quinta-feira, 23 de maio de 2019

"Sobre o capitalismo pré-industrial e a acumulação primitiva de capital"

Ainda que os Marxistas deem crédito ao capitalismo por ter sido um avanço econômico em comparação com o feudalismo, expõem ao mesmo tempo as brutais desumanidades através das quais este acumulou primeiramente seu capital. A acumulação primitiva do capital é explicada em O Capital, mas seu foco é o capitalismo industrial, quando a produção de mercadoria se torna dominante na sociedade.

A semente do capitalismo cresceu em meio à crise da sociedade feudal. Com uma economia predominantemente natural, dependente sobretudo da terra, a produção de mercadorias desenvolveu-se gradualmente por um longo período.

Antes de a produção de mercadorias, sob a forma do capitalismo industrial, ter se tornado o modo de produção dominante no século XIX, atravessou duas etapas: a etapa artesanal; e a etapa manufatureira, que durou por centenas de anos na Europa.

As corporações de ofício eram as unidades básicas de produção nas cidades que emergiram durante as Idades Médias. Sob a direção do mestre de ofício numa pequena unidade produtiva, cada um dos artesãos fabricava por si só o produto completo com instrumentos manuais que eles próprios possuíam.

Foi no final das Idades Médias, particularmente na Itália do século XIII, que a manufatura pré-industrial começou a desenvolver-se. A base era ainda artesanal, mas as manufaturas trouxeram um nível maior de produtividade através da divisão do trabalho. No dia a dia, grupos de operários cumpriam apenas partes limitadas de todo o processo. A produção era mais rápida e maior que aquela que havia sob as corporações.

À medida que se desenvolviam as manufaturas, as corporações de ofício eram dissolvidas. Os artesãos perdiam seus instrumentos e eram compelidos a trabalharem nas linhas de produção do sistema fabril.

A manufatura amadureceu e começou a se tornar capitalismo industrial no final do século XVIII. A indústria capitalista moderna foi impulsionada por invenções como o tear mecânico e a máquina a vapor.

As etapas artesanal e manufatureira podem ser colocadas conjuntamente como o período da acumulação primitiva do capital. As origens históricas da classe capitalista industrial e da classe operária remontam a este período. O capitalista manufatureiro despojou o artesão de suas ferramentas e acumulou capital por meio das formas mais desumanas de exploração.

O período da acumulação primitiva de capital não significou simplesmente a adoção de meios mais eficientes de organização produtiva. Há toda uma expansão da exploração desumana perpetrada pelo manufatureiro e o comerciante.

No sistema fabril, homens, mulheres e crianças eram obrigados a trabalhar de 16 a 18 horas por dia, e até mesmo 20 horas em casos extremos. Até a primeira metade do século XIX, as horas de trabalho eram prolongadas. Os salários eram tão baixos que até mesmo crianças de menos de dez anos de idade tinham de trabalhar. Os ambientes de trabalho eram insalubres a ponto de os operários poderem ser facilmente mortos ou feridos pelas máquinas. Castigos físicos eram impostos sobre os operários, que viviam em alojamentos semelhantes a chiqueiros.

O crescimento da manufatura pré-industrial levou ao movimento dos cercamentos. Camponeses foram expulsos das terras que eram transformadas em pasto para as ovelhas (para a produção de lã como principal produto) e a produção especializada de lavouras comerciais (algodão, beterraba, batata, etc.). À medida que os camponeses eram expulsos das terras, tinham de competir pelos empregos disponíveis nas manufaturas. Havia sempre muitos para poucos empregos, depreciando assim as condições salariais. O pauperismo e o banditismo disseminaram-se no século XVI. Imensas rebeliões camponesas também ocorreram no século XVII.

A classe manufatureira e a monarquia feudal cooperaram na condução da política mercantilista. O manufatureiro tinha interesses na consolidação do mercado nacional contra os concorrentes de outros países, e também se colocava contra os barões feudais que cobravam taxas pelas passagens das mercadorias pelas estradas e rios. O interesse do manufatureiro coincidia com os interesses do rei na consolidação de seu poder e no apoio financeiro por parte dos manufatureiros e comerciantes às guerras.

O mercantilismo foi também o principal motivo econômico das expedições coloniais do século XVI. Num primeiro momento, o objeto de interesse das colônias era o ouro, especiarias e outros produtos exóticos. 

Posteriormente, as metrópoles decidiram produzir lavouras comerciais nessas colônias para seu próprio benefício.

Não apenas os povos nativos foram forçados a cultivar lavouras comerciais como tabaco, cana de açúcar, algodão, pimenta e demais, mas também dado que no sul e no norte da América havia escassez de índios nativos para trabalhar sob o chicote, escravos tiveram de ser trazidos à força da África pelas potências coloniais. 

Incidentalmente, até mesmo isso foi uma desculpa para catequizar os negros. Os jesuítas portugueses enriqueceram muito com o comércio de escravos, principalmente após terem causado a morte de milhares de indígenas no Brasil, ao colocarem-nos em campos de concentração.

1981-1982

Escrito por José M. Sison

quarta-feira, 22 de maio de 2019

95 Anos de "Sobre os Fundamentos do Leninismo" de Stalin

95 Anos de "Sobre os Fundamentos do Leninismo" de Stalin

Em maio de 1924, na então União Soviética, era editada uma coletânea de conferências pronunciadas pelo dirigente bolchevique J. V. Stalin (em abril do mesmo ano) na Universidade Sverdlov de Moscou. Esta coletânea recebeu o título de Fundamentos do Leninismo e se tornaria um dos mais importantes documentos teóricos do marxismo-leninismo.

Claro e objetivo, fiel ao estilo de Stalin, o livro traz a denúncia contra o oportunismo e já aponta para o perigo do trotskismo que ganhava corpo dentro do Partido Comunista (bolchevique) da União Soviética naqueles anos tumultuados após uma cruel Guerra Civil imposta à nova República dos Sovietes (1919 a 1921) e a morte prematura do grande líder Vladimir Lênin (1924). É, também, uma obra atual justamente por realizar esse combate e alertar às fileiras comunistas do perigo das ideias nocivas do trotskismo e da socialdemocracia à ideologia do proletariado. Assim como Lênin fez na época da II Internacional (que se transformaria num braço da burguesia), Stálin dá continuação à vigilância revolucionária contra o perigo do revisionismo e da traição às lutas do proletariado e critica os dogmas dos reformistas socialdemocratas e seus preconceitos contra o proletariado. Este ano de 1924 é bem peculiar, devido às lutas dentro do Partido e as tentativas dos grupos trotskistas, zinovievistas e bukharinistas liquidarem o PC (b) US e destruírem o Estado Operário.

Stalin destaca, nestas conferências, a importância de Lênin e define o leninismo como “o marxismo na época do imperialismo e da revolução proletária”, a teoria e a “tática da revolução proletária em geral e a tática da ditadura do proletariado em particular”, mostrando as contradições existentes no imperialismo e analisando de forma direta o conceito de ditadura do proletariado (uma nova maneira de democracia para a maioria e de ditadura para a minoria opressora destituída do poder estatal) como transição ao comunismo, assim como mostra a importância dos camponeses durante todo o processo revolucionário. Dessa forma, Stálin pontua a importância de Lênin como o grande pensador e desenvolvedor do marxismo, aprofundando o materialismo histórico e dialético criado por Marx e Engels.

Sobre a questão nacional, Stalin – em Sobre os Fundamentos do Leninismo – defende a libertação nacional e dos povos oprimidos pelo imperialismo e faz uma crítica direta aos reformistas, socialchauvinistas, ligados à II Internacional que provocavam confusão sobre a autodeterminação dos povos. Este tema é, aliás, uma das especialidades do dirigente soviético, ao qual o levou a ser escolhido como o primeiro Comissário do Povo Para as Nacionalidades durante o primeiro governo soviético após o triunfo revolucionário de 1917.

