quarta-feira, 26 de fevereiro de 2020

O coronavirus e a provável mão oculta dos Estados Unidos

O coronavirus e a provável mão oculta dos Estados Unidos
por Arthur González [*]

Plum Island, laboratório militar secreto. Para quem conhece a história terrorífica da CIA, pejada de planos de acções encobertas para assassinar personalidades, espiar partidos políticos e seus dirigentes, executar golpes de Estado, desenvolver experimentos para manipular a mente de seres humanos e trabalhar com agentes biológicos a fim de transmitir vírus contra pessoas, animais e plantas, não é inverosímil supor que também pode estar por trás do perigoso Coronavirus, o Pneumonia de Wuhan, detectado na China.

É notória a guerra suja que os Estados Unidos executam contra a China, por considerá-la um perigo para a economia ianque. Daí o presidente Trump aplicar medidas inéditas para afogar a China e evitar que avance como a maior potência económica mundial.

Os ianques desesperados procuram modificar a correlação de forças em escala mundial. Por isso pressionaram o Reino Unido a sair da União Europeia para debilitá-la, além de converter a China no seu novo inimigo estratégico no cenário mundial.

Por isso não é de estranhar que possam estar por trás do surgimento do Coronavirus em Wuhan, obrigando os chineses a paralisar uma das suas regiões de maior desenvolvimento económico e uma população de mais de 11 milhões de habitantes, sendo a sua sétima cidade mais povoada e uma das nove cidades centrais da China com conexões para todo o território nacional.

Wuhan é qualificada como o centro político, económico, financeiro, comercial, cultural e educativo da China central, além de ser um centro principal de transportes, com dezenas de ferrovias, estradas e auto-estradas que cruzam essa cidade, conectando-a com outras importantes.

Essa localização permite a rápida disseminação da epidemia em todo o país, o que obriga a perguntar: será por acaso que o vírus tenha surgido ali? Ou por essas razões foi seleccionada para introduzi-lo entre os seus habitantes?

Afirma-se que o vírus é uma mutação, algo em que cientistas ianques trabalham historicamente nos seus laboratórios militares de guerra biológica.

O pânico criado a nível mundial obriga a não visitar a China, o que afecta sua indústria turística, os investimentos estrangeiros e os intercâmbios comerciais, perante a possibilidade de contágio.

Cuba tem sofrido múltiplos ataques biológicos desde há 60 anos. O primeiro contemplado é a conhecida Operação Mangosta, aprovada em 18 de Janeiro de 1962 pelo presidente J.F. Kennedy, que na sua tarefa número 21 diz textualmente:

"A CIA proporá um plano até 15 de Fevereiro para provocar o fracasso das colheitas de alimentos em Cuba..." As linhas seguintes não foram desclassificadas.

Em Junho de 1971 comprovou-se a presença na Ilha do vírus que causa a Febre Porcina Africana, o qual jamais havia sido reportado em Cuba. Foi preciso sacrificar centenas de milhares de porcos para evitar sua disseminação por todo o território nacional, com uma perda económica e alimentar de grande envergadura.

Em Abril de 1981 foram detectados em Havana vários casos de febre hemorrágica, provocando a morte de quatro crianças. Foi possível comprovar que se tratava de uma estirpe nova do vírus "Nova Guiné 1924", serotipo 02, única no mundo naquela época, sendo uma estirpe elaborada em laboratório.

Em Agosto de 1981 detectou-se em Sancti Spiritus, província central de Cuba, o herpes vírus BHV2, endémico em África e isolado no laboratório de doenças exóticas em Plum Island , Estados Unidos. Esse agente viral é o causador da Pseudodermatose Nodular Bovina e afectou a produção de leite.

Em 1983 Eduardo Arocena declarou no tribunal de Nova York – que o julgava por assassinar um diplomata cubano acreditado na ONU – que, como agente da CIA, cumpriu a missão de introduzir germes patogénicos em Cuba, quando na Ilha enfrentava-se a epidemia do Dengue Hemorrágico.

A lista de semelhantes acções é ampla. Por isso não é de estranhar que a China agora seja alvo desse trabalho sujo que os ianques costumam executar [1] . Isto se deve à potência económica desse gigante asiático e em particular Wuhan, território de amplas transformações industriais que possui três zonas de desenvolvimento nacional, quatro parques de desenvolvimento científico e tecnológico, mais de 350 institutos de investigação, 1.656 empresas de alta tecnologia, numerosas empresas e investimentos de 230 empresas listadas na Fortune Global 500.

Ali tem sede a mega empresa Dongfeng Motor Corporatiion, complexo industrial que fabrica automóveis, unido a dezenas de institutos de educação superior, inclusive a Universidade de Wuhan que em 2017 ocupou o terceiro lugar a nível nacional, mais a Universidade de Ciência e Tecnologia de Huazhong.

Nesse ano a UNESCO declarou Wuhan "Cidade Criativa" no campo do design e hoje está classificada pela Globalization and World Cities Research Network, como uma cidade beta mundial.

Os EUA já emitiram um aviso de viagem de nível 4, depois de a Organização Mundial de Saúde (OMS) ter declarado a eclosão como uma emergência de saúde pública de preocupação internacional, em que exorta seus cidadãos e residente a não viajar à China.

O Departamento de Segurança Nacional informou que há 11 aeroportos designados, inclusive os Aeroporto Internacional John F. Kennedy, o Aeroporto Internacional de Los Angeles e o Aeroporto Internacional Hartsfield-Jackson de Atlanta, pelos quais os viajantes procedentes da China podem entrar nos EUA.

Por sua vez, o Departamento da Saúde declarou que "se os passageiros forem examinados e não mostrarem sintomas, serão relocalizados no seu destino final e se lhes solicitará que se ponham em quarentena dentro da sua casa".

Para semear mais terror disseminaram a notícia de que "o coronavirus pode contagiar ainda sem sintomas", segundo critérios do principal médico de infecções dos EUA. E em Hong Kong trabalhadores da saúde declararam-se em greve para exigir ao governo que encerre a fronteira com a China.

Há ou não há razões para suspeitar que a mão dos Estados Unidos está por trás da epidemia, com todos os antecedentes que a CIA tem em guerra biológica?

A China faz todo o possível para enfrentar a epidemia e constrói dois hospitais em tempo recorde, demonstrando ao mundo a vontade resolver o problema. Ao mesmo tempo, exibe a sua potencialidade económica, algo que enfurece os ianques que não seriam capazes de fazer algo semelhante.

