domingo, 8 de março de 2015

8 de março, o verdadeiro Dia Internacional da Mulher Proletária!


Manifestação da União das Costureiras em Nova York, 1910
Uma data especial celebrando a luta de resistência da mulher proletária, da mulher das classes oprimidas e exploradas em todo o mundo, foi proposta por Clara Zetkin — dirigente do Partido Comunista da Alemanha e da Internacional — na Conferência de Mulheres Socialistas realizada em Copenhague (Dinamarca) em 1910. 

A Conferência tratava da luta ideológica e política do proletariado e das demais classes oprimidas e exploradas no caminho da revolução socialista e, de maneira particular, da importância da participação massiva das mulheres proletárias nesta luta. A proposta de criação de um dia especial a ser celebrado internacionalmente, portanto, representava o crescimento da luta operária e do povo em todo o mundo e a crescente presença da mulher nesta luta naquele momento. 

Desta forma, o Dia Internacional da Mulher Proletária foi idealizado e votado pelas militantes do movimento feminino proletário e revolucionário a partir da concepção revolucionária da luta pela emancipação feminina. Ou seja, que a libertação da mulher só é possível com a libertação de toda sua classe, e que esta libertação é obra das próprias mulheres das classes oprimidas e não uma concessão das classes opressoras. Por isso as militantes do movimento feminino popular e revolucionário não falam de nenhuma maneira de um movimento de todas as mulheres, não propõem a conciliação de classes. 

Para essas militantes revolucionárias, ao contrário do que afirma o feminismo burguês, o Dia Internacional da Mulher refere-se às mulheres proletárias e das demais classes oprimidas, como as camponesas e a intelectualidade progressista, as estudantes e professoras, o que, longe de restringir o universo feminino, representa a imensa maioria das mulheres em todo o mundo: metade da imensa população mundial de operários, camponeses e trabalhadores explorados e oprimidos pelo imperialismo. 

A utilização desta data pelo feminismo burguês é combatida pelas proletárias, pelas mulheres do povo da cidade e do campo que trabalham sob o chicote dos homens e mulheres da burguesia e do latifúndio. É combatida e denunciada como traição e usurpação a atitude desavergonhada de deputadas e "personalidades" da esquerda oportunista e suas organizações feministas que se comprazem em sentar-se à mesa com empresárias, latifundiárias e policiais no seu falsificado dia de todas as mulheres.

Cada vez mais as classes dominantes, através dos monopólios de comunicação, se esforçam para transformar o 8 de março em mais uma data comercial. Com suas manipulações e demagogias grosseiras de glorificar "a importância da participação da mulher", na verdade estendem ainda mais o manto da opressão feminina na tentativa de sua perpetuação.

A celebração do 8 de março se tornou uma das mais fortes tradições do movimento proletário, revolucionário e comunista em todo o mundo e um dos mais importantes símbolos da luta de libertação da classe operária e de todos os oprimidos da terra. 

AS ORIGENS E A TRADIÇÃO
As duas versões mais conhecidas do fato histórico que teria levado as militantes comunistas na Conferência de Mulheres Socialistas a eleger o dia 8 de março como o Dia Internacional da Mulher Proletária são: 

1
"Uma manifestação espontânea — levada a cabo por trabalhadoras do setor têxtil da cidade de Nova York, em protesto contra os baixos salários, contra a jornada de trabalho de 12 horas e o aumento de tarefas não remuneradas — foi reprimida pela polícia de uma forma brutal (8 de Março de 1857). Muitas jovens trabalhadoras foram presas e algumas esmagadas pela multidão em fuga. Cinquenta anos mais tarde, no aniversário dessa manifestação, esse dia é declarado, em sua memória, o Dia Internacional da Mulher." (Temma Kaplan, On the socialist origins of International Women’s Day, Feminist studies 11, n.º 1, 1985, p. 163)

2
"O Dia Internacional da Mulher Trabalhadora é considerado como uma jornada de luta feminista em todo o mundo em comemoração do dia 8 de Março de 1908, data em que as trabalhadoras da fábrica têxtil ‘Cotton’, de Nova York, declararam greve em protesto pelas condições insuportáveis de trabalho. Na sequência disso, ocuparam a fábrica e o patrão prendeu-as lá dentro, fechou todas as saídas, e incendiou a fábrica. Morreram queimadas as 129 trabalhadoras que estavam lá dentro." (Victória Sal, Dicionário ideológico feminista, 1981).

Outras referências históricas:

3
A primeira celebração do Dia Internacional da Mulher aconteceu a 19 de Março de 1911, na Áustria, Alemanha, Dinamarca e Suécia.

4
Em 1914 o Dia Internacional da Mulher comemorou-se pela primeira vez a 8 de Março na Alemanha, Suécia e Rússia.

5
A 8 de Março de 1917, as mulheres russas amotinaram-se devido à falta de alimentos, acontecimento este fundamental para o início do movimento revolucionário que viria a concretizar-se na chamada Revolução de Outubro, e que marcaria definitivamente, até a actualidade, o dia 8 de Março como o Dia Internacional da Mulher. (Informações: On the Socialist Origins of International Women’s Day retiradas de Ana Isabel Álvarez González (1999), Los orígenes y la celebración del Día Internacional de la Mujer, 1910-1945. KRK — Ediciones Oviedo.)

Todas essas informações fornecem alguns dados discrepantes, porém o que há de comum nelas é o facto de se referirem a lutas operárias, marcando claramente o caráter de classe do movimento 8 de março. 

O artigo que publicamos na íntegra a seguir nos dá a dimensão do que ocorria com o movimento operário no eldorado USA do início do século XX, destacando-se a participação das mulheres, acrescentando dados importantes ao histórico da origem do 8 de março.{mospagebreak}

As mulheres do incêndio da fábrica Triangle

Edifício onde funcionava a fábrica Triangle
Dia 25 de março de 1911: as costureiras da fábrica Triangle Shirtwaist trabalhavam duro durante todo o longo dia. Estavam apinhadas, 500 delas, nos três andares superiores do edifício Asch, com vista para o parque Washington Square, Manhattan.

Centenas de costureiras, encolhidas de frio sobre máquinas de costura de pedal, confeccionavam blusas para mulher, uma após outra. A luz de umas poucas lâmpadas de gás lançava largas sombras pela galeria e era necessário grande esforço para ver na semi-obscuridade. Montes de retalhos de tecido cobriam o piso e no ar morto voavam nuvens de fios de algodão.

As costureiras recebiam pagamento por peça; a mais rápida e mais capacitada, a duras penas, ganhava 4 dólares por uma semana de seis ou sete dias. Apenas dava para o aluguel de quartinhos nas vizinhanças paupérrimas e quase não sobrava para a comida.

Muitas crianças tinham que deixar a escola e seguir seus pais à oficina. No "canto dos meninos" da fábrica trabalhavam como "limpadores": cortavam os fiozinhos das blusas amontoadas às centenas a seu redor.

Os capatazes andavam furtivamente, vigiando todo movimento das trabalhadoras e cronometrando suas idas ao banheiro. Uma trabalhadora contou que muitos capatazes compravam os recém inventados sapatos de sola de borracha, e assim podiam aproximar-se às escondidas para espiar as conversas das costureiras em italiano, iídiche e meia dezena de idiomas mais.

Havia demissões por infrações leves e em especial por desconfiança de ligação com a forte organização socialista dos guetos. Um letreiro pregado no galpão dizia: "Se não vens no domingo, nem pense em regressar na segunda".

SEM AVISO, SEM PROTEÇÃO

Ninguém sabe como se iniciou o incêndio na fábrica Triangle. Um ano antes, durante a grande greve chamada o Levantamento das vinte mil, se advertiu que existia sério perigo de incêndio. Às 4:50 da manhã do dia 25 de março, largas chamas amarelas se estenderam rapidamente pelo oitavo andar, alimentadas pelos retalhos de tecido.

Em março de 1911 morreram 147 trabalhadores
Ouviu-se o grito de "fogo!" Pelos estreitos corredores, entre as filas de mesas, trabalhadoras corriam em busca de uma saída pelas escadas ou pequenos elevadores. Não havia nada à mão para combater o incêndio. A única coisa que se podia fazer era avisar as demais e tratar de fugir. 

Jamais se havia feito um treinamento de salvamento de incêndio. Muito poucas trabalhadoras sabiam que existia uma escada de incêndio que descia por um estreito poço vertical no centro do edifício. Algumas conseguiram descer apressadas pela escada principal, antes das chamas a bloquearem. O elevador parou de funcionar.

