domingo, 12 de fevereiro de 2017

O ultra-oportunismo que hoje domina no PCP há várias décadas que percorre o seu caminho! -A Traição Revisionista de 1956. História do PCP

 Francisco Martins Rodrigues  antigo membro do CC do PCP já falecido, foi o principal responsável pelo corte com o revisionismo e pela reconstrução do movimento marxista –leninista na década de 1960.Mais tarde, a partir da década de 1980 até ao fim da sua vida, também ele acaba por considerar a revolução bolchevique, como uma "Revolução que não pode ser Socialista", renegar Stalin e a edificação socialista na ex-União Soviética - A Chispa!

Por:Francisco Martins Rodrigues
24 de Janeiro de 1979

 A degeneração revisionista do antigo PCP, como em tantos outros países, foi impulsionada pelo XX Congresso do PC da União Soviética. Mas poderia ter sido evitada. A principal responsabilidade pela transformação do PCP num partido de reformas, num partido burguês para operários, cabe aos seus dirigentes da época. Eles renegaram conscientemente o marxismo-leninismo, escolheram de livre vontade o caminho do revisionismo. E fizeram-no através dum verdadeiro golpe, à traição. Esse golpe, que a camarilha de Cunhal procura manter oculto dos seus militantes e da classe operária, deve ser constantemente denunciado. Lembremos os factos.

A VI Reunião Ampliada do CC

A ofensiva dos direitistas da direcção do PCP começou ainda antes do XX Congresso. Desde a morte de Staline, vinham da União Soviética sintomas duma viragem política. Em Maio de 1955, a viagem de surpresa de Kruchov a Belgrado, onde se reconciliou com Tito, pôs os oportunistasportugueses em grande agitação. Não os chocava a reabilitação do maior renegado até então surgido no movimento comunista internacional. Pelo contrário, sentiam-se livres dum grande peso. Começaram a reclamar a mudança da política do PCP, para acompanhar as “rectificações” de Kruchov. Surgiram è cabeça deste movimento, Vilarigues, Pires Jorge, Fogaça, Pato, Pedro Soares.

Invocando a “saúde preciosa” do camarada José Gregório (que sofria de grave doença cardíaca), afastaram-no não só da actividade prática de direcção, como da orientação política, em que a sua contribuição era insubstituível. Assim foi posto à margem o dirigente que como nenhum outro dera provas de firmeza e vigilância proletário-revolucionária.

A VI Reunião Ampliada do CC, realizada em fins de 1955, foi orientada contra o sectarismo e o dogmatismo. Os informes de Vilarigues e Pires Jorge fizeram uma crítica cerrada à actividade do Partido desde 1949 (data em que o camarada Gregório tomara a cabeça do secretariado, após a prisão de Cunhal e Militão). Anunciaram uma rectificação e uma viragem na actividade do Partido. Mas que espécie de rectificação e de viragem?

O Partido cometera efectivamente, no período anterior, certos erros de rigidez: tinha-se subestimado o aproveitamento de possibilidades legais; tinham-se aplicado algumas sanções disciplinares demasiado severas; tinha-se permitido o isolamento sectário de muitas células em relação às massas; tinha-se criado um clima de insuficiente debate nos comités do Partido; tinham-se feito alguns ataques precipitados a aliados vacilantes, em vez de procurar atraí-los.

Mas o que os críticos não disseram é que esses erros tinham surgido nas difíceis condições dum ataque policial contra o Partido como nunca houvera memória; nem disseram que o secretariado sob a direcção do camarada José Gregório defendera o Partido do perigo de desarticulação, cortando com todas as manifestações de pânico e capitulação; que o Partido reagira corajosamente a uma histérica campanha anticomunista fomentada pela NATO, campanha a que tinham aderido muitos políticos liberais; que o Partido encabeçara audaciosamente a criação do MND, Movimento Nacional Democrático, quando os políticos liberais dissolveram o MUD; que os erros, cometidos sobretudo no período mais duro de 1949-52, já tinham começado a ser corrigidos a partir de 1953.

Em resumo, não se disse que a orientação do Partido desde 1949 fora no essencial positiva e devia ser prosseguida. As críticas na VI Reunião Ampliada do CC ao sectarismo e ao dogmatismo tiveram como objectivo usar alguns erros na aplicação da linha do Partido como cobertura para atacar essa mesma linha. O que os direitistas do Comité Central pretendiam, como depois se verificou, era acabar com o MND e estender a mão aos políticos liberais mais direitistas; era suspender a luta contra o oportunismo de Fogaça e Cª, considerando-a uma atitude “sectária”; era retirar da circulação o Projecto de Programa, que apontava o caminho da Revolução Democrático-Popular e criticava a burguesia liberal; era finalmente desconsiderar a figura de revolucionário de José Gregório e promover os oportunistas como “marxistas-leninistas criadores”.

O XX Congresso veio dar um enorme impulso a estes projectos direitistas. Em Fevereiro de 1956, na tribuna do XX Congresso do PCUS, o traidorKruchov, sem prévia consulta ou informação ao movimento comunista internacional, fez aprovar as suas teses “inovadoras”: nas novas condições históricas, teria surgido a possibilidade de passagem pacífica ao socialismo, pela conquista da maioria no parlamento burguês; Staline agira como um tirano e falseara o poder soviético pelo “culto da personalidade”; a linha geral da política externa da URSS passaria a centrar-se na coexistência pacífica, na edificação dum mundo sem guerras, mesmo com a existência do imperialismo; os social-democratas deviam ser recuperados como parte do movimento revolucionário através duma política de unidade.

Isto era a mais monstruosa revisão do marxismo-leninismo em todas as suas bases essenciais: a conquista do poder, a ditadura do proletariado, o internacionalismo proletário, o papel dirigente do Partido Comunista, a luta contra o oportunismo. O desencadeamento desta grande traição colocava a cada partido comunista a obrigação de defender o marxismo-leninismo e levantar-se contra o revisionismo. Mas a direcção do PCP fracassou miseravelmente neste seu dever.


Para a situação concreta dos dois países da Península Ibérica, a clique de Kruchov traçara uma linha de orientação de acordo com os seus projectos de reconciliação com o imperialismo: o PCP e o PCE deveriam não só adoptar a linha da passagem pacífica ao socialismo (linha que foi imposta aos partidos de todo o mundo), mas, mais do que isso, deveriam admitir a possibilidade de afastar pacificamente as respectivas ditaduras fascistas. Assim Kruchov queria demonstrar a sua boa vontade para com a burguesia imperialista dos Estados Unidos e Europa, garantindo-lhe que se oporia a qualquer insurreição popular antifascista na Península.

