quinta-feira, 13 de dezembro de 2018

Se há e houve “avanços” e “aspectos positivos” bem como recuperação económica, tais foram para a burguesia capitalista.



Apesar de a sua mão estar presente e dar acordo prévio ao novo OGE, a EU não deixa de constantemente ingerir contra a devolução de parte do assalto capitalista que foi feito pelo governo PSD/CDS, (com o acordo do PS e da UGT, diga-se), e de exigir novos cortes no que resta dos direitos laborais e a implementação de novas reformas estruturais que mais não visam do que a destruição dos direitos sociais conquistados no após Abril 1974.

O mesmo acontece com o PSD e CDS que concordando no essencial com a estratégia macro económica no novo OGE, utilizam de forma demagógica o campo de manobra que previamente lhes foi concedido pelas decisões politicas do BE e do PCP de votar favoravelmente o novo OE, para votarem contra e exigir um OGE mais subserviente em relação às exigências da UE e ainda mais amigo dos interesses capitalistas e ao mesmo tempo procurar retirar dividendos eleitorais e poder responsabilizar as tímidas “devoluções” previstas, pelas consequências económicas e sociais que a nova crise económica capitalista, que já anunciam, possa vir a trazer .

O novo OGE vai para lá da convergência que as regras imperialistas da EU impõem, a subserviência do governo consegue ir mais longe na redução do défice publico do que aquilo que lhe é exigido.

A convergência de interesses com os grupos financeiros, a banca, as PPPs e outros apoios à burguesia continuam na ordem dos vários milhares de milhões de euros.

Converge com a estratégia militar imperialista norte-americana, elevando a participação financeira na NATO, em mais 330 milhões, passando para 2.728 milhões de euros, estando previsto que até 2024 segundo o acordo realizado em Bruxelas  esta participação sob para 2% do PIB, o que ultrapassará a módica quantia de 4.ooo milhões de euros por ano.

Como “o carro não pode andar sem travões”: Ou seja se o crescimento económico abrandar mais que o previsto a convergência com o investimento público sofrerá novas cativações, particularmente aqueles que tenham a ver com o melhoramento dos serviços públicos, tais como a saúde, a educação e transportes, na medida que em primeiro lugar e mais importante para o governo estão as outras convergências que representam os interesses da NATO e da EU

O “rigor económico” no novo OGE, será mais do mesmo, manter os salários baixos e os direitos laborais e sociais no mínimo possível para garantir a competitividade às empresas capitalistas e poder atrair capitais internacionais.

Os “avanços” e “aspectos positivos” do novo OGE:

A “devolução” de parte do confisco capitalista levado a cabo pelo anterior governo PSD/CDS , pelo actual governo capitalista PS não é um “avanço“, como afirmam os social liberais que à esquerda do PS, colaboram e apoiam o governo, o muito que se poderá dizer é que se trata de uma tímida  recuperação de rendimentos, que o governo tem tido o cuidado, por via dos vários ajustamentos de impostos indirectos recuperado e a manter quase tudo na mesma praticamente como se tem verificado, 50% da população vive abaixo dos 550 euros, 25% desta vive com  rendimentos a roçar ou mesmo abaixo do que a burguesia e seus governos de serviço consideram o limite de pobreza. O mesmo se vai manter com o novo OGE. 

O aumento do salário mínimo nacional e as reformas mínimas têm um aumento miserável e continua com a forte desvalorização , que ao longo dos anos , foi praticada pelos efeitos da inflação, pelos congelamentos e desvalorização da antiga moeda (o escudo)
.
Baixa-se o IVA para as touradas e continua-se a PUNIR as famílias pobres, com a manutenção do IVA a 23%  na electricidade, que conjuntamente com as outras taxas que configuram na factura, eleva a totalidade dos impostos para perto de 50%

Para compensar a redução do preço das propinas, e a “gratuitidade” dos manuais escolares, está previsto a cativação de 19 milhões de euros referentes às bolsas de mérito.

Portanto, se há ou houve “avanços” e “aspectos positivos” bem como recuperação económica, no qual o BE e o P”C”P fazem questão de se rever e em  reclamar a sua cota parte, tais foram para a burguesia capitalista na medida em que para manter a sua competitividade e com isso obter altos lucros, sujeitam os trabalhadores a baixos e miseráveis salários, perdas de direitos laborais e altas cargas de exploração.

A exemplo do movimento laboral que em França obriga o governo a recuar na sua ofensiva capitalista e a repor rendimentos, é necessário organizar a luta a partir dos locais de trabalho e de habitação e ir muito mais longe, na medida em que estas “devoluções” e pequeníssimas cedências não só ficam muito aquém da nossa necessidade, como é apenas parte do rendimento auferido de que há muitos anos a esta parte o capitalismo e a burguesia nos vêm roubando.


sexta-feira, 30 de novembro de 2018

A Atitude dos Socialistas em Relação às Guerras. Por Vladimir Lenin


O Socialismo e a Guerra (A atitude do POSDR em relação à guerra). 

 V. I. Lénine

O Socialismo e a Guerra (A atitude do POSDR em relação à guerra)

V. I. Lénine

Os Princípios do Socialismo e a Guerra de 1914-1915 (excertos)

A Atitude dos Socialistas em Relação às Guerras

Os socialistas sempre condenaram as guerras entre os povos como coisa bárbara e brutal. Mas a nossa atitude em relação à guerra é fundamentalmente diferente da dos pacifistas (partidários e pregadores da paz) burgueses e dos anarquistas. Distinguimo-nos dos primeiros pelo facto de compreendermos a ligação inevitável das guerras com a luta de classes no interior do país, de compreendermos a impossibilidade de suprimir as guerras sem a supressão das classes e a edificação do socialismo, e também pelo facto de reconhecermos inteiramente o carácter legítimo, progressista e necessário das guerras civis, isto é, das guerras da classe oprimida contra a classe opressora, dos escravos contra os escravistas, dos camponeses servos contra os senhores feudais, dos operários assalariados contra a burguesia. Nós, marxistas, distinguimo-nos tanto dos pacifistas como dos anarquistas pelo facto de reconhecermos a necessidade de estudar historicamente (do ponto de vista do materialismo dialéctico de Marx) cada guerra em particular. Na história houve repetidamente guerras que, apesar de todos os horrores, atrocidades, calamidades e sofrimentos inevitavelmente ligados a qualquer guerra, foram progressistas, isto é, foram úteis ao desenvolvimento da humanidade, ajudando a destruir instituições particularmente nocivas e reaccionárias (por exemplo a autocracia ou a servidão), os despotismos mais bárbaros da Europa (o turco e o russo). Por isso é necessário analisar as particularidades históricas da guerra actual.