O leninismo, termo que começa a ganhar popularidade após esta obra, é uma ferramenta de combate ao trotskismo que, segundo Stálin, buscava deturpar o conceito de “revolução permanente”; Os Fundamentos do Leninismo tem a missão de desmascarar essa ideologia tão perniciosa à classe operária e alertar sobre o perigo que ela seria no futuro, influenciando diretamente parcelas do movimento operário e sabotando a luta revolucionária.

Falando em relação à estratégia e à tática, outra lição que Stálin nos deixa, além de nos alertar sobre as ideias oportunistas no seio do Partido, é: o combate firme contra o imperialismo que faz de tudo para desestabilizar o movimento operário e o seu Partido, influenciando quadros dirigentes e levando as organizações comunistas à degeneração completa, transformando-os de vanguarda do proletariado a agrupamentos eleitoreiros a serviço da burguesia. Dessa forma, Sobre os Fundamentos do Leninismo é uma obra que sempre será atual e útil ao movimento comunista. Importante guia para ação revolucionária e emancipação da classe operária.


Escrito por Clóvis Manfrini

domingo, 12 de maio de 2019

Monumento à Stálin é erguido em Novosibirsk

O monumento foi erguido dia 09/05, em comemoração ao 74º Aniversário do “Dia da Vitória” em Novosibirsk, Sibéria. 


O evento contou com a presença de Anatoly Lokot, membro do Partido Comunista e prefeito da cidade, comunistas e trabalhadores.

Durante as comemorações dos 74º anos do “Dia da Vitória” contra o exército invasor hitlerista, em Novosibisk, Sibéria, foi erguido um monumento solene na região central da cidade em homenagem ao camarada Stálin. O evento contou com a presença do prefeito da cidade, Anatoly Lokot, membros do Partido Comunista, sindicalistas, estudantes e outras camadas da população russa.

“Erguer o monumento ajudou a unir as forças e movimento de esquerda da cidade”, declarou Alexei Denisyuk, membro do Partido Comunista, “A ideia é relembrar a grande história do camarada Stálin na construção do socialismo na URSS e seu papel na Grande Guerra Patriótica”.

A secretária do Partido Comunista, Vera Ganzya, discursou em defesa da memória de Stálin, e pontuou à juventude que uma de suas tarefas é defender Stálin e lutar decididamente em impedir que a burguesia continue sujando sua imagem e seu legado histórico.

Ao lado do monumento foram estabelecidas pedras de granito, com poemas de Alexander Vertinsky em homenagem ao antigo Secretário-Geral do Partido Bolchevique, relembrando seus méritos com um dos principais dirigentes na construção do socialismo.

“O quão alto elevou o poder
o líder dos povos soviéticos, camaradas,
E que símbolo mundial ele criou para a pátria!”
Alexander Vertinsky

O monumento foi completamente erguido sem nenhum apoio do departamento de cultura da cidade, que se rejeitava tomar parte dessa ação. Todo financiamento veio da própria classe trabalhadora de Novosibisk – através de campanhas de finanças feita pela própria população todos os dias nas regiões centrais e praças da cidade durante vários dias.

Esses fatos evidenciam apenas que Stálin ainda tem muito prestígio entre o povo russo. Não poderia ser diferente, a classe operária russa reconhece em Stálin a si mesma, pois ele era um operário revolucionário, assim como milhões de trabalhadores no mundo. Stálin, hoje, é reconhecido como um grande líder político entre 70% do povo russo segundo levantamentos feito em abril deste ano pelo Instituto Levada.

Essa admiração não vem por qualquer razão, Stálin foi o dirigente comunista que relembra somente os maiores feitos do povo russo. Seu governo foi marcado por uma rápida industrialização, solidificação de uma poderosa base industrial que empregou e educou milhões de trabalhadores, os camponeses conquistaram suas terras que eram antes apropriadas por latifundiários ricos, as mulheres conquistaram a completa emancipação econômica, política em relação aos homens. Enfim, a fama e respeito por Stálin não podem ser apagadas assim como se apaga uma vela. Stálin vive e continuará vivendo em todo trabalhador(a) russo(a).


REDAÇÃO – JORNAL A VERDADE

 averdade.org.br



quarta-feira, 8 de maio de 2019

Votar as propostas da direita, ou mobilizar os trabalhadores para a luta?

Votar as propostas da direita, ou mobilizar os trabalhadores para a luta?


O que se exige não é que se faça apelos ao BE e ao PCP para que votem favoravelmente as propostas da direita, na medida em que o recuo do PSD e do CDS, as ditas "salvaguardas financeiras" como as posições do PCP e do BE, que apesar do seu pseudo radicalismo verbal, torna-se muito claro que por mais demagogia que todos  possam fazer, que elas só existem, porque têm como objectivo comum, fazer aprovar o Decreto Lei imposto pelo governo, que rouba seis anos de direitos aos trabalhadores e que só pode impressionar e convencer quem não tem o minimo de consciência ou possa ter andado distraído, na medida em que o PSD e CDS ao longo da legislatura sempre se oposeram à devolução de rendimentos ou de qualquer direito laboral e social, mesmo que minimo, ou que no caso do BE e do PCP que em nome dessas migalhas, (particularmente o aumento das reformas mais baixas e do salário minimo nacional) e do evitar o retorno do PSD e CDS ao governo e às suas politicas reacionárias de austeridade, apoiaram durante quatro anos, as politicas imperialistas e reacionárias ditadas pela UE/BCE/FMI e pelas associações patronais, com as quais o governo PS concorda e se submete inteiramente.

O descongelamento das carreiras, bem como o retorno total dos nove anos e quatro meses, não passa pela aceitação das propostas do PSD e do CDS, nem pela aliança com a FNE na medida em que esta estrutura sindical está ao serviço da cartilha da direita e da elite bem remunerada e privilegiada do corpo docente. O caminho a andar já há muito que ficou provado que só o aprofundamento e radicalização da luta pelos trabalhadores, o pode conquistar, assim sendo e para que não se perca mais tempo e andar miseravelmente cada sindicato por seu lado, o que só contribuí para a divisão dos trabalhadores e para reforçar as posições anti-laborais do governo e dos partidos ainda mais à direita, torna-se imperioso que a Frenprof, a Frente Comum, o SEP,os Sindicatos das Autarquias e empresas públicas, se unam numa luta comum, caso contrário os trabalhadores, não só sofrerão uma nova e pesada derrota, como no futuro poderão em nome das "dificuldades financeiras" sofrer novos congelamentos e perdas de direitos.

A Chispa!: espera que os trabalhadores o compreendam, se mobilizem e obriguem as suas direções sindicais a levar a unidade e a luta em frente!


terça-feira, 16 de abril de 2019

Sobre a história do movimento comunista no Brasil

Qual é o verdadeiro PCB fundado em 1922?
12/04/2019

De onze delegados, representando os Grupos Comunistas espalhados pelo Brasil, nove compareceram ao Congresso fundacional da Seção Brasileira da Internacional Comunista (SBIC) e cantaram, bem baixinho, para encerrar o encontro, em Niterói, A Internacional.

A fundação da Seção Brasileira da Internacional Comunista (SBIC), mais tarde Partido Comunista do Brasil (PCB), em 25 de março de 1922, foi uma necessidade histórica e a vontade coletiva de setores mais avançados politicamente na atrasada sociedade agrária brasileira. Apesar de a maioria dos fundadores do PCB terem origem no anarcossindicalismo e, segundo o historiador Michel Zaidan Filho [1], ligações íntimas com a maçonaria, o Partido Comunista do Brasil foi o primeiro partido a se organizar nacionalmente, numa época onde os partidos políticos eram regionalizados e tinham os seus caciques.