Acima, o oitavo andar se tornou uma massa de chamas. Alguém conseguiu avisar por telefone às trabalhadoras do décimo andar. A maioria teve tempo de subir ao terraço. Os dois donos da fábrica, Harris e Blanck, escaparam com elas.

No nono andar não houve aviso: as chamas irromperam por baixo das mesas de trabalho; a fumaça encheu a galeria rapidamente. Mais tarde foram descobertos esqueletos carbonizados encolhidos sobre as máquinas, quando as chamas alcançaram suas roupas, subiram às mesas e aí morreram.

Foram encontrados montes de cadáveres espremidos próximos às portas de saída. No nono andar os capatazes tinham fechado com chave a porta que dava acesso a uma escada para que as trabalhadoras não saíssem para descansar. Outras saídas não estavam trancadas, porém, abriam para dentro e não era possível desunir as partes móveis com o peso de tanta gente desesperada.
Algumas mulheres conseguiram descer pela escada de incêndio. As primeiras que desceram pelo poço descobriram que a escada metálica não chegava até o solo. Era uma armadilha sem saída, porém impossível de voltar atrás. Pela implacável pressão e peso das mulheres às suas costas, simplesmente caíam do último degrau. Depois foram encontrados muitos cadáveres, lancetados pelas pontas de ferro de uma cerca.

Sob o peso das trabalhadoras, a escada quebrada foi derrubada.

NAS MARQUISES

Muitas trabalhadoras não puderam alcançar qualquer saída e as chamas as obrigaram a fugir das galerias. Pularam e caíram pelo poço do elevador — foram encontrados pelo menos 20 cadáveres no fundo. Muitas tiveram que sair pelas janelas: formaram uma fila indiana nas estreitas marquises, olhando para a multidão na rua abaixo.

Os primeiros bombeiros com escadas, a Companhia 20, chegaram correndo pela rua Mercer. A multidão gritava, com uma só voz: "Subam a escada!", porém haviam subido ao máximo e só alcançavam o sexto andar. Da marquise do nono andar uma garota agitava um pano. Uma chama começou a queimar a barra de sua saia comprida. Saltou tentando agarrar-se ao topo da escada, que ficava a cerca de 10 metros, porém foi inútil e caiu como um cometa em chamas.

Os bombeiros usavam as mangueiras para proteger as pessoas agarradas nas marquises; também foi inútil. Diante da multidão horrorizada, as chamas forçavam mais e mais trabalhadoras para as marquises. Não cabiam mais e as chamas alcançavam as que estavam mais perto das janelas.

Uma organizadora operária escreveu: "Ia pela Quinta Avenida no sábado à tarde quando um enorme rolo de fumaça saiu de Washington Square e (...) duas garotas que já tinha visto trabalhando na região se aproximaram de mim correndo, chorando desesperadamente. Pálidas e tremendo, agarraram meu braço. Ai! — gritou uma delas— Estão saltando!" Muitas costureiras, companheiras de vida e trabalho, se abraçaram fortemente e saltaram juntas. De nada serviram as redes dos bombeiros, pois o peso dos corpos as rompeu, rachando a própria a calçada.

O Nova York World escreveu: "Homens e mulheres, garotos e garotas, amontoados nas marquises, gritavam e saltavam ao espaço, para a rua abaixo, com a roupa em chamas. Quando umas garotas saltaram, seus cabelos voavam em chamas. O impacto no chão produzia um ruído surdo." O cheiro de sangue e o terrível ruído surdo espantaram os cavalos dos bombeiros. Se encabritaram nas patas traseiras com os olhos esbugalhados. Os bombeiros amontoavam os cadáveres na rua Greene.

SEM ATENÇÃO À VIDA E À SEGURANÇA

O horror pareceu congelar a buliçosa cidade. Morreram 147 costureiras. Rapidamente o nome da fábrica Triangle Shirtwaist percorreu o planeta.

25 de março de 1911: foi um desses dias da história em que os olhos do mundo se focam num só acontecimento determinante, quando as mentiras se desfiam sob o peso dos factos, quando de repente é impossível ocultar as injustiças.


Há um século, os Estados Unidos apregoavam ser a "terra prometida", um refúgio para os pobres da Europa em busca de um futuro mais tranquilo. Porém, nesta tarde horrorosa, todo mundo testemunhou a vil exploração dos trabalhadores imigrantes de Nova Iorque. 

As potências coloniais da Europa e Estados Unidos diziam que sua "civilização cristã" tinha uma superioridade moral que lhes dava o direito de governar os "povos bárbaros". Porém, quando as garotas caíram em chamas nas ruas da cidade de Nova Iorque, puseram a nu esses presunçosos auto-elogios. De repente, se pôs em julgamento a vida e o tratamento das 8 milhões de "trabalhadoras fabris" do país.

O novo maquinário, os métodos e as eficiências da produção industrial moderna se pintavam como o futuro da humanidade. Porém, nesse dia horroroso, o 25 de março, sobressaiu a pura verdade: que essa tecnologia capitalista era para obter lucros, sem atenção à segurança nem à vida das costureiras. Nessas galerias incendiadas não havia sistema de água, mangueiras, machados nem extintores — nenhuma medida contra incêndios, em absoluto. Metade da classe operária nova-iorquina trabalhava nos andares superiores ao sétimo, porém, nenhuma companhia de bombeiros estava equipada para resgatá-los.{mospagebreak}

DOR E DETERMINAÇÃO

Vi esse monte de cadáveres e recordei que essas garotas confeccionavam blusas e que em sua greve no ano anterior reclamaram condições de trabalho mais higiênicas e maiores medidas de segurança nas fábricas. Esses cadáveres deram a resposta.
(Bill Shepherd, correspondente)

A manifestação/enterro
Se falasse em tom de paz, trairia esses pobres cadáveres carbonizados. Temos exortado o público e não recebemos resposta. A antiga Inquisição teve seus terríveis instrumentos de tortura. Sabemos o que são estes instrumentos hoje: nossas necessidades, o maquinário veloz de alta potência e as estruturas à prova de incêndios que nos destruirão quando pegar fogo. 
(Rose Schneiderman, líder operária na manifestação/enterro)

O LEVANTE DAS VINTE MIL

Ainda que muitos setores fossem sacudidos com o horror do incêndio, o povo trabalhador de Nova Iorque já conhecia os perigos e o sofrimento que vivia, e sabia que era possível evitar essas mortes.

Dois anos antes, em novembro de 1909, as mulheres da fábrica Triangle Shirtwaist se uniram ao Levantamento das vinte mil, uma greve geral de costureiras de 500 oficinas de Nova Iorque. Travaram a greve com heroísmo e determinação. As trabalhadoras, em particular muitas jovens, saíram das sombras e tomaram as ruas com demandas de dignidade, melhores salários, jornadas mais curtas e o reconhecimento de seu sindicato. Em muitas oficinas, entre elas a fábrica Triangle, pediram escadas de incêndio e portas sem cadeado.

Depois de muitas semanas de dura greve, ganharam em algumas oficinas, porém perderam em outras. Muitos capitalistas rechaçaram as negociações. Os donos da Triangle, a maior fabricante de blusas femininas, contrataram funcionários para furar a greve. Voltaram a trabalhar com um acordo parcial, sem ganhar suas demandas de segurança.

Quando 147 mulheres morreram no incêndio, as massas responderam com dor e maior consciência de classe. No dia 2 de abril se celebrou uma enorme manifestação/enterro no Teatro Metropolitano da Ópera. Morris Rosenfeld, "o poeta premiado da oficina e do bairro", declamou o seguinte poema:

Nem batalha nem vil pogrom
enche de dor esta grande cidade;
nem treme o solo nem rasgam o céu os trovões,
as nuvens não se escurecem e os canhões não rompem o silêncio
somente o infernal incêndio engole estas jaulas de escravo
e Mammon devora nossos filhos e filhas.
Envoltos em chamas vermelhas, caem de suas garras para a morte
e a morte os recebe a todos...
neste dia de descanso
quando uma avalanche de sangue vermelho e fogo
jorra do máximo deus do ouro
assim como minhas lágrimas jorram caudalosas.
Ao diabo os ricos!
Ao diabo o sistema!
Ao diabo o mundo!
A tempestade ensopou a multidão de centenas de milhares no dia do enterro. Gente trabalhadora vestida de negro marchou pelas ruas com senhoras sufragistas, com enorme quantidade de transeuntes e pessoas solidárias nos passeios.