A Guerra Actual é uma Guerra Imperialista

Quase todos reconhecem que a actual guerra é uma guerra imperialista, mas na maior parte dos casos deturpam este conceito ou aplicam-no unilateralmente, ou insinuam em todo o caso a possibilidade de que esta guerra tenha um significado progressista burguês, nacional-libertador. O imperialismo é o grau superior de desenvolvimento do capitalismo, atingido apenas no século XX. O capitalismo passou a sentir-se, apertado nos velhos Estados nacionais, sem cuja formação ele não teria podido derrubar o feudalismo. O capitalismo desenvolveu de tal modo a concentração que ramos inteiros da indústria foram açambarcados pelos consórcios, trusts e associações de capitalistas milionários, e quase todo o globo terrestre está dividido entre esses «senhores do capital», sob a forma de colónias ou enredando países estrangeiros com os milhares de fios da exploração financeira. O comércio livre e a concorrência foram substituídos pela tendência para o monopólio, para a conquista de terras para o investimento do capital, para a extracção de matérias-primas, etc. De libertador de nações que o capitalismo foi na luta contra o feudalismo, o capitalismo imperialista tornou-se o maior opressor das nações. De progressista o capitalismo tornou-se reaccionário, desenvolveu as forças produtivas a tal ponto que a humanidade terá ou de passar ao socialismo ou de sofrer durante anos ou mesmo decénios a luta armada das «grandes» potências pela manutenção artificial do capitalismo por meio das colónias, dos monopólios, dos privilégios e de opressões nacionais de toda a espécie.
(...)
«A Guerra é a continuação da Política por outros meios (a saber: pela violência)»

Esta célebre sentença pertence a Clausewitz um dos autores mais profundos sobre as questões militares. Os marxistas sempre consideraram justamente esta tese como base teórica das concepções sobre o significado de cada guerra determinada. Marx e Engels sempre encararam as diferentes guerras precisamente deste ponto de vista.

Apliquemos esta concepção à presente guerra. Veremos que durante decénios, durante quase meio século, os governos e as classes dominantes da Inglaterra, da França, da Alemanha, da Itália, da Áustria e da Rússia praticaram uma política de pilhagem das colónias, de opressão de nações estrangeiras, de repressão do movimento operário. É precisamente essa política, e apenas essa, que é continuada na actual guerra. Em particular, na Áustria e na Rússia a política tanto do tempo de paz como do tempo de guerra consiste na escravização das nações e não na sua libertação. Pelo contrário, na China, na Pérsia, na Índia e noutros países dependentes vemos ao longo dos últimos decénios uma política de despertar para a vida nacional de dezenas e centenas de milhões de pessoas, da sua libertação da opressão das «grandes» potências reaccionárias. A guerra nesse terreno histórico pode ser ainda hoje uma guerra progressista burguesa, uma guerra de libertação nacional.

Basta considerar a presente guerra do ponto de vista da continuação nela da política das «grandes» potências e das classes fundamentais no seio delas para ver imediatamente o carácter clamorosamente anti-histórico, mentiroso e hipócrita da opinião segundo a qual seria possível justificar a ideia de «defesa da pátria» na actual guerra.
(….)

O Social-Chauvinismo é o oportunismo acabado

Durante toda a época da II Internacional decorreu por toda a parte uma luta no interior dos partidos sociais-democratas entre a ala revolucionária e a ala oportunista. Em vários países houve cisão segundo esta linha (Inglaterra, Itália, Holanda, Bulgária). Nenhum marxista duvidava de que o oportunismo expressava a política burguesa no movimento operário, expressava os interesses da pequena burguesia e da aliança de uma ínfima parte de operários aburguesados com a «sua» burguesia contra os interesses da massa dos proletários, da massa dos oprimidos.

As condições objectivas de fins do século XIX reforçavam particularmente o oportunismo, transformando a utilização da legalidade burguesa em servilismo para com ela, criando a pequena camada da burocracia e da aristocracia da classe operária, atraindo para as fileiras dos partidos sociais-democratas muitos «companheiros de jornada» pequeno-burgueses.

A guerra acelerou o desenvolvimento, transformando o oportunismo em social-chauvinismo, transformando a aliança secreta dos oportunistas com a burguesia numa aliança aberta. Além disso, as autoridades militares decretaram por toda a parte a lei marcial e a mordaça para a massa operária, cujos velhos chefes se passaram, quase sem excepção, para a burguesia.

A base económica do oportunismo e do social-chauvinismo é a mesma: os interesses de uma ínfima camada de operários privilegiados e da pequena burguesia, que defendem a sua situação privilegiada, o seu «direito» às migalhas dos lucros obtidos pela «sua» burguesia nacional com a pilhagem de outras nações, com as vantagens da sua situação de grande potência, etc.

O conteúdo ideológico-político do oportunismo e do social-chauvinismo é o mesmo: a colaboração de classes em vez da sua luta, a renúncia aos meios revolucionários de luta, a ajuda ao «seu» governo em situação difícil em vez da utilização das suas dificuldades para a revolução. Se considerarmos todos os países europeus no conjunto, se não tivermos em atenção personalidades isoladas (mesmo as de maior prestígio), verificaremos que foi precisamente a corrente oportunista que se tornou o principal esteio do social-chauvinismo, e no campo dos revolucionários se ouve quase por toda a parte um protesto mais ou menos consequente contra ele. E se considerarmos, por exemplo, o agrupamento das tendências no congresso socialista internacional de Estugarda de 1907, verificaremos que o marxismo internacional era contra o imperialismo, enquanto o oportunismo internacional já então era a favor dele.

A Unidade com os oportunistas é a aliança dos operários com a «sua» burguesia nacional e a cisão da classe operária revolucionária internacional

Na época passada, antes da guerra, o oportunismo era frequentemente considerado um «desvio», um «extremismo», mas em todo o caso uma parte constitutiva legítima do partido social-democrata. A guerra mostrou que isso é impossível no futuro. O oportunismo «amadureceu», levou até ao fim o seu papel de emissário da burguesia no movimento operário. A unidade com os oportunistas tornou-se uma hipocrisia completa, de que vemos um exemplo no partido social-democrata alemão. Em todos os casos importantes (por exemplo na votação de 4 de Agosto) os oportunistas aparecem com o seu ultimato, pondo-o em prática com a ajuda das suas numerosas ligações com a burguesia, da sua maioria nas direcções dos sindicatos, etc. A unidade com os oportunistas significa presentemente de facto a subordinação da classe operária à «sua» burguesia nacional, a aliança com ela para oprimir outras nações e lutar pelos privilégios de grande potência, sendo uma cisão do proletariado revolucionário de todos os países.

