quarta-feira, 1 de julho de 2015

O referendo de 5 de julho e a posição do KKE Partido Comunista da Grécia (KKE)


Como é bem conhecido, o governo de “esquerda” – na essência, do partido socialdemocrata SYRIZA e do partido nacionalista de “direita” ANEL –, numa tentativa de gerir a completa bancarrota dos seus compromissos pré-eleitorais, anunciou um referendo para o dia 5 de julho de 2015, colocando unicamente a questão de saber se os cidadãos concordam ou não com o acordo que foi apresentado pela UE, FMI e BCE, respeitante à continuação das medidas antipopulares, para uma saída da crise capitalista, com a Grécia a permanecer no euro. 


Representantes do governo de coligação apelaram ao povo para dizer “não” e deixaram claro que este “não” no referendo será interpretado pelo governo grego como a aprovação do seu próprio acordo, proposto à UE, FMI e BCE, que, nas suas 47 + 8 páginas, também contém duras medidas antipopulares, com o objetivo de aumentar a rentabilidade do capital, o “crescimento” capitalista e a permanência do país no euro. 

Como o governo SYRIZA-ANEL admite, continuando a exaltar a UE, “nossa casa comum europeia”, a “façanha europeia”, a proposta deles é 90% idêntica à proposta da UE, FMI e BCE e tem muito pouco a ver com o que o SYRIZA havia prometido antes das eleições. O fascista Aurora Dourada, em conjunto com os partidos da coligação de governo (SYRIZA-ANEL), tomou uma posição a favor do “não” e também apoiou abertamente o regresso a uma moeda nacional. Por outro lado, a oposição de direita – ND, o social-democrata PASOK, que governou até janeiro de 2015, assim como o POTAMI (formalmente um partido do centro e, em essência, um partido reacionário) – tomou uma posição a favor de um “sim” às bárbaras medidas da Troika, que, afirmam, será interpretado como um consentimento para “ficar na UE a todo o custo”. Na realidade, as duas respostas conduzem a um sim à “UE” e à barbárie capitalista. 

Durante a sessão do parlamento, em 27/6, a maioria governamental do SYRIZA/ANEL rejeitou a proposta do KKE para que fossem antes colocadas as seguintes questões ao julgamento do povo grego, no referendo: 
 • Não às propostas do acordo da UE-BCE-FMI e do Governo grego.
• Saída da UE – Abolição dos memorandos e de todas as leis para a sua aplicação.

 Com a sua postura, o governo demonstrou que quer chantagear o povo, para aprovar a sua proposta à troika, que é o outro lado da mesma moeda. Ou seja, está a pedir ao povo grego para dar consentimento aos seus planos antipopulares e para os carregar com as suas novas escolhas antipopulares, seja através de um novo acordo alegadamente “melhorado” com as organizações imperialistas, seja através de uma saída do euro e um retorno a uma moeda nacional, algo que o povo será de novo chamado a pagar.

 Nestas condições, o KKE apela ao povo para utilizar o referendo como uma oportunidade para fortalecer a oposição à UE e para fortalecer a luta pela única via realista de sair da barbárie capitalista de hoje. 

O conteúdo desta saída é: RUPTURA SAÍDA DA U.E., CANCELAMENTO UNILATERAL DA DIVÍDA, SOCIALIZAÇÃO DOS MONOPÓLIOS, PODER DOS TRABALHADORES E DO POVO. 

O povo, através da sua actividade e da sua intervenção no referendo, deve responder ao engano da falsa questão colocada pelo governo e rejeitar a proposta da UE-FMI-BCE e, também, a proposta do governo SYRIZA-ANEL. Ambas contêm bárbaras medidas antipopulares, que serão adicionadas aos memorandos e às leis para a sua aplicação dos anteriores governos ND-PASOK. Ambas servem os interesses do capital e dos lucros capitalistas. 

O KKE realça que o povo, no referendo, não deve escolher entre Cila e Caríbdis, antes deve expressar, com todos os meios disponíveis e em todos os sentidos, a sua oposição à UE e aos seus permanentes memorandos. Deve “neutralizar” este dilema introduzindo na urna, como seu voto, a proposta do KKE. 

• Não à proposta da UE-FMI-BCE

• Não à proposta do governo

• Saída da EU, com o povo no poder.

segunda-feira, 22 de junho de 2015

Grécia: Movimento laboral e popular, mobiliza-se para impedir as novas medidas anti-populares, como resultado das cedências do governo grego às imposições e ingerência imperialista da UE/FMI

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Basta de sacrifícios para salvar os lucros dos capitalistas e dos credores.
Em 5 meses a chamada desobediência à taxação de impostos extrema tornou-se um “dever nacional”. As promessas pre-eleitorais de abolição das leis anti-populares, de restauração do salário mínimo em 751 euros e mesmo das migalhas que o governo prometeu  que daria com a 13ª pensão, foram provadas serem mentiras. Tal como previmos as promessas evaporaram. Movimentos tais como os dos indignados e o do “eu não pago” desapareceram depois de terem jogado o seu papel na reforma do sistema político.
Eles estão a chamar ao memorando de “novo acordo”!
Nenhuma tolerância à charlatanice!
O que diziam ser o rasgar do memorando tornou-se o “compromisso honroso” para que possamos chegar ao 3º memorando. O governo grego quer que tomemos parte e co-assinemos o novo acordo anti-popular – as novas medidas duríssimas que destruirão as nossas vidas!
Pobreza e memorando para os trabalhadores, lucros e privilégios para os patrões!
As novas medidas bárbaras assim como as velhas medidas não são más para toda a gente. Os monopólios e os grandes empregadores andaram à procura disto muitos anos e eles são os grandes vencedores das medidas que nos trazem miséria.
Eles trouxeram o memorando e os acordos de empréstimos para apoiar os seus lucros através da crise e em tempo de recuperação. Por detrás dos grandes slogans e e das linhas vermelhas agora invisíveis, estes são os que o governo e os seus aliados, da União Europeia, defendem.
Mas eles não são invencíveis.
Nós somos mais, nós somos a maioria que sofre.
Nós temos a força para impor os nossos direitos!
Nós exigimos a abolição dos acordos de empréstimo e dos memorandos, nós exigimos a saída do nosso país da União Europeia, nós exigimos o cancelamento da dívida.
O regresso ao crescimento capitalista, à competitividade e à lucratividade dos grupos económicos exige ainda mais sacrifícios à classe trabalhadora. A política que cria pobreza de um lado e riqueza do outro não é um equívoco. Este é o rumo para o capitalismo vencer a sua crise.
Nós não podemos desistir da luta por crescimento, não dos lucros, mas pela cobertura das nossas necessidades por empregos a tempo inteiro e estáveis, com salários decentes, pensões, tempo para descansar, educação pública gratuita para as nossas crianças, saúde gratuita garantida para as nossas famílias. Crescimento e produção no interesse do nosso povo e não dos monopólios. Esse é o nosso caminho, sem memorandos, sem pobreza e sem desemprego.
Nós temos o Poder!
Nós podemos abolir os Memorandos e os Patrões!
Fontes: PAMEFUL

quarta-feira, 17 de junho de 2015

O caminho da ruptura é o da saída real

Dimitris Koutsoumpas.Por:Dimitris Koutsoumpas


Na sua declaração de 15/Junho/2015 sobre as negociações do SYRIZA-ANEL com a Troika, o secretário-geral do CC do KKE, Dimitris Koutsoumpas, mencionou o seguinte:

"Hoje as ilusões de que pode haver uma negociação favorável ao povo dentro da estrutura da UE e do capital estão a dissolver-se.