Sempre que se completa aniversário, o 97º neste ano de 2019, várias organizações autodenominadas comunistas reivindicam esta data como sendo suas, particulares, privadas. Outra dúvida na cabeça da maioria dos militantes, em várias destas organizações, é sobre o nome e a sigla do Partido, sobre qual é o verdadeiro PCB de 1922. É sempre bom destacar que, quando foram organizados os vários Grupos Comunistas no Brasil (Rio de Janeiro, Salvador, Recife, Porto Alegre, Santos, Niterói, etc), a partir de 1921, o objetivo era fundar um Partido Comunista de fato e receber o reconhecimento da Internacional Comunista (fundada em 1919 e oficialmente organizada como Partido Comunista internacional) [2] . Sendo assim, cada partido comunista, organizado em cada país, era uma seção deste partido comunista internacional (Internacional Comunista ou Terceira Internacional), daí, nascendo a Seção Brasileira da Internacional Comunista ou Partido Comunista do Brasil, e não “Partido Comunista Brasileiro” (já que se entendia por “brasileiro” ser uma denominação nacional e não uma seção da IC, do Brasil). Deste modo, até a dissolução da Internacional Comunista em 1943, o Partido Comunista do Brasil era oficialmente uma Seção da organização mundial dos comunistas: a Internacional Comunista.

Outra questão polêmica é sobre a sigla PCB. Nos primeiros documentos oficiais existem registros apenas da sigla SBIC, mas, com o passar do tempo, logo adota-se a sigla PC-SBIC ou simplesmente PCB (adotada de vez a partir do fim da IC). Que fique claro: a sigla original e oficial do Partido Comunista do Brasil, nascido em 1922, é PCB.

Com o decorrer da História do Partido e suas várias cisões e reorganizações, muitas foram as tentativas de mudanças de nome do destacamento dos comunistas. As primeiras cisões, no início da década de 1930, deram origem a organizações trotskistas que se autodenominavam internacionalistas ou leninistas, mas sem reivindicar o nome e a sigla do PCB. Outra tentativa, durante a crise que abateu o Partido no final dos anos de 1930 e início dos anos de 1940, quando militantes influenciados pelo browderismo [3] tentaram liquidá-lo e fundar uma organização nacional, apêndice da burguesia. Mas, prevaleceu nesta luta interna a vitória dos Marxista-Leninistas que continuaram o Partido Comunista do Brasil (PCB) e o reorganizaram em sua Conferência Nacional de 1943, conhecida como Conferência da Mantiqueira.

No entanto, após o XX Congresso do Partido Comunista da União Soviética e as calúnias proferidas pelo traidor Kruschióv contra Stálin, em 1956, os liquidacionistas tentaram mais uma vez modificar o nome e o sentido objetivo de o PCB existir. Os ataques contra o Partido da Classe Operária partiram de elementos nocivos, na verdade nacionalistas burgueses que de Marxista-Leninistas não tinham nada e, mais uma vez, foram derrotados em seus intentos de destruírem a organização fundada em 1922. Infelizmente, desta luta, sequelas ficaram e em 1961, após uma Conferência restrita à maioria do Comitê Central que defendia o revisionismo soviético, a direção decidiu fundar uma nova organização: o chamado “Partido Comunista Brasileiro”, utilizando a sigla original de 1922, PCB. O novo Programa e os novos Estatutos deste partido retiraram qualquer menção ao Marxismo-Leninismo e princípios como a ditadura do proletariado, o internacionalismo proletário e a luta de classes. Era criado neste momento, de fato, um partido social-democrata.

É a partir daí que os revisionistas, abrigados no PCBrasileiro, confundem grande parte dos militantes de nosso país com a falsa ideia que este PCBrasileiro, da sigla PCB, era o partido fundado em março de 1922. Ainda em 1961, os Marxista-Leninistas do original e tradicional Partido Comunista do Brasil nascido em 25 de março de 1922, resolvem se articular e buscar meios para reorganizar o Partido Marxista-Leninista no Brasil, após serem expulsos por se oporem à liquidação encabeçada por Prestes e seu grupo, apoiadores do revisionismo soviético. Após meses de esforços e, acusados de fracionismo pela direção do partido revisionista recém-criado, estes autênticos revolucionários realizam uma Conferência Nacional em fevereiro de 1962 e decidem pela reorganização do Partido Comunista do Brasil, o Partido do Proletariado. Como a sigla PCB estava indevidamente registrada e utilizada pelo PCBrasileiro, foi adotada, nos primeiros anos, a abreviação PC do Brasil. A sigla PCdoB surgiria apenas na década de 1970. Este grupo, o reorganizado em 1962, continuaria a trajetória do Partido nascido quarenta anos antes em sedes de sindicatos operários do Rio de Janeiro e num sobrado das tias de um dos seus fundadores, Astrojildo Pereira, em Niterói.

Mais tarde, as contradições do revisionismo levariam até mesmo este “Partido Comunista Brasileiro” a ser dissolvido, em 1992, após uma decisão ainda mais oportunista do grupo ligado ao então deputado federal Roberto Freire que criou um sabujo chamado “Partido Popular Socialista”, o PPS.

Acabaria ali o PCBrasileiro nascido das entranhas revisionistas em 1961. Neste mesmo ano de 1992, porém, um grupo minoritário de militantes do PCBrasileiro dissolvido por Freire e sua camarilha, cria outro partido, e só em 1995/96 conseguem no TSE o registro de um novo PCBrasileiro, com a sigla atual de PCB. Tratou-se, na prática, de uma tentativa de ressuscitar o arremedo revisionista de 1961 sob as consignas demagógicas de “reconstrução revolucionária”. Também em 1992, durante seu VII Congresso, o Partido Comunista do Brasil, PCdoB, que resistira ao liquidacionismo durante as décadas de 50, 60 e 70, aprofundou um processo de degeneração que já vinha se desenvolvendo desde fins da década de 1970 e adotou uma versão de revisionismo ainda muito mais escancarada que aquela praticada pelo velho PCBrasileiro de 1961 após o XX Congresso do PCUS, rompendo com o Marxismo-Leninismo.

Apesar de todas as confusões e alaridos, atualmente, nem o PCdoB, nem o PCBrasileiro (da sigla PCB) e nem o PPS são os verdadeiros continuadores da trajetória revolucionária iniciada em 1922. A despeito da existência de diversos agrupamentos que no Brasil que se reivindicam socialistas ou comunistas, a verdadeira vanguarda proletária, o Partido Comunista, está liquidada enquanto um todo organizado desde finais da década de 1970. É tarefa central resgatar a tradição e a História do legítimo Partido Comunista do Brasil (PCB), fundado naquele 25 de março de 1922, reconstruí-lo e reorganizá-lo enquanto o Partido Marxista-Leninista, revolucionário. Esta é a tarefa histórica de milhares de lutadores e lutadoras que reivindicam o marxismo-leninismo no Brasil.

Escrito por Clóvis Manfrini

Notas

[1] Zaidan Filho, Michel. O PCB e a Internacional Comunista. Ed. Vértice (São Paulo), 1988.

[2] Este reconhecimento da IC só se deu em 1924, dois anos após a fundação da SBIC.

[3] Earl Browder, antigo secretário do Partido Comunista dos Estados Unidos durante os anos de 1930 e inícios dos anos de 1940, que queria liquidar o Partido e fundar uma organização nacional, antimarxista e apêndice do Partido Democrata norte-americano.


quinta-feira, 11 de abril de 2019

Viva a justa luta do povo palestiniano pela retoma de todo o seu território!


Com milhares de palestinianos assassinados e prisões pelas frequentes agressões militares israelitas, e outros milhares de
presos, entre eles 6000 crianças detidas por Israel desde 2015.Com o novo governo fascista de Benjamin Natanyahu, que respaldado pelo apoio do imperialismo americano e seus vassalos, onde à semelhança da anexação de Jerusalém Oriental e os Montes Golã, quer agora avançar para a anexação dos colonatos em várias partes dos territórios palestinos na Cisjordânia, o que quer dizer que mais um vez o povo palestiniano vai ser agredido e expulso da sua terra, como novos milhares de pessoas serão assassinadas.