Algum dia se saberá a verdade, mas enquanto isso a China seguirá seu passo firme para sair vitoriosa deste mal. Como disse José Martí:

"Não é possível que passem inúteis pelo mundo a piedade incansável do coração e a limpeza absoluta da vontade".

[1] O governo dos EUA fez experimentos de guerra bacteriológica contra Coreia e a China na década de 1950. Este facto está comprovado no Report of the International Scientific Commission for the Investigation of the Facts Concerning Bacterial Warfare in Korea and China (764 páginas, 235 MB).

Ver também:
China recibe medicamento cubano para enfrentar el coronavirus
Acerca da guerra bacteriológica durante a Guerra da Coreia
Bioarmas: Um crime do governo americano digno de Nuremberg
Exército dos EUA patenteia granada para lançar armas biológicas, violando a Convenção internacional
Preparação para guerra biológica? Vacina contra o antrax para os soldados no Iraque, Afeganistão e Coreia do Sul

[*] Jornalista, cubano.

O original encontra-se em heraldocubano.wordpress.com/

Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ .

quarta-feira, 12 de fevereiro de 2020

Funcionários públicos, mais dez anos Não ! Vamos à luta!

Com tais “dirigentes” e tal  prática sindical amarela e reacionária, bem podem os trabalhadores esperar sentados, dez ou mais anos pelas suas reivindicações


Depois de mais de dez anos sem aumento e a serem sujeitos a cortes salariais durante o governo capitalista PSD/CDS/Troika, o governo PS seguindo os mesmos princípios impostos pela UE, de redução da despesa pública, com salários, educação, saúde e direitos sociais, propõe um aumento miserável de 7 euros por mês até ao escalão de 680 euros e 0,3% para os restantes trabalhadores, proposta esta que as várias direções sindicais da Função Pública consideram e com razão de "inaceitável e provocadora", mas que por outro, não deixa também de ser consequência das suas práticas sindicais, na medida em que tem imperado a conciliação de classe e os acordos anti-laborais, como resultado da fraca mobilização e formas de luta a roçar a paz social absoluta que têm impedido os trabalhadores de conseguir conquistar as suas justas reivindicações, que caso a sua indignação fosse séria e de acordo com os valores de classe que dizem representar tinham a obrigação de imediato convocar formas de luta que obrigassem o governo a recuar. Mas não.

Imbuídos incorrigivelmente na sua prática sindical burguesa, nem mesmo a arrogância do governo em manter a sua posição os fez importunar o debate parlamentar sobre o OE, convocam a greve para a tardia data de 31 de Janeiro, que diga-se, que muito pouco efeito teve na medida em que o governo numa atitude altamente reaccionária  do quero, posso e mando, muito pouco altera a sua posição inicial, dão-se ao luxo de remeter para o final do mês de Fevereiro uma resposta a dar, à tal "inaceitável e provocadora" proposta que dizem estar contra, o que quer dizer que só lá para meio do mês de Março ou mais, poderá haver qualquer nova forma de luta. Daí que se possa perguntar, a quem serve tal demora na reação de resposta  à  "inaceitável e provocadora" proposta que dizem estar contra, quando esta só pode ter como efeito se procurar manter os trabalhadores desmobilizados e afastados da luta  pelos seus direitos e ao mesmo tempo  dar um enorme  campo de manobra ao governo para que regulamente a seu belo prazer ?

quinta-feira, 6 de fevereiro de 2020

Introdução de Friedrich Engels à Edição de 1891 de Trabalho Assalariado e Capital

Nos anos 40, Marx ainda não tinha terminado a sua crítica da Economia Política. Isso só aconteceu nos finais dos anos 50. Por isso, os escritos que apareceram antes do primeiro fascículo de Para a Crítica da Economia Política (1859) diferem aqui e ali dos redigidos a partir de 1859; contêm expressões e frases inteiras que, do ponto de vista dos escritos posteriores, parecem tortuosas e até incorrectas. Ora é evidente que em edições vulgares, destinadas ao público em geral, este ponto de vista anterior que faz parte da evolução espiritual do autor tem o seu lugar, e tanto ele como o público têm indiscutível direito a uma reprodução sem alterações desses escritos mais antigos. E não me passaria pela cabeça modificar uma só palavra que fosse.


Mas o caso muda quando a nova edição se destina quase exclusivamente à propaganda entre os operários. Neste caso, Marx teria incondicionalmente posto de acordo a antiga exposição, que data de 1849, com o seu novo ponto de vista. E eu estou certo de proceder nesse mesmo sentido, se operar para esta edição as poucas modificações e acrescentamentos necessários para atingir esse objectivo, em todos os pontos essenciais. Por isso, previno já o leitor: esta é a brochura não como Marx a redigiu em 1849, mas aproximadamente, como ele a teria escrito em 1891. Além disso, o texto real encontra-se difundido em tão grande número de exemplares que isto é suficiente até que eu o possa reimprimir sem alterações numa ulterior edição das obras completas.

As minhas alterações giram todas em torno de um ponto. Segundo o original, o operário vende ao capitalista o seu trabalho em troca do salário; segundo o texto actual, ele vende a sua força de trabalho. E por esta alteração devo uma explicação. Uma explicação aos operários para que vejam que não estão perante uma simples questão de palavras, mas, pelo contrário, perante um dos mais importantes pontos de toda a Economia Política. Explicação aos burgueses para que se possam convencer de como os operários sem instrução, para quem com facilidade se podem tornar inteligíveis os mais difíceis desenvolvimentos económicos, estão imensamente acima dos nossos arrogantes homens “instruídos” para quem questões tão complexas permanecem insolúveis durante toda a vida.

A Economia Política clássica[N75] reteve da prática industrial a representação corrente do fabricante de que compra e paga o trabalho dos seus operários. Esta representação chegava perfeitamente para uso nos negócios, a contabilidade e o cálculo do preço do fabricante. Transposta, de um modo ingenuo, para a Economia Política causou a esta mal-entendidos e confusões prodigiosos.

A Economia depara com o facto de que os preços de toda a mercadoria, e, portanto, o preço da mercadoria a que ela chama “trabalho”, variam continuamente; que eles sobem e descem em consequência de circunstâncias muito diferenciadas que, frequentemente, não têm conexão alguma com a produção da própria mercadoria, de tal modo que, em regra, os preços parecem ser determinados pelo puro acaso. Ora, logo que a Economia se tornou uma ciência[N76], uma das suas primeiras tarefas foi a de procurar a lei que se ocultava por detrás desse acaso, que aparentemente comandava o preço das mercadorias e que, na realidade, comandava esse mesmo acaso. Ela procurou nos preços das mercadorias que continuamente flutuam e oscilam, ora para cima, ora para baixo, o ponto central fixo em torno do qual se efectuam essas flutuações e oscilações. Numa palavra, ela partiu dos preços das mercadorias para procurar como sua lei reguladora o valor das mercadorias, a partir do qual deveriam explicar-se todas as flutuações de preços e ao qual finalmente todas se deveriam de novo reconduzir.