Hoje a burlas do SYRIZA para com o povo grego antes das eleições, quando prometeu que podia efectivamente negociar no interesse do povo dentro da aliança predatória, estão a tornar-se mais óbvios.

O povo agora precisa entrar no palco central, vencer a chantagem e o clima de intimidação, os quais estão a ser utilizados pelos prestamistas, pelo governo e por outros partidos da oposição burguesa com o objectivo de levar o povo a aceitar os novos compromissos anti-povo.

O facto de que novas medidas anti-povo estão em cima da mesa nas discussões entre o governo e os prestamistas, para além daquelas já incluídas na proposta de 47 páginas do governo, demonstra que o caminho da saída real para o povo não pode ser encontrado nas negociações respeitantes aos termos da sua carnificina mas sim na ruptura que só pode ter um conteúdo: retirada da UE, cancelamento unilateral da dívida, socialização dos monopólios, com o povo verdadeiramente a controlar as rédeas do poder". 

16/Junho/2015

quarta-feira, 3 de junho de 2015

A Essência da Crise Geral do Capitalismo


A crise geral do capitalismo é a crise multilateral do sistema capitalista mundial em conjunto, que se caracteriza por guerras e revoluções, pela luta entre o capitalismo agonizante e o socialismo crescente. A crise geral do capitalismo abrange todos os aspectos do capitalismo, seja a economia como a política. A crise geral do capitalismo significa o enfraquecimento cada vez maior do sistema capitalista mundial, do qual se afastam sempre novos países, por um lado, e a potência econômica crescente dos países, que se afastam do capitalismo, por outro lado. Os fundamentos da doutrina sobre a crise geral do capitalismo foram elaborados por V.I. Lênin.

O principal sintoma da crise geral do capitalismo é a cisão do mundo em dois sistemas: o capitalista e o socialista. A crise geral do capitalismo se caracteriza também pela crise do sistema colonial do imperialismo. Em ligação com o agravamento do problema dos mercados, surgem a crônica atividade das empresas abaixo de sua capacidade e o crônico desemprego em massa.

A desigualdade de desenvolvimento dos países capitalistas na época do imperialismo, com o decurso do tempo, engendra a não correspondência da divisão existente de mercados de venda, de esferas de influência e de colônias a modificada correlação de forças dos principais países capitalistas. Nesta base, processa-se uma brusca violação do equilíbrio dentro do sistema capitalista mundial, formam-se agrupamentos hostis de países capitalistas, o que conduz a guerras entre eles. As guerras mundiais debilitam as forças do imperialismo, facilitam o rompimento da frente imperialista e o afastamento de determinados países do sistema capitalista.

A crise geral do capitalismo abrange todo um período histórico, que é parte integrante da época do imperialismo. Como já foi observado, a lei da desigualdade do desenvolvimento econômico e político dos países capitalistas, na época do imperialismo, predetermina a diversidade do tempo de amadurecimento da revolução socialista nos diversos países. Lênin indicou que a crise geral do capitalismo não é um ato simultâneo, mas um período prolongado de tempestuosos abalos econômicos e políticos, de agravamento da luta de classes, um período “de bancarrota do capitalismo em toda a sua extensão e de nascimento da sociedade socialista. Isto determina a inevitabilidade histórica da prolongada coexistência dos dois sistemas — o socialista e o capitalista.

A crise geral do capitalismo se iniciou no período da Primeira Guerra Mundial e se desenvolveu como resultado do afastamento da Rússia do sistema capitalista. Esta foi a primeira etapa da crise geral do capitalismo. No período da Segunda Guerra Mundial, e, em seguida a ela, do afastamento dos países democrático-populares, na Europa e na Ásia, do sistema capitalista, iniciou-se a segunda etapa da crise geral do capitalismo.
A Primeira Guerra Mundial
A Primeira Guerra Mundial foi o resultado do agravamento das contradições entre as potências imperialistas no terreno da luta pela redivisão do mundo e das esferas de influência. Ao lado das velhas potências imperialistas, cresceram novos animais de presa, que chegaram atrasados para a divisão do mundo. Surgiu na cena o imperialismo alemão. Foi depois de uma série de outros países que a Alemanha ingressou no caminho do desenvolvimento capitalista e compareceu a partilha dos mercados e esferas de influência, quando o mundo já estava dividido entre as velhas potências imperialistas. Entretanto, já em começos do século XX, ao ultrapassar a Inglaterra, a Alemanha ocupou o segundo lugar no mundo e o primeiro na Europa, no que se refere ao nível de desenvolvimento industrial. A Alemanha passou a deslocar a Inglaterra e a França dos mercados mundiais. A modificação da correlação de forças econômicas e militares dos principais países capitalistas levou ao agravamento da luta pela redivisão do mundo. Na luta pela redivisão do mundo, a Alemanha, em aliança com a Áustria-Hungria, se chocou com a Inglaterra, a França e a Rússia tzarista.

A luta entre os dois blocos imperialistas — o anglo-francês e o alemão — pela redivisão do mundo atingia os interesses de todos os países imperialistas e, por isso, levou a guerra mundial, na qual, mais adiante, tomaram parte o Japão, os Estados Unidos e uma série de outros países. A Primeira Guerra Mundial teve, por ambos os lados, caráter imperialista.

A guerra abalou o mundo capitalista até os seus fundamentos mais profundos. Pela sua envergadura, ela deixou longe todas as guerras precedentes na história da humanidade.

A guerra foi uma fonte de enorme enriquecimento dos monopólios. Em especial, enriqueceram-se os capitalistas dos Estados Unidos. Os lucros de todos os monopólios americanos, em 1917, superaram o nível dos lucros de 1914 em 3 a 4 vezes. Durante os cinco anos de guerra (de 1914 a 1918), os monopólios norte-americanos obtiveram mais de 35 bilhões de dólares de lucro (antes do pagamento de impostos). Os maiores monopólios aumentaram seus lucros em dezenas de vezes.

A população dos países participantes ativos da guerra era constituída de cerca de 801) milhões de pessoas. Cerca de 70 milhões de pessoas foram chamadas as armas. A guerra devorou tantas vidas humanas quantas morreram em todas as guerras da Europa, num milênio. O número de mortos atingiu 10 milhões e o de feridos e mutilados superou 20 milhões. Milhões de homens morreram de fome e de epidemias. A guerra trouxe um dano colossal a economia dos países beligerantes. As despesas militares diretas das potências beligerantes, durante todo o tempo da guerra (1914/1918), atingiram 208 bilhões de dólares (a preços dos anos correspondentes).
Ao tempo da guerra, ainda mais cresceu o papel dos monopólios. A “regulação” militar da economia foi utilizada para o enriquecimento dos grandes monopólios. Numa série de países, foi prolongado o dia de trabalho, proibidas as greves, introduzidos regulamentos militares e o trabalho obrigatório nas empresas. As encomendas militares estatais, por conta do orçamento, foram a fonte principal do inaudito crescimento dos lucros. As despesas militares, ao tempo da guerra, absorveram uma parte enorme da renda nacional e foram cobertas, antes de tudo, por meio do aumento de impostos sobre os trabalhadores. A parte fundamental das verbas de guerra foi entregue aos monopolistas sob a forma de pagamento de encomendas militares e de empréstimos e subsídios sem resgate. Os preços das encomendas de guerra garantiam aos monopólios enormes lucros. Lênin denominou os fornecimentos militares de dilapidação legalizada. Os monopólios se enriqueceram a custa da redução do salário real dos operários, com a ajuda da inflação, bem como a custa da pilhagem direta dos territórios ocupados. No tempo da guerra, nos países europeus, foi introduzido o sistema de racionamento para a distribuição de produtos, o que limitava o consumo dos trabalhadores a uma ração de fome.