O jornal América comentou: "Quando a manifestação chegou a Washington Square, ao ver o edifício Asch, as mulheres romperam em pranto. Um longo e doloroso pranto, a união de milhares de vozes, uma espécie de trovão humano numa tormenta primordial, um lamento que era a expressão mais impressionante de dor humana que jamais se tinha ouvido na cidade."

Os capitães da polícia mobilizaram suas forças, temerosos de perder o controle de Washington Square ou de toda a cidade.

O LEGADO DA TRIANGLE

É um fato inconfundível que milhões de homens e mulheres dos Estados Unidos trabalham hoje em lugares que cada ano cobram vidas e saúde, tão inevitável e tão implacavelmente como mudam as estações do ano.
(revista Solidarity, 1904)
Consideramos que a concentração de negócios, indústrias e comércios nas mãos de umas poucas pessoas é benéfica e essencial para o futuro da raça, e que é necessário acomodar grandes desigualdades de riqueza e propriedade.
(Andrew Carnegie, dono da US Steel)
O incêndio provocou grande debate e luta na classe dominante. Muitos donos de fábricas afirmavam que a "regulamentação governamental" era antiamericana e inconstitucional. Poderosas forças da classe dominante correram a proteger a si mesmas e ao sistema do enorme perigo que se gestava nos guetos nova-iorquinos. As costureiras imigrantes de Nova Iorque forjavam uma poderosa força consciente de classe contra a brutalidade do sistema, com sua experiência em outros países e o vigoroso trabalho de organização dos revolucionários e dos socialistas. Começavam a impulsionar uma nova corrente revolucionária dentro da classe operária estadunidense.

Fortes pressões empurraram os governos municipais, estaduais e federais a fazer reformas. Comissões oficiais fizeram investigações (CPIs) sobre as minas e as oficinas do país e a morte de milhares de trabalhadores, a cada ano, na produção capitalista. O conselho municipal (câmara de vereadores) de Nova Iorque e as câmaras de alguns estados aprovaram leis de proteção e códigos de segurança, contrataram inspetores e idealizaram novas técnicas para combater os incêndios.

Porém, a verdade é que depois do incêndio da Triangle o maquinário do capitalismo seguiu moendo e espremendo desapiedadamente os trabalhadores, apesar das reformas e das novas leis. Em três dias, Harris e Blanck, os donos da Triangle, começaram de novo operações num edifício da University Place. Rapidamente bloquearam a única escada de incêndio com duas filas de máquinas de costura. Oito meses depois os tribunais os absolveram de toda culpa no incêndio. Os meios de comunicação capitalista lançaram a culpa numa trabalhadora que fumava, sem apresentar nenhuma prova.

Desde 1911, o capitalismo seguiu expandindo-se como um câncer fora de controle, penetrando e reestruturando a vida humana do planeta, com uma praga de mortes industriais, envenenamentos, explosões, males pulmonares e condições dantescas para os trabalhadores.

Nos últimos dez anos, o galopante crescimento dos novos enclaves de fábricas gerou novos "massacres industriais" similares ao da Triangle. Em 1991, 25 empacotadores de frango morreram queimados, atrás das portas trancadas em Hamlet, Carolina do Norte, numa fábrica "moderna" sem equipamentos de prevenção nem alarmes de incêndios. Em 1993, morreram 188 trabalhadores carbonizados espremidos atrás das portas fechadas a cadeado na fábrica de brinquedos Kadar, na Tailândia. Em 31 de janeiro de 2000 morreu o costureiro Bienvenido Hernández e ficaram feridos vários outros companheiros em um incêndio num edifício de oito oficinas na Rua 36 de Manhattam.
Hoje, o incêndio da fábrica Triangle segue sendo um exemplo contundente da desalmada natureza do capitalismo, que não mudou nem um ápice no último século.

Depois de ver o documentário da PBS sobre o incêndio da Triangle, Sandra, uma costureira de Los Angeles, nos disse: "Isto que estamos vendo ocorreu em 1911, agora estamos em 2000, e nada em absoluto mudou! De fato, estamos mais ‘ferrados’! Hoje há maquinário e tecnologia avançados e se supõe que o trabalhador deveria ter melhores condições de trabalho. Depois do incêndio se lutou por melhores regulamentos e se supõe que se deveria trabalhar em melhores condições, oito horas e receber o salário mínimo. Se essas leis existem onde estão?" (RW, Nº 1045)

As costureiras da Triangle e suas companheiras de Nova Iorque deixaram um poderoso legado de luta que se celebra cada ano. Em 1910, as delegadas da Segunda Conferência Internacional de Mulheres Socialistas em Copenhague proclamaram o 8 de março Dia Internacional da Mulher em honra ao Levantamento das vinte mil e às trabalhadoras de Nova Iorque.

No ano do incêndio da Triangle se celebrou pela primeira vez o Dia Internacional da Mulher nas ruas da Alemanha, Áustria, Dinamarca e outros países.

Ao recordar as mulheres que tomaram as ruas no Levantamento e aquelas que morreram na fábrica Triangle, Sandra diz: "Olha, é muito pesada a corrente que nos prende hoje. A mulher sempre pensa em levar adiante a família e sabe o que é lutar pelos outros. Ela vive sob a opressão de gerações e sabe que sua filha seguirá o mesmo caminho, já está feito. Quando a mulher luta pelo geral, luta com uma visão mais ampla, com mais impulso, com uma forte motivação de que se unimos nossas lutas, a nossa situação pode mudar. Isso é o que vimos no Levantamento das vinte mil. Essa luta acendeu outra luta por maiores mudanças. Não lutavam por elas mesmas, e sim por todos os pobres".

Em honra das lutadoras de nossa classe, em memória de nossos mortos no incêndio da Triangle, as faixas do Dia Internacional da Mulher 2000 proclamam: Romper os grilhões! Desencadear a fúria da mulher como uma força poderosa para a revolução!

"Rimos de alegria quando ouvimos essas palavras", diz Sandra. 

Extraído de Revolutionary Worker, 2000

segunda-feira, 2 de março de 2015

Sobre as “lentes deformantes” na análise das relações internacionais

 Por ocasião dos últimos acontecimentos na Ucrânia e nos Balcãs


Por.Elisseos Vagenas Membro do CC do KKE
Chefe da Secção de Relações Internacionais

“Se a Bulgária foi privada da possibilidade de comportar-se como um Estado soberano, que pelo menos peça à União Europeia dinheiro pelo lucro perdido” (comentário de Vladimir Putin, Presidente da Rússia, a respeito da decisão de suspender a construção do gasoduto “South Stream”, depois das reticencias da Bulgária, sobre o seu trajecto).

“Temos que ter, finalmente, uma política externa alemã onde a segurança e a paz seja mais importante que as instrucções de Washington” (Sahra Wagenknecht, deputada e dirigente histórica do partido social democrata alemão Die Linke, durante a discussão no Bundestag sobre os desenvolvimentos na Ucrania).

Estas declarações de dois políticos conhecidos “refrescam” a nossa memória reiterando uma concepção que prevalece em relação à questão das relações internacionais e inter-estatais. Trata-se de uma concepção que nega a realidade criada pelo desenvolvimento desigual do capitalismo e promove a posição irrealista de que os países capitalistas com uma posição intermédia o alta (como a Alemanha) no sistema imperialista se comportam como as colónias no passado, isto é com uma obediência cega à “metrópole”.                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                            
Além disso, a este ponto de vista, junta-se muitas vezes o conceito de que esta situação é devida ao facto de “a política dominar a economia”, e que se dominassem os interesses económicos não existiriam, por exemplo, as sanções da União Europeia contra a Rússia, que destroem as vantajosas  relações económicas , ou os obstáculos postos pelos EUA e a União Europeia à construção do gasoduto de South Stream. Mas isso é verdade?

A força motriz da cooperação e dos antagonismos 

Claro que se pode ver à vista desarmada, que este ponto tem sérias deficiências. Pode-se perguntar, por exemplo, que a Alemanha, a chamada "locomotiva" da União Europeia, uma das economias mais fortes do mundo, não passa de um títere dos EUA, que segue cegamente as "instruções de Washington", como disse a já mencionada deputada alemã do partido oportunista Die Linke ("esquerda") 

É óbvio que a causa da convergência capitalista da Alemanha com os EUA, que apesar da sua reduzida participação no PIB mundial, continua a ser a economia capitalista mais forte, no “topo” da “pirâmide” imperialista, não se encontra aqui.