Ali mesmo em Moscovo, após a conclusão do XX Congresso, a delegação do PCP foi “aconselhada” a reunir-se de imediato com a delegação do PCE para aprovarem em conjunto um documento nesse sentido. Kruchov queria prevenir-se contra qualquer resistência à traição e colocar os dois partidos perante o facto consumado. Além disso, para ter garantias de que o golpe não falharia, criou um sistema de “responsáveis regionais” que colocava a direcção do PCP sob o controle da clique de Carrillo—lbarruri, dirigente do PCE. Assim se espezinhava a independência dos partidos, enquanto, para desviar as atenções, se lançavam campanhas contra “as práticas nefastas do culto da personalidade” e o “dogmatismo stalinista”…
Tudo foi feito como Kruchov e Suslov ordenaram. As delegações do PCP e PCE, reunidas em Moscovo, em Março, assinaram uma declaração conjunta, na qual apoiavam incondicionalmente as novas teses do XX Congresso e previam a possibilidade duma solução pacífica para afastar as ditaduras sangrentas de Franco e Salazar, para o que se declaravam dispostos a “acabar com o espírito de guerra civil” e trabalhar pela “reconciliação nacional”.

Assim, a delegação do PCP assinou uma declaração que envolvia:
a.           a revisão dos princípios do marxismo-leninismo;
b.           o compromisso de não lutar pelo derrubamento da ditadura fascista;
c.           a subordinação aos dirigentes de outros partidos.

E tudo isto sem sequer ouvir o Comité Central do Partido! Estava consumado o golpe revisionista contra o Partido Comunista Português. Esse golpe seria completado um mês depois pela traição do próprio Comité Central.

Em Abril-Maio de 1956, o Comité Central do PCP reuniu-se para debater as teses do XX Congresso do PCUS. Como vimos, o golpe de Kruchovcolocava o CC sob a chantagem duma declaração comum já assinada em Moscovo pela sua delegação e pela delegação do PCE, aprovando incondicionalmente a via revisionista traçada no XX Congresso. A situação era difícil para os dirigentes do PCP. Isto contudo não os impedia de repudiar a chantagem, denunciar a traição, apelar ao Partido e à classe operária para a defesa do marxismo-leninismo e da revolução. Foi esse o caminho escolhido, por exemplo, pelos dirigentes do PTA, em condições bem mais difíceis. Mas os dirigentes do PCP revelaram que não tinham amor aos princípios, nem coragem de comunistas, nem o sentido das obrigações para com a classe operária e para com o movimento comunista internacional. Escolheram o caminho mais fácil, o caminho da submissão ao golpe revisionista soviético.
O CC do PCP adoptou uma Declaração (Maio de 1956) aprovando o XX Congresso e anunciando que se tornava doravante possível o afastamento da ditadura de Salazar por meios pacíficos. Como tarefa política central do Partido colocava-se a concorrência às eleições-burla para deputados, marcadas para Outubro do ano seguinte. Com esta declaração do CC, abriu-se na vida do PCP um período que ficou conhecido sob o nome de “período do desvio de direita” (1956-1959), mas que foi na realidade o da destruição revisionista do velho PCP.
Júlio Fogaça e Pedro Soares, dois direitistas de velha data, apresentaram-se na reunião do CC com uma plataforma organizada. Numa proposta em 12 pontos subscrita por ambos, onde não havia uma única palavra sobre luta de massas, defendiam: em vez do derrubamento da ditadura fascista “reclamar a saída de Salazar” (1º); “lançar o peso principal contra os fascistas destacados e não insistir em certos nomes para não dificultar a unidade” (4º); “fazer um trabalho de desligação de certas camadas militares e aprofundar a desagregação nas forças repressivas” (7º); “desligar do salazarismo os fascistas descontentes” (8º); “estabelecer acordos com os legionários” (10º). Assim, os oportunistas, obrigados durante anos a esconder as suas ideias políticas, revelavam agora, animados pelo XX Congresso, aquilo que verdadeiramente queriam: um acordo com a burguesia para liberalizar o regime.

Os dirigentes revisionistas do PCP alegaram mais tarde que a plataforma ultra-oportunista de Fogaça e Soares não fora aprovada pelo CC. Com isto tentaram esconder duas coisas: primeiro, que a política defendida pelos dois renegados foi efectivamente praticada pelo CC a partir de 1956. E sobretudo, que a reunião do CC de Abril-Maio de 1956, ao aprovar o XX Congresso e o afastamento pacífico de Salazar, constitui por si só a traição ao marxismo-leninismo, ao movimento comunista internacional e à classe operária portuguesa. O CC não tinha poderes para aprovar tais posições. Perante o acto sem precedentes da direcção soviética, o CC do PCP tinha por estrita obrigação convocar um Congresso do Partido, precedido de amplo debate, para desmascarar as teses revisionistas e decidir soberanamente a linha do Partido.

Lançando pela borda fora a meta da insurreição popular antifascista, pela qual tantos comunistas portugueses se tinham batido e sacrificado a vida; admitindo que se manchasse o nome de Staline, o dirigente do proletariado mundial depois de Lenine; adoptando as teses da “coexistência pacífica”, de capitulação perante o imperialismo norte-americano — os dirigentes do PCP trocaram nesse momento o campo do proletariado e da revolução pelo campo da burguesia. É útil recordá-lo àqueles que ainda hoje, mais de vinte anos passados, se mantêm no PCP à espera da “recuperação” de tais dirigentes.

A submissão do Comité Central do PCP ao golpe revisionista forjado em Moscovo foi possível porque nesta época já a maioria dos seus membros estavam em posições francamente direitistas. Defensores da política oportunista de Cunhal no período de 1945-49, tinham disfarçado as suas verdadeiras convicções nos anos seguintes, quando o Partido, sob a orientação do camarada José Gregório, lutara contra o oportunismo de direita, integrado na campanha internacional conduzida por Staline contra o revisionismo titista. Agora que Staline desaparecera e que o XX Congresso o renegava, esses elementos direitistas pronunciavam-se com energia pelo fim do “dogmatismo” e do “sectarismo”. Não queriam nunca mais sentir-se sob a canga duma política de princípios marxista-leninista. Reclamavam plena liberdade para as suas tendências de conciliação com a burguesia, que baptizavam de “marxismo criador”.