A guerra levou ao extremo a miséria e o sofrimento das massas, agravou as contradições de classe e provocou o ascenso da luta revolucionária da classe operária e dos camponeses trabalhadores nos países capitalistas. Ao mesmo tempo, havendo-se convertido de europeia em mundial, a guerra atraiu para a sua órbita também a retaguarda do imperialismo — as colônias e países dependentes —, o que facilitou a unificação do movimento revolucionário na Europa com o movimento de libertação nacional dos povos do Oriente.

A guerra debilitou o capitalismo mundial.

“A guerra histórica — escreveu Lênin — significa grandiosa crise histórica, o início de uma nova época. Como qualquer crise, a guerra agravou profundamente as contradições latentes e as trouxe a luz do dia.”
A guerra despertou um poderoso ascenso do movimento revolucionário, anti-imperialista.
A Vitória da Grande Revolução Socialista de Outubro e a Divisão do Mundo em dois Sistemas: O Capitalista e o Socialista
A revolução proletária rompeu a frente imperialista, em primeiro lugar, na Rússia, que se revelou o elo mais fraco na cadeia do imperialismo. A Rússia era o ponto nodal de todas as contradições do imperialismo. Na Rússia, a onipotência do capital se entrelaçava com o despotismo tzarista, com as sobrevivências da servidão e o jugo colonial nas relações com os povos não russos.

A Rússia tzarista era reserva do imperialismo ocidental, como esfera de aplicação de capital estrangeiro, que detinha em suas mãos os ramos decisivos da indústria — de combustíveis, metalúrgica e outras — e como apoio do imperialismo ocidental no Oriente. Os interesses do tzarismo e do imperialismo ocidental se unificavam.

A elevada concentração da indústria russa e a existência de um partido revolucionário, como o Partido Comunista, converteram a classe operária da Rússia numa formidável força política do país. O proletariado russo possuía um aliado, como o campesinato pobre, que constituía a grande maioria da população camponesa. Nestas condições, a revolução democrático-burguesa na Rússia deveria inevitavelmente transformar-se em revolução socialista, tomar um caráter internacional e abalar os próprios fundamentos do imperialismo mundial.

A Grande Revolução Socialista de Outubro constituiu uma reviravolta radical na história universal da humanidade, tendo aberto uma nova época: a época das revoluções proletárias nos países imperialistas e do movimento de libertação nacional nas colônias. A Revolução de Outubro retirou do poder do capital os trabalhadores de uma sexta parte da terra. Processou-se a divisão do mundo em dois sistemas: o capitalista e o socialista, o que representa a mais clara expressão da crise geral do capitalismo. Em consequência da divisão do mundo em dois sistemas, surgiu uma contradição, por princípio, nova, de importância histórico-universal: a contradição entre o capitalismo agonizante e o socialismo crescente.

Ao caracterizar a crise geral do capitalismo, I.V. Stálin afirmou:
“Isto significa, antes de tudo, que a guerra imperialista e suas consequências acentuaram a decomposição do capitalismo e solaparam o seu equilíbrio, que nós vivemos agora na época das guerras e revoluções, que o capitalismo já não representa o único sistema de economia mundial, que tudo abrange, que ao lado do sistema capitalista de economia existe o sistema socialista, o qual cresce, faz progressos, opõe-se ao sistema capitalista e, pelo próprio fato de sua existência, demonstra a podridão do capitalismo e abala seus fundamentos.”

Os primeiros anos, após a guerra de 1914/1918, foram um período de tremenda desordem na economia da maioria dos países capitalistas participantes da guerra, um período de encarniçada luta entre o proletariado e a burguesia. Como consequência do abalo do capitalismo mundial e sob a influência imediata da Grande Revolução Socialista de Outubro, ocorreu uma série de revoluções e manifestações revolucionárias, tanto no continente europeu, como nos países coloniais e semi- coloniais. Este potente movimento revolucionário, a simpatia e o apoio, que as massas trabalhadoras de todo o globo prestaram a Rússia Soviética, predeterminaram o fracasso de todas as tentativas do imperialismo mundial para sufocar a primeira república socialista do mundo.

Ao caracterizar a originalidade da situação do primeiro país do mundo, que se afastou do sistema do capitalismo, Lênin indicou que se, de um lado, a burguesia internacional era integralmente hostil a ele e decidida a estrangulá-lo, já, por outro lado, todas as tentativas deste gênero terminaram em fracasso.

“A oposição a guerra contra a Rússia Soviética fortaleceu-se extraordinariamente em todos os países capitalistas, alimentando o movimento revolucionário do proletariado e abrangendo massas muito amplas da democracia pequeno-burguesa. Agravou-se, e agrava-se a cada dia mais profundamente, a discórdia de interesses entre os diversos países imperialistas. O movimento revolucionário entre centenas de milhões dos povos oprimidos do Oriente cresce com força magnífica. Como resultado de todas estas circunstâncias, o imperialismo mundial não se mostrou em condição de estrangular a Rússia Soviética, não obstante ser muito mais forte do que ela, e foi obrigado a reconhecê-la ou semi-reconhecê-la em tempo, entrando em acordos comerciais com ela.”

Embora extremamente não duradouro, extremamente instável, ocorreu, mostrou Lênin, apesar de tudo, um equilíbrio tal, que permite a república socialista subsistir dentro do cerco capitalista, não obstante o imperialismo internacional ser, a este tempo, mais forte do que ela.

Ao escapar do caos econômico de após-guerra, o mundo capitalista entrou num período de estabilização relativa. O ascenso revolucionário foi substituído por um refluxo temporário da revolução numa série de países europeus. Tratava-se de uma temporária e parcial estabilização do capitalismo, alcançada a custa da intensificação da exploração dos trabalhadores. Sob a bandeira da “racionalização” capitalista, foi aplicada uma impiedosa intensificação do trabalho. A estabilização capitalista conduzia inelutavelmente ao agravamento das contradições entre operários e capitalistas, entre o imperialismo e os povos coloniais, entre os diversos países imperialistas.

Iniciada em 1929, a crise econômica mundial pôs fim a estabilização capitalista.
Ao mesmo tempo, a economia nacional da URSS desenvolvia-se continuamente numa linha ascendente, sem crises e catástrofes. A União Soviética era então o único país, que não conhecia as crises nem as demais contradições do capitalismo. A indústria da União Soviética crescia sempre, a ritmos desconhecidos na história. Em 1938, a produção da grande indústria da URSS representava 911% em comparação com a produção de 1913, ao passo que a produção industrial dos Estados Unidos era somente 137,1%, a da Inglaterra, de 114,5%, e a da França, 105,8%.

A confrontação entre o desenvolvimento econômico da URSS e o dos países capitalistas mostrava claramente a superioridade decisiva do sistema socialista de economia diante do sistema capitalista.

O aparecimento do primeiro Estado socialista do mundo exerceu imensa influência no desenvolvimento da luta revolucionária dos trabalhadores. A experiência da URSS demonstrou que os trabalhadores podem administrar com êxito o país, construir e dirigir a economia, sem a burguesia.
A Crise do Sistema Colonial do Imperialismo
Um dos traços mais importantes da crise geral do capitalismo é a crise do sistema colonial. Surgida no período da Primeira Guerra Mundial, esta crise se amplia e se aprofunda. A crise do sistema colonial do imperialismo consiste no brusco agravamento das contradições entre as potências imperialistas, por um lado, e os países coloniais e semicoloniais, por outro lado, consiste no desenvolvimento da luta de libertação nacional dos povos oprimidos destes países, na libertação de uma série de colônias do jugo imperialista.