A causa da convergência entre os Estados capitalistas, assim como das rivalidades nas suas regiões, tem que ver com o seu desejo de salvaguardar o fortalecimento do poder e da força da burguesia de cada país. Com este fim, os governos sejam de “direita” ou de “esquerda”, sempre ao serviço da burguesia, pretendem criar alianças económicas, políticas e militares. Estas alianças podem ser bilaterais e multilaterais, como são a União Europeia e a NATO.

Escusado será dizer que nestes acordos, uniões e organizações, assim como na “rede” de relações entre os estados capitalistas em geral, cada burguesia participa segundo a força do seu país (económica, política e militar). Neste contexto, está ligado com os outros países através de milhares de vínculos de interdependência que têm um carácter desigual uma vez que a economia capitalista se caracteriza pela desigualdade.

É aqui que devemos procurar as razões pelas quais Alemanha e EUA convergem sobre a questão das relações com a Rússia e em torno dos acontecimentos na Ucrânia. Usamos a palavra convergência, não alinhamento, porque na postura da Alemanha existe um “denominador” comum com os EUA, ou seja, contra a Rússia, mas há muitas diferenças tanto neste caso como em muitos mais.

É óbvio que a burguesia alemã (a sua secção mais forte) considera que, precisamente neste período, lhe serve a convergência com os EUA, para exercer pressão sobre a  Rússia. Claro que há sectores da burguesia alemã que foram afetados negativamente e sofreram uma catástrofe económica devido a essa convergência com os EUA, na postura em relação Rússia. Tais sectores procuram outras alianças geopolíticas para a Alemanha. No entanto, parece que até este momento cedem a interesses mais fortes e à “linha” geral de fazer pressão sobre Moscovo. A burguesia da Alemanha já assegurou o seu abastecimento energético da Rússia através do “Nord Stream”.  Este gasoduto que pode transportar uns 55.000 milhões de metros cúbicos, cruza o Mar Báltico e fornece directamente a Alemanha, de gás natural . A burguesia da Alemanha assume que, pelo menos no futuro próximo, a Rússia, mesmo que quisesse, não podia cortar o fornecimento, tanto por razões económicas (a necessidade de recuperar receitas orçamentais), como por razões técnicas (falta de outras condutas que funcionem como alternativa a outros importadores). Além disso, o “terceiro pacote energético” da UE, procura conseguir quotas maiores  no mercado internacional de energia em detrimento dos monopólios energéticos russos bem como reforçar as suas posições na Ucrânia.

Assim, tanto a cooperação como as rivalidades entre os Estados capitalistas são motivadas pela rentabilidade do capital. O desenvolvimento das relações no “triangulo” EUA-Alemanha-Rússia, não é excepção.

O mesmo se pode dizer da Bulgária. Não se trata de uma “obediência cega” contra os “interesses nacionais” da Bulgária, como  lemos. Em primeiro lugar, são diferentes “os interesses nacionais” da burguesia búlgara, e os dos trabalhadores. Em primeiro lugar, a burguesia búlgara  está interessada em  assegurar a sua posição; procura ter o apoio da NATO e da UE (nas quais participa), para ter apoio em todos os momentos no caso de questionamento do seu poder pela classe operária e outros sectores populares. Para a Bulgária estas alianças, das quais depende para continuar e actualizar a exploração do povo, são de particular importância. Além disso, o seu sector mais forte acha que somente através dessas alianças vai conseguir aumentar a sua rentabilidade e fortalecer a sua posição na região e mais além. Claro que há também interesses capitalistas que têm diferentes prioridades económicas e geopolíticas, por exemplo, uma maior conexão com a Rússia capitalista, mas isso não significa que sejam favoráveis ao povo. Porque eles também têm o mesmo objetivo estratégico: a perpetuação do sistema de exploração da classe operária.

A política contra a economia?

A Bulgária perderá 400 milhões de euros por ano pelo cancelamento do gasoduto "South Stream", disse Vladimir Putim e tinha razão. Mas a burguesia bulgara está alinhada  com a UE e os EUA neste caso concreto, pois considera que pode ganhar muito mais com o decorrer do tempo. Por isso è errada a avaliação de que "a politica funciona contra a economia".


Isto vê-se ainda melhor com a participação do nosso país nas sanções da UE contra na Rússia, que levou a contra- medidas russas, com a proibição de importações de productos agrícolas gregos no mercado russo. O grande prejuízo que os productores gregos sofreram, assim como os exportadores de produtos gregos para a Rússia, não foi suficiente para impedir a participação do governo grego nesta “guerra” comercial da União Europeia contra a Rússia. Porquê? Pela mesma razão que promove no país todas as medidas anti-populares decididas em conjunto no seio da UE. Porque considera que estas servem a burguesia do país. Mesmo que afectem negativamente os sectores populares, apesar  de provocarem perdas para certos sectores da burguesia, prevalece o interesse estratégico da burguesia: a participação da Grécia na UE e na NATO trará enormes benefícios à burguesia no seu conjunto. É por isso que Lenin sublinhou que “a política é a expressão condensada da economia”.

Porque são perigosas as opiniões acerca da “soberanía”?

Vladimir Putim no seu discurso anual destacou, com alguma razão, que a Ucrânia não foi mais que um pretexto para a imposição de sanções contra a Rússia, já que o Ocidente há muito tem tentado travar o curso do país. Acrescentou também com razão, que os rivais internacionais da Rússia queriam  que a Rússia acabasse como a Jugoslávia. Ao mesmo tempo, recorreu à fraseologia "patriótica" para enganar os trabalhadores do seu país. Disse que "se para alguns países europeus a soberania nacional é um luxo, para a Federação Russa, a soberania, é uma condição absolutamente necessária para a sua existência". 
Claro que é a mesma pessoa que assinou a integração da Rússia na Organização Mundial de Comércio que coloca uma série de restrições em diversos sectores da economia russa.

A economia russa, uma potência capitalista emergente, está  hoje ligada de forma multifacetada à economia capitalista global. Estas relações implicam uma inter-acção constante. Pode falar-se de “soberania” acerca de um país que está completamente dependente dos preços internacionais do petróleo e do gás natural, como está a Rússia capitalista? Pelo menos metade do orçamento anual da Rússia depende do sector da energia, do petróleo e do gás natural. Mas além disso, de que “soberania” podem falar os trabalhadores, os desempregados, os sectores populares nas condições do capitalismo? É a mesma “soberania” que a do capitalista Roman Abramovich, dono da equipa de futebol inglês “Chelsea”?

Uma discussão similar é levada a cabo no nosso país sobretudo pelo SYRIZA e os Gregos Independentes, assim como pelos partidos no poder, a ND e o PASOK, a respeito da “recuperação da soberania”. No entanto, não questionam a participação na União Europeia e na NATO, e muito menos o caminho do desenvolvimento capitalista do país. Torna-se claro que em nome da “soberania” (ou seja da sua preservação ou da sua recuperação) os políticos burgueses utilizam argumentos enganadores para agarrar os trabalhadores “debaixo de bandeiras alheias”. Quer dizer fazê-los lutar e sofrer pelos interesses da burguesia, para que esta fortaleça a sua posição no sistema capitalista mundial.

Igualmente perigosas são as posições que defende o Partido da Esquerda Europeia e o SYRIZA na Grécia em relação à União Europeia. Eles afirmam que se a UE supostamente, “se emancipa” dos EUA e da NATO, torna-se “soberana” e traçará uma política “europeia”, “a favor do povo e da paz”. O SYRIZA declarou inclusivamente, que neste caso a UE mereceria receber o Prémio Nobel da Paz. No entanto, na realidade, esta “emancipação” significaria simplesmente a disposição da UE, ou da sua parte mais forte, de lutar para adquirir mercados utilizando a sua força, ou mesmo as armas, tanto em cooperação com a NATO como por si própria. Isto já está sucedendo!

É inútil e enganador que os trabalhadores da Europa esperem que a UE mude. Isto acontece porque as directrizes políticas da UE não são determinadas por quem tem a maioria na UE, os de “centro esquerda” ou de  “centro direita”, mas pelo carácter do sistema social que predomina nesta. Este é o modo de producção capitalista, onde os meios de produção estão nas mãos de uns poucos capitalistas. Este carácter da UE também se reflete nos seus tratados.