Caso não se levante em Portugal  e no mundo um grande movimento de solidariedade com o povo palestiniano contra a barbárie e a besta nazi/fascista do novo governo israelita. 

Viva a justa luta do povo palestiniano pela retoma de todo o seu território!

A Chispa!
11/4/2019







segunda-feira, 8 de abril de 2019

Como em Portugal - Espanha "esvaziada": todas as desigualdades apontam para o capitalismo


Espanha "esvaziada": todas as desigualdades apontam para o capitalismo

As mobilizações não param de protestar contra as grandes desigualdades que existem em todas as áreas do mundo hoje. Essas mobilizações exigem medidas para resolvê-las, mas, como não apontam para a raiz do problema, que é o regime econômico vigente, essas desigualdades se perpetuaram durante décadas ou mesmo séculos.

Atualmente, os habitantes de mais de 20 províncias foram mobilizados para exigir medidas contra o despovoamento, o abandono de milhares de pessoas que correm o risco de desaparecer. Segundo o Instituto Nacional de Estatística, 80% das aldeias estão em risco de extinção em 14 províncias.

Por que as pessoas migram para cidades que já representam mais de 77% da população da Espanha ou 82% nos EUA ? Basicamente, para o trabalho. Portanto, o problema está relacionado ao regime econômico. Quem decide onde há trabalho e onde não? Os proprietários das empresas e fábricas, dos meios de produção. São eles que decidem concentrar a vida econômica em algumas áreas ou em outras, mesmo em alguns países ou outros, dependendo de seu interesse.


O Prêmio Nobel de Economia Paul Krugman em seu artigo " Ficando real sobre a América rural " aponta para "forças poderosas " como responsáveis ​​pelo " declínio econômico da América rural " e considera que " ninguém sabe como reverter essas forças ".

Professor de Direito Constitucional Javier Pérez Royo está na mesma linha dizendo que " revitalizar regiões em declínio, ficando áreas repovoar está despovoado, não que isso é uma tarefa difícil, porque isso é difícil para conseguir a vontade política para resolver o problema, mas é que não sabemos como obtê-lo "

Os social-democratas têm a capacidade de atirar a pedra e esconder a mão. Ambos sabem, mas não dizem, que essas " forças poderosas " não são mais do que forças econômicas, neste caso, a economia de mercado, isto é, o capitalismo. Portanto, o que eles estão realmente dizendo é que DENTRO do capitalismo, esse problema, como o resto, não pode ser resolvido.

O problema da desigualdade entre o campo e a cidade é um clássico do capitalismo. E isso pode ser resolvido fora do capitalismo: com o socialismo. Nos países socialistas do século XX, com todas as suas dificuldades, colocando os meios de produção nas mãos de toda a sociedade, e com o planejamento coletivo que isso permitiu, eles resolveram a desigualdade como tantos outros.

Enquanto esses regimes socialistas existiam, era difícil negar a realidade, de modo que podemos encontrar estudos realizados na época em países capitalistas , que reconheciam a superioridade do sistema socialista no planejamento das cidades.

Urbanista e historiador australiano, Hugh Stretton, nada suspeito de ser um comunista, observou em 1978 que " a riqueza, renda e habitação têm nenhuma das desigualdades extremas que ocorrem nos países capitalistas ".

Carreras i Verdaguer na Geografia da Human Society (1981), conclui, " pode-se resumir que a cidade soviética é bastante igual, tanto que se refere à distribuição interna dos seus serviços, equipamentos e funções, como na semelhança da infraestrutura e organização entre cidades (...). São igualitários, sobretudo, porque a segregação social do espaço não existe, porque o transporte público atinge um alto nível de densidade ".

Em 1982, o arquiteto Rodriguez-Avial Llardent, em suas " áreas verdes e espaços abertos na cidade , " argumentou que " urbanisticamente a União Soviética tem um grande interesse em ser o primeiro país em que grande - o homem escala tenta para estruturar racionalmente geografia e recursos ".

Mas não é só isso. Precisamente os problemas de desigualdade, nesta e em outras áreas, apareceram nos países socialistas justamente quando formas privadas de administração foram introduzidas, incluindo cooperativas, que no final implicam uma restauração da economia de mercado:

" Os principais problemas são apresentados pelas brechas de privatização que podem ocorrer com a introdução do transporte privado, que está se expandindo; através do aparecimento de edifícios em que regime cooperativo, embora ajudar a resolver o problema da habitação, quebrar, de certa forma, homogeneidade social, e por finalmente introduzir as lojas elite "(Carreras i Verdaguer," Geografia da Sociedade Humana " .

Todos os caminhos levam ao socialismo. E hoje com mais razão até do que no século XX. Bem, hoje há um desenvolvimento científico-técnico impensável há apenas algumas décadas. Hoje a estrada seria muito mais simples, porque não teríamos que enfrentar as grandes dificuldades materiais que eram aquelas experiências do socialismo tão meritórias e que nos davam tantas lições.

Para resolver as desigualdades país-cidade ou norte-sul, a classe trabalhadora, como tem sido demonstrado tantas vezes na história, terá que tirar dessas "forças poderosas" o controle dos meios de produção, colocando-as a serviço de todos os meios de produção. pessoas que trabalham

Para acabar com todas as desigualdades

O socialismo é a única solução



Publicado em  3 de abril de 2019



Comité Provincial do Partido Comunista Operário da Espanha (PCOE) em Sevilha

segunda-feira, 1 de abril de 2019

Grécia : Mobilização operária contra a mafia (e o oportunismo sindical


Dado que a situação em Portugal muito pouco difere, que seja um exemplo a seguir. Caso contrário muito dificilmente os trabalhadores  conseguirão reconquistar os direitos perdidos e outros a conquistar.


Depois de décadas de conciliação de classe das direções sindicais, com o patronato e os vários governos, em particular com os dois últimos, tendo como resultado a desvalorização salarial, a redução drástica  dos direitos laborais e sociais, e prevendo-se que tal situação tende a continuar na medida em que as formas de luta não se aprofundam e radicalizam, como inclusivamente têm a desfaçatez de recorrer a argumentos utilizados pelo governo, que colocam a luta, a seriédade e as iniciativas dos trabalhadores em causa, como tem acontecido com a luta dos enfermeiros, ou de outros sectores profissionais onde a luta se aprofunde e fuja  ao seu  controlo. A Chispa!

Grécia : Mobilização operária contra a mafia  sindical

Com uma grande manifestação que organizaram el 28/3/19, contra o oportunismo e a mafia sindical instalada na Confederação Geral dos Trabalhadores da Grécia (GSEE), as federações e os sindicatos afirmaram que continuarão a luta para libertar as organizações dos trabalhadores da intervenção dos patrões, e das práticas degenerativas dos líderes sindicais vendidos, que configuram correlações de força falsas para manterem os sindicatos atados ao carro dos patrões.

Os trabalhadores exigiram claramente que se realize o congresso da GSEE, um congresso verdadeiramente operário, sem delegados falsos e sem patrões, por sindicatos de trabalhadores, e não de patrões!

Contra as tácticas dos dirigentes sindicais da GSEE, os trabalhadores têm todo o direito de lutar com todas as formas possíveis para libertar as organizações dos trabalhadores da intervenção estatal e patronal, das práticas degenerativas dos líderes vendidos.

A informação de que as forças maioritárias da GSEE estão a preparar o congresso em um resorte turístico na ilha Rhodos ha gerado grande indignação.

A mensagem que mandaram os trabalhadores é: seja onde for este congresso, nos encontraram frente a eles.



31/03/2019
KKE

segunda-feira, 25 de março de 2019

O Papel do Trabalho na Transformação do Macaco em Homem

O Papel do Trabalho na Transformação do Macaco em Homem

Friederich Engels

Escrito em: 1876

O trabalho é a fonte de toda riqueza, afirmam os economistas. Assim é, com efeito, ao lado da natureza, encarregada de fornecer os materiais que ele converte em riqueza. O trabalho, porém, é muitíssimo mais do que isso. É a condição básica e fundamental de toda a vida humana. E em tal grau que, até certo ponto, podemos afirmar que o trabalho criou o próprio homem.