A Economia clássica achou, então, que o valor de uma mercadoria seria determinado pelo trabalho incorporado nela, o trabalho necessário para a sua produção; e contentou-se com esta explicação. Também nós podemos debruçar-nos, por um momento, sobre este problema. Só para prevenir equívocos, quero lembrar que esta explicação se tornou hoje completamente insuficiente. Marx, pela primeira vez, investigou fundamentalmente a propriedade que o trabalho tem de criar valor, e descobriu assim que nem todo o trabalho, aparente ou mesmo realmente necessário à produção de uma mercadoria, lhe acrescenta, em todas as circunstâncias, uma grandeza de valor que corresponde ao volume de trabalho empregue. Portanto, quando hoje nos limitamos a dizer, com economistas como Ricardo, que o valor de uma mercadoria se determina pelo trabalho necessário à sua produção, damos sempre como subentendidas as reservas feitas por Marx. Aqui basta-nos isto; o mais encontra-se exposto por Marx em Para a Crítica da Economia Política (1859) e no primeiro tomo de O Capital.

Mas logo que os economistas aplicaram esta determinação de valor pelo trabalho à mercadoria “trabalho” caíram de contradição em contradição. Como se determina o valor do “trabalho”? Pelo trabalho necessário que neste se encontra. Mas quanto trabalho se encontra no trabalho de um operário, durante um dia, uma semana, um mês, um ano? O trabalho de um dia, de uma semana, de um mês, de um ano. Se o trabalho é a medida de todos os valores só podemos expressar o “valor do trabalho” precisamente em trabalho. Mas nós não sabemos absolutamente nada acerca do valor de uma hora de trabalho se apenas soubermos que aquele é igual a uma hora de trabalho. Deste modo não avançamos um milímetro, e limitamo-nos a andar à volta da questão.

Por isso a Economia clássica procurou dar uma outra formulação, e disse: o valor de uma mercadoria é igual aos seus custos de produção. Mas quais são os custos de produção do trabalho? Para responder a esta pergunta, os economistas viram-se obrigados a torcer um pouco a lógica. Em vez dos custos de produção do próprio trabalho, que infelizmente não podem ser descobertos, eles investigam então os custos de produção do operário. E estes, sim, podem ser descobertos. Eles variam consoante o tempo e as circunstâncias, mas em dadas condições sociais, numa dada localidade, num dado ramo de produção eles estão igualmente dados, pelo menos dentro de limites bastante estreitos. Vivemos hoje sob o domínio da produção capitalista em que uma grande e sempre crescente classe da população só pode viver se trabalhar, a troco de um salário, para os proprietários dos meios de produção — das ferramentas, máquinas, matérias-primas, e meios de subsistência. Na base deste modo de produção, os custos de produção do operário consistem naquela soma de meios de subsistência ou do seu preço em dinheiro — que são, em média, necessários para o tornarem capaz de trabalhar, para o manterem capaz de trabalhar e para o substituírem por outro operário quando do seu afastamento por doença, velhice ou morte, para reproduzir, portanto, a classe operária na força necessária. Suponhamos que o preço em dinheiro desses meios de subsistência é, em média, 3 marcos por dia.

O nosso operário receberá, portanto, do capitalista que o empregou, um salário de três marcos por dia. Por este salário, o capitalista fá-lo trabalhar, digamos doze horas por dia. E esse capitalista faz os seus cálculos mais ou menos da seguinte maneira:
Suponhamos que o nosso operário — um ajustador — tem que fazer, num dia de trabalho, uma peça de máquina. A matéria-prima ferro e latão, já convenientemente trabalhados — custa vinte marcos. O consumo de carvão da máquina a vapor, o desgaste dessa mesma máquina a vapor, do torno e das outras ferramentas com que o nosso operário trabalha — calculados em relação a um dia e a um operário — representam, digamos, o valor de um marco. O salário de um dia é, segundo a nossa hipótese, de três marcos. No total, a nossa peça de máquina ficou por 24 marcos. Mas o capitalista espera receber em média 27 marcos dos clientes, isto é, três marcos a mais do que os custos que teve.

De onde vêm esses três marcos que o capitalista mete ao bolso? Segundo a afirmação da Economia clássica as mercadorias são vendidas, em média, pelo seu valor, isto é, a preços que correspondem à quantidade de trabalho necessário, contido nessas mercadorias. O preço médio da nossa peça de máquina — 27 marcos — seria portanto igual ao seu valor, igual ao trabalho que incorporado nela se encontra. Mas desses 27 marcos, 21 eram já valores existentes antes do nosso ajustador começar a trabalhar. Vinte marcos encontravam-se na matéria-prima, um marco no carvão consumido durante o fabrico, ou nas máquinas e ferramentas que nele foram utilizadas e diminuídas na sua capacidade de produção até ao valor desta soma. Ficam 6 marcos que se acrescentaram ao valor da matéria-prima. Mas esses 6 marcos, segundo a hipótese dos nossos economistas, só podem provir do trabalho acrescentado pelo nosso operário à matéria-prima. O seu trabalho de doze horas criou, portanto, um novo valor de 6 marcos. O valor do seu trabalho de doze horas seria, portanto, igual a seis marcos. Deste modo, teríamos finalmente descoberto o que é o “valor do trabalho”.

— Alto lá! — grita o nosso ajustador. — Seis marcos? Mas eu só recebi três! O meu capitalista jura a pés juntos que o valor do meu trabalho de doze horas é só de três marcos, e se eu lhe exigir seis, ele vai rir-se de mim. Como é isto arranjado?

Se anteriormente, com o nosso valor do trabalho, caíamos num círculo sem saída, agora é que estamos mesmo metidos numa contradição insolúvel. Procuramos o valor do trabalho e acabamos por encontrar mais do que precisávamos. Para o operário, o valor do seu trabalho de doze horas é de três marcos; para o capitalista, é de seis marcos, dos quais ele paga ao operário três como salário — e mete ele próprio os outros três no bolso. O trabalho teria portanto não um, mas dois valores, e ainda por cima bastante diferentes!