Por mais dura que seja em certos casos a luta contra os oportunistas que dominam em muitas organizações, por mais peculiar que seja em certos países o processo de depuração dos partidos operários dos oportunistas, esse processo é inevitável e fecundo. O socialismo reformista agoniza; o socialismo que renasce «será revolucionário, intransigente, insurrecto», segundo a justa expressão do socialista francês Paul Golay (N167).
(….)

Sobre a derrota do «seu» governo na guerra imperialista

Os defensores da vitória do seu governo na presente guerra, tal como os defensores da palavra de ordem «nem vitória nem derrota», adoptam do mesmo modo o ponto de vista do social-chauvinismo. Numa guerra reaccionária, a classe revolucionária não pode deixar de desejar a derrota do seu governo, não pode deixar de ver a ligação entre os fracassos militares deste e a facilitação do seu derrubamento. Só o burguês, que acredita que uma guerra iniciada pelos governos terminará necessariamente como uma guerra entre governos, e que o deseja, acha «ridícula» ou «absurda» a ideia de que os socialistas de todos os países beligerantes afirmem que desejam a derrota de todos os «seus» governos. Pelo contrário, essa afirmação corresponderia precisamente aos pensamentos secretos de qualquer operário consciente e inscrever-se-ia na linha da nossa actividade, orientada para a transformação da guerra imperialista em guerra civil.

Sem dúvida que a importante agitação contra a guerra de uma parte dos socialistas ingleses, alemães e russos «enfraquecia o poderio militar» dos respectivos governos, mas essa agitação foi um mérito dos socialistas. Os socialistas devem explicar às massas que para elas não há salvação a não ser no derrubamento revolucionário dos «seus» governos e que as dificuldades desses governos na guerra actual devem ser utilizadas precisamente com esse objectivo.


sexta-feira, 16 de novembro de 2018

Viva a justa luta dos estivadores, pela conquista dos seus direitos: Abaixo a exploração capitalista !

 A Chispa apoia e apela a todos os trabalhadores a prestar a sua solidariedade e a ter como exemplo, pela sua coragem, a justa luta dos estivadores, diversas vezes demonstrada pela defesa e conquista dos seus direitos.

"Sindicato dos estivadores diz que porto de Setúbal está parado porque 90% dos trabalhadores são precários.

O presidente do Sindicato dos Estivadores do Centro e Sul, António Mariano, disse hoje que 90% dos trabalhadores do Porto de Setúbal são precários e por isso “está tudo parado” à espera que terminem as “manobras de intimidação”.

Sindicato dos estivadores diz que porto de Setúbal está parado porque 90% dos trabalhadores são precários
Segundo António Mariano, as empresas que contratam estes trabalhadores – cerca de 150 de acordo com os dados do sindicato – estão a tentar fazer contratos com alguns trabalhadores, que são “ilegais em tempo de greve” e cujos termos são desconhecidos.


“Sabemos que um ou dois trabalhadores assinaram, mas nem ficaram com uma cópia do contrato”, denunciou.

Os trabalhadores exigem assim o retomar das negociações com os sindicatos para um acordo coletivo de trabalho que garanta os direitos destes trabalhadores precários que chegam a trabalhar 30 e 40 turnos por mês.

“Os trabalhadores estão fartos, muitos estão nesta situação há mais de 20 anos. Estão a ser alvo de manobras de intimidação e coação e decidiram parar totalmente desde dia 05 [de novembro]. Está tudo parado em Setúbal”, indica o sindicalista, depois do jornal Público ter avançado na sua edição de hoje que “não há movimento de contentores no Porto de Setúbal, nem operações no terminal usado pela construtora automóvel Autoeuropa para expedir veículos para o mercado de destino”.

A par desta paralisação dos precários decorre um greve ao trabalho suplementar, decretada pelos estivadores do SEAL, até 01 de janeiro de 2019 em defesa da liberdade de filiação sindical.

A greve em, causa abrange os portos de Lisboa, Setúbal, Sines, Figueira da Foz, Leixões, Caniçal (Madeira), Ponta Delgada e Praia da Vitória (Açores)."


sábado, 10 de novembro de 2018

Tarefas Urgentes do Nosso Movimento!: V. I. Lenine

V. I. Lenine

Novembro de 1900

A social-democracia russa já declarou, em diversas ocasiões, que a tarefa política mais imediata do partido operário russo deve ser o derrubamento da autocracia, a conquista da liberdade política. Declararam isto, há mais de 15 anos, os representantes da social-democracia russa, os membros do Grupo Emancipação do Trabalho; declararam-no também, há dois anos e meio, os representantes das organizações social-democratas russas que, na Primavera de 1898, constituíram o Partido Operário Social-Democrata da Rússia. Apesar dessas reiteradas declarações, o problema das tarefas políticas da social-democracia na Rússia torna a surgir nos dias que correm. Numerosos representantes do nosso movimento manifestam as suas dúvidas quanto ao acerto da mencionada solução do problema. Dizem que a luta económica tem uma importância predominante, relegam para plano secundário as tarefas políticas do proletariado, menosprezam e restringem estas tarefas e afirmam, inclusive, que as longas exposições sobre a constituição de um partido operário independente na Rússia são simples decalques de palavras ditas por outros, e que os operários devem sustentar exclusivamente a luta económica, deixando a política para os intelectuais aliados com os liberais. Esta última declaração do novo símbolo da fé (o tristemente famoso Credo(1)) significa simplesmente considerar-se o proletariado russo de menoridade e negar-se, por completo, o programa social-democrata. Na realidade, Rabotchaia Mysl (sobretudo no Suplemento) manifestou-se no mesmo sentido. A social-democracia russa atravessa um período de vacilações e de dúvidas que a fazem mesmo negar-se a si própria. Por um lado, o movimento operário está desligado do socialismo: ajudam-se os operários a impulsionar a luta económica, mas de forma alguma se lhes explicam, ao mesmo tempo, ou explicam-se-lhes insuficientemente, os fins socialistas e as tarefas políticas de todo o movimento no seu conjunto. Por outro lado, o socialismo está desvinculado do movimento operário: os socialistas russos começam novamente a dizer, cada vez mais, que a luta contra o governo deve ser sustentada apenas pelos intelectuais, pois os operários limitam-se à luta económica.