Nesta forte corrente oportunista de direita que dominava o Comité Central, destacavam-se Júlio Fogaça, Sérgio Vilarigues, Pires Jorge, Octávio Pato, Cândida Ventura, Pedro Soares, Blanqui Teixeira, Alexandre Castanheira, Guilherme Carvalho. A este conjunto haveria que somar as “reservas” direitistas que se encontravam nas cadeias nesse ano de 1956, tendo à cabeça, naturalmente, o renegado Álvaro Cunhal. Embora temporariamente afastados da actividade, estavam prontos a desempenhar um papel activo na “viragem” que se preparava para o Partido.

É verdade que nem todo o Comité Central partilhava destes pontos de vista. Um certo número de elementos, sobretudo alguns antigos operários, como Dias Lourenço, Jaime Serra, Manuel da Silva (e, entre os presos, Francisco Miguel e Américo de Sousa), não manifestavam satisfação pelo XX Congresso e punham reservas à nova linha pacífica; conservavam a admiração por Staline, um certo reflexo de resistência contra a burguesia e o oportunismo de direita. Mas estes elementos demonstraram não ter nenhuma firmeza de princípios. Eram praticistas incorrigíveis sem uma base ideológica séria. Levantavam algumas dúvidas mas não se atreviam a bater-se em torno de posições claras. O movimento contra a direita conduzido pelo camarada José Gregório em 1949-1954, não tendo chegado a assumir a envergadura de uma autêntica luta pelos princípios dentro do PCP, não desencadeara plenamente as forças revolucionárias do Partido, não acabara com as tradições de conciliação e de fuga praticista às questões fundamentais da linha do Partido.

Perante a autoridade do XX Congresso e da União Soviética, perante a ofensiva dos direitistas, que condenavam toda a actividade do Partido nos anos de 1949-54 como “sectária” e “dogmática”, esses elementos vacilantes foram recuando de concessão em concessão. Receosos de ser atacados como “esquerdistas”, acabaram por seguir a corrente, habituar-se ao oportunismo e tornar-se eles próprios elementos dos mais activos no desmantelamento ideológico do velho PCP, na traição revisionista.

Assim, o Comité Central do PCP, depois de aprovar a Declaração pacífica de 1956, enveredou sem conflitos de maior pela via revisionista. Com poucas alterações, os dirigentes de então foram promotores e cúmplices nessa grande traição ao proletariado e aos comunistas portugueses, ao movimento comunista internacional, ao marxismo-leninismo, são hoje ainda os componentes da camarilha revisionista de Cunhal. Tentando apagar os vestígios do crime cometido, falar o menos possível dos acontecimentos de 1956 e procuram fazer crer que o falso PCP actual é idêntico ao velho PCP comunista e revolucionário que desapareceu em 1956. Cabe-nos a nós pormos a nu a realidade desse golpe revisionista.

Depois da reunião de Maio de 1956, o Comité Central não convocou um congresso, uma reunião ampliada, ou sequer conferências regionais para debater e justificar a nova linha. Questões vitais que punham em causa a fidelidade ao marxismo-leninismo, como a “passagem pacífica ao socialismo”, a cooperação URSS-EUA, a liquidação política de Staline, a reabilitação de Tito, o “afastamento pacífico de Salazar”, foram apresentadas como ajustamentos tácticos sem gravidade de maior. Evitou-se um ataque demasiado brutal a Staline e garantiu-se aos militantes que o relatório secreto de Kruchov, divulgado pelas agências burguesas, era uma “invenção imperialista”. Disse-se que Tito fora vítima das “maquinações de Béria” e que eram falsas as acusações contra ele.
O argumento central dos dirigentes revisionistas para fazer aceitar a nova linha era:
“A correlação de forças entre o campo socialista e o imperialista inverteu-se. A superioridade do campo revolucionário cresce aceleradamente, o imperialismo desagrega-se, todas as tendências se dirigem para o socialismo. Se soubermos ser hábeis, atrairemos o resto das forças hesitantes para o nosso lado e obteremos grandes vitórias a curto prazo”.

Isto paralisou muitas dúvidas e objecções enquanto não se verificou que era uma burla. O prestígio da União Soviética, graças à política deStaline, tornara-se indiscutível. Toda a gente se habituara à ideia de que os soviéticos não falavam no ar. Até o fascista Salazar se iludiu e, nesse mesmo mês de Maio, num dos seus discursos ultra-reaccionários, veio alertar o Ocidente para o perigo de se deixar submergir pela política da coexistência pacífica.

Naturalmente, não deixou de haver resistência e protestos em amplos sectores do Partido. A questão Staline, sobretudo, era a mais dura de engolir. Qualquer militante operário admitia que Staline pudesse ter cometido erros na repressão dos contra-revolucionários. Mas não lhe entrava na cabeça o ataque em toda a linha àquele que fora durante trinta anos o dirigente supremo da URSS e do movimento comunista, o chefe do povo soviético no esmagamento do nazismo, o continuador de Lenine. Sentiam com razão que isto era renegar a revolução, era fazer coro com o inimigo de classe.

E depois, o que se vinha oferecer em substituição do tal “culto da personalidade de Staline”? As novas perspectivas de resolver tudo por meios pacíficos eram recebidas com chacota por muitos militantes: “Como é que nos querem convencer que os fascistas alguma vez sairão a bem? Agora passamos a ser cristãos?” A contra-revolução na Hungria, em Novembro desse ano, despertou uma onda de alarme e levou muitos trabalhadores a dizer: “Aí está o resultado da linha pacífica”. E a conivência descarada de Tito com os contra-revolucíonários húngaros levou a dizer que “afinal eraStaline quem tinha razão quando declarou o Tito como traidor”.

Na base operária do Partido havia descontentamento com o desarmamento ideológico do Partido que se acentuava. Os dirigentes já não apareciam a estimular a intransigência, a vigilância de classe, o ardor. Apaziguavam o entusiasmo revolucionário, semeavam o liberalismo, lançavam ilusões num futuro fácil, apagavam a autoridade do Partido, faziam elogios “imparciais” a políticos burgueses, à cultura burguesa, etc. Muitos militantes sentiam que a natureza revolucionária de classe do Partido era posta em causa com essas “aberturas”.