A contradição torna-se ainda mais absurda quando reduzimos a tempo de trabalho os valores expressos em dinheiro. Nas doze horas de trabalho é criado um novo valor de seis marcos. Portanto, em seis horas, três marcos — a soma que o operário recebe pelo trabalho de doze horas. Pelo trabalho de doze horas, o operário recebe o equivalente ao produto de seis horas de trabalho. Assim sendo, ou o trabalho tem dois valores em que um é o dobro do outro, ou então doze é igual a seis! Em qualquer dos casos revela-se um puro contra-senso.

E por mais voltas que lhe demos, não conseguimos sair desta contradição, enquanto falarmos da compra e da venda do trabalho, e do valor do trabalho. Foi o que aconteceu aos nossos economistas. O último rebento da Economia clássica, a escola de Ricardo, fracassou em grande parte na insolubilidade desta contradição. A Economia clássica metera-se num beco sem saída. O homem que encontrou a maneira de sair desse beco foi Karl Marx.

O que os economistas tinham considerado como custos de produção “do trabalho”, eram os custos de produção, não do trabalho, mas do próprio operário vivo. E o que o operário vendia ao capitalista não era o seu trabalho. “No momento em que começa realmente o seu trabalho — disse Marx — este deixa logo de lhe pertencer e o operário não poderá portanto vendê-lo.” Poderia, quando muito, vender o seu trabalho futuro, isto é, comprometer-se a executar um dado trabalho num tempo determinado. Mas então o operário não vende trabalho (que ainda teria de ter lugar); põe sim à disposição do capitalista a sua força de trabalho, a troco de um salário determinado, por um determinado tempo (se trabalha à jorna) ou para determinada tarefa (se trabalha à peça): ele aluga ou vende a sua força de trabalho. Mas essa força de trabalho faz um com a sua própria pessoa e é inseparável dela. Por conseguinte, os seus custos de produção coincidem com os custos de produção [do operário]; o que os economistas chamavam custos de produção do trabalho são precisamente os custos de produção do operário e, por isso, os da força de trabalho. E assim já podemos regressar dos custos de produção da força de trabalho ao valor da força de trabalho, e determinar a quantidade de trabalho socialmente necessário que é requerido para a produção de uma força de trabalho de determinada qualidade — como o fez Marx no capítulo da compra e venda da força de trabalho (O Capital, tomo 1, capítulo 4, secção 3).

Mas que se passa depois do operário ter vendido a sua força de trabalho ao capitalista, isto é, de a ter posto à sua disposição, a troco de um salário previamente combinado, salário à jorna ou à peça? O capitalista leva o operário para a sua oficina ou fábrica, onde já se encontram todos os objectos necessários ao trabalho: matérias-primas, matérias auxiliares (carvão, corantes, etc.), ferramentas, máquinas. Aí começa o labutar do operário. Seja o seu salário diário de três marcos como no caso acima — pouco importando que ele os ganhe à jorna ou à peça. Suponhamos novamente que o operário, em doze horas acrescenta às matérias-primas utilizadas com o seu trabalho um novo valor de seis marcos, novo valor que o capitalista realiza vendendo a peça uma vez pronta. Deste novo valor paga três marcos ao operário, mas guarda para si os outros três marcos. Ora, se o operário cria um valor de seis marcos em doze horas, em seis horas [criará] um valor de três. Portanto, ele já reembolsou o capitalista com o valor equivalente aos três marcos contidos no salário depois de trabalhar seis horas para ele. Ao fim de seis horas de trabalho ambos estão quites, não devem um centavo um ao outro.

— Alto lá! — grita agora o capitalista. — Aluguei o operário por um dia inteiro, por doze horas. Seis horas são só meio dia. Portanto, vamos lá continuar a trabalhar até fazer as outras seis horas — só nessa altura é que ficaremos quites. E com efeito, o operário tem que se submeter ao contrato aceite “de livre vontade”, segundo o qual se compromete a trabalhar doze horas inteiras por um produto de trabalho que custa seis horas de trabalho.

Com o trabalho à peça é exactamente a mesma coisa. Suponhamos que o nosso operário cria doze peças de mercadoria em doze horas, e que cada uma delas custa 2 marcos de carvão e de desgaste das máquinas, sendo vendida depois a 2 marcos e meio. Mantendo-se a mesma suposição que no caso anterior, o capitalista dará ao operário 25 pfennigs por peça, o que perfaz, pelas doze peças, três marcos para ganhar os quais o operário precisa de doze horas. O capitalista obtém 30 marcos pela venda das doze peças; descontando 24 marcos pela matéria-prima e pelo desgaste, sobram seis marcos, dos quais paga três de salário e guarda três. Exactamente como no caso anterior. Também aqui o operário trabalha seis horas para si, isto é, para repor o seu salário (meia hora em cada uma das doze horas) e seis horas para o capitalista.

A dificuldade em que fracassavam os melhores economistas, enquanto partiram do valor do “trabalho”, desaparece logo que, em vez disso, partimos do valor da “força de trabalho”. A força de trabalho é, na sociedade capitalista dos nossos dias, uma mercadoria como qualquer outra, mas, certamente, uma mercadoria muito especial. Com efeito, ela tem a propriedade especial de ser uma força criadora de valor, uma fonte de valor e, principalmente com um tratamento adequado, uma fonte de mais valor do que ela própria possui. No estado actual da produção, a força de trabalho humana não produz só num dia um valor maior do que ela própria possui e custa; com cada nova descoberta científica, com cada nova invenção técnica, este excedente do seu produto diário sobe acima dos seus custos diários, reduz-se portanto aquela parte do dia de trabalho em que o operário retira do seu trabalho o equivalente ao seu salário diário e alonga-se portanto, por outro lado, aquela parte do dia de trabalho em que ele tem de oferecer o seu trabalho ao capitalista sem ser pago por isso.

Tal é a constituição económica da nossa actual sociedade: é somente a classe trabalhadora que produz todos os valores. Pois o valor é apenas uma outra expressão para trabalho, aquela expressão pela qual se designa, na sociedade capitalista dos nossos dias, a quantidade de trabalho socialmente necessário incorporada a uma determinada mercadoria. Estes valores produzidos pelos operários não pertencem, porém, aos operários. Pertencem aos proprietários das matérias-primas, das máquinas e ferramentas e dos meios financeiros que permitem a estes proprietários comprar a força de trabalho da classe operária. De toda a massa de produtos criados pela classe operária, ela só recebe portanto uma parte. E, como acabamos de ver, a outra parte, que a classe capitalista conserva para si e que divide, quando muito, ainda com a classe dos proprietários fundiários, torna-se com cada nova descoberta ou invenção maior ainda, enquanto a parte que reverte para a classe operária (parte calculada por cabeça) ora aumenta, mas muito lentamente e de maneira insignificante, ora não sobe e, em certas circunstâncias, pode mesmo diminuir.

