têm nacionalidade israelita ou ucraniana, os seus interesses estão ligados aos EUA, e tomaram posição contra a intervenção militar russa na Ucrânia10. 

A política interna e externa da Rússia desde a chegada de Putin ao poder, embora permanecendo capitalista, nada tem a ver com a da Rússia de Ieltsin. Baseia-se na recusa do povo russo em ser transformado numa grande estação de serviço no meio da estepe e irrelevante noutros aspectos, como disse um antigo conselheiro de Obama e economista de Harvard11. Putin chega ao poder quando a Rússia estava a ser desmembrada, humilhada e saqueada pelo imperialismo euro-americano com a colaboração determinada "daqueles que têm a sua mansão em Miami, o seu iate na Riviera francesa e, o que é pior, o seu coração e cabeça também lá", como disse o presidente russo num discurso recente, tratando-os como uma "quinta coluna" do Ocidente12. A estupidez das sanções contra as propriedades destes magnatas, aplicadas pelos EUA e pela UE na esperança de que eles exercessem pressão para mudar as políticas do governo russo, só é comparável às outras sanções contra a sua economia, que estão actuando como um boomerang no Ocidente, enquanto aceleram as mudanças nas alianças estratégicas da Rússia e de outros países.

Ignorar estas mudanças, bem como a viragem nas alianças com a China e os outros países BRICS, com os países de África, Ásia, Médio Oriente e América Latina, que, sem constituírem de forma nenhuma uma aliança anticapitalista, estão a construir um bloco que enfrenta o imperialismo euro-americano, é um grande erro de análise para as organizações comunistas dos países da NATO.


2.2 É a Rússia um país imperialista?

A partir de pontos de vista materialistas, a atribuição do carácter de um Estado como imperialista requer uma análise concreta e fundamentada das suas características, especialmente quando não se trata de um estudo teórico, mas das bases sobre as quais se constrói uma posição política face a uma guerra de grandes dimensões como a actual.

Esta caracterização, realizada, insisto, a partir da afirmação de posições leninistas, não foi contrastada com a análise de Lénine em "Imperialismo, fase superior do capitalismo", na qual se definem claramente os princípios básicos que definem um Estado capitalista como imperialista e que são, sem dúvida, bem conhecidos das organizações marxistas-leninistas.

 

Tais critérios são:
1.- A concentração da produção e do capital e a criação de monopólios.
2.- Os bancos e o seu novo papel

3.- A fusão do capital bancário com o capital industrial e a criação do capital financeiro e da oligarquia financeira.
4.- A destacada importância da exportação de capital.
5.- Grandes monopólios capitalistas internacionais repartem o mundo entre si.

 Lénine, com base nestes princípios, analisou e comparou os dados concretos que permitiram caracterizar como imperialistas as grandes potências da época: Alemanha, França e Grã-Bretanha. Vários autores marxistas, tais como Renfey Clark, Roger Annis13 (2016) e Stansfield Smith (2019), fizeram análises importantes e bem documentadas sobre as características do Estado russo. Pude actualizar boa parte delas; outras precedem a intensificação das sanções contra a Rússia, que certamente não contribuíram para se deteriorar mas, pelo contrário, para melhorar as posições aqui delineadas.

1. As grandes empresas russas entre os maiores monopólios internacionais.

Os números da Forbes para 202214 são os seguintes: das 10 maiores empresas, 5 são dos EUA, 3 da China, 1 da Arábia Saudita e 1 do Japão. Entre as 100 maiores empresas, a Rússia tem apenas 2, a Gazprom e a Rosneft, maioritariamente estatais, em 49º e 81º lugares. E em 2019 tinha 4 em 43º, 47º, 73º e 98º lugares.

As vendas de 2018 das 25 empresas russas incluídas no ranking das 2.000 maiores empresas mundiais, (em 2022 tinham sido reduzidas para 23) representavam apenas 1,45% do total.

2. Produção russa de bens manufacturados.

 Em 2015, a China ocupava o primeiro lugar com 20% da produção mundial e os EUA o segundo com 18%. A Rússia ocupava o 15º lugar, atrás da Índia, Taiwan, México e Brasil, com apenas 1% do total mundial15.