No nossa opinião, são três as circunstâncias que preparam o terreno para estes lamentáveis fenómenos. Em primeiro lugar, no início da sua actividade, os social-democratas russos limitaram-se ao simples trabalho de propaganda nos círculos. Ao passar-se à agitação entre as massas, nem sempre pudemos evitar cair no outro extremo. Em segundo lugar, na fase inicial da nossa actuação tivemos que defender constantemente o direito à existência, em luta contra os partidários de «A Vontade do Povo»(2), que concebiam a «política» como uma actividade divorciada do movimento operário e a reduziam a uma simples conspiração. Ao repelir essa «política», os social-democratas caíram no outro extremo, relegando para segundo plano a política em geral. Em terceiro lugar, ao actuarem dispersos em pequenos círculos operários locais, os social-democratas não deram a devida atenção à necessidade de organizar um partido revolucionário que coordenasse toda a actividade dos grupos locais e permitisse estruturar com acerto o trabalho revolucionário. O predomínio de uma actividade dispersa caminha unido espontaneamente ao predomínio da luta económica.

Todas estas circunstâncias deram lugar à propensão para um só aspecto do movimento. A corrente «economista» (na medida em que aqui se pode falar de «corrente») deu origem aos planos de se erigir esta estreita concepção numa teoria particular, aos planos de utilizar para este fim o bernsteinianismo(3) em voga, à «crítica do marxismo» na moda, que preconizava as velhas ideias burguesas sob uma nova roupagem. Estes propósitos originaram o perigo de se enfraquecerem os vínculos entre o movimento operário russo e a social-democracia russa, como combatente de vanguarda pela liberdade política. Daí a tarefa mais urgente do nosso movimento consistir em reforçar estes vínculos.

A social-democracia é a união do movimento operário com o socialismo. A sua missão não se baseia em servir passivamente o movimento operário em cada uma das suas fases, mas em representar os interesses de todo o movimento no seu conjunto, indicar o objectivo final deste movimento, as suas tarefas políticas, e salvaguardar a sua independência política e ideológica. Desligado da social-democracia, o movimento operário restringe-se e transforma-se forçosamente num movimento burguês: ao promover exclusivamente a luta económica, a classe operária perde a independência política, converte-se num apêndice de outros partidos e trai o grande preceito: «A emancipação da classe operária deve ser a obra da própria classe operária»(4). Em todos os países houve um período em que o movimento operário e o socialismo existiram isoladamente, seguindo caminhos distintos, e em todos os países esta separação debilitou o socialismo e o movimento operário; em todos os países, só a união do socialismo com o movimento operário criou uma sólida base tanto para um como para o outro. Em cada país, porém, esta união do socialismo com o movimento operário foi obtida durante todo um processo histórico, seguindo um caminho particular, de acordo com as condições de lugar e tempo. Na Rússia, a necessidade da união do socialismo com o movimento operário foi afirmada, há muito, no terreno teórico, mas, na prática, esta união só nos nossos dias se vai tornando efectiva. Este processo é muito difícil, e nada há de estranho que seja acompanhado de diferentes vacilações e dúvidas.

Que ensinamentos tiramos do passado? A história de todo o socialismo russo indica que a tarefa mais urgente é a luta contra o governo autocrático, a conquista da liberdade política; o nosso movimento socialista concentrou-se, por assim dizer, na luta contra a autocracia. Por outro lado, a história mostra que na Rússia a separação entre o pensamento socialista e os representantes avançados das classes trabalhadoras é muito maior do que noutros países e que, se continuar esta separação, o movimento revolucionário russo está condenado à impotência. Daí se deduz logicamente o dever que a social-democracia russa é chamada a cumprir; levar as ideias socialistas e a consciência política à massa do proletariado e organizar um partido revolucionário ligado indissoluvelmente ao movimento operário espontâneo. Neste sentido, muito já foi feito pela social-democracia russa; mas, o que ainda está por fazer é muito mais. À medida que o movimento cresce, amplia-se o campo da actividade da social-democracia, o trabalho é cada vez mais diverso e aumenta o número de militantes do movimento que concentram as energias na realização de diferentes tarefas parciais determinadas pelas necessidades diárias da propaganda e da agitação. Este fenómeno é perfeitamente natural e inevitável, exige, porém, uma extraordinária atenção para que as tarefas parciais e as diferentes formas de luta não se convertam em algo que se baste a si mesmo e o trabalho preparatório não adquira foros de trabalho principal e único.

A nossa primeira e fundamental missão consiste em promover o desenvolvimento político e a organização política da classe operária. Quem relega esta incumbência para segundo plano e a ela não subordina todas as tarefas parciais e as diferentes formas de luta, toma um caminho errado e inflige grave dano ao movimento. Desprezam esta missão, em primeiro lugar, aqueles que induzem os revolucionários a lutar contra o governo com as forças dos círculos de conspiradores, desligados do movimento operário. Desprezam esta missão, em segundo lugar, aqueles que restringem o conteúdo e o alcance da propaganda, agitação e organização políticas; aqueles que consideram possível e oportuno convidar os operários a intervir na «política» só em momentos excepcionais da sua vida, apenas em casos graves; aqueles que sentem excessiva ânsia de substituir a luta política contra a autocracia pela simples reclamação a esta de certas concessões e se preocupam muito pouco em que a reivindicação de concessões se transforme na luta sistemática e ininterrupta do partido operário revolucionário contra a autocracia.