Mas essas invenções e descobertas que se sucedem e substituem cada vez mais rapidamente, esse rendimento do trabalho humano que aumenta diariamente em proporções nunca vistas, acabam por criar um conflito no qual a actual economia capitalista tem de soçobrar. De um lado, imensas riquezas e um excedente de produtos que os compradores não podem absorver. Do outro, a grande massa proletarizada da sociedade, transformada em operários assalariados e precisamente por esta razão incapacitada de se apropriar desse excedente de produtos. A cisão da sociedade numa pequena classe excessivamente rica e numa grande classe de operários assalariados não proprietários faz com que essa sociedade se asfixie no próprio excedente, enquanto a grande maioria dos seus membros dificilmente ou nunca está protegida da mais extrema miséria. Este estado de coisas torna-se dia a dia mais absurdo e mais desnecessário. Ele tem de ser eliminado, ele pode ser eliminado. É possível uma nova ordem social em que desaparecerão as actuais diferenças entre as classes e em que — após um período de transição, talvez curto e com certas privações, mas, em todo o caso, moralmente muito útil — por uma utilização e um crescimento planificados das imensas forças produtivas já existentes de todos os membros da sociedade, com trabalho obrigatório para todos, os meios de vida, do prazer de viver, de formação e exercício de todas as capacidades do corpo e do espírito estarão igualmente à disposição de todos e numa abundância sempre crescente. E que os operários estão cada vez mais decididos a conquistar esta nova ordem social, testemunhá-lo-á dos dois lados do Oceano o 1.o de Maio que amanhece e o Domingo, 3 de Maio.

Friedrich Engels
Londres, 30 de Abril de 1891.

Publicado em suplemento ao n.º 109 do quotidiano Vorwärts, de 13 de Maio de 1891, e na edição em opúsculo de Lohnarbeit und Kapital, de Karl Marx, Berlim, 1891.


sexta-feira, 24 de janeiro de 2020

França volta hoje a ser palco de greve geral contra reforma das pensões.!


França volta hoje a ser palco de greve geral contra reforma das pensões.

Depois de 51 dias de greve com cada vez maior apoio da restante população trabalhadora e obrigar o governo a recuar e manter a idade de aposentação aos 62 anos, o proletariado francês, volta à luta contra as restante medidas reaccionárias previstas no projecto sobre a reforma das pensões que é hoje apresentada no Conselho de Ministros


Em Portugal ao invés do exemplo de coragem transmitido pela luta ousada do proletariado francês e os vários governos capitalistas anteriores PSD/CDS e PS terem prolongado a idade da reforma para próximo dos 67 anos, rasgado por várias vezes a Lei Laboral ainda mais a favor do aprofundamento da exploração capitalista, a permanência de salários e reformas altamente miseráveis, continua-se a colaborar com os objectivos económicos e políticos da burguesia, em vez de se chamar à luta a VALER e não como até aqui a simulacros de luta bem limitados que estão na origem das várias derrotas impostas aos trabalhadores, impedindo que se consiga conquistar as reivindicações exigidas e defender os direitos laborais e sociais, discute-se as cedências sociais ditas de combate às desigualdades sociais, com que o governo procura comprar os grupos parlamentares à sua esquerda e as direções sindicais da CGTP e UGT, com o objectivo politico bem evidente de poder garantir a paz social necessária para poder aplicar o OE, que a UE e as associações patronais lhe determinaram.

Na medida em que tais grupos parlamentares e direcções sindicais colaborantes vêm demonstrando a cada dia da luta de classes o seu oportunismo e servilismo, apelamos à unidade e mobilização e vigilância dos trabalhadores para que a luta a reiniciar a 31 de Janeiro, não fique por aí como tem sido prática dos seus organizadores em situações anteriores, que se amplie, aprofunde e radicalize como condição necessária à conquista dos objectivos reivindicativos exigidos.





quinta-feira, 23 de janeiro de 2020

Augusto Bebel, Líder dos Operários Alemães.Por: J. V. Stálin

Que a vida, o espirito revolucionário e o ódio de classe à burguesia de Augusto Bebel, inspire a nossa classe proletária e em particular os operários mais conscientes. A Chispa!


Augusto Bebel, Líder dos Operários Alemães
J. V. Stálin
1910

Quem não conhece Bebel, o líder venerado dos operários alemães, o “simples” torneiro de outrora e o eminente homem político de hoje, aquele que, com a sua crítica, comparável a marteladas, fez várias vezes recuarem “cabeças coroadas” e cientistas diplomados, aquele que, com a palavra convincente, como a de um profeta, mantém desperta a atenção do proletariado da Alemanha, que conta milhões de homens?

A 22 de fevereiro deste ano completou ele setenta anos.

Nesse dia o proletariado militante de toda a Alemanha, o Bureau internacional socialista, os operários organizados de todos os países do mundo festejaram solenemente o septuagésimo aniversário do velho Bebel.

De que maneira Bebel tornou-se merecedor dessa honra, que fez pelo proletariado?

De que maneira saiu das camadas operárias inferiores, de que maneira pôde, de “simples” torneiro, transformar-se num grande combatente do proletariado mundial?

Qual é a história da sua vida?

Bebel passou a infância na miséria e nas privações. Tinha apenas três anos quando perdeu o pai, um pobre suboficial tuberculoso, único arrimo da família. Para dar um novo arrimo aos seus filhos, a mãe de Bebel casou-se de novo, desta vez com um carcereiro, e com os filhos passou da caserna, onde havia vivido até então, para o edifício da prisão.

Mas após três anos morre também o segundo marido. Ficando sem arrimo, a família transfere-se para a aldeia de origem, um rincão perdido no interior da província, onde leva uma existência de sofrimentos. Dada sua extrema indigência, Bebel é admitido na “escola dos pobres”, que frequenta com bons resultados até aos quatorze anos. Porém, no penúltimo ano do curso, uma nova desgraça o golpeia: perde a mãe, seu último apoio. Órfão de pai e mãe, abandonado a si mesmo, sem possibilidades de continuar os estudos, Bebel entra como aprendiz junto a um torneiro seu conhecido.

Começa para ele uma vida exaustiva, de forçado. Permanece na oficina das cinco da manhã às sete da noite. Os livros, a cuja leitura dedica todo o tempo livre, trazem algum derivativo à sua vida. Com os quatro soldos que percebe por semana levando todas as manhãs água à sua patroa, antes do trabalho, toma assinatura junto a uma biblioteca.