3. As exportações russas, fundamentalmente de matérias-primas.  

Os países imperialistas exportam principalmente bens de alta tecnologia e de alto valor acrescentado, enquanto os países menos desenvolvidos exportam matérias-primas a preços determinados pelas grandes potências no mercado mundial.

Segundo o Banco Mundial, no ranking geral das exportações, a China está em primeiro lugar, seguida pelos EUA. A Rússia está em 17º lugar, e 82% das suas exportações são matérias-primas, enquanto que os produtos tecnológicos, incluindo os militares, representaram apenas 8%16.

4. O papel internacional da banca russa.

 O banco líder da Rússia ocupa o 66º lugar entre os maiores bancos do mundo. Os activos do sector bancário russo representam apenas 75% do PIB, enquanto que nos países mais desenvolvidos normalmente excedem 100% do PIB. Por outro lado, a Rússia é dominada por pequenos bancos, na sua maioria estatais, originários de estruturas soviéticas17.

5. O papel da Rússia na exportação de capitais.

 Uma das características de um país imperialista, segundo Lénine, é a exportação de capital. Na Rússia, a "exportação de capital" assumiu a forma fundamental de fuga de capitais. Desde que Putin acedeu ao poder em 1999, a saída de capital russo está estimada em mais de mil milhões de dólares até 201818. O Banco Central da Rússia calculou que a saída de capital russo é superior a um trilião de dólares. O Banco Central da Rússia estimou que a fuga de capitais em 2018 ascendeu a 66 milhares de milhões de dólares19.

Por outro lado, no ranking das 100 maiores empresas não financeiras, classificadas pelos seus activos no estrangeiro - um elemento-chave para avaliar a exportação de capital financeiro - figuram 20 empresas dos EUA, 14 da Grã-Bretanha, 12 da França, 11 da Alemanha, 11 do Japão, 5 da Suíça, e 5 da China20. Nenhuma delas é russa.

Em termos de quotas de países na riqueza financeira e não financeira mundial, os EUA têm 31%; do resto, apenas a China tem mais de 10%, ou seja, 16,4%; a Rússia é responsável por um magro 0,7%.

A partir destes dados, a única conclusão possível é que na exportação de capital com fins produtivos, a Rússia não desempenha um papel de liderança na cena mundial e é impossível qualificá-la como um país imperialista.

6. O papel da Rússia na "divisão do mundo entre as grandes potências"

Este último aspecto, quando se trata de definir as características imperialistas de um Estado, pode ser analisado de três pontos de vista: os orçamentos militares, a exportação de armas e as bases militares no estrangeiro. 

É apenas no campo militar que a Rússia manifesta o seu poder, embora isoladamente este aspecto seja insuficiente, segundo Lenine, para a tipificar como um Estado imperialista. A este respeito, é de salientar que o poder militar da Rússia capitalista, sobretudo em termos de desenvolvimento de armas, e principalmente em termos de armamento nuclear, provém da era soviética e são empresas públicas.

É de notar a este respeito que tanto durante o tempo da URSS - quando foi forçada a envolver-se numa enorme corrida aos armamentos - como posteriormente, a Rússia tem sido constantemente ameaçada pelo imperialismo e pela NATO. 

No entanto, embora a Rússia seja um dos principais exportadores mundiais de armas, as exportações de armas da Rússia são menos de metade das dos EUA. 

Enquanto as exportações de armas dos EUA aumentaram 25% entre 2013 e 2017, as exportações de armas da Rússia caíram 7,1% no mesmo período21.

Em termos de bases militares no estrangeiro, a Rússia tem 15, e apenas duas fora dos países da ex-URSS, Vietname e Síria. Os EUA têm mais de 800 bases no estrangeiro.

Quanto ao orçamento militar, os números oficiais dos EUA para 2023 colocam o valor em 860 mil milhões de dólares. Este montante sobe para mais de um milhar de milhões de dólares, se somarmos o de todos os países da NATO. O orçamento militar russo para 2022 foi de 61,7 mil milhões de dólares, menos de 10% do dos EUA e pouco mais de 5% do de todos os países da NATO.

A análise do Estado russo, nos termos propostos por Lénine, coloca-o muito atrás de outras grandes potências capitalistas e não é de todo comparável à posição da URSS antes do seu colapso.