A solução para o povo grego e os demais povos não radica no esforço enganador de “embelezar” a UE, nem no alinhamento com as forças políticas que em nome da “soberania” tratam de atracar os sectores populares ao serviço dos interesses de uns poucos e poderosos capitalistas.

A única solução é a retirada de todas as alianças imperialistas, com a conquista do poder pela classe operária e a socialização dos meios de produção.

 * O artículo foi publicado em 14/12/2014 no jornal “Rizospastis”, órgão do CC do KKE 


sexta-feira, 27 de fevereiro de 2015

Alfredo Barroso abandona o PS de que foi fundador

Declaração de António Costa é uma humilhação e uma vergonha para todos os socialistas, diz Alfredo Barroso. Foto do Facebook de AB

 Diz que não é possível continuar a militar no partido cujo secretário-geral declara que Portugal está hoje melhor do que há quatro anos e ainda presta vassalagem “à ditadura comunista e neoliberal da República Popular da China”. Afirma que não vai entrar em nenhum partido, mas irá apoiar e votar no Bloco de Esquerda.

Este desabafo da parte de Alfredo Raposo, não passa da "gota de água que fez transbordar o copo", é pena que não a tivesse tomado há mais tempo visto que o PS ao longo dos 40 anos que já levamos de "democracia" burguesa, sempre andou de braço dado com as politicas reaccionárias que contribuíram, para os baixos salários, desemprego e destruição dos direitos  sociais conquistados pelo  movimento operário e popular, antes e após o 25 de Abril. Mas como diz o povo "mais vale tarde, do que nunca", neste sentido apoiamos a denúncia e a atitude de A.Barroso em querer finalmente cortar com o PS.

Quanto há "ditadura comunista e neo-liberal da República Popular da China" a sua afirmação torna-se reaccionária e anti-comunista, na medida em que o PCdaChina há muito degenerou e traiu o comunismo e se transformou num partido burguês pró-imperialista.

 Quanto a optar pelo BE ou mesmo no PCP, aconselhamos caso esteja realmente interessado em combater o desemprego, a miséria e a defender a Soberania Nacional da ingerência imperialista, em particular da UE/FMI, a analisar a sua opção mais profundamente, tendo em conta as recentes cedências das promessas eleitorais pelo Syriza e o seu compromisso em manter o programa da Tróika assinado pelo governo anterior, por imposição da UE/FMI, a tal Europa em que a dita esquerda se revê e se quer manter.

!

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2015

Quando dizem que, agora, a carne é peixe.

Por:Partido Comunista da Grécia (KKE)

Ainda nos lembramos da imagem dos monges, na Idade Média, que diziam que a carne era peixe, a fim de superar as dificuldades do interminável jejum. Esta imagem encaixa-se perfeitamente nos desenvolvimentos que têm vindo a ocorrer na Grécia, nos recentes dias, sob o governo SYRIZA-ANEL. Eis alguns dados que o justificam: 

O SYRIZA, como partido de oposição, prometeu rasgar os memorandos que os Governos anteriores haviam assinado com os credores estrangeiros (a União Europeia, o Banco Central Europeu e o Fundo Monetário Internacional) e que continham as medidas antitrabalhadores e antipopulares. O SYRIZA, como partido do governo, revelou que concorda com 70% das “reformas” incluídas nos memorandos e discorda de 30%, que descreve como “tóxicas”. Na verdade, assume que não agirá unilateralmente, mas procura um novo acordo com os credores que, desta vez, não será chamado memorando, mas programa, acordo ou ponte. 

O SYRIZA, como partido de oposição, declarou guerra à troika dos credores estrangeiros e disse que iria colocar um fim a isso. O SYRIZA, como partido do governo, assume que falará com e responderá às “instituições”. Quais? A União Europeia, o Banco Central Europeu e o Fundo Monetário Internacional. Na verdade, exactamente as mesmas pessoas que constituem a tróika estão a tomar parte nas negociações em Bruxelas, em nome das “instituições”. 

 O SYRIZA, como partido de oposição, foi um crítico mordaz do governo ND-PASOK, que apoiou e participou nas sanções da UE contra a Rússia e acusou-os de serem servis, por causa desta postura. O SYRIZA, como partido do governo, apoiou as mesmas sanções da UE e, também, a sua escalada, caracterizando a posição do seu governo como um “significativo sucesso”. 

O SYRIZA, como partido de oposição, tomou uma posição contra as privatizações. Agora, como governo, de acordo com a declaração do ministro das Finanças, Y. Varoufakis, assume que “Queremos passar da lógica de vendas ao desbarato para a lógica do seu desenvolvimento, em parceria com o sector privado e os investidores estrangeiros”! Por isso, adopta as privatizações para reforçar o sector privado e tenta apresentar também outros métodos de privatização, como parcerias público-privadas e concessões aos grupos económicos, etc., como sendo benéficos. 

 O SYRIZA, como partido de oposição, caracterizava a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE) como o “livro negro do neoliberalismo”. O SYRIZA, como partido do governo, recebeu em Atenas, nos primeiros dias do seu mandato, Angel Gurría, Presidente da OCDE, que teve uma reunião com o Primeiro ministro A. Tsipras. A OCDE, de acordo com o governo de coligação SYRIZA-ANEL, é a organização que ajudará a elaborar uma lista de medidas, a fim de salvaguardar o desenvolvimento (capitalista) na Grécia. Medidas que substituirão a parte “tóxica” do Memorando, os notórios 30%.

 O SYRIZA, como partido de oposição, denunciou a decisão do anterior governo de pagar “dezenas de milhões de euros a empresas que prestam serviços jurídicos e aconselhamento financeiro”. O governo do SYRIZA-ANEL contratou a empresa “Lazard” como consultora para as questões da dívida pública e da gestão fiscal, obviamente apreciando a experiência proporcionada pelos anteriores governos do PASOK, de G. Papandreou. Isto não é por acaso! Além disso, o novo Ministro das Finanças, Y. Varoufakis (costumava ser um consultor de G. Papandreou) recorreu aos serviços dos ex-assessores de G. Papandreou, J. Galbraith e Elena Panariti, ex-deputada do PASOK. O primeiro é um economista americano, professor na Universidade do Texas, funcionário do Instituto Levy, bem conhecido apologista do capitalismo e um apoiante de uma fórmula mais expansionista para a gestão da crise. A última trabalhou para o Banco Mundial. Por outras palavras, ambos servem o sistema e os seus mecanismos. 

Podemos acrescentar mais à lista das retratações do governo do SYRIZA e da sua “esquerda”, como o facto de uma série de promessas feitas antes das eleições – por exemplo, o aumento do salário mínimo – serem remetidas para um futuro distante. Da mesma forma, podemos apontar outros marcantes exemplos de funcionários e assessores do social-democrata PASOK que agora estão a servir o governo “de esquerda”. No entanto, a questão mais importante é a de clarificar que tipo de negociações o atual governo grego está a realizar com a UE e os outros credores. 

As negociações têm um conteúdo concreto, que não está relacionado com o “alegado fim da austeridade” na Grécia e na Europa, como o SYRIZA e os outros partidos que participam no Partido da Esquerda Europeia pretendem. Além disso, Y. Varoufakis afirmou claramente que nos anos vindouros, sob o governo do SYRIZA, os trabalhadores têm de continuar a viver “frugalmente”. As negociações estão relacionadas com as necessidades dos grupos económicos que advêm das consequências da profunda crise capitalista, assim como da evolução da incerta recuperação capitalista na Grécia e na zona do euro como um todo.

 Estas negociações estão a ocorrer num terreno hostil ao povo. Isto é provado pela identificação do governo grego com países como a França, a Itália e, sobretudo, os EUA, com todas as implicações negativas que esta postura acarreta. Estes países podem exercer pressão sobre a Alemanha em defesa dos seus próprios interesses, mas continuam a mesma dura linha política contra o povo. 

Apesar da sua barulhenta propaganda sobre as negociações com a UE e os credores, o SYRIZA assume, ao mesmo tempo, que compartilha muito com eles e que continuará os compromissos anti-populares do país perante a UE e a NATO. Assim, o povo grego e os outros povos não devem cair na armadilha de serem separados em “merkelistas” e “obamistas” e divididos numa luta sob uma bandeira “alheia”. Eles têm de organizar a sua luta e exigir a reposição das perdas respeitantes aos seus rendimentos e aos seus direitos. 