«Organizai-vos!», repete aos operários nos mais diversos tons Rabotchaia Mysl, e com ele todos os partidários da corrente «economista». Como é natural, solidarizamo-nos inteiramente com este apelo, mas acrescentando: organizai-vos não só em sociedades de ajuda mútua, em caixas de resistência e em círculos operários, mas também num partido político, para a luta decidida contra o governo autocrático e contra toda a sociedade capitalista. Sem esta organização, o proletariado não é capaz de se elevar ao nível de uma luta consciente de classe; sem esta organização, o movimento operário está condenado à impotência; exclusivamente com as caixas de resistência, os círculos e as sociedades de ajuda mútua, a classe operária não conseguirá jamais cumprir a grande missão histórica que lhe está reservada; emancipar-se a si mesma e emancipar todo o povo russo da sua escravidão política e económica. Nenhuma classe conseguiu instaurar o seu domínio na história, sem criar os seus próprios chefes políticos, os seus representantes de vanguarda, capazes de organizar e dirigir o movimento. A classe operária russa já demonstrou, também, que é capaz de criar tais homens: a luta dos operários russos, que alcançou grande desenvolvimento nos últimos cinco ou seis anos, mostra que a classe operária possui um grande potencial de forças revolucionárias e que as perseguições do governo, por ferozes que sejam, não diminuem, mas, pelo contrário, aumentam o número de operários que se inclinam para o socialismo, para a consciência política e para a luta política. O congresso dos nossos camaradas, em 1898, expôs acertadamente a tarefa, e não repetiu palavras alheias nem expressou uma simples tendência de «intelectuais»... E devemos empreender com decisão o cumprimento destas tarefas, colocando na ordem do dia o problema do programa, da organização e da táctica do Partido. Já dissemos como concebemos os pontos fundamentais do nosso programa, mas, naturalmente, este não é o lugar para desenvolver em detalhe esses pontos. Temos o propósito de dedicar às questões de organização uma série de artigos nos próximos números. Este é um dos nossos problemas mais urgentes. Neste sentido, ficamos muito atrás dos velhos militantes do movimento revolucionário russo; é preciso reconhecer abertamente esta falha e dedicar as nossas forças a uma organização mais conspirativa do trabalho, a uma propaganda sistemática das suas normas e dos métodos para desorientar os polícias e não cair nas suas malhas. É necessário preparar homens que não dediquem à revolução as tardes livres, mas toda a sua vida; preparar uma organização tão numerosa, que possa aplicar uma rigorosa divisão do trabalho nos diferentes aspectos da nossa actividade. Finalmente, no que toca às questões tácticas limitar-nos-emos ao seguinte: a social-democracia não ata as suas próprias mãos, não limita as actividades a um plano qualquer, previamente preparado, ou a um único método de luta política, mas, ao contrário, admite como bons todos os métodos de luta, contanto que correspondam às forças do Partido e permitam alcançar os melhores resultados possíveis em determinadas condições. Se existe uma forte organização do Partido, cada greve pode converter-se numa demonstração política, numa vitória política sobre o governo. Se existe uma forte organização do Partido, a insurreição numa localidade isolada pode transformar-se em revolução triunfante. Devemos ter presente que a luta reivindicativa contra o governo e a conquista de certas concessões não são mais do que pequenas escaramuças com o adversário, ligeiras refregas nas frente de luta, e que a batalha decisiva está por vir. Temos pela frente a fortaleza inimiga, bem armada, de onde se lança sobre nós uma chuva de metralha que abate os melhores lutadores. Devemos tomar essa fortaleza, e tomá-la-emos se unirmos, em um só partido, todas as forças do proletariado que desperta às forças dos revolucionários russos, para o que se inclinam todos os elementos activos e honestos da Rússia. Só então se verá cumprida a grande profecia do operário revolucionário Piotre Alexeiev:

«Levantar-se-ão os braços vigorosos de milhões de operários, e o jugo do despotismo, protegido pelas baionetas dos soldados, saltará em pedaços!»


(1) Credo: com este título foi publicado em «1899 um documento no qual se expunham as teses fundamentais do «economismo», corrente oportunista que surgiu nos fins do século passado entre uma parte dos sociais-democratas russos. Os «economistas» consideravam que a luta política contra o czarismo devia ser tarefa principalmente da burguesia liberal e que os operários deviam limitar-se à luta económica pelo melhoramento das condições de trabalho, à elevação de salários, etc. Os «economistas» opunham-se à criação de um partido político operário independente e negavam a importância da teoria revolucionária no movimento operário. No seu livro Que Fazer?, publicado em 1902, e em outros trabalhos, V. I. Lenine demonstrou a total inconsistência e o carácter pernicioso das opiniões dos «economistas».

(2) A Vontade do Povo: organização secreta fundada em 1879. Na luta contra o czarismo, os adeptos de A Vontade do Povo recorriam ao terror individual e organizaram diversos atentados contra dignatários czaristas. A 1 de Março de 1881 assassinaram o czar Alexandre II. Os membros de A Vontade do Povo acreditavam erroneamente que um pequeno grupo de revolucionários, sem se apoiar no movimento revolucionário de massas, podia conquistar o poder e acabar com a autocracia. A Vontade do Povo deixou de existir na segunda metade da década de 80.

(3) Bernsteinianismo: corrente oportunista do movimento socialista alemão e internacional, fundada pelo social-democrata alemão Bernstein. A sua exigência era a revisão e supressão das teses fundamentais do marxismo revolucionário sobre a revolução socialista e a ditadura do proletariado. Em essência, o bernsteinianismo propunha à social-democracia renunciar à luta pelo socialismo e esforçar-se por conseguir apenas a realização de algumas reformas nos quadros da sociedade capitalista.

(4) Lenine cita a tese fundamental dos Estatutos Gerais da Associação Internacional dos Trabalhadores, escritos por K. Marx. Ver K. IMarx e F. Engels, Obras Escolhidas, em dois tomos, t. I, pág. 355, ed. em espanhol.

terça-feira, 30 de outubro de 2018

A propósito da vaga de terror fascista que de novo avança, e a importância da opinião de Clara Zetkin sobre a ascensão e a forma como combater o "Fascismo"

Zetkin: "Fascismo"
25/10/2018

No fascismo, o proletariado é confrontado por um inimigo extraordinariamente perigoso. O fascismo é a expressão concentrada da ofensiva geral empreendida pela burguesia mundial contra o proletariado. Sua derrubada é, portanto, uma necessidade absoluta, ou melhor, é mesmo uma questão da existência cotidiana... Por estes motivos, todo o proletariado deve concentrar-se na luta contra o fascismo. Será muito mais fácil derrotar o fascismo se estudarmos clara e distintamente sua natureza. Até aqui tem havido ideias extremamente vagas sobre esse assunto, não apenas entre as grandes massas de trabalhadores, mas também no interior da vanguarda revolucionária do proletariado e dos comunistas. Até agora, o fascismo foi colocado em um nível com o Terror Branco de Horthy na Hungria. Embora os métodos de ambos sejam semelhantes, em essência eles são diferentes. O Terror Horthy foi estabelecido depois que a vitoriosa, embora de curta duração, revolução do proletariado havia sido suprimida, e era a expressão da vingança da burguesia. Os líderes do Terror Branco eram um grupo muito pequeno de ex-oficiais. O fascismo, ao contrário, visto objectivamente, não é a vingança da burguesia em retaliação à agressão proletária contra a burguesia, mas é uma punição do proletariado por não conseguir levar adiante a revolução iniciada na Rússia. Os líderes fascistas não são uma casta pequena e exclusiva; eles se estendem profundamente em amplos elementos da população.