É evidente que a miséria e as privações não só não aniquilaram o jovem Bebel, não só não extinguiram nele a aspiração à luz, mas, pelo contrário, temperaram ainda mais a' sua vontade, aguçaram a sua sede de saber, fizeram surgir nele perguntas às quais procurava com avidez uma resposta nos livros.

Assim, na luta contra a necessidade formou-se o futuro incansável combatente pela emancipação do proletariado.

Aos dezoito anos Bebel termina o período de aprendizado e começa a sua vida de torneiro independente. Aos vinte anos participa já de uma reunião operária em Leipzig e ouve os discursos de operários socialistas. Foi a primeira reunião onde Bebel se encontrou face a face com oradores operários. Não é ainda socialista, simpatiza com os liberais, mas sente-se realmente feliz quando escuta as intervenções dos operários com espírito independente, inveja-os, arde do desejo de tornar-se também, como eles, um orador operário.

A partir de então uma nova vida começa para Bebel: ele já escolheu o seu caminho. Entra para as organizações operárias e aí trabalha intensamente. Bem depressa adquire influência e é eleito membro do comitê dos sindicatos operários. Enquanto trabalha nos sindicatos, luta contra os socialistas, está com os liberais, mas, justamente nessa luta, se convence pouco a pouco de que os socialistas têm razão.

Aos vinte e seis anos já é social-democrata. A notoriedade de Bebel cresce tão rapidamente que depois de um ano (em 1867) é eleito presidente do comitê dos sindicatos e primeiro deputado dos operários no parlamento.

Assim Bebel lutando e vencendo supera passo a passo os obstáculos que o circundam, sai por fim das camadas operárias inferiores para transformar-se num líder dos operários combatentes da Alemanha.

Já então fala abertamente a favor da social-democracia. Seu objetivo imediato é o de combater os liberais, de ajudar os operários a libertarem-se de sua influência, de unir os operários em seu partido operário social-democrata.

E atinge o seu objetivo no ano seguinte, em 1868, no Congresso de Nuremberg. Um hábil e impiedoso ataque de Bebel àquele congresso dá como resultado a derrota completa dos liberais, e sobre as ruínas do liberalismo nasce a social-democracia alemã.

A emancipação dos operários pode ser somente obra dos próprios operários, diz Bebel ao congresso, os operários devem por isso romper com o liberalismo burguês e unir-se num partido operário deles. E a imensa maioria do congresso, a despeito do grupinho dos liberais, repetiu depois dele as grandes palavras de Carlos Marx.

Para a sua completa emancipação, os operários de todos os países devem unir-se, diz Bebel; é preciso portanto aderir à Associação internacional dos operários; e a maioria do congresso repete depois dele as palavras do grande mestre.

Assim nasceu o Partido Social-Democrata da Alemanha. Foi Bebel quem deu a contribuição decisiva para o seu nascimento.

A partir de então a vida de Bebel funde-se com a vida do Partido, as suas dores e as suas alegrias fundem-se com as dores e as alegrias do Partido. O próprio Bebel torna-se o benjamim e o animador dos operários alemães, porque não é possível para os seus companheiros deixar de amar um homem que tanto se sacrificou para habilitar os operários a marcharem sozinhos, para libertá-los da tutela dos liberais burgueses e dar-lhes um verdadeiro partido operário.

O ano de 1870 submete o jovem partido à primeira prova. Tem início a guerra contra a França. O governo exige do parlamento, de que Bebel é membro, fundos para a guerra: é necessário pronunciar-se de maneira precisa pró ou contra a guerra. Bebel naturalmente compreende que a guerra só é vantajosa para os inimigos do proletariado; mas todas as camadas da sociedade na Alemanha, dos burgueses aos operários, estão tomadas de um falso ardor patriótico, e a recusa de dar dinheiro ao governo é chamada traição à pátria. Mas Bebel, sem de- ter-se diante dos preconceitos “patrióticos”, sem temer ir contra a corrente, declara em voz alta da tribuna parlamentar : eu, como socialista e republicano, não sou pela guerra, mas pela fraternidade entre os povos; não sou pelo ódio contra os operários franceses, mas pela sua união com os nossos operários alemães. Repreensões, escárnio, desprezo até da parte dos operários: tal a resposta ao corajoso discurso de Bebel. Fiel aos princípios do socialismo científico, Bebel não permite que nem sequer por um instante a bandeira se arrie até aos preconceitos de seus irmãos; pelo contrário, ele procura por todos os modos elevar esses seus irmãos à clara compreensão do caráter funesto da guerra. Em seguida os operários compreenderam o seu erro e amaram ainda mais o seu tenaz e forte Bebel. Em compensação, o governo premiou-o com dois anos de cárcere, onde ele, contudo, não perdeu tempo e escreveu o célebre livro A mulher e o socialismo.

O fim do decênio 1870-1880 submete o Partido a novas provas. O governo alemão, alarmado com o desenvolvimento da social-democracia, promulga as “leis de exceção contra os socialistas”, destrói as organizações do Partido e as sindicais, suprime sem exceção todos os jornais social-democratas, suprime a liberdade de reunião e de associação; o Partido Social-Democrata, ainda ontem legal, é jogado na ilegalidade. Com todas essas medidas, o governo queria provocar a social-democracia a ações prematuras, ruinosas, queria desmoralizá-la e destruí-la. Eram necessárias uma particular firmeza e uma perspicácia sem igual para não perder a cabeça, modificar a tempo a tática, adaptar-se com inteligência às novas condições. Muitos social-democratas deixaram-se apanhar nas redes da provocação e caíram no anarquismo. Outros de- gradaram-se totalmente e acabaram entre os liberais. Mas Bebel permaneceu sempre no seu posto, encorajando uns, moderando o ímpeto irracionável de outros, desmascarando o farisaísmo de outros mais e orientando com habilidade o Partido em direção ao caminho justo, sempre para a frente, só para a frente. Após dez anos o governo foi obrigado a ceder diante da força crescente do movimento operário e abrogou as “leis de exceção”. Ficou provado que a linha de Bebel era a única justa.