Devem exigir a solução de todos os problemas dos trabalhadores e do povo, de acordo com as suas actuais necessidades. Devem lutar por uma saída que lhes traga esperança: a socialização dos monopólios, a saída das uniões imperialistas da UE e da NATO, com o povo a segurar as rédeas do poder. Isto preparará o terreno para o único, oportuno e realista caminho, que leva à verdadeira emancipação do povo: a construção de uma nova sociedade, uma sociedade socialista. 

sábado, 14 de fevereiro de 2015

SYRIZA, o novo pólo da social-democracia na Grécia!


 Entrevista de Elisseos Vagenas, membro do CC do KKE e responsável pela Secção de Relações Internacionais do CC, para o “Jornal de Negócios”, de Portugal 1* . 


-Como interpreta os resultados das eleições de domingo? 

A mudança de governo, com a coligação entre o SYRIZA e os Gregos Independentes (ANEL), reflete o descontentamento e a raiva do povo contra a ND e o PASOK, partidos que mergulharam o povo na pobreza e no desemprego durante a crise capitalista, bem como na falsa esperança de que o novo governo do SYRIZA poderia seguir uma linha política a favor do povo. O KKE considera que a coligação entre o SYRIZA e o ANEL seguirá o mesmo caminho: a linha do recuo e da transigência, dos compromissos com o grande capital, os monopólios, a UE e a NATO, com todas as implicações negativas para o povo e o nosso país. . 

- O que espera de um governo liderado pelo SYRIZA? 

Agradaram-lhe as decisões tomadas nestes primeiros dias? Apesar da barulhenta propaganda sobre as negociações com os parceiros-credores europeus e diferenças parciais, o SYRIZA continuará os compromissos antipopulares do país com a UE. Já admitiu que haverá um novo programa acordado com os credores. Mesmo que não se chame memorando, conterá condições contra o povo, como cortes nos serviços sociais públicos universais e gratuitos. As orientações estratégicas do programa do SYRIZA inserem-se no âmbito de servir os interesses dos grupos económicos – a estratégia da UE. O programa SYRIZA, em relação à maioria dos trabalhadores e das famílias populares, vai espalhar a pobreza e o desemprego por ainda mais pessoas. 

2 No que respeita às questões de defesa e política externa, o SYRIZA está comprometido com a NATO e a aliança estratégica com os EUA. A posição do governo em relação à questão da Ucrânia, apesar da fanfarronice, durou apenas três dias. No quarto dia, o governo grego alinhou com a UE e votou as mesmas sanções contra a Rússia que o anterior governo da ND-PASOK tinha apoiado (embora as tenha criticado de forma veemente como um partido de oposição), deixando a porta aberta para outras, brevemente. Outro exemplo característico é as declarações do Ministro da Defesa, que anunciaram a continuação da cooperação com Israel... 

- O SYRIZA fez uma coligação com o partido Gregos Independentes. Não faria mais sentido uma coligação com o KKE? Por que não aconteceu? 

Não, não faria qualquer sentido. Por que o SYRIZA e o KKE estão a seguir caminhos totalmente diferentes. Antes das eleições, o nosso partido considerou que o SYRIZA, caso não tivesse a maioria no parlamento, formaria governo com um dos partidos que, tal como o SYRIZA, são a favor da permanência do país na UE e na NATO; partidos que entendem que o povo tem de pagar uma dívida insuportável, pela qual não tem qualquer responsabilidade, partidos que insistem no caminho de desenvolvimento capitalista. O KKE tem uma posição diferente sobre estas questões fundamentais e luta pelo cancelamento unilateral da dívida, a saída da Grécia da UE e da NATO e a socialização dos meios de produção básicos, com a classe operária e o poder do povo. 

- Qual vai ser a posição KKE no Parlamento grego? Está disponível para aprovar medidas apresentadas pelo governo?

O KKE tem como sua tarefa principal fortalecer a oposição militante dos trabalhadores e do povo, dentro e fora do Parlamento, contra os monopólios e o seu poder, contra as alianças imperialistas. Vamos utilizar a força que nos foi dada pelo povo para contribuir para o reagrupamento do mundo do trabalho e o desenvolvimento da aliança social. Temos de fazer pressão, temos de lutar por todas as conquistas possíveis para as camadas populares e por medidas imediatas para aliviar o povo. Entre outras coisas, vamos examinar cuidadosamente todas as propostas de lei, tendo como critério os interesses dos trabalhadores e do povo, e apoiaremos qualquer proposta lei que ofereça verdadeiro alívio aos trabalhadores, o que sempre temos feito. .

 O que diferencia o KKE do SYRIZA?

 As diferenças são enormes. O SYRIZA é o novo pólo da social-democracia na Grécia e está interessado em gerir o poder da burguesia, com uma “imagem de esquerda”. O KKE é um partido da classe operária, que procura o derrube da barbárie capitalista e a construção de outra sociedade, socialista-comunista. 

Deve a Grécia sair da zona euro? 

Na nossa avaliação, isso não é suficiente. Sem os outros fatores que descrevemos – como a completa retirada da UE e da NATO, a socialização dos meios de produção e a diferente organização da economia e da sociedade – o retorno à moeda nacional, por si só, pode até levar a piores desenvolvimentos para as camadas populares. . 

Por toda a Europa, partidos de esquerda elogiaram a vitória do SYRIZA. Sente que o KKE ainda é o verdadeiro porta-voz dos ideais da esquerda na Grécia?

 Há alguns anos, os mesmos partidos celebraram o alegado “novo vento” da eleição de Hollande, na França. Hoje sabemos como isso acabou. Entre outras coisas, o KKE expressa as genuínas tradições militantes do movimento operário e popular no nosso país. O SYRIZA cortou todos os laços com estas tradições. . 

O KKE é conhecido pelos seus protestos de rua. Continuarão? 

Vamos continuar, com ainda melhor preparação e planeamento, utilizando todas as possibilidades; e contribuiremos para que a linha do contra-ataque seja adotada de forma mais abrangente pelo povo e, também, para o reagrupamento do movimento operário e popular, que é o fator decisivo que irá determinar o resultado da luta. Elisseos Vagenas Membro do CC do KKE e responsável pela Secção de Relações Internacionais do CC

1 A entrevista foi publicada no “Jornal de Negócios” do dia 2015/02/09.

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2015

Agressões e prisões pela polícia no bairro da Cova da Moura

MAIS UM CASO DE VIOLÊNCIA POLICIAL

QUE NÃO PODE FICAR IMPUNE

Na passada 5 feira, dia 5 de Fevereiro, uma brigada policial fez uma pretensa rusga na Cova
da Moura, numa pura demonstração de força e intimidação da população, tal como muitas vezes tem acontecido em muitos bairros do país. A certa altura, abordaram de forma provocatória um grupo de jovens do bairro, revistando-os e abusando-os verbalmente à espera de alguma forma de resposta violenta. Como não a obtiveram, os polícias começaram a agredir brutalmente um dos jovens, apesar de este não estar a oferecer qualquer resistência. 

Seguiram-se disparos, incluindo sobre outros habitantes que entretanto tinham ido ver o que se passava e que puderam testemunhar todo o episódio. Uma voluntária da Associação Moinho da Juventude foi atingida na perna e na nádega. O jovem, a sangrar, foi algemado e levado para a esquadra de Alfragide. Aí, os polícias juntaram-se para o agredir com cassetetes e pontapés, ao mesmo tempo que o insultavam. Só seria libertado no dia seguinte, depois de o terem acusado de apedrejar a carrinha da polícia, uma acusacão impossível, já que ele na altura estava a ser revistado.

Um grupo de pessoas, entre os quais dois dirigentes do Moinho, decidiu dirigir-se à esquadra para exigir a libertação dele. Apesar da abordagem pacífica deles à entrada da esquadra, foram logo insultados e baleados e depois, dentro da esquadra, foram algemados, violentamente agredidos e ameaçados de morte. Cinco deles foram detidos e levados pela polícia para a esquadra da Damaia e depois para um hospital, devido aos ferimentos que tinham sofrido. A polícia e a comunicação social tentou apresentar o que se passou este episódio como sendo um gang a invadir a esquadra.