A Rússia é agora um país capitalista de terceiro ou quarto nível, com a única excepção da sua capacidade militar, em grande parte herdada da era soviética e agora reforçada pela evidência de um ataque da NATO, que há anos vinha sendo preparado.

3) Podem as intervenções militares russas em outros países ser definidas como imperialistas?

Síria.

 Em 2011, a Resolução de 1973 do Conselho de Segurança da ONU deu luz verde à destruição da Líbia. Na altura tanto a China como a Rússia, países que detinham o direito de veto, abstiveram-se. A coligação militar inicial da Bélgica, Canadá, Qatar, Dinamarca, Espanha, EUA,França, Itália, Noruega e Reino Unido alargou-se a 16 países. Nem a Rússia nem a China fizeram parte desta coligação.

Posteriormente, a posição destes dois últimos países mudou radicalmente. Quando os Estados da NATO tentaram aplicar a mesma receita na Síria, a China e a Rússia utilizaram o seu direito de veto.

Em 2015 o governo sírio, na sequência do ataque pouco velado dos EUA, França e Grã-Bretanha e do seu apoio às facções mais brutais do ISIS, solicitou formalmente a assistência militar da Rússia. O parlamento russo apoiou unanimemente esta intervenção através das forças aéreas na base militar russa em Tartus, no país árabe. Apesar das vitórias militares da Síria, apoiada pela Rússia, sobre o Estado islâmico e as suas potências patrocinadoras, os EUA continuam a ocupar um terço da Síria e a roubar o seu petróleo.

No Médio Oriente, após a vitória militar do Hezbollah sobre Israel em 2006, começou a formar-se um bloco de alianças, o Eixo da Resistência, que, sob abordagens exclusivamente políticas, se define por objectivos anti-imperialistas e anti-sionistas e em defesa da soberania dos seus povos. Este Eixo, que continua a desenvolver-se, inclui o Hezbollah e outras forças nacionalistas libanesas, a resistência palestiniana, a Síria, o Iémen, o Irão e o Iraque. 

Pode o apoio militar da Rússia à Síria ser qualificado como intervenção imperialista? Claramente que não.

África.

 Desde as chamadas "Primaveras Árabes", a destruição da Líbia e as tentativas de devastar a Síria, a fórmula utilizada pelas potências coloniais em diferentes países africanos tem sido a mesma: provocar ataques terroristas por organizações ligadas ao Estado islâmico, desestabilizar os seus governos e reforçar a sua presença militar para "ajudar" os seus fracos Estados.

Desde há pouco mais de dois anos, um número crescente de países africanos decidiu pôr fim a esta espiral neocolonial. Mali, Burkina Faso, a República Democrática do Congo e a República Centro-Africana, entre outros, solicitaram ajuda militar à Rússia e estão a forçar as forças militares das potências coloniais, França, Reino Unido e EUA, a abandonar os seus países.

Sem negar, evidentemente, que as empresas russas ou chinesas têm interesse em aceder às matérias-primas africanas, é evidente que a presença militar da Rússia e as relações comerciais que a Rússia e a China estão a estabelecer em África nada têm a ver com a pilhagem selvagem dos seus recursos, com os golpes de Estado e os assassinatos de dirigentes africanos levados a cabo constantemente desde a sua "independência" pelas potências coloniais.

O apoio militar da Rússia a estes países, formalmente solicitado pelos seus governos e acolhido pelos seus povos, pode ser qualificado como intervenção imperialista? A partir da análise concreta da situação nestes países, e até ver, claramente que não. 

O Eixo Multipolar.

Sem entrar no que a aliança BRICS, a Rota da Seda, a Organização de Cooperação de Xangai ou outras estruturas implicam, uma coisa é óbvia: são todos países não socialistas, confrontando-se com a hegemonia política e militar do imperialismo norte-americano.

As mudanças geopolíticas que as novas alianças estão a provocar no Médio Oriente, com a incorporação do Irão, da Turquia ou da Arábia Saudita neste Eixo, com o isolamento e decomposição em curso do Estado sionista, ou com as mudanças em curso no continente africano, estão a provocar um isolamento sem precedentes dos EUA e da UE.