Nos últimos anos do século passado e nos primeiros de 1900 o Partido teve de superar ainda uma prova. Encorajados pela ascensão industrial e pela relativa facilidade das vitórias econômicas, os elementos moderados da social-democracia começaram a negar a necessidade de uma luta de classes implacável e da revolução socialista. Não é a intransigência o de que precisamos, nem a revolução, diziam eles, mas a colaboração de classes; devemos pôr-nos de acordo com a burguesia e com o governo para melhorar, juntamente com eles, a ordem social existente: votemos pois a favor do orçamento do governo burguês, participemos do governo burguês existente. Com essas afirmativas, os moderados minavam as bases do socialismo científico, a tática revolucionária da social-democracia. Bebel compreendeu todo o perigo da situação e, juntamente com outros chefes do Partido, declarou uma guerra implacável aos moderados. No Congresso de Dresden (1903) bateu em toda a linha Bernstein e Vollmar, chefes dos moderados alemães, proclamando a necessidade dos métodos revolucionários de luta. E no ano seguinte, em Amsterdam, diante dos socialistas de todos os países, derrotou Jean Jaurès, chefe internacional dos moderados, proclamando mais uma vez a necessidade de uma luta implacável. A partir de então, não deu trégua aos “inimigos moderados do Partido” infligindo-lhes uma derrota após outra em Iena (1905), em Nuremberg (1908). Com isso conseguiu que o Partido saísse da luta intestina unido e forte, extraordinariamente consolidado, desmesuradamente desenvolvido; e de tudo isso o Partido é devedor sobretudo a Augusto Bebel...

Mas Bebel não se contenta com uma atividade desenvolvida unicamente no âmbito do Partido. Os poderosos discursos no parlamento alemão, com os quais flagela os nobres corruptos, arranca a máscara aos liberais e expõe ao vitupério o “governo imperial”, sua longa atividade nos sindicatos: tudo isso nos diz que Bebel, sentinela fiel do proletariado, encontrava-se por onde quer que fervesse a luta, onde era necessária a sua impetuosa energia proletária.

Eis por que os socialistas alemães e de todo o mundo têm por Bebel uma tão grande veneração.

Por certo, Bebel também cometeu erros — e quem não os comete? (só os mortos não se enganam) — mas todos os pequenos erros empalidecem diante dos grandes serviços prestados ao Partido, o qual hoje, após quarenta e dois anos sob a direção de Bebel, conta mais de 600.000 membros inscritos, tem quase dois milhões de operários organizados nos sindicatos, goza da confiança de 3 a 4 milhões de eleitores e a um sinal seu faz baixar às ruas centenas de milhares de prussianos.

E é significativo que as solenes manifestações de apreço a Bebel recaiam justamente nos dias em que a potência da social-democracia alemã se manifesta da maneira mais evidente, nos dias em que se desenvolvem, incomparavelmente bem organizadas, as grandes demonstrações em prol do sufrágio universal na Prússia.

Bebel tem pleno direito a dizer que não trabalhou em vão.

Esta é a vida, a atividade do velho Bebel. Ele é muito velho de anos, sim, mas muito jovem de espírito e, como sempre, está firme no seu posto, na expectativa de novas batalhas, de novas vitórias.

Somente no seio do proletariado combatente podia nascer um Bebel, este homem cheio de vida, eternamente jovem, sempre projetando-se para a frente, como se projeta para a frente o próprio proletariado. Somente a teoria do socialismo científico podia oferecer amplo campo de atividade à natureza ardente de Bebel, propensa incansavelmente à destruição do velho, apodrecido mundo capitalista.

A vida e a atividade de Bebel são um testemunho da força e da invencibilidade do proletariado, da inelutabilidade da vitória do socialismo...

Enviemos pois a nossa saudação, camaradas, ao nosso caro mestre, o torneiro Augusto Bebel!

Sirva ele de exemplo a nós, operários russos, que temos particularmente necessidade de outros Bebel em nosso movimento operário.

Viva Bebel!

Viva a social-democracia internacional!*

O Comitê de Baku do P.O.S.D.R

*Para que não se estabeleça qualquer confusão com a social democracia reformista e liberal de hoje, os antigos partidos operários denominavam-se social-democratas  e eram revolucionários.


quarta-feira, 22 de janeiro de 2020

O que é que "se puede" ?

A semelhança com a realidade portuguesa não é mera coincidência, mas o resultado das mesmas politicas reacionárias pró-imperialistas impostas pela UE/BCE/FMI com o acordo dos vários governos capitalistas de ambos os países. A Chispa!

por Ángeles Maestro [*]

O que é que "se puede" ?

– O que se pode esperar do novo governo espanhol e como actuar em consequência

Após o recente espectáculo do debate da posse, na qual as três extrema direitas capitaneadas pela VOX acenaram com o espantalho mais rançoso do franquismo, a reacção esperada de boa parte do público foi a de suspiro de alívio diante do risco de ser governada por tais energúmenos.

Provavelmente essa será a melhor prenda que a VOX fez ao novo governo: uma espécie de 23F preventivo. Um calafrio carregado de recordações sinistras que tinha a virtude – para os novos coligados – de paralisar qualquer pensamento crítico.

Uma vez apagados os focos e calados os gritos, a realidade obcecada torna a impor-se na vida quotidiana dos milhões de pessoas que nunca saíram da crise.

Os dados mais recentes do Indicador Europeu de Pobreza e Exclusão Social (2019) mostram que a miséria extrema se estende no Estado espanhol, que é a maior nos últimos três anos e que afecta 12 milhões de pessoas, a quarta parte da população [1] . Além disso, mais da metade da população não chega ao fim do mês, não compra regularmente carne ou peixe ou não pode ligar a calefacção. Esta situação não é exclusiva das pessoas desempregadas, mas abrange aqueles que trabalham em condições de precariedade (que são a imensa maioria) ou recebem pensões míseras (nove milhões de pessoas).

Se a isto acrescentarmos a situação das listas de espera na saúde pública, que levam milhares de pessoas a uma morte perfeitamente evitável, a degradação permanente do ensino, a exclusão de filhas e filhos da classe operária do ensino superior ou a clamorosa insuficiência dos serviços sociais, teremos um panorama que se pode qualificar de emergência social, em sentido estrito.

O recrudescimento da luta de classes pode ser apreciado em toda a sua dimensão quando se relacionam estes dados:
A criação de riqueza pela classe operária cresceu de forma importante: 200 mil milhões de euros entre 2014 e 2019 [2] .

Os lucros empresariais, segundo dados do Banco de Espanha para 2018, revelam um aumento de 60% [3] e que isto vem acontecendo de forma constante nos últimos seis anos.

Neste mesmo período os salários aumentaram nominalmente uns míseros 1,5%, que em termos reais implicou uma perda da capacidade aquisitiva de 133 euros por ano [4] .

E esta situação de emergência social, de sobre-exploração escandalosa e de aumento desmesurado das desigualdades sociais, como o governo pretende coibi-la? Não há qualquer proposta minimamente séria; alguns panos quentes e muito pequenos.