Este é mais um dos muitos casos de provocação e violência policial que alastram em particular nos bairros negros das periferias e que não podem ficar sem resposta. A cada dia que passa, a polícia provoca, invade, agride, insulta e prende ilegalmente sobretudo jovens de etnias que o sistema considera inferiores, através dos seus agentes nas forças de repressão, nas quais se expandem cada vez mais, com encorajamento oficial e com total impunidade, sentimentos de ódio racista.

Isto não acontece por acaso, acontece numa altura em que a crise do sistema impõe condições de vida cada vez mais horrendas e desumanizadoras aos sectores mais explorados e oprimidos da sociedade, com particular destaque para os descendentes de africanos, que são empurrados para o desemprego (esmagadoramente os jovens) e para uma vida em bairros onde lhes são negadas as mais elementares condições de sobrevivência. Este sistema não tem nada para lhes oferecer e pretende esmagar-lhes os horizontes.

Isto está a acontecer em todo o mundo dito avançado, em toda a Europa e nos EUA (onde chega a limites extremos, como os assassinatos endémicos de afro-americanos e latinos que geraram a recente grande onda de protestos e indignação). O objectivo é impor um brutal sistema de medo permanente que impeça os jovens de se revoltarem, sob qualquer forma, desde as mais erradas às mais avançadas, contra uma vida sem perspectivas e para mudar a sociedade. O objectivo é dividir, colocar brancos e negros uns contra os outros e entre eles mesmos, fazer com que cada um lute por “privilégios” neste sistema, numa luta do “nós”contra “eles”, do “eu” acima dos “outros”, numa guerra pela sua “fatia” da opressão. São objectivos em que estão empenhados todos os órgãos deste brutal sistema, desde a polícia à comunicação social, passando por todos os órgãos deste estado opressor.

É necessário lutar contra esta repressão e opressão e acabar com a lógica divisora deste sistema, com esta forma de pensar e de agir. É necessário enfrentar a realidade e pensar que não é apenas uma questão de mudar de mentalidade, mas sim de mudar as bases opressoras desta sociedade. Denunciar todos estes casos e lutar lado a lado para mudar tudo isto, lutar por uma sociedade em que não haja estas divisões e que crie as condições para as pessoas viverem a sua criatividade e em condições humanas.

Temos de lutar e resistir. Lutar pelos que foram agredidos, presos e desumanizados neste caso. Lutar e resistir para denunciar todos estes casos, lutar e resistir contra a criminalização de todo um grupo étnico, contra as detenções, os ataques e o terror policial. Lutar por ligar todas as lutas contra este sistema, que são parte da mesma luta. E lutar e resistir para construir uma sociedade melhor. Isto é possível e é cada vez mais necessário.

As provocações e a violência policial têm de acabar!

Punição exemplar de todos os polícias envolvidos!

Organiza-te contra a violência policial e o racismo!

Participa nas acções de protesto!

10 de Fevereiro de 2015
Basta!

Concentração contra a violência policial e contra o racismo 12 de Fevereiro de 2015, pelas 17 horas
Frente ao Parlamento.

Colectivo Mumia Abu-Jamal
10 de Fevereiro de 2015

facebook.com/pages/Colectivo-MUMIA-Abu-Jamal/361860907279943

terça-feira, 3 de fevereiro de 2015

Assim vai o capitalismo nos E.U.A: 16 milhões de crianças usam cupões de alimentação



 Como consequência da crise económica e do aprofundamento da exploração capitalista, dezenas de milhões de trabalhadores norte-americanos e suas famílias são atirados para a extrema pobreza.

E.U.A: 16 milhões de crianças usam cupões de alimentação  

Dados oficiais indicam que se trata do índice mais alto desde o início da crise económica iniciado em 2008.

Os números revelados sobre a pobreza juvenil  pela entidade de Censos dos EUA estimam que uns 16 milhões de crianças receberam cupões para  adquirir  alimentos durante  2014.

De acordo com a população infantil registada nos EUA estima-se que haja um em cada cinco crianças nesta situação.

Segundo informações da agência de noticias AP uns nove milhões de crianças americanas  se encontram registados no Programa de Assistência de Nutrição Suplementar desde o ano de 2007 e desde então se mantêm num nível alto.

Em relação à população total, uns 26 milhões de pessoas receberam cupões de alimentação em 2007, segundo o Departamento de Agricultura, a quantidade de população nestas condições ascendeu  até aos 46,5 milhões durante o ano passado.

Números oficiais publicados no passado mês de Novembro informam que 49,5 por cento da população beneficiou de alguma classe de subsídio do programa de assistência social até 2012, alguns destes foram suspendidos por decisão do Congresso em 2013. 

 Estes números revelam ainda que 46 milhões de Norte-americanos vivem na pobreza e de entre estes 14,4 milhões são trabalhadores a trabalhar meio tempo de trabalho e 4,4 milhões a tempo completo.

domingo, 1 de fevereiro de 2015

Os direitistas "Gregos Independentes" (ANEL) são os parceiros do governo da "esquerda radical" (SYRIZA)


"Não há nenhuma possibilidade de formar um governo de coalizão com Panos Kamenos (líder do partido ANEL). Pertence ao espaço da direita. A trajectória e as posições de Panos Kamenos colocam-no à direita da Nova Democracia. Um governo de esquerda-anti memorando que dependa do voto de Panos Kamenos não pode durar." Dizia em 2012 D.Papadimulis, alto quadro do SYRIZA, eurodeputado e vice-presidente do Parlamento Europeu. 

Alguns de nós lembrámos estas declarações ao ouvir que o SYRIZA e os nacionalistas do ANEL chegaram a acordo para formar governo.

O líder do ANEL, Panos Kamenos era quadro da Nova Democracia e ministro dos Transportes Marítimos, nos governos da Nova Democracia, usando desta posição de alta responsabilidade para apoiar a grande rentabilidade dos armadores gregos. No novo governo Panos Kamenos foi nomeado Ministro da Defesa…

Muitos ficaram surpreendidos. Outros ficaram paralisados. Em particular, muitos trabalhadores no estrangeiro, influenciados pela “tormenta” da propaganda dos meios de comunicação internacionais sobre o “SYRIZA esquerdista”, “perigoso para a União Europeia”, ficaram justificadamente chocados. Especialmente os que, devido às “lentes” deformantes dos meios de comunicação, comemoraram a formação do governo da  “esquerda radical” em que afinal se encontrou espaço para os nacionalistas do ANEL. Ficou demonstrado uma vez mais que o termo “esquerda” não consegue definir correctamente as forças políticas, os seus objetivos e as suas alianças. Se os trabalhadores da Europa, que o “Partido da Esquerda Europeia” (PEE)  chamou a comemorar a vitória do SYRIZA, pusessem os seus “óculos” de classe, poderiam ver que o SYRIZA “esquerdista” é um partido a favor do capital, da UE e da NATO. Portanto, não há motivo para celebrar.

No entanto, é bom realçar que, na Grécia a formação do dito governo não foi surpresa. A cooperação do SYRIZA e do ANEL não é nova. Começou em Março de 2013, quando os presidentes dos dois partidos, usando como pretexto os acontecimentos no Chipre, se reuniram, fizeram declarações conjuntas e discutiram a formação de uma “frente” comum.

Recordamos que o KKE desde o primeiro momento salientou que havia base política para a formação de um governo do SYRIZA com o ANEL ou com outros partidos e isto reflectiu-se a nível governamental.

O KKE deixou claro que o SYRIZA é o novo partido social democrata, com uma política a favor dos monopólios, da UE e da NATO. Um partido social democrata contemporâneo em lugar do PASOK, um partido de gestão burguesa que carrega o pagamento da dívida sobre o povo e fala de orçamentos equilibrados, que apoia o capital com fundos, enquanto oferece migalhas ao povo. Por isso, com base no exposto, não duvida em cooperar mesmo com os nacionalistas para formar um governo burguês.

Esta é a cola que une o SYRIZA a um partido com posições nacionalistas como o ANEL, que anteriormente chegou a cooperar a nível parlamentar com o “Amanhecer Dourado” fascista. Um exemplo típico é que os seus deputados na votação para a suspensão da imunidade dos deputados do Amanhecer Dourado para serem levados a tribunal pelos assassinatos e agressões contra trabalhadores e imigrantes, votaram… “presente”. Obviamente os cargos governamentais são uma recompensa pela sua postura…

Além disso, o ANEL mantem uma posição reacçionária sobre o tema da imigração e, de “caça de imigrantes ilegais”, uma posição similar à do Amanhecer Dourado. Não se devem subestimar propostas ridículas apresentadas pelo ANEL como “o renascimento dos Jogos Olímpicos antigos num lugar perto de Olimpia com atletas de origem grega. Os jogos serão realizados como na antiguidade e os atletas competirão como os antigos”…

As posições e a estratégia do ANEL, tal como as do SYRIZA, têm como meta salvar os monopólios. O ANEL acrescenta a esta linha política palavras de ordem nacionalistas e proclamações em “defesa do helenismo” que “é ameaçado por Merkel”, e trata de ocultar e embelezar o papel da União Europeia.