É também evidente que muitos destes países estão sujeitos a sanções ou bloqueios,intervenções militares mais ou menos encobertas e tentativas de desestabilização por parte do imperialismo euro-americano, quando não se submetem aos seus ditames. Estes países decidiram procurar alianças económicas e comerciais, incluindo a aquisição de armamento, no chamado Eixo Multipolar para lhes permitir resistir aos ataques do imperialismo "ocidental".

Este novo multipolarismo, baseado não em mudanças políticas e muito menos ideológicas, mas na soberania e independência dos seus Estados face ao imperialismo, não permite fazer conjecturas sobre a sua possível intervenção em apoio de revoluções socialistas em qualquer parte do mundo. Mas é evidente que a sua relativa libertação da bota imperialista estabelece novas correlações de forças a uma escala internacional que nenhum comunista deveria ignorar.

Em todos estes países, incluindo naturalmente a Rússia e a China, a luta de classes continua e continuará. O papel das organizações comunistas não deve ser outro senão o de apoiar as lutas da classe operária nestes países e possíveis revoluções que, se forem legítimas e não "revoluções coloridas" promovidas pela NATO, terão também uma identidade claramente anti-imperialista. E ao mesmo tempo, especialmente a partir de Estados membros da NATO como os nossos, é necessário apreciar o facto transcendental de que o domínio predatório do imperialismo euro-americano e sionista está, pela primeira vez em muito tempo, a encontrar limites reais à escala internacional.

4. A Ucrânia e o fascismo.

 As análises em trabalhos anteriores permitem-nos identificar a intervenção militar da Rússia na Ucrânia contra a NATO como uma necessidade existencial e inescapável para a Rússia. Para além do facto de a estratégia imperial anglo-saxónica, durante mais de um século22, ter identificado o desmembramento da Rússia e a sua desconexão do resto da Europa como uma condição para o seu domínio planetário, há vários acontecimentos históricos recentes que mostram os passos dados nesta direcção contra a URSS e contra a Rússia após o seu colapso:

A criação da NATO em 1949, seis anos antes da formação e implementação do Pacto de Varsóvia após a adesão da RFA, em violação dos Acordos de Ialta.

A violação dos acordos de 1991 segundo os quais, em troca da dissolução do Pacto de Varsóvia, a NATO não se expandiria para Leste. É bem conhecido que, desde então, 14 novos países do Pacto de Varsóvia aderiram à NATO.

A aliança dos EUA e da NATO, desde o final da Segunda Guerra Mundial, com organizações fascistas herdadas directamente da rede nazi. A Rede Stay Behind, como é bem conhecida, operou e continua a operar, através de acções terroristas, tanto em países da Europa Ocidental como da Europa Oriental.

O cerco militar da NATO à Rússia ao longo de todas as suas fronteiras, incluindo com laboratórios de armas biológicas.

O não cumprimento dos acordos de Minsk que, como sabemos, se destinavam a ganhar tempo para a NATO armar a Ucrânia.

Deixo para o fim a menção ao golpe de Estado fascista de 2014 na Ucrânia, liderado pela NATO, EUA e UE, o massacre da casa dos sindicatos em Odessa e o massacre perpetrado desde então contra os povos das Repúblicas Populares de Donetsk e Lugansk, no qual foram mortos 14.000 civis, segundo dados da própria ONU.

Tendo em conta todos estes factos, a intervenção da Rússia no Donbass, a pedido dos seus autoproclamados governos independentes, no exercício do seu direito à autodeterminação, não pode ser descrita com um mínimo de rigor histórico como uma "guerra inter-imperialista".

A análise da longa aliança entre a NATO e o fascismo, que pode ser consultada aqui23, e o seu reforço com o apoio inegável da branqueamento do fascismo levado sistematicamente a cabo pelos governos da UE através do seu apoio aos nazis ucranianos, é um elemento chave para desvendar os mecanismos tanto do ataque imperialista no exterior como no interior dos nossos países.

5. Conclusões

A análise concreta da realidade da Rússia capitalista, que, como creio ter demonstrado, torna impossível defini-la como um país imperialista, e sobretudo a participação do Estado espanhol na NATO, o resultado devastador para os povos da UE das sanções contra a Rússia e a escalada militarista e repressiva que, ensaiada durante a pandemia, prepara os seus mecanismos mais agressivos na projectada Lei de Segurança Nacional, exigem que as organizações comunistas adoptem posições anti-imperialistas claras. E estas posições não podem ignorar, e muito menos negar, o direito destes países a defenderem, também militarmente, a sua independência e soberania.