Há muitas centenas de milhares de anos, numa época, ainda não estabelecida em definitivo, daquele período do desenvolvimento da Terra que os geólogos denominam terciário, provavelmente em fins desse período, vivia em algum lugar da zona tropical — talvez em um extenso continente hoje desaparecido nas profundezas do Oceano Indico — uma raça de macacos antropomorfos extraordinariamente desenvolvida. Darwin nos deu uma descrição aproximada desses nossos antepassados. Eram totalmente cobertos de pelo, tinham barba, orelhas pontiagudas, viviam nas árvores e formavam manadas.

É de supor que, como consequência directa de seu gênero de vida, devido ao qual as mãos, ao trepar, tinham que desempenhar funções distintas das dos pés, esses macacos foram-se acostumando a prescindir de suas mãos ao caminhar pelo chão e começaram a adoptar cada vez mais uma posição erecta. Foi o passo decisivo para a transição do macaco ao homem.

Todos os macacos antropomorfos que existem hoje podem permanecer em posição erecta e caminhar apoiando-se unicamente sobre seus pés; mas o fazem só em casos de extrema necessidade e, além disso, com enorme lentidão. Caminham habitualmente em atitude semi-erecta, e sua marcha inclui o uso das mãos. A maioria desses macacos apoiam no solo os dedos e, encolhendo as pernas, fazem avançar o corpo por entre os seus largos braços, como um paralítico que caminha com muletas. Em geral, podemos ainda hoje observar entre os macacos todas as formas de transição entre a marcha a quatro patas e a marcha em posição erecta. Mas para nenhum deles a posição erecta vai além de um recurso circunstancial.

E posto que a posição erecta havia de ser para os nossos peludos antepassados primeiro uma norma, e logo uma necessidade, dai se depreende que naquele período as mãos tinham que executar funções cada vez mais variadas. Mesmo entre os macacos existe já certa divisão de funções entre os pés e as mãos. Como assinalamos acima, enquanto trepavam as mãos eram utilizadas de maneira diferente que os pés. As mãos servem fundamentalmente para recolher e sustentar os alimentos, como o fazem já alguns mamíferos inferiores com suas patas dianteiras. Certos macacos recorrem às mãos para construir ninhos nas árvores; e alguns, como o chimpanzé, chegam a construir telhados entre os ramos, para defender-se das inclemências do tempo. A mão lhes serve para empunhar garrotes, com os quais se defendem de seus inimigos, ou para os bombardear com frutos e pedras. Quando se encontram prisioneiros realizam com as mãos várias operações que copiam dos homens. Mas aqui precisamente é que se percebe quanto é grande a distância que separa a mão primitiva dos macacos, inclusive os antropoides mais superiores, da mão do homem, aperfeiçoada pelo trabalho durante centenas de milhares de anos. O número e a disposição geral dos ossos e dos músculos são os mesmos no macaco e no homem, mas a mão do selvagem mais primitivo é capaz de executar centenas de operações que não podem ser realizadas pela mão de nenhum macaco. Nenhuma mão simiesa construiu jamais um machado de pedra, por mais tosco que fosse.

Por isso, as funções, para as quais nossos antepassados foram adaptando pouco a pouco suas mãos durante os muitos milhares de anos em que se prolongam o período de transição do macaco ao homem, só puderam ser, a princípio, funções sumamente simples. Os selvagens mais primitivos, inclusive aqueles nos quais se pode presumir o retorno a um estado mais próximo da animalidade, com uma degeneração física simultânea, são muito superiores àqueles seres do período de transição. Antes de a primeira lasca de sílex ter sido transformada em machado pela mão do homem, deve ter sido transcorrido um período de tempo tão largo que, em comparação com ele, o período histórico por nós conhecido torna-se insignificante. Mas já havia sido dado o passo decisivo: a mão era livre e podia agora adquirir cada vez mais destreza e habilidade; e essa maior flexibilidade adquirida transmitia-se por herança e aumentava de geração em geração.

Vemos, pois, que a mão não é apenas o órgão do trabalho; é também produto dele. Unicamente pelo trabalho, pela adaptação a novas e novas funções, pela transmissão hereditária do aperfeiçoamento especial assim adquirido pelos músculos e ligamentos e, num período mais amplo, também pelos ossos; unicamente pela aplicação sempre renovada dessas habilidades transmitidas a funções novas e cada vez mais complexas foi que a mão do homem atingiu esse grau de perfeição que pôde dar vida, como por artes de magia, aos quadros de Rafael, às estátuas de Thorwaldsen e à música de Paganini.

Mas a mão não era algo com existência própria e independente. Era unicamente um membro de um organismo íntegro e sumamente complexo. E o que beneficiava à mão beneficiava também a todo o corpo servido por ela; e o beneficiava em dois aspectos.

Primeiramente, em virtude da lei que Darwin chamou de correlação do crescimento. Segundo essa lei, certas formas das diferentes partes dos seres orgânicos sempre estão ligadas a determinadas formas de outras partes, que aparentemente não têm nenhuma relação com as primeiras. Assim, todos os animais que possuem glóbulos vermelhos sem núcleo e cujo occipital está articulado com a primeira vértebra por meio de dois côndilos, possuem, sem exceção, glândulas mamárias para a alimentação de suas crias. Assim também, a úngula fendida de alguns mamíferos está ligada de modo geral à presença de um estômago multilocular adaptado à ruminação. As modificações experimentadas por certas formas provocam mudanças na forma de outras partes do organismo, sem que estejamos em condições de explicar tal conexão. Os gatos totalmente brancos e de olhos azuis são sempre ou quase sempre surdos. O aperfeiçoamento gradual da mão do homem e a adaptação concomitante dos pés ao andar em posição erecta exerceram indubitavelmente, em virtude da referida correlação, certa influência sobre outras partes do organismo. Contudo, essa acção se acha ainda tão pouco estudada que aqui não podemos senão assinalá-la em termos gerais.

Muito mais importante é a acção directa — possível de ser demonstrada — exercida pelo desenvolvimento da mão sobre o resto do organismo. Como já dissemos, nossos antepassados simiescos eram animais que viviam em manadas; evidentemente, não é possível buscar a origem do homem, o mais social dos animais, em antepassados imediatos que não vivessem congregados. Em face de cada novo progresso, o domínio sobre a natureza, que tivera início com o desenvolvimento da mão, com o trabalho, ia ampliando os horizontes do homem, levando-o a descobrir constantemente nos objectos novas propriedades até então desconhecidas. Por outro lado, o desenvolvimento do trabalho, ao multiplicar os casos de ajuda mútua e de actividade conjunta, e ao mostrar assim as vantagens dessa actividade conjunta para cada indivíduo, tinha que contribuir forçosamente para agrupar ainda mais os membros da sociedade. Em resumo, os homens em formação chegaram a um ponto em que tiveram necessidade de dizer algo uns aos outros. A necessidade criou o órgão: a laringe pouco desenvolvida do macaco foi-se transformando, lenta mas firmemente, mediante modulações que produziam por sua vez modulações mais perfeitas, enquanto os órgãos da boca aprendiam pouco a pouco a pronunciar um som articulado após outro.