Este nacionalismo subjacente é a outra face do cosmopolitismo do capital, que é utilizado regularmente pelo SYRIZA.
Obviamente o que está sendo atacado não é o “helenismo”. Quem está a ser  impiedosamente atacada é a classe operária e as camadas populares, e isso vai continuar independentemente da forma de gerir a crise capitalista, independentemente dos gestores do poder burguês, mesmo quando chegar a recuperação tão esperada pelos burgueses.

Outro exemplo característico no programa governamental do ANEL é a referencia ao estabelecimento de um “subsídio de desemprego” que permitirá ao empregador “pagar aos trabalhadores somente a parte do salário líquido mensal, não coberto pelo subsídio".  É portanto mais um partidário da subvenção aos empregadores. O  SYRIZA tem propostas similares quanto à implementação de programas de trabalho flexível na União Europeia que apoiam o capital e “reciclam” o desemprego.

Além disso, no seu programa económico, o ANEL defende “A despenalização do empreendedorismo”. Esta posição do ANEL encaixa na do SYRIZA sobre o apoio do  empreendedorismo saudável, e nos elogios da Federação Helénica de Empresas ao novo governo. Podemos ver como estão a tremer os industriais gregos no seu comunicado recente: “AFederação, como representante de base das empresas gregas organizadas, estará ao lado do governo e proporcionará ao primeiro ministro as posições da política industrial e o plano para o crescimento da economia grega, assim como a rede de relações com a comunidade empresarial europeia e internacional”.

Em termos de Educação, o ANEL é partidário das universidades privadas e quer permitir a sua criação no nosso país. “A abolição legal plena e real de asilo em instituições de ensino e nas universidades, e as ocupações, serão rigorosamente  punidas pelo código  penal” e “as Escolas profissionais exemplares irão cooperar com as empresas”. Obviamente, que o facto de o SYRIZA ter deixado claro que tanto a Educação como a Saúde continuarão a ser espaços abertos à actividade empresarial, confirma a coerência deste governo.

Não acreditamos que seja necessário dar mais exemplos…

O comunicado do Comité Central do KKE sobre o resultado das eleições destaca que: “A alternância governamental e, em concreto, o novo governo do SYRIZA, não constitui uma mudança política favorável ao povo. O governo de coalizão SYRIZA-ANEL irá manter os compromissos antipopulares do país com a UE e os credores e isso, efectivamente, dará descanso ao sistema político burgués que procura assimilar o povo mais profundamente através da recomposição do sistema político burguês, num momento crítico para o povo e para o seu movimento. O SYRIZA admitiu já que após as eleições haverá um programa a acordar com os credores. Este programa, mesmo que não se chame memorando ou  não tenha a forma típica do memorando actual, incluirá condições antipopulares.

O KKE, consequente com o que dizia antes das eleições, não vai apoiar ou dar “voto de tolerância” ao novo governo. Usará a agrupação de forças, que existe nesta fase, para fazer o que prometeu aa povo, ou seja, ser uma forte oposição operária e popular no parlamento, com propostas a favor do povo, mas sobretudo no movimento para que se fortaleça a aliança popular para o presente e o futuro. Para que se fortaleçam as lutas contra a União Europeia, os memorandos permanentes, os monopólios, o capital e o seu poder que estão aqui, presentes. Para que se recuperem as grandes perdas que  os trabalhadores sofreram no período da crise. Para que os trabalhadores assalariados e os independentes não paguem  de novo, mas sim os grupos monopolistas e o capital, para que não distribuam as migalhas aos que vivem em pobreza extrema.”

quinta-feira, 22 de janeiro de 2015

O caos nas urgências dos hospitais públicos

Pode dizer-se que não há palavras para descrever a pouca vergonha que se está a passar nos serviços de urgência dos hospitais do SNS e a forma como o governo e ministro estão a lidar com o problema. Em menos de um mês oito cidadãos morreram aparentemente por falta ou deficiente atendimento após, ao contrário do que mandam as regras nestas situações, muitas horas de espera nos serviços de urgência. A imprensa fala em mais de 1900 mortes no período do Inverno, particularmente frio este ano, devido a diversas morbilidades; todas elas estarão relacionadas com a descida da temperatura e do aparecimento da gripe sazonal, fazendo fé no que a imprensa diz, número que aparentemente não estará longe do que ocorre em outros anos. O que tem sido fora do normal são as mortes de pessoas, quase todas idosas, que esperam muitas horas por cuidados que não são prestados em tempo útil.

Ainda estamos todos lembrados da epidemia da legionella que há pouco mais de dois meses fez 12 mortes e infectou 375 pessoas, tendo o governo levado bastante tempo a identificar o foco causador e a tomar medidas. Foi a terceira maior epidemia no mundo, bem reveladora da política seguida pelo governo PSD/CDS-PP quanto à Saúde Pública, quer no que concerne às medidas de fiscalização e prevenção quer à resposta em termos de cuidados de assistência. A mesma política encontra-se agora ilustrada nas mortes nos serviços de urgência hospitalar que não têm conseguido dar resposta como seria de esperar, sabendo-se antecipadamente que as idas às urgências aumentam substancialmente nesta época do ano. O governo desculpa-se com o “frio”, com a “reforma antecipada dos médicos” e acusa as notícias de “alarmismo” infundado e de “falsidade” na análise das mortes ocorridas e promete medidas salvíficas do género “alargamento dos horários de funcionamento dos centros de saúde”, “contratação directa de novos médicos”, “proibição (!?) de médicos e enfermeiros tirarem férias no período do Carnaval”, “abertura de mais camas de internamento (!?, este governo acabou com 700 camas)… e da possibilidade das “urgências privadas poderem vir a tratar doentes do Serviço Nacional de Saúde em alturas de maior afluência aos hospitais”, segundo despacho assinado, curiosamente de forma muito discreta em 9 de Janeiro, pelo secretário de Estado Adjunto do Ministro da Saúde.

E terá sido esta medida que trouxe mais alguma luz sobre as verdadeiras razões do caos que se vive nas urgências dos hospitais públicos, que fazem mover o ministro especialista em cobrança de impostos e que dão para entender o escarcéu feito por alguma imprensa de referência situada mais à direita. Não há dúvida de que as mortes por legionella e as mortes ocorridas nas urgências, e que poderiam ter sido perfeitamente evitadas, são devidas à política de austeridade levada a cabo nos últimos três anos e meio, o mesmo tempo de mandato deste governo fascista, que tem cortado na Saúde e na Administração Pública em geral com a redução de pessoal e corte brutal nos salários. Mas, mais do que isso, são a consequência lógica de uma estratégia, que vem de há muito, desde o 1º governo de maioria absoluta do PSD/Cavaco, de privatização da Saúde e concomitante destruição do SNS. Só com a degradação do SNS, com o seu subfinanciamento, a não contratação de pessoal, o encerramento de serviços e diminuição do número de camas, ao mesmo tempo que se financia por diversas maneiras o negócio da medicina privada, é que este terá possibilidade de se instalar e progredir. O privado já possui 30% dos internamentos e das consultas, só faltavam as urgências, o “frio” e a “gripe” (o negócio das vacinas parece que já deu o que tinha a dar) deram o mote, o “caos das urgências” confirma a necessidade, a imprensa do regime faz a propaganda… e a medida (o oportuno e "silencioso" despacho feito por uma figura menor do governo) já está tomada.

E, assim, o negócio da Saúde em Portugal vai de vento em popa, enquanto o povo vai morrendo, à fome e à falta de cuidados médicos. É o que acontece quando um governo sem legitimidade continua em funções e tem pressa em acabar a missão para que foi investido: privatizar tudo o que seja passível de ser privatizado, empobrecer o mais possível o povo português, no processo imparável de acumulação e concentração do capital. Não basta demitir o ministro, como muito boa gente tem defendido, mas todo o governo, que há muito deveria ter sido lançado borda fora.