Ao mesmo tempo, noutros sectores do Partido, sobretudo intelectuais, as “revelações” do XX Congresso e a linha pacífica causaram um abalo de natureza diferente. Esses aplaudiram a condenação dos “crimes”, do “dogmatismo”, do “burocratismo”, porque tudo isso contribuía para tirar ao Partido o rigor revolucionário que os incomodava e criava um clima em que se sentiam mais à vontade: um clima em que se esbatia o confronto com a burguesia e o imperialismo, se exigia menos e havia mais promessas de êxitos fáceis. Esses formaram a base de apoio do revisionismo.

Na reunião de Maio de 1956, os dirigentes do PCP, ao mesmo tempo que adoptaram a linha revisionista do XX Congresso e se voltaram para o caminho do “afastamento pacífico de Salazar”, lançaram uma grande campanha a que chamaram “correcção do dogmatismo” na vida interna do Partido. Os dirigentes apelavam a todo o momento “que se abram todas as bocas”, “que ninguém guarde as suas críticas”, “precisamos da ajuda de todo o Partido para corrigir os erros”, “acabemos com as práticas do culto da personalidade”, etc. No “Militante” começaram a publicar-se colaborações de membros do Partido expondo diversos pontos de vista.
Como se explica que a traição dos dirigentes revisionistas tenha sido acompanhada desta paixão “democrática”, que de resto não foi caso isolado no nosso país?
A campanha “democrática” nas fileiras do Partido foi, nas mãos dos dirigentes revisionistas, uma manobra de diversão destinada a amolecer, confundir e paralisar a possível resistência dos militantes ao abandono da linha revolucionária.

Os estribilhos da “democracia” e da “descentralização” serviram nessa altura em todos os partidos comunistas para assegurar aos revisionistas a conquista integral do aparelho do Partido e a liquidação das resistências de esquerda. Classificando de “culto da personalidade” as tradições de centralismo e disciplina, desacreditava-se o passado revolucionário dos partidos, criava-se um clima de tolerância e de falta de vigilância propício a todas as “inovações” revisionistas, conquistava-se a popularidade junto dos militantes mais atrasados, das camadas intelectuais e estudantis do Partido, embriagando-as com o sentimento da sua “autonomia” e “liberdade”.

Naturalmente, esta “democracia” funcionava só para um lado. Todas as vozes que se levantavam em defesa das posições revolucionárias eram atacadas e silenciadas sob a acusação de “defensores do culto da personalidade”, de “dogmáticos empedernidos”, “stalinistas”, etc. Sob a aparência de uma maior liberdade de opinião e iniciativa nas fileiras do Partido, dava-se toda a liberdade à direita e negava-se toda a liberdade à esquerda. A campanha pela “democracia interna” foi parte integrante na guerra de classe conduzida pelos revisionistas para desmantelar o Partido Comunista.

Como não podia deixar de ser, esta campanha conduziu à destruição do centralismo democrático no PCP e deu liberdade plena ao liberalismo, à anarquia, à confusão política e ideológica, à difusão da mentalidade e dos hábitos da burguesia nas fileiras do Partido. O PCP ficou sem defesas perante a repressão policial que lhe aplicou severos golpes nos anos seguintes e chegou em fins de 1959 à beira da desagregação. Cunhal fez depois dele o partido revisionista que hoje conhecemos.
Fica de pé a questão: porque não houve qualquer resposta organizada da base e das estruturas do Partido à traição dos dirigentes? Isso foi possível porque a qualidade proletária revolucionária do PCP fora pouco a pouco destruída pela rotina oportunista, pelo praticismo, pela perda de todos os hábitos de luta ideológica. As perspectivas revolucionárias, a meta final do Partido, os princípios do marxismo-leninismo, a vigilância e a intransigência de classe tinham-se diluído pouco a pouco numa prática diária ao sabor do espontâneo.

Só assim se compreende como, apesar das suas realizações e da luta e do sacrifício de milhares de comunistas, apesar dos esforços de rectificação empreendidos pelo camarada José Gregório, o PCP acabou por deslizar sem resistência para o pântano do revisionismo.


segunda-feira, 6 de fevereiro de 2017

Os jovens são a principal vitima da crise e do sistema económico capitalista


OCDE vêm revelar que o número do desemprego não só não baixa, como aumenta e a juventude é a sua principal vitima.

Os dados recentes da OCDE vêm confirmar que o número de desempregados registados ( o que quer dizer que poderão ser bem maiores, já que é prática dos INE afim de protegerem o sistema capitalista e as burguesias, não revelarem a verdade, sobre o desemprego real) é cada vez maior e que nos 35 países que fazem parte deste organismo o desemprego atinge 38,5 milhões de trabalhadores, ou seja, mais 6 milhões do que em 2008, quando do inicio da crise económica capitalista.

Na União Europeia, entre os jovens dos 15 a 24 anos a taxa de desemprego cresceu para 18,8% e para 21,2% na zona euro.

A Grécia continua a registar a percentagem mais alta de desemprego jovem, cerca de 53%, enquanto que na Espanha subiu para 44,4%, mais um 1%, seguida da Itália com 39,4%, de Portugal com 28,4%, da França com 25,9 e Luxemburgo 19,1%.

Situação esta que vai continuar a agravar-se na medida em que a crise económica capitalista não dá qualquer sinal de que possa ser ultrapassada, bem pelo contrário... como por outro os desempregados e principalmente a juventude revelam uma baixa consciência e falta de organização que os impede de lutar pelos seus direitos e os leva a sujeitar-se e a tornar a situação ainda mais grave.


segunda-feira, 30 de janeiro de 2017

Morreu António Santos Júnior, dirigente histórico do movimento operário



A Chispa! presta sentida homenagem e envia as suas condolências à família e a todos os camaradas e amigos que conviveram e lutaram ao lado do importante e combativo dirigente operário metalúrgico António dos Santos Júnior. 



Aos 73 anos, em 27/1/2017, faleceu na Amadora António dos Santos Júnior, que foi nos anos finais da ditadura o principal dirigente metalúrgico e um dos fundadores da Intersindical, hoje CGTP.
António dos Santos Júnior nascera em 1943 na localidade ribatejana de Cafuz, distrito de Santarém. Aos 14 anos foi para Lisboa, trabalhar como aprendiz de pintor. Frequentou o curso geral de comércio, na escola Voz do Operário e entrou depois, aos 17 anos, na companhia de seguros Bonança.

Em 1964, iniciou o serviço militar na Força Aérea, onde tirou a especialidade de mecânico de material aéreo. Graças à elevada classificação que obteve, não foi mobilizado para a guerra colonial, ficando na BA.1, em Sintra, como mecânico de esquadrilha dos T-37 na formação e instrução de novos pilotos.