A comparação com os animais mostra-nos que essa explicação da origem da linguagem a partir do trabalho e pelo trabalho é a única acertada. O pouco que os animais, inclusive os mais desenvolvidos, têm que comunicar uns aos outros pode ser transmitido sem o concurso da palavra articulada. Nenhum animal em estado selvagem sente-se prejudicado por sua incapacidade de falar ou de compreender a linguagem humana. Mas a situação muda por completo quando o animal foi domesticado pelo homem. O contacto com o homem desenvolveu no cão e no cavalo um ouvido tão sensível à linguagem articulada que esses animais podem, dentro dos limites de suas representações, chegar a compreender qualquer idioma. Além disso, podem chegar a adquirir sentimentos antes desconhecidos por eles, como o apego ao homem, o sentimento de gratidão, etc. Quem conheça bem esses animais dificilmente poderá escapar à convicção de que, em muitos casos, essa incapacidade de falar é experimentada agora por eles como um defeito. Desgraçadamente, esse defeito não tem remédio, pois os seus órgãos vocais se acham demasiado especializados em determinada direcção. Contudo, quando existe um órgão apropriado, essa incapacidade pode ser superada dentro de certos limites. Os órgãos vocais das aves distinguem-se em forma radical dos do homem e, no entanto, as aves são os únicos animais que podem aprender a falar; e o animal de voz mais repulsiva, o papagaio, é o que melhor fala. E não importa que se nos objecte dizendo-nos que o papagaio não sabe o que fala. Claro está que por gosto apenas de falar e por sociabilidade o papagaio pode estar horas e horas repetindo todo o seu vocabulário. Mas, dentro do marco de suas representações, pode chegar também a compreender o que diz. Ensinai a um papagaio dizer palavrões (uma das distrações favoritas dos marinheiros que regressam das zonas quentes) e vereis logo que se o irritardes ele fará uso desses palavrões com a mesma correção de qualquer verdureira de Berlim. E o mesmo ocorre com o pedido de gulodices.

Primeiro o trabalho, e depois dele e com ele a palavra articulada, foram os dois estímulos principais sob cuja influência o cérebro do macaco foi-se transformando gradualmente em cérebro humano — que, apesar de toda sua semelhança, supera-o consideravelmente em tamanho e em perfeição. E à medida em que se desenvolvia o cérebro, desenvolviam-se também seus instrumentos mais imediatos: os órgãos dos sentidos. Da mesma maneira que o desenvolvimento gradual da linguagem está necessariamente acompanhado do correspondente aperfeiçoamento do órgão do ouvido, assim também o desenvolvimento geral do cérebro está ligado ao aperfeiçoamento de todos os Órgãos dos sentidos. A vista da águia tem um alcance muito maior que a do homem, mas o olho humano percebe nas coisas muitos mais detalhes que o olho da águia. O cão tem um olfacto muito mais fino que o do homem, mas não pode captar nem a centésima parte dos odores que servem ao homem como sinais para distinguir coisas diversas. E o sentido do tato, que o macaco possui a duras penas na forma mais tosca e primitiva, foi-se desenvolvendo unicamente com o desenvolvimento da própria mão do homem, através do trabalho.

O desenvolvimento do cérebro e dos sentidos a seu serviço, a crescente clareza de consciência, a capacidade de abstracção e de discernimento cada vez maiores, reagiram por sua vez sobre o trabalho e a palavra, estimulando mais e mais o seu desenvolvimento. Quando o homem se separa definitivamente do macaco esse desenvolvimento não cessa de modo algum, mas continua, em grau diverso e em diferentes sentidos entre os diferentes povos e as diferentes épocas, interrompido mesmo às vezes por retrocessos de carácter local ou temporário, mas avançando em seu conjunto a grandes passos, consideravelmente impulsionado e, por sua vez, orientado em um determinado sentido por um novo elemento que surge com o aparecimento do homem acabado: a sociedade.

Foi necessário, seguramente, que transcorressem centenas de milhares de anos — que na história da Terra têm uma importância menor que um segundo na vida de um homem (1) — antes que a sociedade humana surgisse daquelas manadas de macacos que trepavam pelas árvores. Mas, afinal, surgiu. E que voltamos a encontrar como sinal distintivo entre a manada de macacos e a sociedade humana? Outra vez, o trabalho. A manada de macacos contentava-se em devorar os alimentos de uma área que as condições geográficas ou a resistência das manadas vizinhas determinavam. Transportava-se de um lugar para outro e travava lutas com outras manadas para conquistar novas zonas de alimentação; mas era incapaz de extrair dessas zonas mais do que aquilo que a natureza generosamente lhe oferecia, se exceptuarmos a acção inconsciente da manada ao adubar o solo com seus excrementos. Quando foram ocupadas todas as zonas capazes de proporcionar alimento, o crescimento da população simiesca tornou-se já impossível; no melhor dos casos o número de seus animais mantinha-se no mesmo nível Mas todos os animais são uns grandes dissipadores de alimentos; além disso, com frequência, destroem em germe a nova geração de reservas alimentícias. Diferentemente do caçador, o lobo não respeita a cabra montês que lhe proporcionaria cabritos no ano seguinte; as cabras da Grécia, que devoram os jovens arbustos antes de poder desenvolver-se, deixaram nuas todas as montanhas do pais. Essa “exploração rapace” levada a efeito pelos animais desempenha um grande papel na transformação gradual das espécies, ao obrigá-las a adaptar-se a alimentos que não são os habituais para elas, com o que muda a composição química de seu sangue e se modifica toda a constituição física do animal; as espécies já plasmadas desaparecem. Não há dúvida de que essa exploração rapace contribuiu em alto grau para a humanização de nossos antepassados, pois ampliou o número de plantas e as partes das plantas utilizadas na alimentação por aquela raça de macacos que superava todas as demais em inteligência e em capacidade de adaptação. Em uma palavra, a alimentação, cada vez mais variada, oferecia ao organismo novas e novas substâncias, com o que foram criadas as condições químicas para a transformação desses macacos em seres humanos. Mas tudo isso não era trabalho no verdadeiro sentido da palavra. O trabalho começa com a elaboração de instrumentos. E que representam os instrumentos mais antigos, a julgar pelos restos que nos chegaram dos homens pré-históricos, pelo gênero de vida dos povos mais antigos registrados pela história, assim como pelo dos selvagens actuais mais primitivos? São instrumentos de caça e de pesca, sendo os primeiros utilizados também como armas. Mas a caça e a pesca pressupõem a passagem da alimentação exclusivamente vegetal à alimentação mista, o que significa um novo passo de sua importância na transformação do macaco em homem. A alimentação cárnea ofereceu ao organismo, em forma quase acabada, os ingredientes mais essenciais para o seu metabolismo. Desse modo abreviou o processo da digestão e outros processos da vida vegetativa do organismo (isto é, os processos análogos ao da vida dos vegetais), poupando, assim, tempo, materiais e estímulos para que pudesse manifestar-se activamente a vida propriamente animal. E quanto mais o homem em formação se afastava do reino vegetal, mais se elevava sobre os animais. Da mesma maneira que o hábito da alimentação mista converteu o gato e o cão selvagens em servidores do homem, assim também o hábito de combinar a carne com a alimentação vegetal contribuiu poderosamente para dar força física e independência ao homem em formação. Mas onde mais se manifestou a influência da dieta cárnea foi no cérebro, que recebeu assim em quantidade muito maior do que antes as substâncias necessárias à sua alimentação e desenvolvimento, com o que se foi tomando maior e mais rápido o seu aperfeiçoamento de geração em geração. Devemos reconhecer — e perdoem os senhores vegetarianos — que não foi sem ajuda da alimentação cárnea que o homem chegou a ser homem; e o facto de que, em uma ou outra época da história de todos os povos conhecidos, o emprego da carne na alimentação tenha chegado ao canibalismo (ainda no século X os antepassados dos berlinenses, os veletabos e os viltses, devoravam os seus progenitores) é uma questão que não tem hoje para nós a menor importância.

O consumo de carne na alimentação significou dois novos avanços de importância decisiva: o uso do fogo e a domesticação dos animais. O primeiro reduziu ainda mais o processo da digestão, já que permitia levar a comida à boca, como se disséssemos, meio digerida; o segundo multiplicou as reservas de carne, pois agora, ao lado da caça, proporcionava uma nova fonte para obtê-la em forma mais regular. A domesticação de animais também proporcionou, com o leite e seus derivados, um novo alimento, que era pelo menos do mesmo valor que a carne quanto à composição. Assim, esses dois adiantamentos converteram-se directamente para o homem em novos meios de emancipação. Não podemos deter-nos aqui em examinar minuciosamente suas consequências.