Temos que superar o fascismo não apenas militarmente, mas também política e ideologicamente. Os reformistas até hoje consideram o fascismo como nada mais que uma violência nua, a reação contra a violência iniciada pelo proletariado. Para os reformistas, a Revolução Russa equivale à Mãe Eva mordendo a maçã no Jardim do Éden. Os reformistas rastreiam o fascismo de volta à Revolução Russa e suas consequências. Nada além disto foi afirmado por Otto Bauer no Congresso da Unidade em Hamburgo, quando declarou que uma grande parte da culpa pelo fascismo recai sobre os comunistas, que enfraqueceram a força do proletariado por divisões contínuas. Ao dizer isso, ele ignorou inteiramente o facto de que os [Social-Democratas] Independentes alemães haviam se separado muito antes que este “exemplo desmoralizante” fosse dado pela Revolução Russa.

Ao contrário de seus próprios pontos de vista, Bauer, em Hamburgo, teve de concluir que a violência organizada do fascismo deve ser enfrentada pela formação de organizações de defesa do proletariado, porque nenhum apelo à democracia pode recorrer contra a violência direta. De qualquer forma, ele prosseguiu explicando que não se referia a armas como insurreição ou greve geral, que nem sempre levavam ao sucesso. O que ele quis dizer foi a coordenação da ação parlamentar com ação de massa. Qual seria a natureza dessas ações que Otto Bauer não disse, mas esse é o ponto exato da questão. A única arma recomendada por Bauer para a luta contra o fascismo foi o estabelecimento de um Bureau Internacional de Informações sobre a reação mundial.

A característica distintiva dessa nova e antiga [2ª] Internacional é sua fé no poder e permanência da dominação burguesa, e sua desconfiança e covardia em relação ao proletariado como o fator mais forte da revolução mundial. Eles são da opinião de que, contra a força invulnerável da burguesia, o proletariado não pode fazer nada além de agir com moderação e abster-se de provocar o tigre da burguesia. O fascismo, com todo ímpeto na execução de seus atos violentos, não é mais do que a expressão da desintegração e decadência da economia capitalista e o sintoma da dissolução do Estado burguês. Esta é uma das suas raízes. Os sintomas dessa decadência do capitalismo foram observados mesmo antes da guerra.

A guerra abalou a economia capitalista até a sua fundação, resultando não apenas no empobrecimento colossal do proletariado, mas também na miséria profunda da pequena burguesia, do pequeno campesinato e dos intelectuais. Havia sido prometido a todos esses elementos que a guerra traria uma melhoria de suas condições materiais. Mas o oposto aconteceu. Um grande número de ex-classes médias tornaram-se proletárias, perdendo inteiramente sua segurança econômica. Essas fileiras foram integradas por grandes massas de ex-oficiais, que agora estão desempregados. Foi entre esses elementos que o fascismo recrutou um contingente considerável. O seu modo de composição é também a razão pela qual o fascismo em alguns países é de caráter francamente monarquista.

A segunda raiz do fascismo está no retardamento da revolução mundial pela atitude traiçoeira dos líderes reformistas. Grande parte da pequena burguesia, incluindo até as classes médias, havia descartado sua psicologia dos tempos da guerra em nome de uma certa simpatia pelo socialismo reformista, esperando que este provocasse uma reforma social por vias democráticas. Eles ficaram desapontados em suas esperanças. Eles podem agora ver que os líderes reformistas estão em acordo benevolente com a burguesia, e o pior de tudo é que essas massas perderam a fé não apenas nos líderes reformistas, mas no socialismo como um todo. Essas massas de simpatizantes socialistas decepcionados são acompanhadas por grandes círculos do proletariado, de trabalhadores que desistiram de sua fé não apenas no socialismo, mas também em sua própria classe. O fascismo se tornou uma espécie de refúgio para os politicamente sem abrigo. Para ser justo, deve-se dizer que os comunistas também – excepto os russos – levam parte da culpa pela deserção desses elementos para as fileiras fascistas, porque nossas acções, por vezes, não conseguiram agitar as massas profundamente o suficiente. O objectivo óbvio dos fascistas, ao ganhar apoio entre os vários elementos da sociedade, seria, naturalmente, tentar superar o antagonismo de classe nas próprias fileiras de seus adeptos, e o chamado Estado autoritário deveria servir como um meio para esse fim. O fascismo agora abrange elementos que podem se tornar muito perigosos para a ordem burguesa. No entanto, até agora esses elementos foram invariavelmente superados pelos elementos reacionários.

A burguesia tinha visto claramente a situação desde o início. A burguesia quer reconstruir a economia capitalista. Nas atuais circunstâncias, a reconstrução da dominação de classe burguesa só pode ser conseguida às custas da crescente exploração do proletariado pela burguesia. A burguesia tem plena consciência de que os socialistas reformistas de fala mansa estão rapidamente perdendo seu controle sobre o proletariado, e que não haverá nada para a burguesia, mas recorrer à violência contra o proletariado. Mas os meios de violência dos Estados burgueses estão começando a falhar. Eles precisam, portanto, de uma nova organização de violência, e isso é oferecido a eles pelo confuso conglomerado do fascismo. Por essa razão, a burguesia oferece toda as forças sob seu comando a serviço do fascismo.

O fascismo tem características diversas em diferentes países. No entanto, tem duas características distintivas em todos os países, a saber, a pretensão de um programa revolucionário, que é habilmente adaptado aos interesses e demandas das grandes massas, e, por outro lado, a aplicação da violência mais brutal.

O exemplo clássico é o fascismo italiano. O capital industrial na Itália não era forte o suficiente para reconstruir a economia arruinada. Não se esperava que o Estado interviesse para aumentar o poder e as possibilidades materiais da capital industrial do norte da Itália. O Estado estava dando toda a sua atenção ao capital agrário e ao pequeno capital financeiro. As indústrias pesadas, que haviam sido artificialmente impulsionadas durante a guerra, entraram em colapso quando a guerra acabou, e uma onda de desemprego sem precedentes se instalou. As promessas feitas aos soldados não puderam ser resgatadas. Todas essas circunstâncias criaram uma situação extremamente revolucionária. Esta situação revolucionária resultou, no verão de 1920, na ocupação das fábricas. Naquela ocasião ficou demonstrado que as maduras condições revolucionárias faziam sua primeira aparição apenas para uma pequena minoria do proletariado. A ocupação das fábricas estava, portanto, fadada a terminar em uma tremenda derrota, em vez de se tornar o ponto de partida para o desenvolvimento revolucionário. Os líderes reformistas dos sindicatos agiram como traidores ignominiosos, mas ao mesmo tempo foi demonstrado que o proletariado não possuía nem a vontade nem o poder de marchar em direcção à revolução.