Pouco depois de ter concluído o serviço militar, concorreu a um lugar na manutenção da TAP, onde foi admitido em 1968. Já na altura iniciara um processo de politização, participando regularmente em manifestações reprimidas pela polícia e em protestos contra a guerra colonial. Participou na campanha eleitoral de 1969, no quadro dos "grupos sócio-profissionais" da CDE (Comissão Democrática Eleitoral).

O primeiro presidente eleito do sindicato metalúrgico


Aproveitando a brecha legal proporcionada pela "primavera marcelista", encabeçou em Junho de 1970 uma lista de metalúrgicos candidata à direcção do Sindicato. A lista B, de Santos Júnior, enfrentava pela primeira vez nas urnas os velhos burocratas da lista A, que a própria ditadura reconduzira uma e outra vez, por nomeação, à frente do sindicato.

O resultado foi eloquente: a lista B, com mais de 1.200 votos, varreu de uma vez por todas os serventuários da ditadura, com apenas 11 votos. O carácter improvisado da lista levou a que nela preponderassem largamente os operários da TAP.

António dos Santos Júnior tornava-se assim, sob a ditadura, o primeiro presidente eleito do Sindicato dos Metalúrgicos de Lisboa. Rapidamente, o Sindicato se empenhou em dinamizar as negociações da contratação colectiva em curso, pegando em acordos que estavam sobre a mesa: Carris, TAP (na fase final), CEL-CAT e Metro.

Foi então que, segundo um dos dirigentes do movimento, Jerónimo Franco, "sob a direcção de Santos Júnior as transformações atingiram tal amplitude que se iniciou uma nova era no sindicalismo português".

Santos Júnior tornou-se também presidente da Federação dos Metalúrgicos, promovendo energicamente a unificação da acção sindical, e estabelecendo, ainda segundo Jerónimo Franco, "contactos com outros ramos de actividade, estudantes e forças armadas"

Santos Júnior versus Baltazar Rebelo de Sousa


Especificamente no ramo metalúrgico, foi elaborada uma proposta de revisão do contrato e concebeu-se a ideia de organizar uma assembleia geral dos metalúrgicos. O ambicioso plano fica bem documentado no local que se escolheu para o concretizar: o Estádio da Luz. O SLB, contactado pelo Sindicato, cedeu o Estádio. E muitos anos depois, em 2002, voltou a autorizar uma última utilização do estádio (pouco antes da sua demolição), para Santos Júnior aí ser entrevistado, nesse cenário grandioso que testemunhava a audácia visionária da direcção metalúrgica.

Mas a ditadura não esteve pelos ajustes e nem quis ouvir falar de uma assembleia com milhares de metalúrgicos no maior estádio de Lisboa. Santos Júnior foi convocado pelo governador civil, Afonso Marchueta, depois pelo secretário de Estado e pelo próprio ministro Baltazar Rebelo de Sousa.

Todos o intimaram a desconvocar a assembleia. Perante a recusa que a todos opôs, Baltazar Rebelo de Sousa mandou pô-lo na rua e anunciou que seria ele próprio, ministro, a anunciar o cancelamento da assembleia através da imprensa, rádio e RTP. À saída do Ministério, Santos Júnior foi alvo de provocações e agressões dos pides que aí o aguardavam, mas não foi detido.

Apesar da desconvocação da assembleia geral, a ditadura continuava a debater-se com o problema do Acordo Colectivo de Trabalho (ACT) da TAP. Tentou resolvê-lo subornando Santos Júnior, a quem foi oferecido um lugar de chefia. Tendo recusado mais uma vez, foi transferido e, depois, alvo de uma tentativa de detenção da PIDE.

Mas a tentativa foi, para a TAP e para a PIDE, um tiro no pé. Como recorda Jerónimo Franco, "os trabalhadores do hangar 4, ao saber que o queriam levar preso, abandonaram os seus trabalhos no avião e no hangar e juntaram-se a ele, abriram alas para ele passar com os dois pides e de braços caídos diziam que assim iriam ficar até ele voltar e quando regressou, passada uma hora e meia, passou pelas mesmas alas, mas agora os braços que até então estavam caídos se ergueram e batiam palmas em estrondosa ovação".

A TAP cedeu então a uma parte do caderno reivindicativo e Santos Júnior, insatisfeito com essa cedência parcial, opunha-se à assinatura do acordo. Mas, submetendo-se à maioria, foi assiná-lo por mandato expresso de uma assembleia da classe.

Sindicalismo de base e Intersindical


O sindicato prosseguia, entretanto, a sua actividade de organização dos trabalhadores, promovendo a eleição de delegados em cada local de trabalho e mantendo a base constantemente informada mediante uma regular elaboração e distribuição de comunicados.

Paralelamente, realizavam-se também reuniões com outras direcções sindicais eleitas (bancários, caixeiros, químicos, aeronavegação e pescas, entre outros). Desses encontros regulares viria a nascer a Intersindical, hoje CGTP.

A ditadura, por seu lado, respondia com uma repressão crescente. Nisso se distinguia o ministro Baltazar Rebelo de Sousa, que tratou de assediar o sindicato das formas mais diversas. Em Setembro de 1970, ao sair do sindicato a altas horas da noite, Santos Júnior foi agredido e levado para a sede da PIDE, juntamente com outras pessoas que o acompanhavam.

Vários sindicatos emitiram imediatamente comunicados denunciando essa detenção arbitrária, que foram amplamente distribuídos em toda a cidade de Lisboa. Santos Júnior foi libertado, mas Baltazar Rebelo de Sousa determinou que ele fosse destituído das duas presidências - do Sindicato e da Federação. O ministro mandou entregar o Sindicato a uma comissão administrativa, voltando assim a retirá-lo aos representantes eleitos da classe.

Segundo Jerónimo Franco, "a atitude do governo de Marcello Caetano ao destituir a direcção veio demonstrar que a primavera marcellista era só primavera, não tinha continuação, não passava de uma etapa sem continuação e que por isso se esgotaria. Era politicamente uma fraude". E acrescenta: "Estamos convictos que a actuação de Santos Júnior foi uma contribuição para que Abril chegasse mais cedo".

A caminho da greve de 12 de Julho


A destituição dos dirigentes não os fez baixar os braços. Activistas e delegados sindicais reagiram criando a CUOM (comissão de unidade operária metalúrgica), com sede provisória no sindicato dos químicos. Este grupo semi-legal, dinamizado por Santos Júnior, fez uma intensa campanha por novas eleições, que iria resultar, em dezembro de 1973, na eleição de uma nova direcção.