O homem, que havia aprendido a comer tudo o que era comestível, aprendeu também, da mesma maneira, a viver em qualquer clima. Estendeu-se por toda a superfície habitável da Terra, sendo o único animal capaz de fazê-lo por iniciativa própria. Os demais animais que se adaptaram a todos os climas — os animais domésticos e os insectos parasitas —não o conseguiram por si, mas unicamente acompanhando o homem. E a passagem do clima uniformemente cálido da pátria original para zonas mais frias, onde o ano se dividia em verão e inverno, criou novas exigências, ao obrigar o homem a procurar habitação e a cobrir seu corpo para proteger-se do frio e da umidade. Surgiram assim novas esferas de trabalho, e com elas novas actividades, que afastaram ainda mais o homem dos animais.

Graças à cooperação da mão, dos órgãos da linguagem e do cérebro, não só em cada indivíduo, mas também na sociedade, os homens foram aprendendo a executar operações cada vez mais complexas, a propor-se e alcançar objectivos cada vez mais elevados. O trabalho mesmo se diversificava e aperfeiçoava de geração em geração, estendendo-se cada vez a novas actividades. A caça e à pesca veio juntar-se a agricultura, e mais tarde a fiação e a tecelagem, a elaboração de metais, a olaria e a navegação. Ao lado do comércio e dos ofícios apareceram, finalmente, as artes e as ciências; das tribos saíram as nações e os Estados. Apareceram o direito e a política, e com eles o reflexo fantástico das coisas no cérebro do homem: a religião. Frente a todas essas criações, que se manifestavam em primeiro lugar como produtos do cérebro e pareciam dominar as sociedades humanas, as produções mais modestas, fruto do trabalho da mão, ficaram relegadas a segundo plano, tanto mais quanto numa fase muito recuada do desenvolvimento da sociedade (por exemplo, já na família primitiva), a cabeça que planejava o trabalho já era capaz de obrigar mãos alheias a realizar o trabalho projectado por ela. O rápido progresso da civilização foi atribuído exclusivamente à cabeça, ao desenvolvimento e à actividade do cérebro. Os homens acostumaram-se a explicar seus actos pelos seus pensamentos, em lugar de procurar essa explicação em suas necessidades (reflectidas, naturalmente, na cabeça do homem, que assim adquire consciência delas). Foi assim que, com o transcurso do tempo, surgiu essa concepção idealista do mundo que dominou o cérebro dos homens, sobretudo a partir do desaparecimento do mundo antigo, e continua ainda a dominá-lo, a tal ponto que mesmo os naturalistas da escola darwiniana mais chegados ao materialismo são ainda incapazes de formar uma ideia clara acerca da origem do homem, pois essa mesma influência idealista lhes impede de ver o papel desempenhado aqui pelo trabalho.

Os animais, como já indicamos de passagem, também modificam com sua atividade a natureza exterior, embora não no mesmo grau que o homem; e essas modificações provocadas por eles no meio ambiente repercutem, como vimos, em seus causadores, modificando-os por sua vez. Nada ocorre na natureza em forma isolada. Cada fenómeno afecta a outro, e é por seu turno influenciado por este; e é em geral o esquecimento desse movimento e dessa interacção universal o que impede a nossos naturalistas perceber com clareza as coisas mais simples. Já vimos como as cabras impediram o reflorestamento dos bosques na Grécia; em Santa Helena, as cabras e os porcos desembarcados pelos primeiros navegantes chegados à ilha exterminaram quase por completo a vegetação ali existente, com o que prepararam o terreno para que pudessem multiplicar-se as plantas levadas mais tarde por outros navegantes e colonizadores. Mas a influência duradoura dos animais sobre a natureza que os rodeia é inteiramente involuntária e constitui, no que se refere aos animais, um fato acidental. Mas, quanto mais os homens se afastam dos animais, mais sua influência sobre a natureza adquire um carácter de uma ação intencional e planejada, cujo fim é alcançar objectivos projectados de antemão. Os animais destroçam a vegetação do lugar sem dar-se conta do que fazem. Os homens, em troca, quando destroem a vegetação o fazem com o fim de utilizar a superfície que fica livre para semear trigo, plantar árvores ou cultivar a videira, conscientes de que a colheita que irão obter superará várias vezes o semeado por eles. O homem traslada de um pais para outro plantas úteis e animais domésticos, modificando assim a flora e a fauna de continentes inteiros. Mais ainda: as plantas e os animais, cultivadas aquelas e criados estes em condições artificiais, sofrem tal influência da mão do homem que se tornam irreconhecíveis.

Não foram até hoje encontrados os antepassados silvestres de nossos cultivos cerealistas. Ainda não foi resolvida a questão de saber qual o animal que deu origem aos nossos cães actuais, tão diferentes uns de outros, ou às atuais raças de cavalos, também tão numerosos. Ademais, compreende-se de logo que não temos a intenção de negar aos animais a faculdade de actuar em forma planificada, de um modo premeditado. Ao contrário, a acção planificada existe em germe onde quer que o protoplasma — a albumina viva — exista e reaja, isto é, realize determinados movimentos, embora sejam os mais simples, em resposta a determinados estímulos do exterior. Essa reacção se produz, não digamos já na célula nervosa, mas inclusive quando ainda não há célula de nenhuma espécie. O ato pelo qual as plantas insectívoras se apoderam de sua presa aparece também, até certo ponto, como um acto planejado, embora se realize de um modo totalmente inconsciente. A possibilidade de realizar actos conscientes e premeditados desenvolve-se nos animais em correspondência com o desenvolvimento do sistema nervoso e adquire já nos mamíferos um nível bastante elevado. Durante as caçadas organizadas na Inglaterra pode-se observar sempre a infalibilidade com que a raposa utiliza seu perfeito conhecimento do lugar para ocultar-se aos seus perseguidores, e como conhece e sabe aproveitar muito bem todas as vantagens do terreno para despistá-los. Entre nossos animais domésticos, que chegaram a um grau mais alto de desenvolvimento graças à sua convivência com o homem podem ser observados diariamente atos de astúcia, equiparáveis aos das crianças, pois do mesmo modo que o desenvolvimento do embrião humano no ventre materno é uma réplica abreviada de toda a história do desenvolvimento físico seguido através de milhões de anos pelos nossos antepassados do reino animal, a partir do estado larval, assim também o desenvolvimento espiritual da criança representa uma réplica, ainda mais abreviada, do desenvolvimento intelectual desses mesmos antepassados, pelo menos dos mais próximos. Mas nem um só acto planificado de nenhum animal pôde imprimir na natureza o selo de sua vontade. Só o homem pôde fazê-lo.

Resumindo: só o que podem fazer os animais é utilizar a natureza e modificá-la pelo mero facto de sua presença nela. O homem, ao contrário, modifica a natureza e a obriga a servir-lhe, domina-a. E ai está, em última análise, a diferença essencial entre o homem e os demais animais, diferença que, mais uma vez, resulta do trabalho.