Não obstante a influência reformista, havia forças em acção entre o proletariado que poderiam se tornar inconvenientes para a burguesia. As eleições municipais, nas quais os social-democratas conquistaram um terço de todos os conselhos, foram um sinal de alarme para a burguesia, que imediatamente começou a procurar uma força que pudesse combater o proletariado revolucionário. Foi nessa época que Mussolini ganhou alguma importância com o fascismo. Após a derrota do proletariado na ocupação das fábricas, o número de fascistas era superior a mil, e grandes massas do proletariado juntaram-se à organização Mussolini. Por outro lado, grandes massas do proletariado haviam caído em um estado de indiferença. A causa do primeiro sucesso do fascismo foi que ele começou com um gesto revolucionário. Seu pretenso objectivo era lutar para manter as conquistas revolucionárias da guerra revolucionária e, por isso, exigiam um Estado forte, capaz de proteger esses frutos revolucionários da vitória contra os interesses hostis das várias classes sociais representadas pelo “antigo Estado”. Suas palavras de ordem eram dirigidas contra todos os exploradores e, portanto, também contra a burguesia. O fascismo naquela época era tão radical que até exigiu a execução de Giolitti e o destronamento da dinastia italiana. Mas Giolitti absteve-se cuidadosamente de usar a violência contra o fascismo, que lhe parecia ser o mal menor. Para satisfazer esses clamores fascistas, ele dissolveu o Parlamento. Naquela época, Mussolini ainda fingia ser um republicano, e em uma entrevista, ele declarou que a facção fascista não poderia participar na abertura do parlamento italiano por causa da cerimónia monárquica que o acompanhava. Essas declarações provocaram uma crise no Movimento Fascista, que havia sido estabelecido como um partido por uma fusão dos seguidores de Mussolini e dos representantes da organização monarquista, e a [direcção] executiva do novo partido era formada por um número par de membros de ambos as facções. O Partido Fascista criou uma arma de dois gumes para a corrupção e a aterrorização da classe trabalhadora. Para a corrupção da classe trabalhadora foram criados os sindicatos fascistas, as chamadas corporações nas quais trabalhadores e empregadores estavam unidos. Para aterrorizar a classe trabalhadora, o Partido Fascista criou os esquadrões militantes que surgiram das expedições punitivas.

Aqui deve ser enfatizado novamente que a tremenda traição dos reformistas italianos durante a greve geral, que foi a causa da terrível derrota do proletariado italiano, havia dado um incentivo directo aos fascistas para capturar o Estado. Por outro lado, os erros do Partido Comunista consistiam em considerar o fascismo apenas como um movimento militarista e terrorista sem qualquer base social profunda.

Vamos agora examinar o que o fascismo fez desde a conquista do poder para o cumprimento de seu programa revolucionário pretendido, para a realização de sua promessa de criar um Estado sem classes. O fascismo ergueu a promessa de uma nova e melhor lei eleitoral e de igual sufrágio para as mulheres. A nova lei do sufrágio de Mussolini é, na realidade, a pior restrição da lei do sufrágio em favor do Movimento Fascista. De acordo com essa lei, dois terços de todos os assentos devem ser entregues ao partido mais forte, e todos os outros partidos juntos devem ter apenas um terço das cadeiras. O sufrágio feminino foi quase totalmente eliminado. O direito de voto é dado apenas a um pequeno grupo de mulheres proprietárias e às chamadas “viúvas dos generais”. Não há mais nenhuma menção à promessa de um parlamento económico e da Assembleia Nacional, nem da abolição do Senado, prometida tão solenemente pelos fascistas.

O mesmo pode ser dito sobre as promessas feitas na esfera social. Os fascistas haviam inscrito em seu programa a jornada de oito horas, mas o projecto de lei apresentado por eles fornece tantas excepções que não deve haver uma só pessoa que trabalhe oito horas na Itália. Nada veio também da prometida garantia dos salários. A destruição dos sindicatos permitiu aos empregadores efectuar reduções salariais de 20% a 30% e, em alguns casos, de 50% a 60%. O fascismo prometera a previdência para a velhice e a invalidez. Na prática, o governo fascista, em nome da economia, cortou  50.000.000 de liras que haviam sido reservadas para esse fim no orçamento. Aos trabalhadores foi prometido o direito de participação técnica na administração das fábricas. Hoje existe uma lei na Itália que proíbe completamente os conselhos de fábrica. As empresas estatais estão passando para as mãos do capital privado. O programa fascista continha uma provisão para um imposto de renda progressivo sobre o capital, que era, até certo ponto, agir como uma forma de expropriação. Na verdade, o oposto foi feito. Vários impostos sobre o luxo foram abolidos, como o imposto sobre automóveis, pela pretensa razão de que restringiria a produção nacional. Os impostos indirectos foram aumentados porque isso reduziria o consumo doméstico e, assim, melhoraria as possibilidades de exportação. O governo fascista também revogou a lei para o registro compulsório de transferências de títulos, reintroduzindo assim o sistema de títulos ao portador e abrindo a porta para o sonegador de impostos. As escolas foram entregues ao clero. Antes de capturar o Estado, Mussolini exigiu uma comissão para investigar os lucros da guerra, dos quais 85% deviam ser restituídos ao Estado. Quando esta comissão se tornou incomoda para seus patrocinadores financeiros, os industriais pesados, ele ordenou que a comissão só apresentasse um relatório a ele, e quem publicasse qualquer coisa que acontecesse naquela comissão seria punido com seis meses de prisão.

Também em questões militares, o fascismo não cumpriu suas promessas. Foi prometido que a actuação do exército seria restringida à defesa territorial. Na realidade, o período de serviço militar permanente foi aumentada de oito para dezoito meses, o que significou o aumento das forças armadas de 250.000 para 350.000. As Guardas Reais foram abolidas porque eram democráticas demais para se adequarem a Mussolini! Por outro lado, os carabineiros foram aumentados de 65.000 para 90.000 e todas as tropas policiais foram duplicadas. As organizações fascistas foram transformadas em uma espécie de milícia nacional, que pelas últimas contas já atingiu o número de 500.000. Mas as diferenças sociais introduziram um elemento de contraste político na milícia, que deve levar ao colapso final do fascismo.