Santos Júnior, impedido de voltar a candidatar-se, apoiou a eleição como presidente do seu camarada Jerónimo Franco, também operário da TAP. Dentro da empresa, criou-se também um grupo semi-legal, o GATAP (Grupo de Activistas da TAP), que continuava a promover a acção reivindicativa.

Em novo round de negociações para o ACT da TAP, a polícia reprimiu em 11 de Julho de 1973 uma assembleia marcada para a Voz do Operário. No dia seguinte, a TAP estava totalmente paralizada e a polícia de choque foi enviada às oficinas, que invadiu com assinalável brutalidade, abrindo fogo ao entrar.

Polícia de choque, invadindo a TAP em 12 de Julho de 1973

Houve vários feridos, mas a polícia foi enfrentada pelos trabalhadores e, à porta do Hangar 6, teve de recuar, com receio de que a resistência organizada nesse terreno desconhecido pudesse saldar-se em destruição de aviões, ruinosa para a companhia.

Alvejada com esferas de rolamentos, em fisgas improvisadas, e com material de escritório lançado dos edifícios administrativos, a polícia de choque acabou por bater em retirada.

O caderno reivindicativo obteve satisfação parcial e também foram dadas garantias de que não haveria retaliações contra os trabalhadores devido à greve. Foi a luta operária mais importante que houve numa só empresa durante toda a ditadura e aquela que teve mais profundas repercussões políticas.

Do exílio ao 25 de Abril


Mas a repressão selectiva prosseguia e Santos Júnior continuava a ser perseguido pela hierarquia da TAP e pela polícia. Emigrou, assim, para o Canadá em final de Dezembro, onde ficou  a trabalhar numa fábrica de aviões de pequeno porte.

Com a notícia do 25 de Abril, embarcou de regresso a Portugal. Chegou ao aeroporto da Portela no 1º de Maio, sendo esperado por nomes destacados da resistência. À sua espera, como está documentado em imagens de arquivo da RTP, encontrava-se nomeadamente o actual presidente da Assembleia da República, Eduardo Ferro Rodrigues.

Do aeroporto, Santos Júnior seguiu imediatamente para o então Estádio da FNAT, onde havia natural expectativa de que discursasse à multidão aí reunida. Mas o PCP recusou e empenhou-se em impedir esse discurso, no que foi um dos primeiros incidentes significativos a toldarem o ambiente unitário da efeméride. Quem falou em representação dos metalúrgicos foi, afinal, Jerónimo Franco.

Santos Júnior foi readmitido na TAP, onde continuou a ser sempre uma referência para os seus companheiros de trabalho. Durante a revolução foi militante do MES. Depois desse, não voltou a ter qualquer outro envolvimento partidário.

Original encontra-se em RTP

domingo, 29 de janeiro de 2017

Discurso do KKE no Encontro Comunista Europeu sobre os Cem anos da Grande Revolução Socialista de Outubro

24 de janeiro de 2017
Cem anos da Grande Revolução Socialista de Outubro
Capitalismo-Monopólios-União Europeia só trazem crises, guerras, pobreza
O socialismo é vigente e necessário