Contudo, não nos deixemos dominar pelo entusiasmo em face de nossas vitórias sobre a natureza. Após cada uma dessas vitórias a natureza adopta sua vingança. É verdade que as primeiras consequências dessas vitórias são as previstas por nós, mas em segundo e em terceiro lugar aparecem consequências muito diversas, totalmente imprevistas e que, com frequência, anulam as primeiras. Os homens que na Mesopotâmia, na Grécia, na Ásia Menor e outras regiões devastavam os bosques para obter terra de cultivo nem sequer podiam imaginar que, eliminando com os bosques os centros de acumulação e reserva de umidade, estavam assentando as bases da actual aridez dessas terras. Os italianos dos Alpes, que destruíram nas encostas meridionais os bosques de pinheiros, conservados com tanto carinho nas encostas setentrionais, não tinham idéia de que com isso destruíam as raízes da indústria de lacticínios em sua região; e muito menos podiam prever que, procedendo desse modo, deixavam a maior parte do ano secas as suas fontes de montanha, com o que lhes permitiam, chegado o período das chuvas, despejar com maior fúria suas torrentes sobre a planície. Os que difundiram o cultivo da batata na Europa não sabiam que com esse tubérculo farináceo difundiam por sua vez a escrofulose. Assim, a cada passo, os fatos recordam que nosso domínio sobre a natureza não se parece em nada com o domínio de um conquistador sobre o povo conquistado, que não é o domínio de alguém situado fora da natureza, mas que nós, por nossa carne, nosso sangue e nosso cérebro, pertencemos à natureza, encontramo-nos em seu seio, e todo o nosso domínio sobre ela consiste em que, diferentemente dos demais seres, somos capazes de conhecer suas leis e aplicá-las de maneira adequada.

Com efeito, aprendemos cada dia a compreender melhor as leis da natureza e a conhecer tanto os efeitos imediatos como as consequências remotas de nossa intromissão no curso natural de seu desenvolvimento. Sobretudo depois dos grandes progressos alcançados neste século pelas ciências naturais, estamos em condições de prever e, portanto, de controlar cada vez melhor as remotas consequências naturais de nossos atos na produção, pelo menos dos mais correntes. E quanto mais isso seja uma realidade, mais os homens sentirão e compreenderão sua unidade com a natureza, e mais inconcebível será essa ideia absurda e anti-natural da antítese entre o espírito e a matéria, o homem e a natureza, a alma e o corpo, ideia que começa a difundir-se pela Europa sobre a base da decadência da antiguidade clássica e que adquire seu máximo desenvolvimento no cristianismo.

Mas, se foram necessários milhares de anos para que o homem aprendesse, em certo grau, a prever as remotas consequências naturais no sentido da produção, muito mais lhe custou aprender a calcular as remotas consequências sociais desses mesmos actos. Falamos acima da batata e de seus efeitos quanto à difusão da escrofulose. Mas que importância pode ter a escrofulose, comparada com os resultados que teve a redução da alimentação dos trabalhadores a batatas puramente sobre as condições de vida das massas do povo de países inteiros, com a fome que se estendeu em 1847 pela Irlanda em consequência de uma doença provocada por esse tubérculo e que levou à sepultura um milhão de irlandeses que se alimentavam exclusivamente, ou quase exclusivamente, de batatas e obrigou a que emigrassem para além-mar outros dois milhões? Quando os árabes aprenderam a destilar o álcool, nem sequer ocorreu-lhes pensar que haviam criado uma das armas principais com que iria ser exterminada a população indígena do continente americano, então ainda desconhecido. E quando mais tarde Colombo descobriu a América não sabia que ao mesmo tempo dava nova vida à escravidão, há muito tempo desaparecida na Europa, e assentado as bases do tráfico dos negros. Os homens que nos séculos XVII e XVIII haviam trabalhado para criar a máquina a vapor não suspeitavam de que estavam criando um instrumento que, mais do que nenhum outro, haveria de subverter as condições sociais em todo o mundo e que, sobretudo na Europa, ao concentrar a riqueza nas mãos de uma minoria e ao privar de toda propriedade a imensa maioria da população, haveria de proporcionar primeiro o domínio social e político à burguesia, e provocar depois a luta de classe entre a burguesia e o proletariado, luta que só pode terminar com a liquidação da burguesia e a abolição de todos os antagonismos de classe. Mas também aqui, aproveitando uma experiência ampla, e às vezes cruel, confrontando e analisando os materiais proporcionados pela história, vamos aprendendo pouco a pouco a conhecer as consequências sociais indirectas e mais remotas de nossos actos na produção, o que nos permite estender também a essas consequências o nosso domínio e o nosso controle.

Contudo, para levar a termo esse controle é necessário algo mais do que o simples conhecimento. É necessária uma revolução que transforme por completo o modo de produção existente até hoje e, com ele, a ordem social vigente.

Todos os modos de produção que existiram até o presente só procuravam o efeito útil do trabalho em sua forma mais directa e Imediata. Não faziam o menor caso das consequências remotas, que só surgem mais tarde e cujos efeitos se manifestam unicamente graças a um processo de repetição e acumulação gradual. A primitiva propriedade comunal da terra correspondia, por um lado, a um estádio de desenvolvimento dos homens no qual seu horizonte era limitado, em geral, às coisas mais imediatas, e pressupunha, por outro lado, certo excedente de terras livres, que oferecia determinada margem para neutralizar os possíveis resultados adversos dessa economia primitiva. Ao esgotar-se o excedente de terras livres, começou a decadência da propriedade comunal. Todas as formas mais elevadas de produção que vieram depois conduziram à divisão da população em classes diferentes e, portanto, no antagonismo entre as classes dominantes e as classes oprimidas. Em consequência, os interesses das classes dominantes converteram-se no elemento propulsor da produção, enquanto esta não se limitava a manter, bem ou mal, a mísera existência dos oprimidos.

Isso encontra sua expressão mais acabada no modo de produção capitalista, que prevalece hoje na Europa ocidental. Os capitalistas individuais, que dominam a produção e a troca, só podem ocupar-se da utilidade mais imediata de seus actos. Mais ainda: mesmo essa utilidade — porquanto se trata da utilidade da mercadoria produzida ou trocada — passa inteiramente ao segundo plano, aparecendo como único incentivo o lucro obtido na venda.

                                                                        * * *

A ciência social da burguesia, a economia política clássica, só se ocupa preferentemente daquelas consequências sociais que constituem o objectivo imediato dos actos realizados pelos homens na produção e na troca. Isso corresponde plenamente ao regime social cuja expressão teórica é essa ciência. Porquanto os capitalistas isolados produzem ou trocam com o único fim de obter lucros imediatos, só podem ser levados em conta, primeiramente, os resultados mais próximos e mais imediatos. Quando um industrial ou um comerciante vende a mercadoria produzida ou comprada por ele e obtém o lucro habitual, dá-se por satisfeito e não lhe interessa de maneira  alguma o que possa ocorrer depois com essa mercadoria e seu comprador. O mesmo se verifica com as consequências naturais dessas mesmas acções. Quando, em Cuba, os plantadores espanhóis queimavam os bosques nas encostas das montanhas para obter com a cinza um adubo que só lhes permitia fertilizar uma geração de cafeeiros de alto rendimento pouco lhes importava que as chuvas torrenciais dos trópicos varressem a camada vegetal do solo, privada da protecção das arvores, e não deixassem depois de si senão rochas desnudas! Com o atual modo de produção, e no que se refere tanto às conseqüências naturais como às consequência sociais dos actos realizados pelos homens, o que interessa prioritariamente são apenas os primeiros resultados, os mais palpáveis. E logo até se manifesta estranheza pelo fato de as consequências remotas das acções que perseguiam esses fins serem multo diferentes e, na maioria dos casos, até diametralmente opostas; de a harmonia entre a oferta e a procura converter-se em seu antípoda, como nos demonstra o curso de cada um desses ciclos industriais de dez anos, e como puderam convencer-se disso os que com o “crack” viveram na Alemanha um pequeno prelúdio; de a propriedade privada baseada no trabalho próprio converter-se necessariamente, ao desenvolver-se, na ausência de posse de toda propriedade pelos trabalhadores, enquanto toda a riqueza se concentra mais e mais nas mãos dos que não trabalham; de [...](2)


Notas:
(1)    Notas Sir William Thomson. grande  autoridade na matéria, calculou em pouco mais de cem milhões de anos o tempo transcorrido desde o momento em que a Terra se esfriou o suficiente para que nela pudessem viver as plantas e os animais. (retornar ao texto)

(2)    (Nota de Engels) Engels refere-se à crise econômica de 1873/1874