A Grande Revolução Socialista de Outubro desempenhou enorme papel no ascenso do movimento de libertação nacional nos países coloniais e semicoloniais. Ela despertou uma série de potentes movimentos nacional-libertadores nos países do Oriente colonial. A vitória da Revolução Socialista de Outubro teve a maior significação para o ascenso da luta de libertação nacional do grande povo chinês. Poderoso movimento de libertação nacional ergueu-se também na Índia, Indonésia e outros países. A Grande Revolução Socialista de Outubro abriu a época das revoluções coloniais, que trazem aos povos das colônias a emancipação do jugo imperialista.

No período da crise geral do capitalismo, cresce o papel das colônias, como uma das fontes do elevado lucro monopolista. A intensificação da luta entre os imperialistas por mercados de venda e esferas de influência, o agravamento das dificuldades internas e das contradições nos países capitalistas, tudo isto conduz a acentuação da opressão imperialista nas colônias, ao crescimento da exploração dos povos das colônias e países dependentes. Isto suscita a intensificação da luta anti-imperialista, de libertação nacional.

A crise do sistema colonial é condicionada também pelo desenvolvimento da indústria e do capitalismo próprio nas colônias, o que agrava o problema do mercado capitalista mundial e conduz ao crescimento do proletariado industrial nas colônias.

A Primeira Guerra Mundial, ao tempo da qual diminuiu bruscamente a exportação de mercadorias industriais das metrópoles, deu importante impulso ao desenvolvimento industrial das colônias. No período entre as duas guerras, em consequência do aumento da exportação de capital para os países atrasados, o capitalismo continuou a se desenvolver nas colônias. Em ligação com isto, cresceu o proletariado nos países coloniais.

Na Índia, de 1914 a 1939, a quantidade total de empresas industriais cresceu de 2 874 a 10 466. Em ligação com isto, aumentou a quantidade de operários fabris. O número de operários da indústria de transformação da Índia era, em 1914, de 951 mil homens, ao passo que em 1939 já era de 1751,1 milhares. Quanto ao número total de operários da Índia, incluindo mineiros, ferroviários e operários do transporte aquático, bem como operários das plantações, era em 1939 de cerca de 5 milhões de homens. Na China (sem a Manchúria), de 1910 a 1937, o número de empresas industriais (com um mínimo de 30 operários) cresceu de 200 a 2 500, ao passo que o número dos operários ocupados nelas cresceu de 150 mil a 2 750 mil. Contando com a Manchúria, mais desenvolvida no sentido industrial, o número de operários na indústria e no transporte (com exclusão das pequenas empresas), era, na China, as vésperas da Segunda Guerra Mundial, de cerca de 4 milhões de pessoas. Cresceu consideravelmente o proletariado industrial na Indonésia, na Malaia, nas colônias africanas e outras.

A classe operária das colônias é um combatente ativo e o mais consequente contra o imperialismo, capaz de dar coesão as massas de milhões do campesinato, as amplas camadas de trabalhadores e conduzir a revolução até o fim. Por todo o curso do desenvolvimento econômico e político, a classe operária das colônias se destaca sempre mais como força dirigente do movimento de libertação nacional.

O crescimento da classe operária, nos países coloniais, e o fortalecimento da luta nacional-libertadora dos povos destes países, no período da crise geral do capitalismo, constituem uma nova etapa no desenvolvimento do movimento de libertação nacional. Se, antes, a luta de libertação nacional conduzia somente a instauração do poder da burguesia, já no período da crise geral do capitalismo cria-se a possibilidade da hegemonia da classe operária, o que assegura o desenvolvimento do país pelo caminho para o socialismo.

No período da crise geral do capitalismo, o movimento de libertação nacional nas colônias se entrelaça, cada vez mais, com a luta da classe operária nas metrópoles. De reservas do imperialismo, os países coloniais e dependentes se convertem cada vez mais em reservas da revolução socialista.
O Agravamento do Problema dos Mercados, o Crônico Funcionamento das Empresas Abaixo de sua Capacidade e o Crônico Desemprego em Massa
Traço inevitável da crise geral do capitalismo é o agravamento do problema dos mercados. Este problema é provocado, em primeiro lugar, pelo afastamento de determinados países do sistema capitalista mundial e pela redução da esfera de domínio do capital. Assim é que, ao afastar-se do sistema capitalista a Rússia, com os seus enormes mercados de venda e fontes de matérias-primas, isto não podia deixar de provocar sérios rompimentos dos vínculos mercantis do mundo capitalista. No período da crise geral do capitalismo, agrava-se a contradição entre o crescimento da produção e das possibilidades produtivas do capitalismo e a capacidade aquisitiva, em atraso, das massas, cujo nível de vida baixa. O agravamento do problema dos mercados é suscitado, além disso, pelo desenvolvimento de um capitalismo próprio nas colônias e países dependentes, o qual começa a concorrer nos mercados com os velhos países capitalistas. O desenvolvimento da luta de libertação nacional dos povos dos países coloniais também dificulta a situação dos países imperialistas nos mercados externos.

O agravamento do problema dos mercados, no período da crise geral do capitalismo, não deve ser compreendido no sentido de redução absoluta da capacidade do mercado, de diminuição do volume de mercadorias em circulação. O volume total de mercadorias em circulação nos países capitalistas cresce, apesar da redução do território do mundo capitalista. O agravamento do problema dos mercados, no período da crise geral do capitalismo, se expressa no retardamento do crescimento da circulação de mercadorias em relação ao crescimento da produção e das possibilidades produtivas do capitalismo. Assim é que, num período de 16 anos, incluindo a Primeira Guerra Mundial (de 1913 a 1929), a produção industrial do mundo capitalista cresceu em 41%, enquanto o volume da exportação mundial (a preços constantes) cresceu em 21,5%. Durante 21 anos, incluindo a Segunda Guerra Mundial (de 1937 a 1958), a produção industrial do mundo capitalista cresceu em 96%, ao passo que o volume da exportação, a preços constantes, cresceu em 65%.

O agravamento do problema dos mercados engendrou fenômenos qualitativamente novos: o crônico funcionamento das empresas abaixo de sua capacidade e o crônico desemprego em massa.

Antes, o funcionamento abaixo da capacidade de fábricas e usinas, em massa, tinha lugar somente a época de crises econômicas. No período da crise geral do capitalismo, surge o crônico funcionamento das empresas abaixo de sua capacidade.
Assim é que, no período do ascenso de 1925 a 1929, a potência produtiva da indústria de transformação dos Estados Unidos foi aproveitada somente em 80%. De 1930 a 1934, o aproveitamento da potência produtiva da indústria de transformação baixou a 60%. Neste particular, é necessário considerar que a estatística burguesa dos Estados Unidos, ao calcular a potência produtiva da indústria de transformação, não levou em conta as empresas há longo tempo fora de funcionamento e tomou apenas um turno para condição de trabalho das empresas.

crônico desemprego em massa se encontra em estreita ligação com O agravamento do problema do mercado e O crônico funcionamento das empresas abaixo de sua capacidade. Antes da Primeira Guerra Mundial, o exército de reserva do trabalho crescia nos anos de crise, mas, nos períodos de ascenso, reduzia-se a dimensões relativamente pequenas. No período da crise geral do capitalismo, o desemprego adquire enormes dimensões e se conserva num nível relativamente elevado também nos anos de reanimação e ascenso.