Estimados camaradas:
Este ano celebramos o 100° aniversário da Grande Revolução Socialista de Outubro, ocorrida em 1917 na Rússia, que deixou sua marca em cada canto do planeta, durante muitas décadas.
A Revolução de Outubro demonstrou o potencial e a capacidade da classe operária de cumprir com sua missão histórica como a única classe verdadeiramente revolucionária, de liderar a primeira tentativa de construir o socialismo-comunismo.
A Revolução de Outubro ressaltou, ao mesmo tempo, o papel insubstituível da força dirigente da revolução socialista, o Partido Comunista, a grande força do internacionalismo proletário.
Atualmente, apesar dos acontecimentos desde então, estamos ainda mais certos e categóricos a respeito da vigência e da necessidade do socialismo-comunismo.
A derrubada contrarrevolucionária não muda o caráter da época. O século XXI será o século de uma nova ascensão do movimento revolucionário mundial e de uma nova serie de revoluções socialistas.
As lutas diárias para conquistas parciais e mais gerais são, sem dúvida, necessárias, porém não podem proporcionar soluções substanciais, a longo prazo e permanentes. O socialismo continua sendo a única saída.
A necessidade do socialismo se destaca pelo mesmíssimo aprofundamento das contradições no mundo capitalista contemporâneo, no sistema imperialista internacional. As condições materiais para o socialismo, ou seja, a força de trabalho e os meios de produção, amadureceram no capitalismo.
O capitalismo socializou o trabalho e a produção a níveis sem precedentes. A classe operária, a principal força produtiva, constitui a maioria da população economicamente ativa. Não obstante, os meios de produção, os produtos do trabalho social são propriedade privada dos capitalistas.
Esta contradição é a raiz de todos os fenômenos da crise das sociedades capitalistas contemporâneas, como são as crises econômicas, a destruição do meio ambiente, o problema das drogas, a longa jornada de trabalho apesar do grande aumento da produtividade laboral, que, no entanto, coexiste com o desemprego, o subemprego, a intensificação da exploração, etc.
Ao mesmo tempo, esta realidade assinala a necessidade de abolir a propriedade privada dos meios concentrados de produção, socializá-los e utilizá-los de maneira planificada na produção social, a planificação da economia pelo poder operário com a finalidade de obter a prosperidade popular.
Estimados camaradas:
O legado teórico da Revolução de Outubro, enriquecido com a experiência das revoluções socialistas que ocorreram a seguir, é valioso.
Confirmou-se na prática que a teoria marxista-leninista a respeito da revolução foi correta, partindo da análise sistemática global do imperialismo, que a revolução amadurece no transcurso dos acontecimentos históricos e eclode em um momento determinado por uma combinação de causas objetivas e subjetivas.
Os burgueses e todo tipo de renegados distorcem ou ocultam a importância da Revolução de Outubro porque, obviamente, entendem muito bem que através de sua vitória, a teoria e as ideias do marxismo se converteram em uma força material, mobilizaram e continuam mobilizando milhões de trabalhadores em todo o mundo contra o poder do capital, que saíram vitoriosos e organizaram seu próprio estado operário que é a forma mais elevada de democracia que a humanidade conheceu.
A postura niilista frente ao socialismo que conhecemos, a adoção de pontos de vista que falam de um fracasso total – porque seu curso foi interrompido – é uma postura anticientífica e a-histórica, e leva a becos sem saída.
O socialismo foi construído, desenvolvido e começou a resolver graves problemas econômicos e sociais. Contudo, por várias razões, não foi possível demonstrar e, sobretudo, libertar, ao longo do curso de sua construção, o potencial inerente para seu constante desenvolvimento e aperfeiçoamento, para consolidar-se na luta contra o sistema capitalista.
Todavia, isto não nega a contribuição e o papel do sistema socialista, tal como foi formado no século XX, independentemente das deficiências, das debilidades e dos erros produzidos ao longo deste difícil curso.
A Revolução de Outubro confirmou na prática a análise leninista a respeito do elo mais fraco da cadeia imperialista. Até então, o que faltava ao movimento internacional era o fundamento teórico da possibilidade de vitória da revolução socialista, em primeiro lugar, em um país ou em um grupo de países que se destacariam como elos fracos, como resultado do aprofundamento das contradições internas sob a influência dos acontecimentos internacionais.
Certamente, devido ao desenvolvimento econômico e político desigual, é possível que tais características se manifestem em países de nível de desenvolvimento médio ou baixo, onde o processo revolucionário pode começar com maior facilidade. Porém, é extremamente difícil que a construção socialista continue de maneira vitoriosa. As análises de Lênin contribuíram ao desenvolvimento do marxismo e do pensamento estratégico dos bolcheviques em seu conjunto.
Foi decisiva a contribuição de Lênin e do Partido Bolchevique na luta contra a seção da socialdemocracia que, violando as decisões da II Internacional, apoiou as classes burguesas de seus países, às vezes votando pelos créditos de guerra no Parlamento, outras vezes participando de governos que lideravam guerras, supostamente para que se obtivesse um “desenvolvimento pacífico”, defendendo a “paz imperialista” com a pistola na cabeça dos povos. Uma linha política que inevitavelmente os enredava ainda mais profundamente na guerra imperialista, no aprofundamento das contradições e dos antagonismos dos estados imperialistas e suas alianças.
Lênin com a linha estratégica que seguiu, determinou que do ponto de vista do movimento revolucionário da classe operária, cujo objetivo é a revolução e a conquista do poder operário. A questão não é uma simples oposição “pacifista” à guerra, mas a utilização de brechas que objetivamente em tais condições se criam no campo imperialista, a utilização do enfraquecimento da burguesia em cada país com a finalidade de converter a guerra imperialista em cada país em uma luta pela derrubada do poder burguês que traz a morte e a pobreza para os filhos da classe operária e para os povos de todos os países.
Lênin, considerando a experiência da Revolução de Outubro, se ocupou particularmente das questões do poder do novo Estado operário. Fez uma contribuição especial à identificação dos germes dos órgãos do novo poder.
Esta experiência e lições têm um valor permanente quanto à organização da luta operária e popular, quando se intensifica a luta de classes em condições de crise revolucionária, de situação revolucionária, a organização e a expressão da aliança da classe operária com os setores populares pobres, seus aliados naturais, os camponeses pobres e os trabalhadores autônomos, com a classe operária na vanguarda, sua transformação em força revolucionária, capaz de dirigir um enfrentamento decisivo contra o poder burguês e formar as novas instituições operário-populares do novo poder.
O KKE, ao estudar a valiosa experiência da Revolução de Outubro, chegou à conclusão fundamental de que a determinação do objetivo político, do poder operário, se deve fazer com base na definição objetiva do caráter da época que se determina pelo movimento da classe que, objetivamente, está no primeiro plano do desenvolvimento social.
Isto define o caráter da revolução e não a correlação de forças, segundo defendem alguns Partidos Comunistas.
É claro, a correlação de forças entre as duas classes antagônicas básicas, a burguesia e a classe operária, assim como a postura das camadas médias, é um fator decisivo a respeito do momento oportuno para a revolução socialista. Neste sentido, um Partido Comunista deve considerara a “correlação de forças de classe”, no sentido leninista, ou seja, em termos da relação das classes com o poder.
Ao mesmo tempo, o Partido Comunista deve considerar e avaliar a correlação de forças no movimento operário, nos movimentos de seus aliados sociais, como um elemento necessário para fazer as manobras adequadas possíveis, para elaborar bandeiras, para que as massas, através de sua própria experiência, se atraiam na luta pelo poder.
No entanto, isto não pode servir, em nenhum caso, como álibi para a submissão, participação ou tolerância do movimento operário e comunista a qualquer forma de governo burguês no marco do capitalismo.