Suas palavras não deixam dúvidas. O pacto PSOE—Podemos está assente estritamente sobre os limites impostos pela UE sobre redução do défice e da dívida, tal como assinalou Pedro Sánchez após o abraço que abriu as portas ao governo de coligação. As ameaças da Comissão Europeia continuam a ressoar com força e a alertar sobre os reiterados incumprimentos em matéria de redução do défice e da dívida e sobre a necessidade de adoptar "nova medidas compensatórias" para assegurar a sustentabilidade das pensões [5] .

No dia 1 de Janeiro de 2020 entraram em vigor os artigos 11 e 13 da Lei 2/2012 de Estabilidade Orçamental [6] que obrigam todas as administrações públicas a tornar efectiva a redução da dívida para 60% do PIB – no caso do Estado espanhol atinge 500 mil milhões de euros – e a reduzir o desequilíbrio orçamental em mais de 25 mil milhões de euros.

O artigo 11.2 estabelece taxativamente: "Nenhuma Administração Púlica poderá incorrer em défice estrutural" e entende como administrações públicas o Estado, as Comunidades Autónomas, as municipalidades e a Segurança Social.

A Lei, que desenvolve tanto o Tratado de Estabilidade da Zona Euro (2013) como a reforma do artigo 135 de Constituição, proposta pelo governo Zapatero e aprovada em Agosto de 2011 pelo PSOE, PP e UN, obriga a tornar efectiva a prioridade absoluta ao pagamento dos vencimentos de capital mais juros. A cada ano dedica-se para tal efeito quase a metade dos orçamentos gerais do Estado, mais do triplo do gasto de toda a saúde pública. E este escandaloso montante é pago aos grandes bancos, em virtude de uma dívida contraída mediante a cessão maciça de dinheiro público precisamente a esses mesmos bancos que, como se recorda, recusaram-se a devolvê-lo, sem que o governo actual ou os anteriores tenham movido um dedo para impedi-lo.

Como tem alertado a Red Roja [7] desde que foram aprovadas estas normas, este quadro legislativo anula a soberania efectiva de qualquer governo estatal, autonómico ou municipal que não se atreva a enfrentá-lo. E não são palavras. A Lei 2/2012 estabelece graves e progressivas sanções pelos incumprimentos nas reduções de défice e dívida. O artigo 26.1, "Medidas de cumprimento forçoso" [8] , estabelece que em caso de incumprimentos reiterados da parte de governos autonómicos será aplicada ao infractor o famoso artigo 155 da Constituição. Às corporações locais rebeldes será aplicado artigo 61 da Lei de Regime Local que prevê a dissolução dos seus órgãos de governo... "por grave incumprimento das suas obrigações constitucionais", ou seja, do artigo 135 da Constituição.

Alguém ouviu falar de tudo isto nos programas eleitorais ou no debate da posse? Aqueles que falam dos famosos 100 dias de graça do novo governo por acaso perguntam como se compatibilizarão os aumentos prometidos da despesa social com estas medidas férreas que foram propostas e aprovadas pelo PSOE e que estão em vigor desde 1 de Janeiro? Aqueles que nas bancadas do Podemos e da Izquierda Unida, ou na porta do Congresso, gritavam em lágrimas: "Si, se puede", a que é que se referiam? Sim, se pode, mas o que?

Aqueles que ganharam pastas ministeriais ou altos cargos estão perfeitamente conscientes de que seu "relato" é mero ilusionismo e, portanto, a negação em essência de qualquer "transparência". Quando os enviados da famosa Troika (UE, BCE e FMI), os "homens de negro", encarregados de controlar as contas de todas as administrações públicas exibirem seu poder – ameaças, chantagens ou subornos – e mostrem o que vale a suposta "soberania popular" será mudada rapidamente a ilusão do "Sim, se pode" pelo "Não se podia fazer outra coisa".

É indispensável não esquecer que os ventos da recessão galopam e que sempre, desde os Pactos de Moncloa, as crises são o argumento reiterado para retrocessos sem fim em direitos e liberdades, que sistematicamente não se recuperam.

E essa é a grande vigarice, a do Syriza na Grécia ou a que aqui se prepara.

Mas se já sabemos o que nos espera, o que sim se pode e é urgente é preparar as lutas operárias e populares para enfrentar os mandatos da Troika e impor um objectivo tão humano e tão de bom senso como o de que as necessidades vitais das pessoas são – essas sim – prioridade absoluta, frente ao pagamento à grande banca, outra vez, do que já nos roubaram.

Esta é a nossa tarefa. Aqueles que ocupam cargos no governo e vão comprovar a margem estreitíssima que lhes concedem os poderes reais têm a possibilidade de abandonar miragens e ocupar o seu lugar na dura batalha que se vislumbra. O que não se pode tolerar é que, no altar da governabilidade, utilizem o pequeno poder que alcançaram, que não lhes serve para enfrentar os poderes reais, mas que podem utilizar para tentar debilitar, confundir e dividir o movimento popular. E essas manobras já emergiram no movimento de pensionistas, quando os novos altos cargos ainda não tiveram tempo de aquecer a poltrona, com o objectivo de abortar o apoio em todos os territórios do Estado à Greve Geral convocada para 30 de Janeiro no País Vasco, em defesa das pensões públicas.

Estas artimanhas repetem-se a cada governo "progressista" desde a Transição [do franquismo]. O bom de haver assistido a tantas "ilusões" é que sabemos o enredo do filme e não vamos aguardar impassíveis que os grandes poderes cumpram seus objectivos em duplicado: porque suas medidas contra a classe operária se fazem efectivas e porque destroçam as organizações populares.

18/Janeiro/2020

[1] www.eapn.es/estadodepobreza/
[2] datosmacro.expansion.com/pib/espana
[3] www.rtve.es/...
[4] www.lavanguardia.com/...
[5] elpais.com/economia/2019/11/19/actualidad/1574199971_155779.html
[6} www.boe.es/buscar/act.php?id=BOE-A-2012-5730&tn=1&p=20150613
[7] Um relatório pormenorizado sobre este quadro legislativo e em especial sobre a Lei Orgânica 2/2012 pode ser consultado em redroja.net/...
[8] Ibid. www.boe.es/buscar/act.php?id=BOE-A-2012-5730&tn=1&p=20150613


[*] Médica, dirigente da Red Roja.

O original encontra-se em diario-octubre.com/2020/01/18/angeles-maestro-si-se-puede-que/

Este artigo encontra-se em https://resistir.info/