Quando comparamos o programa fascista com o seu cumprimento, podemos antever hoje o completo colapso ideológico do fascismo na Itália. A bancarrota política deve inevitavelmente se seguir à falência ideológica. O fascismo é incapaz de manter juntas as forças que o ajudaram a entrar no poder. Um choque de interesses em muitas formas já está se fazendo sentir. O fascismo ainda não conseguiu tornar a antiga burocracia subserviente a ela. No exército também há atrito entre os velhos oficiais e os novos líderes fascistas. As diferenças entre os vários partidos políticos estão crescendo. A resistência contra o fascismo está aumentando em todo o país. O antagonismo de classes começa a permear até mesmo as fileiras dos fascistas. Os fascistas não conseguem cumprir as promessas que fizeram aos trabalhadores e aos sindicatos fascistas. Reduções salariais e demissões de trabalhadores estão na ordem do dia. Assim acontece que o primeiro protesto contra o movimento sindical fascista veio das fileiras dos próprios fascistas. Os trabalhadores logo voltarão ao seu interesse de classe e dever de classe. Não devemos encarar o fascismo como uma força unificada capaz de repelir nosso ataque. É antes uma formação, que compreende muitos elementos antagônicos, e será desintegrada de dentro. Mas seria perigoso supor que a desintegração ideológica e política do fascismo na Itália seria seguida imediatamente pela desintegração militar. Pelo contrário, devemos estar preparados para o fascismo se esforçar para se manter vivo por métodos terroristas. Portanto, os revolucionários trabalhadores italianos devem estar preparados para as mais sérias lutas. Seria uma grande calamidade se estivéssemos satisfeitos com o papel dos espectadores desse processo de desintegração. É nosso dever acelerar este processo com todos os meios à nossa disposição. Este não é apenas o dever do proletariado italiano, mas também o dever do proletariado alemão em face do fascismo alemão.

Depois da Itália, o fascismo é mais forte na Alemanha. Como consequência do resultado da guerra e do fracasso da revolução, a economia capitalista da Alemanha é fraca, e em nenhum outro país o contraste entre a maturidade objectiva para a revolução e o despreparo subjectivo da classe trabalhadora é tão grande quanto agora mesmo na Alemanha. Em nenhum outro país os reformistas falharam tão ignominiosamente como na Alemanha. O seu fracasso é mais criminoso do que o fracasso de qualquer outro partido na velha Internacional, porque são eles que deveriam ter conduzido a luta pela emancipação do proletariado por meios absolutamente diferentes especialmente no país onde as organizações da classe trabalhadora eram melhor organizadas e mais antigas do que em qualquer outro lugar.

Estou firmemente convencida de que nem os Tratados de Paz nem a ocupação do Ruhr deram tanto impulso ao fascismo na Alemanha quanto a tomada do poder por Mussolini. Isso encorajou os fascistas alemães. O colapso do fascismo na Itália desencorajaria grandemente os fascistas na Alemanha. Não devemos esquecer uma coisa: o pré-requisito para a derrubada do fascismo no exterior é a derrubada do fascismo em todos os países pelo proletariado desses países. Cabe a nós superar o fascismo ideológica e politicamente. Isso nos impõe enormes tarefas.

Devemos perceber que o fascismo é um movimento dos desapontados e daqueles cuja existência está arruinada. Portanto, devemos nos esforçar para conquistar ou neutralizar aquelas massas que ainda estão no campo fascista. Desejo enfatizar a importância de percebermos que devemos lutar ideologicamente pelos corações e mentes dessas massas. Devemos perceber que eles não estão apenas tentando escapar de suas tribulações atuais, mas que estão ansiando por uma nova filosofia. Devemos sair dos limites estreitos de nossa actividade actual. A Terceira Internacional é, em contraste com a antiga [2ª] Internacional, uma Internacional de todas as raças sem quaisquer distinções. Os partidos comunistas não devem ser apenas a vanguarda dos proletários do trabalho manual, mas também os enérgicos defensores dos interesses dos trabalhadores do cérebro. Devemos liderar todos os sectores da sociedade que sejam levados a se opor à dominação burguesa por causa de seus interesses e suas expectativas de futuro. Alegro-me, portanto, com a proposta do camarada Zinoviev (falando em uma sessão do Comitê Executivo Ampliado da Internacional Comunista em junho deste ano) de assumir a luta pelo governo dos trabalhadores e camponeses. Eu estava muito me alegrei quando li sobre isso. Esta nova palavra de ordem tem um grande significado para todos os países. Não podemos dispensá-lo na luta pela derrubada do fascismo. Significa que a salvação das grandes massas do pequeno campesinato será alcançada através do comunismo. Não devemos nos limitar a continuar lutando pelo nosso programa político e econômico. Devemos, ao mesmo tempo, familiarizar as massas com os ideais do comunismo como filosofia. Se fizermos isso, mostraremos o caminho para uma nova filosofia a todos aqueles elementos que perderam o rumo durante o desenvolvimento histórico dos últimos tempos. O pré-requisito necessário para isso é que, ao nos aproximarmos dessas massas, também nos tornemos organizacionalmente, como Partido, uma unidade firmemente soldada. Se não for assim, corremos o risco de cair em direção ao oportunismo e à falência. Devemos adaptar nossos métodos de trabalho às novas tarefas. Precisamos falar às massas em uma linguagem que elas possam entender, sem prejudicar nossas ideias. Assim, a luta contra o fascismo traz uma série de novas tarefas.

Cabe a todos os partidos realizar esta tarefa energicamente e em conformidade com a situação em seus respectivos países. No entanto, devemos ter em mente que não é suficiente superar o fascismo ideológica e politicamente. A posição do proletariado em relação ao fascismo é, atualmente, de autodefesa. Esta autodefesa do proletariado deve assumir a forma de uma luta pela sua existência e organização.

O proletariado deve ter um aparato bem organizado de autodefesa. Sempre que o fascismo usa a violência, deve ser enfrentado com a violência proletária. Não me refiro a esses atos terroristas individuais, mas à violência da luta de classes revolucionária organizada do proletariado. A Alemanha deu um primeiro passo com a criação de “centúrias” de fábricas. Essa luta só pode ser bem-sucedida se houver uma frente proletária unida. Os trabalhadores devem se unir para essa luta, independentemente de a qual partido pertençam. A autodefesa do proletariado é um dos maiores incentivos para o estabelecimento da frente única proletária. Somente instilando a consciência de classe na alma de todo trabalhador conseguiremos preparar também a derrubada militar do fascismo, que, no atual estágio, é absolutamente necessária. Se obtivermos sucesso nisso, podemos ter a certeza de que em breve chegará a hora do sistema capitalista e do poder burguês, independentemente de qualquer êxito da ofensiva geral da burguesia contra o proletariado. Os sinais de desintegração, tão palpáveis diante de nossos olhos, nos dão a convicção de que o gigante proletário voltará a participar da luta revolucionária, e que seu grito ao mundo burguês será: eu sou a força, eu sou a vontade, em mim você vê o futuro!

Artigo de Clara Zetkin publicado no Labour Monthly, de agosto de 1923