Na Grécia, nos últimos anos da crise, floresceu todo tipo de fabricações ideológicas burguesas e oportunistas. Teve lugar e, todavia, se desenvolve uma discussão acerca da necessidade da formação de um governo de “esquerda”, “progressista”, “democrático”, “antidireita”, “antimemorando”, “patriótico”, “nacional”, “universal” (todos estes nomes foram utilizados para descrever tais governos) como uma proposta imediata de saída da crise econômica e da política antipopular.
Estas propostas são feitas tanto pelos partidos burgueses tradicionais como por outros partidos burgueses recém-fundados e pelos partidos da ala “esquerda” da cena política. O movimento operário deve repudiar todas estas armadilhas que pretendem manipular a luta operária e popular, além de assimilar o movimento.
A experiência histórica nos ensina que os primeiros governos “operários”, “de esquerdas”, surgiram de partidos socialdemocratas ou como governos de coalizão de partidos socialdemocratas com outros partidos burgueses. Não existiu nenhum caso na história do movimento operário internacional e naquele período, ou seja, depois da Primeira Guerra Mundial, que estes governos não surgiram como resultado das manobras da burguesia para confrontar o levante revolucionário, para assimilar o descontentamento dos trabalhadores e dos povos em condições de uma crise econômica muito profunda, antes ou depois da guerra.
O objetivo de um governo “de esquerdas”, “operário” no marco do poder capitalista, sem a derrubada revolucionária, mediante processos parlamentares, foi adotado posteriormente por Partidos Comunistas como um objetivo intermediário com medidas de transição. O objetivo deste, como se acreditava, era facilitar a luta pelo socialismo e resolver algumas demandas populares emergentes.
Porém, a experiência demonstrou que em nenhum lugar, apesar das boas intenções dos Partidos Comunistas, se conseguiu abrir uma janela, nem muito menos abrir o caminho para o socialismo, nem sequer estabilizar certas conquistas do movimento popular. Da experiência de vários países, em alguns antes e em outros depois da Segunda Guerra Mundial até o presente, alguns Partidos Comunistas se encontraram desarmados a nível organizativo, ideológico e político.
A experiência histórica e a importância da grande Revolução de Outubro são incomparáveis. Confirmou que a salvação da classe operária e das demais camadas populares em condições de crise econômica e política capitalista, em condições de guerra imperialista, só são possíveis através do caminho de derrubada do poder e da propriedade capitalista. Isto pressupõe o enfraquecimento e a quebra total tanto de suas diversas formas de “esquerdas”, mediante as tendências do reformismo-oportunismo perigoso e da “esquerda governante”, que na Grécia está expressa pelo SYRIZA.
Cabe destacar a avaliação do KKE em nossas Teses para o XX Congresso de nosso Partido, já que estamos na sede do Parlamento Europeu. Os acontecimentos depois do estouro da crise mundial em 2008-2009 confirmam que a União Europeia e a zona do euro não são uma formação coerente, estável e permanente. É inviável que as políticas da União Europeia consigam atenuar a desigualdade no seio da zona do euro e da UE. Pelo contrário, se destaca o crescimento da brecha entre os Estados-membros. Confirma-se a posição leninista de que as Nações Unidas da Europa ou serão socialistas, com a classe operária no poder, ou não existirão, não podendo servir aos interesses dos povos e ao progresso.
Estimados camaradas:
Em finais de março, nosso Partido celebrará seu 20º Congresso tendo como objetivo básico o fortalecimento ideológico-político-organizativo total do Partido e de sua Juventude como Partido da revolução. Este fortalecimento é uma condição prévia necessária para levar a cabo as tarefas complexas do reagrupamento do movimento operário, da construção da aliança social em direção anticapitalista-antimonopolista, na luta contra a guerra imperialista, com o objetivo do poder operário.
Deste fortalecimento do Partido depende também sua capacidade de preparar o povo para estas tarefas em direção à ruptura e derrubada do sistema capitalista. Isto é ainda mais válido em condições quando tudo parece imóvel, ou se move lentamente para o objetivo do contra-ataque operário-popular, ou, inclusive, em um período em que existem retrocessos.
Nosso Partido chegou à conclusão de que o conteúdo revolucionário, as conquistas que surgiram como resultados da Revolução de Outubro se debilitaram sob o impacto da tentativa de resolver problemas existentes na construção socialista em direção equivocada, seguindo receitas capitalistas, um curso que coincidiu cronologicamente com as resoluções do XX Congresso do PCUS, em 1956, que se expressaram em forma extrema através da Perestroika, em 1985, e na contrarrevolução em seu conjunto, em 1991.
No entanto, tudo isto nem muda nem altera a dinâmica interna da construção socialista, nem tampouco a importância decisiva da Grande Revolução Socialista de Outubro de 1917.
Os acontecimentos no Movimento Comunista Internacional, a divisão no Movimento Comunista Internacional, questões de estratégia desempenharam um papel importante na formação da correlação de forças mundial.
Nosso Partido aprendeu com as fraquezas e os erros que cometeu no passado, como a falta de preparação teórica e política para avaliar o desenvolvimento da contrarrevolução na URSS a tempo.
Consideramos que é responsabilidade e direito de cada Partido Comunista estudar questões teóricas do socialismo, avaliar o curso da construção socialista, tirar lições quanto à frente contra o oportunismo a nível internacional, preparar as instâncias do Partido e, em geral, as forças de classe para compreender a luta de classes a nível internacional, para explicar com base científica e classista os retrocessos no processo e desenvolvimento social. Neste espírito internacionalista e comunista tentamos acompanhar os acontecimentos atuais em países como a China, Vietnã, Cuba e outros.
A explicação científica e a defesa da contribuição do socialismo no século XX é um elemento que fortalece a estratégia revolucionária do movimento comunista.
O estudo das contradições, dos erros subjetivos de todo o progresso histórico é um processo de desenvolvimento da teoria do socialismo-comunismo, que levará à revitalização ideológica e política do movimento comunista e proporcionará uma força esmagadora em sua nova ofensiva e vitória final.
Entre nossas tarefas principais de hoje está a restauração entre os trabalhadores da verdade a respeito do socialismo do século XX, sem idealizações, objetivamente e livre das calúnias da burguesia que se baseiam nas catástrofes provocadas pela contrarrevolução.
Hoje, o capitalismo é forte, porém não é invencível. A crise capitalista demonstrou ainda mais intensamente os limites históricos do sistema capitalista. As uniões imperialistas, como a UE e a OTAN, estabelecidas no “terreno” capitalista e para a defesa dos interesses monopolísticos, não estão livres de antagonismos inter-imperialistas, tanto em seu interior como com outras potências imperialistas.
Em particular, na fase atual, deveríamos estar mais preocupados a respeito de suas contradições, com o surgimento das forças populistas, da ultra direita, eurocéticas em direção reacionária, em todos os países da Europa e nos EUA, após a eleição de Trump. 
Certamente, fica por ver como será traçada a política dos EUA depois da posse presidencial, porque a batalha eleitoral tem mais elementos, como é o populismo. É certo que os EUA continuarão com sua política imperialista porque continua sendo a primeira potência mundial em economia e militar. Porém, se preocupa com a ocupação da segunda posição a nível econômico mundial pela China e, também, pela mudança na balança comercial a custa dos EUA e a favor da China, já que a China é o credor número 1 dos EUA, que lhe deve (EUA à China) mais de 1,5 bilhões de dólares. Assim, os EUA consideram como adversário principal a China, que também tem boas relações com a Rússia, que é a segunda potência militar do mundo.
Camaradas:
É nosso dever como movimento comunista acompanhar de perto estes acontecimentos, trocar pontos de vista, informações, determinar uma postura e atividades conjuntas a respeito da situação internacional e dos acontecimentos que ameaçam nossos povos.
Para que as gerações presentes e futuras, que o novo turno da classe operária que entra na produção e no movimento diga que:
O século XX começou com a maior ofensiva dos proletários de todas as épocas e terminou com sua derrota temporária. O século XXI trará a derrubada final e, desta vez, irreversível do capitalismo e a construção do socialismo-comunismo.
O essencial é que se quebrou o gelo, que se abriu o caminho, que se indicou a direção.
Viva os cem anos da Grande Revolução de Outubro!