No momento do mais elevado ascenso da indústria entre as duas guerras mundiais — em 1929 — a quantidade de desempregados totais era, nos Estados Unidos, de um milhão e meio de pessoas. Na Inglaterra, o número de desempregados totais, entre os trabalhadores segurados, no período de 1922 a 1938, não foi inferior a 1,2 milhões de pessoas por ano. Milhões de operários se contentavam com trabalho ocasional, sofriam de desemprego parcial.

O desemprego crônico em massa piora bruscamente a situação da classe operária. Tal desemprego dá aos capitalistas a possibilidade de acentuar a intensidade do trabalho nas empresas, de pôr para fora os operários já esgotados por um trabalho excessivo e escolher operários novos, mais fortes e saudáveis. Em ligação com isto, reduz-se a “idade operária” dos trabalhadores, o período de seu trabalho nas empresas. Cresce a inquietação dos trabalhadores com relação ao dia de amanhã. Os capitalistas aproveitam o desemprego crônico em massa para a redução do salário dos operários ocupados. Os ingressos da família operária reduzem-se também com a diminuição do número de membros da família, que trabalham.

Nos Estados Unidos, segundo dados da estatística burguesa, o crescimento do desemprego, de 1920 a 1933, foi acompanhado da queda do salário médio anual dos operários empregados na indústria, na construção e no transporte ferroviário, queda esta que foi de 1 483 dólares, em 1920, a 915 dólares, em 1933, ou seja, de 38,3%.

O desemprego crônico em massa exerce também grave influência na situação do campesinato. Em primeiro lugar, o desemprego restringe o mercado interno e diminui a procura de produtos agrícolas pela população urbana. Isto conduz ao aprofundamento das crises agrárias. Em segundo lugar, o desemprego piora a situação no mercado de trabalho, dificultando a incorporação à produção industrial dos camponeses arruinados, que vão para a cidade em busca de trabalho. Como resultado disto, crescem a superpopulação agrária e o empobrecimento do campesinato. O desemprego crônico em massa, assim como o crônico funcionamento das empresas abaixo de sua capacidade, atesta a putrefação do capitalismo, sua incapacidade de utilizar as forças produtivas da sociedade.

A intensificação da exploração da classe operária e a redução do seu nível de vida, no período da crise geral do capitalismo, conduzem ao ulterior agravamento das contradições entre o trabalho e o capital.
Modificações no Ciclo Capitalista
Os novos fenômenos próprios da crise geral do capitalismo — agravamento do problema dos mercados, o crônico funcionamento das empresas abaixo da sua capacidade e o desemprego crônico em massa, as guerras mundiais e a crescente militarização da economia — conduzem a modificações essenciais no desenvolvimento do ciclo capitalista. O agravamento do problema do mercado, o crônico funcionamento das empresas abaixo de sua capacidade e o desemprego crônico em massa atuam no sentido da redução do ciclo, do aprofundamento das crises econômicas, do aumento da duração das fases de crise e depressão, da redução das fases de ascenso e reanimação.

As guerras e a militarização da economia, em consequência do crescimento dos exércitos e da produção de armamentos, criam habitualmente uma procura suplementar de armamentos e de objetos de consumo para as forças armadas, favorecendo, com isto, a temporária diminuição do desemprego e da capacidade ociosa das empresas. A militarização da economia pode levar a uma temporária reanimação da conjuntura e deter o desenvolvimento da crise em início ou tornar mais lenta a chegada de nova crise econômica. Mas as guerras e a militarização da economia não podem salvar a economia capitalista das crises.

Ao causar enorme destruição de forças produtivas, as guerras mundiais dão uma orientação unilateral ao desenvolvimento da economia nacional, acentuam, com isto, a desigualdade e a desproporcionalidade da economia capitalista, conduzem a redução do nível de vida da população, ao agravamento das contradições entre a produção e o consumo, preparando a chegada de novas crises, ainda mais profundas.

O desenvolvimento da produção capitalista, no período entre as duas guerras mundiais, reflete a ação destes fatores. Neste período, a duração do ciclo diminuiu um tanto, em média, a força destruidora das crises cresceu, a duração das fases de crise e depressão aumentou, ao passo que as fases de ascenso e reanimação reduziram-se.

No período entre as duas guerras mundiais, de 1919 a 1938, houve três crises econômicas: em 1919/1921, em 1929/1933, em 1937/1938.

A profundidade da queda da produção aumentou consideravelmente. A produção da indústria de transformação dos Estados Unidos caiu, ao tempo da crise de 1920/1921 (do ano do mais alto ascenso antes da crise ao ano da mais profunda queda) em 23%, ao tempo da crise de 1929/1933, em 48,3%, ao tempo da crise de 1937/1938, em 23,3%.

A mais profunda e aguda crise na história do capitalismo foi a crise econômica de 1929/1933. Nesta crise, manifestou-se com grande força a influência da crise geral do capitalismo.

“A crise atual — afirmou E. Thaelman, caracterizando a crise de 1929/1933 — tem caráter de crise cíclica nos marcos da crise geral do sistema capitalista, na época do capitalismo monopolista. Aqui, devemos compreender a interação dialética entre a crise geral e a crise periódica. Por um lado, a crise periódica adquire formas agudas inauditas, uma vez que se processa no terreno da crise geral do capitalismo e se determina pelas condições do capitalismo monopolista. Por outro lado, as devastações, provocadas pela crise periódica, por sua vez, aprofundam, aceleram a crise geral do sistema capitalista.”

A crise econômica de 1929/1933 abrangeu todos os países do mundo capitalista, sem exceção. Em vista disso, tornou-se impossível que uns países manobrassem a custa de outros. A crise golpeou com a maior força o maior país do capitalismo moderno, os Estados Unidos da América. A crise industrial nos principais países capitalistas se entrelaçou com a crise agrária, o que conduziu ao aprofundamento da crise econômica em conjunto. A produção industrial em todo o mundo capitalista caiu em 37%, sendo que caiu ainda mais em alguns países isolados. O volume do comércio mundial se reduziu em um terço. As finanças dos países capitalistas chegaram a completa desorganização. A quantidade de desempregados atingiu enormes proporções.

A porcentagem de desempregados totais, no momento da maior queda da produção, segundo dados oficiais, era, nos Estados Unidos, de 32%, e na Inglaterra, de 22%. Na Alemanha, a porcentagem dos desempregados totais, entre os membros dos sindicatos, atingiu, em 1932, a 43,8%, e dos desempregados parciais, a 22,6%. Em cifras absolutas, o número de desempregados totais, em 1932, era o seguinte: nos Estados Unidos, segundo dados oficiais, 13,2 milhões de pessoas; na Alemanha, 5,5 milhões; na Inglaterra, 2,8 milhões. Em todo o mundo capitalista, em 1933, existiam 33 milhões de pessoas inteiramente desempregadas. Enormes proporções atingiu o número dos semi-desempregados. Assim, nos Estados Unidos, o número dos semi-desempregados era, em fevereiro de 1932, de 11 milhões de pessoas.

O crônico funcionamento das fábricas e usinas abaixo de sua capacidade e a queda da capacidade aquisitiva das massas dificultam a saída da crise. O crônico funcionamento das empresas abaixo de sua capacidade limita os marcos da renovação e da ampliação do capital fixo e obstaculiza a passagem da depressão a reanimação e ao ascenso. No mesmo sentido atuam o desemprego crônico em massa e a política dos .altos preços monopolistas, que restringe a ampliação da venda de objetos de consumo. Em consequência disso, prolonga-se a fase de crise.