A avaliação da realidade da luta de classes em cada um dos países do mundo não pode ser feita à margem da compreensão do papel histórico concreto desempenhado pelo imperialismo euro-norte-americano e das novas alianças que estão a ser forjadas contra ele, que, sem serem socialistas, estão a enfrentar a sua hegemonia.

 A nossa classe e os nossos povos necessitam de análises precisas que lhes permitam realizar as suas tarefas históricas em tempos como o actual, e ainda mais em tempos de guerra, quando as suas consequências na classe trabalhadora e nas classes populares começam a provocar mobilizações em grande escala como a que está a ter lugar em França24, mas também na Grã-Bretanha, Alemanha, República Checa e outros países da UE, e que sem dúvida se irão intensificar.

Quando entre organizações comunistas se partilham posições na luta de classes e se utilizam métodos de análise que dizem beber das mesmas fontes teóricas, é necessário abrir caminhos de acordo, ou pelo menos vias de diálogo, que nos permitam cumprir com as tarefas históricas que a nossa classe nos exige.

Porque, precisamente agora, precisamos de toda a nossa inteligência, de todo o nosso entusiasmo e de toda a nossa força para estar à altura dos objectivos que nos propusemos.

NOTAS

1 https://www.bbc.com/mediacentre/2020/trusted-news-initiative-vaccine-disinformation

2 https://www.europapress.es/nacional/noticia-bolanos-crea-foro-contra-desinformacion-dirigira-di
rector-seguridad-nacional-20220615131830.html 

3 ://cnc2022.wordpress.com/2023/03/07/el-imperialismo-anglosajon-la-otan-y-el-fascismo-ca
ras-de-la-misma-moneda/

4: Ganser, Daniele. (2005) Los ejécitos secretos de la OTAN

5:https://research.upjohn.org/cgi/viewcontent.cgi?article=1179 context=up_workingpapers

6: Microsoft Word – Crisis capitalista guerra social sobre el cuerpo de la clase obrera Serpa[1][1].doc (rebelion.org)

7: https://en.wikipedia.org/wiki/Loans_for_shares_scherme  

8: https://en.wikipedia.org/wiki/Vladimir_Gusinsky

9: https://es.wikipedia.org/wiki/Yukos

10: https://www.vozpopuli.com/altavoz/cultura/cambio-cultural-rusia-de-putin.html12 https://www.bbc.com/mundo/noticias-internacional-60774949

11: https://www.businessinsider.es/economia-rusa-gran-gasolinera-economista-harvard-1016505

12: https://www.bbc.com/mundo/noticias-internacional-60774949

13: https://links.org.au/myth-russian-imperialism-defence-lenins-analyses 

14: https://www.forbes.com/lists/global2000/?sh=afff0e85ac04

15: https://portalalba.org/temas/socialismo/marxismo/es-rusia-un-pais-imperialista/

 16 16 Ibid.17 https://links.org.au/myth-russian-impieriialism-defence-lenins-analyses

17: https://links.org.au/myth-russian-imperialism-defence-lenins-analyses

18: https://portalalba.org/temas/socialismo/marxismo/es-rusia-un-pais-imperialista/

19: https://mronline.org/2019/01/02/is-russia-imperialist

20: https://topforeignstocks.com/2018/11/19/the-worlds-top-100-non-financial-mnes-based-on-foreig n-assets-2017/

21: https://mronline.org/2019/01/02/is-russia-imperialist/

22: Maestro, A.(2016) https://archivo.kaosenlared.net/las-contradicciones-entre-el-imperialismo-estadounidens e-y-el-europeo-controlar-el-pivote-del-mundo/index.html

23: https://frenteantiimperialista.org/el-imperialismo-anglosajon-la-otan-y-el-fascismo-caras-de-la-misma-moneda-angeles-maestro/

 

Fonte: https://diario-octubre.com/2023/04/10/angeles-maestro-los-cambios-en-la-situacion-internacional-y-la-critica-de-la-caracterizacion-de-rusia-como-pais-imperialista/





 

1 comentário:

  1. Devemos todos nós analisar esta posição politica , que me parece interessante, e por vezes óbvia

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