A reanimação e o ascenso, que chegaram após a crise de 1920/1921, processaram-se muito desigualmente e, mais de uma vez, foram interrompidas por crises parciais. Nos Estados Unidos, as crises parciais de superprodução tiveram lugar em 1924 e 1927. Na Inglaterra e na Alemanha, houve considerável queda da produção em 1926. Já após a crise de 1929/1933, não teve lugar a depressão habitual, mas uma depressão de tipo espacial, que não conduzia ao florescimento da indústria numa nova e mais elevada base, mas apenas ,a certa reanimação da produção. A produção industrial do inundo capitalista, em 1937, superou o nível de 1929 tão somente em 4%, sendo que em muitos países capitalistas (França, Itália, Bélgica e outros), não atingiu sequer o nível de 1929. Em meados de 1937, iniciou-se no mundo capitalista uma nova crise econômica, que surgiu nos Estados Unidos e depois se estendeu a Inglaterra, França e uma série de outros países.

O volume total da produção industrial no mundo capitalista, em 1938, foi de 9% inferior ao de 1937, sendo que nos Estados Unidos foi de 21%; na Inglaterra, em 6%; na França, em 7%. Em relação a 1929, o volume total da produção industrial, em 1938, era o seguinte: nos Estados Unidos, 81,4%; na França, 76,1%; na Itália, 98,5%.

A crise de 1937/1938 distinguiu-se da crise de 1929/1933, em primeiro lugar, porque não surgiu após uma fase de florescimento da indústria, como aconteceu em 1929, mas após certa reanimação. Além disso, a crise de 1937/1938 sofria a influência da militarização da economia, que se desenvolvia numa série de países. Ela surgiu no período em que o Japão desencadeava a guerra na China, e a Alemanha e a Itália trasladavam sua economia para os trilhos da economia de guerra e quando muitos outros países capitalistas se reorganizavam de modo militarizado. Em consequência disso, a crise de 1937/1938 não abrangeu uma série de países (Alemanha, Itália, Japão). A crise foi interrompida pela Segunda Guerra Mundial.

Nas condições da crise geral do capitalismo, tornam-se mais frequentes e mais profundas as crises agrárias. Em seguida a crise agrária dos anos de 20, iniciou-se em 1928 uma nova e profunda crise agrária, que durou até a Segunda Guerra Mundial. A superprodução relativa de produtos agrícolas provocou uma forte queda dos preços, o que piorou a situação do campesinato.

Nos Estados Unidos, em 1921, o índice de preços para os granjeiros baixou a 58,8% com relação ao nível de 1920, e, em 1932, a 43,9%, com relação ao nível de 1928. A produção agrícola, nos Estados Unidos, reduziu-se, em 1934, a 70,7%, com relação ao nível de 1928, e a 69,9%, com relação ao nível de 1920. Caíram os ingressos dos camponeses.

A decomposição do capitalismo, no período da sua crise geral, manifesta-se na redução geral dos ritmos de crescimento da produção. Os ritmos médios anuais de crescimento da produção industrial do mundo capitalista foram os seguintes: no período de 1890 a 1913, 3,7%; no período de 1913 a 1958, 2,4%. Ao mesmo tempo, acentuou-se fortemente a desigualdade de desenvolvimento da produção capitalista.

No período da crise geral do capitalismo, a burguesia monopolista, ao esforçar-se para deter a bancarrota do sistema capitalista e conservar o seu domínio, leva a efeito um ataque ao nível de vida e aos direitos democráticos dos trabalhadores, implantando métodos policiais de governo. Intensifica-se, em todos os principais países capitalistas, o desenvolvimento do capitalismo monopolista de Estado.

Como não se encontrasse em condições de dominar pelos velhos métodos do parlamentarismo e da democracia burguesa, numa série de países — Itália, Alemanha, Japão e alguns outros — a burguesia estabeleceu regimes fascistas. O fascismo é a ditadura terrorista aberta dos grupos mais reacionários e agressivos do capital financeiro. O fascismo estabelece como fim, internamente, destruir a organização da classe operária e esmagar todas as forças progressistas, ao passo que, externamente, o seu fim é preparar e desencadear a guerra de conquista pelo domínio mundial. O fascismo alcança esses fins por métodos de terror e de demagogia social.

A crise econômica mundial de 1929/1933 e a crise de 1937/1938 conduziram ao brusco agravamento das contradições, tanto dentro dos países capitalistas, como entre eles. Os Estados imperialistas buscaram a saída destas contradições no caminho da preparação da guerra por uma nova re-divisão do mundo.

domingo, 17 de maio de 2015

A luta entre o capital e o trabalho e os seus resultados: Por Karl Marx

 1. Tendo mostrado que a resistência periódica por parte dos operários contra uma redução de salários e as suas tentativas periódicas de obter uma subida dos salários são inseparáveis do sistema de salários e ditadas pelo preciso facto de o trabalho estar assimilado às mercadorias e, por conseguinte, sujeito às leis que regulam o movimento geral dos preços; tendo, além disso, mostrado que uma subida geral de salários resultaria numa queda na taxa geral de lucro, mas não afectaria os preços médios das mercadorias, ou os seus valores, põe-se agora finalmente a questão de [saber] até onde é que, nesta luta incessante entre o capital e o trabalho, este último é capaz de  ter êxito. 

Poderia responder com uma generalização e dizer que, tal como todas as mercadorias, também com o trabalho, o seu preço de mercado, a longo prazo, se adaptará ao seu valor; que, por conseguinte, apesar de todas os altos e baixos e faça o que fizer, o operário só receberá, em média, o valor do seu trabalho, que se resolve no valor da sua força de trabalho, o qual é determinado pelo valor dos meios de subsistência requeridos para o seu sustento e reprodução, o qual valor dos meios de subsistência é finalmente regulado pela quantidade de trabalho necessária para os produzir. Mas há alguns aspectos peculiares que distinguem o valor da força de trabalho ou valor do trabalho dos valores de todas as outras mercadorias. 

O valor da força de trabalho é formado por dois elementos – um, meramente físico, o outro, histórico ou social. O seu limite último é determinado pelo elemento físico, o mesmo é dizer: para se manter e reproduzir, para perpetuar a sua existência física, a classe operária tem de receber os meios de subsistência absolutamente indispensáveis para viver e se multiplicar. O valor destes meios de subsistência indispensáveis forma, por conseguinte, o limite último do valor do trabalho. Por outro lado, a extensão do dia de trabalho está também limitada por estremas últimas, apesar de muito elásticas. O  seu limite último é dado pela força física do trabalhador. Se a exaustão diária das suas forças vitais excede um certo grau, não pode ser exercida de novo, dia após dia. 

No entanto, tal como eu disse, este limite é muito elástico. Uma sucessão rápida de gerações sem saúde e de vida curta manterá o mercado de trabalho tão bem abastecido como uma série de gerações vigorosas e de vida longa. Para além deste mero elemento físico, o valor do trabalho é em cada país determinado por um nível de vida tradicional. Não é a mera vida física, mas a satisfação de certas necessidades que derivam das condições sociais em que as pessoas estão colocadas e são criadas. O nível de vida inglês poderia ser reduzido ao nível irlandês; o nível de vida de um camponês alemão ao de um camponês livoniano. Pode saber se do papel importante que a tradição histórica e o hábito social desempenham a este respeito pela obra do sr. Thornton sobre a Over-population, * em que ele mostra que os salários médios em distintos distritos agrícolas de Inglaterra ainda nos nossos dias diferem mais ou menos consoante as circunstâncias mais ou menos favoráveis em que os distritos saíram do estado de servidão. Este elemento histórico ou social que entra no valor do trabalho pode se alargado ou contraído ou inteiramente extinto, de tal modo que não permanece senão o limite físico.

 Durante o tempo da guerra anti-jacobina, empreendida – como o incorrigível devorador de impostos e sinecurista, o velho George Rose, costumava dizer – para salvar as consolações da nossa santa religião das incursões dos infiéis franceses, os honestos lavradores ingleses, tratados com tanta ternura num dos nossos capítulos anteriores, fizeram descer os salários dos trabalhadores agrícolas mesmo abaixo desse mero mínimo físico, mas compensaram com as Leis dos Pobres2 o restante necessário para a perpetuação física da raça. Esta foi uma maneira gloriosa de converter o trabalhador assalariado em escravo e o orgulhoso lavrador [yeoman] de Shakespeare num indigente assistido [pauper]. Comparando os salários-padrão ou os valores-padrão do trabalho em diversos países e diferentes países e comparando-os em diferentes épocas históricas do mesmo país, verificar-se-á que o próprio valor do trabalho não é uma grandeza fixa, mas variável, mesmo supondo que os valores de todas as outras mercadorias permanecem constantes. Uma comparação semelhante provaria que não só as taxas de mercado do lucro mudam como também as suas taxas médias. 

De acordo com as Leis dos Pobres (Poor Laws), existentes em Inglaterra desde o século XVI, cada paróquia tinha de pagar um imposto especial em benefício dos pobres. Os paroquianos que não pudessem prover ao seu sustento e de suas famílias recebiam uma subvenção através da caixa de ajuda aos pobres. Mas, quanto aos lucros, não existe qualquer lei que determine o seu mínimo. Não podemos dizer qual é o limite último do seu decréscimo. E porque é que não podemos fixar esse limite? Porque, apesar de podermos fixar o mínimo dos salários, não podemos fixar o seu máximo. Apenas podemos dizer que, sendo dados os limites do dia de trabalho, o máximo de lucro corresponde ao mínimo físico de salários; e que, sendo dados os salários, o máximo de lucro corresponde a um prolongamento tão grande do dia de trabalho quanto o compatível com as forças físicas do operário. O máximo de lucro está, portanto, limitado pelo mínimo físico de salários e pelo máximo físico do dia de trabalho. É evidente que entre os dois limites desta da taxa máxima de lucro é possível uma imensa escala de variações. A fixação do seu grau efectivo é estabelecida apenas pela contínua luta entre o capital e o trabalho, tendendo o capitalista constantemente a reduzir os salários ao seu mínimo físico e a estender o dia de trabalho ao seu máximo físico, enquanto o operário constantemente pressiona na direcção oposta. O problema resolve-se na questão das forças respectivas dos combatentes. 

2-Quanto à limitação do dia de trabalho – em Inglaterra, como em todos os outros países – nunca foi estabelecida, a não ser por interferência legislativa. Sem a contínua pressão, a partir de fora, dos operários, essa interferência nunca teria tido lugar. Mas, em todo o caso, o resultado não havia de ser alcançado por acordo privado dos operários com os capitalistas. Esta própria necessidade de uma acção política geral fornece a prova de que, na sua acção meramente económica, o capital é o lado mais forte. Quanto aos limites do valor do trabalho, o seu efectivo estabelecimento sempre depende da oferta e da procura, isto é, da procura trabalho por parte do capital e da oferta de trabalho pelos operários. Nos países coloniais, a lei da oferta e da procura favorece os operários. Daí o nível relativamente elevado dos salários nos Estados Unidos. O capital bem pode aí esforçar-se ao máximo. Não pode impedir o mercado de trabalho de ser continuamente esvaziado pela conversão contínua dos trabalhadores assalariados em camponeses independentes que se sustentam a si próprios. A situação de trabalhador assalariado não é, para uma parte muito grande do povo americano, senão um estado transitório [probational] que está segura de abandonar num período mais longo ou mais curto. Para remediar este estado de coisas colonial, o paternal governo britânico aceitou durante algum tempo aquilo a que se chama a moderna teoria da colonização, que consiste em pôr um preço artificial elevado à terra colonial, a fim de impedir a conversão demasiado rápida do trabalhador assalariado em camponês independente. 

Mas voltemos agora aos velhos países civilizados, nos quais o capital domina sobre todo o processo de produção. Tomemos, por exemplo, a subida dos salários agrícolas em Inglaterra de 1849 a 1859. Qual foi a sua consequência? Os rendeiros não puderam elevar – como o nosso amigo Weston os teria aconselhado – o valor do trigo, nem sequer os seus preços de mercado. Tiveram, pelo contrário, de se submeter à sua queda. Mas, durante esses onze anos, introduziram maquinaria de toda a espécie, adoptaram métodos mais científicos, converteram parte da terra arável em pastagens, aumentaram a dimensão das propriedades e, com isso, a escala da produção, e diminuindo, por estes e outros processos, a procura de trabalho, aumentando a sua força produtiva, tornaram a população agrícola de novo relativamente excedentária. Este é o método geral pelo qual, nos velhos países povoados, tem lugar uma reacção mais rápida ou mais lenta do capital contra a subida de salários. Ricardo observou com justeza que a maquinaria está em concorrência constante com o trabalho e, frequentemente, só pode ser introduzida quando o preço do trabalho alcançou um certo nível; mas a aplicação de maquinaria não é senão um dos muitos métodos para aumentar as forças produtivas de trabalho.

 Precisamente este mesmo desenvolvimento, que torna o trabalho comum relativamente excedentário, simplifica, por outro lado, o trabalho qualificado e, portanto, deprecia-o. A mesma lei prevalece de uma outra maneira. Com o desenvolvimento das forças produtivas de trabalho, a acumulação do capital será acelerada, mesmo apesar da taxa relativamente elevada dos salários. Daqui pode inferir-se – como Adam Smith, naqueles tempos em que a indústria moderna estava ainda na sua infância, inferiu – que a acumulação acelerada de capital tem de fazer pender a balança a favor do operário, ao assegurar uma procura crescente do seu trabalho. Partindo deste mesmo ponto de vista, muitos escritores contemporâneos se admiraram de que, tendo o capital inglês ter crescido nos últimos vinte anos de um modo muito mais rápido do que a população inglesa, os salários não tivessem sido mais aumentados. 

Mas, em simultâneo com o progresso da acumulação, tem lugar uma mudança progressiva na composição do capital. Aquela parte do capital total que consiste em capital fixo, maquinaria, matérias-primas, meios de produção sob todas as formas possíveis, aumenta progressivamente em comparação com a outra parte do capital, que é usado em salários ou na compra de trabalho. Esta lei foi formulada de um modo mais ou menos rigoroso pelo Sr. Barton, Ricardo, Sismondi, pelo Professor Richard Jones, o Professor Ramsay, Cherbuliez e outros. Se a proporção destes dois elementos do capital foi originariamente de um para um, tornar-se-á, com o progresso da indústria, de cinco para um, e assim sucessivamente. Se, de um capital total de 600, 300 forem usados em instrumentos, matérias primas, etc., e 300 em salários, o capital total só precisa de ser duplicado para criar uma procura de 600 operários, em vez de 300. Mas, se de um capital de 600, 500 forem usados em maquinaria, materiais, etc., e só 100 em salários, o mesmo capital tem de aumentar de 600 para 3600 a fim de criar uma procura de 600 operários vez de 300.

No progresso da indústria, a procura de trabalho não acompanha, por conseguinte, o passo da acumulação de capital. Aumentará ainda, mas aumentará numa razão constantemente decrescente em comparação com o aumento do capital. Estas poucas indicações serão suficientes para mostrar que o próprio desenvolvimento da indústria moderna tem progressivamente de fazer pender a balança a favor do capitalista contra o operário e que, consequentemente, a tendência geral da produção capitalista não é para elevar mas para afundar o nível médio dos salários ou de empurrar o valor do trabalho mais ou menos para o seu limite mínimo.

Sendo esta a tendência das coisas neste sistema, quererá isto dizer que a classe operária deverá renunciar à sua resistência contra as investidas do capital e abandonar as suas tentativas de tirar o melhor proveito das oportunidades ocasionais para a sua melhoria temporária? Se o fizesse seria degradada a uma massa nivelada de miseráveis domesticados sem salvação. Penso ter mostrado que as suas lutas pelo nível de salários são apenas incidentes inseparáveis de todo o sistema de salários, que em 99 casos em 100 os seus esforços por elevar os salários são apenas esforços para manter o valor dado do trabalho e que a necessidade de debater o seu preço com o capitalista é inerente à sua condição de terem de se vender eles próprios como mercadorias.

 Cedendo cobardemente no seu conflito de todos os dias com o capital, certamente que se desqualificariam para o empreendimento de qualquer movimento mais amplo. Ao mesmo tempo, e completamente à parte da servidão geral envolvida no sistema de salários, a classe operária não deverá exagerar para si própria a eficácia última destas lutas de todos os dias. Não deverá esquecer que está a lutar com efeitos, mas não com as causas desses efeitos; que está a retardar o movimento descendente, mas não a mudar a sua direcção; que está a aplicar paliativos, mas não a curar a doença.

 Por conseguinte, não deverá estar exclusivamente absorvida nestas inevitáveis lutas de guerrilha que incessantemente derivam das investidas sem fim do capital ou das mudanças do mercado. Deverá compreender que, [juntamente] com todas as misérias que lhe impõe, o sistema presente engendra simultaneamente as condições materiais e as formas sociais necessárias para uma reconstrução económica da sociedade. Em vez do muito conservador «Um salário diário justo para um trabalho diário justo!» deverá inscrever na sua bandeira a palavra de ordem revolucionária: «Abolição do sistema de salários!»

Depois desta exposição muito longa e, temo que maçadora, em que fui obrigado a entrar para fazer algum jus ao assunto, concluirei propondo as seguintes resoluções:

Em primeiro lugar. Uma subida geral da taxa dos salários resultaria numa queda da taxa geral do lucro, mas, em termos gerais, não afectaria os preços das mercadorias.

Em segundo lugar. A tendência geral da produção capitalista não é para elevar, mas para afundar o nível médio dos salários.

Em terceiro lugar. Os Sindicatos [Trade Unions] funcionam bem como centros de resistência contra as investidas do capital. Fracassam parcialmente por um uso não judicioso do seu poder. Fracassam geralmente por se limitarem a uma guerra de guerrilha contra os efeitos do sistema existente, em vez de simultaneamente o tentarem mudar, em vez de usarem as suas forças organizadas como uma alavanca para a emancipação final da classe operária, isto é, para a abolição última do sistema de salários. 

* Cf. William Thomas Thornton, Over-populationand Its Remedy; or, an Inquiry into the Extent and Causes of the Distress Prevailing among the Labouring Classes of the British Island, and into the Means of Remedying It [Sobrepopulação e o Seu Remédio; ou Uma Investigação sobre a Extensão e Causas da Miséria Prevalecente entre as Classes Trabalhadoras das Ilhas Britânicas e sobre os Meios de a Remediar], London, 1846. 

Escrito por Marx entre fins de Maio e 27 de Junho de 1865.

sábado, 9 de maio de 2015

Na comemoração da passagem dos 70 anos da Segunda Guerra Mundial à que destacar e defender Staline como o principal e verdadeiro estratega da derrota e da libertação dos povos do terror nazi-fascista.





O papel de Stálin na Segunda Guerra Mundial foi determinante para a vitória da humanidade sobre o nazismo. Caluniado por seus opositores internos e pelos ideólogos burgueses após sua morte em 1953, seus méritos militares raramente recebem o destaque que merecem, enquanto que batalhas e líderes de menor envergadura recebem mais destaque que o líder de aço soviético.

Quando se fala da II Guerra Mundial, é preciso sempre dizer que, de fato, não houve só uma guerra, mas várias. A guerra que levou os imperialismos anglo-americano e francês contra seu concorrente alemão não tinha muita coisa em comum com a guerra nacional antifascista da União Soviética. A guerra no Ocidente tinha sido uma guerra entre dois exércitos burgueses. No combate contra a invasão hitlerista, a classe dirigente francesa não queria nem podia mobilizar e armar as massas trabalhadoras por uma luta de morte contra o nazismo. Após a derrota das suas tropas, Pétain, o herói da I Guerra Mundial, assinou o ato de capitulação e entrou de pé leve na colaboração. Quase em bloco, a grande burguesia francesa se arrumou sob as ordens de Hitler, tentando tirar o melhor partido da Nova Europa alemã. A guerra do Oeste permaneceu, de qualquer sorte, uma guerra mais ou menos “civilizada” entre burgueses “civilizados”.

Nada de comparável na União Soviética. O povo soviético teve de fazer frente a uma guerra com toda uma outra natureza. E um dos méritos de Stalin é de tê-la compreendido e de estar coerentemente preparado.

Antes do começo da operação Barbarossa, Hitler já tinha claramente anunciado o colorido. Em seu Diário, o general Halderregistrounotas de um discurso que Hitler pronunciou diante dos seus generais,a 30 de Maio de 1941. O füher falava da guerra por acontecer com a União Soviética.

“Luta de duas ideologias. Julgamento humilhante a respeito do bolchevismo: ele é como um crime a-social. O comunismo representa um perigo horrível para o futuro. (…) Trata-se de uma luta de aniquilamento. Se nós não tomarmos a questão sob este ângulo, nós abateremos com certeza o inimigo, mas,em 30 anos, o inimigo comunista se oporá de novo. Nós não faremos a guerra para guardar nosso inimigo. (…) Luta contra a Rússia: destruição dos comissários bolcheviques e da inteligência comunista.”

Note-se que se trata aqui da “solução final” – mas não contra os judeus.
As primeiras promessas de “guerra de aniquilamento” e de “destruição física” foram endereçadas aos comunistas soviéticos.
E efetivamente, os bolcheviques, os soviéticos, foram as primeiras vítimas dos extermínios de massa.

O general Nagel escreveu em Setembro de 1941:
“Contrariamente à alimentação de outros prisioneiros (quer dizer ingleses e americanos) nós não temos compromisso com nenhuma obrigação de ter de alimentar prisioneiros bolcheviques.”
Nos campos de concentração de Auschwitz e de Chelmno, “prisioneiros soviéticos foram os primeiros, ou estiveram entre os primeiros, a ser deliberadamente mortos por injeções letais e pelo gás.”

O número de prisioneiros de guerra soviéticos mortos nos campos de concentração, “no curso dos deslocamentos”, em “circunstâncias diversas”, atingiu a cifra de3.289.000 homens! Quando as epidemias se espalhavam nas barracas dos soviéticos, os guardas nazistasnão penetravam aí, “salvo com equipes de lança-chamas quando, por‘razões de higiene’, os morimbundos e os mortos eram queimados juntamente com suas camas, em farrapos cheios de vermes”. Pode ter havido cinco milhões de prisioneiros assassinados, ao se levar em conta os soldados soviéticos “simplesmente abatidos nos locais”, nos momentos em que eles se rendiam.

Assim, as primeiras campanhas de extermínio, as mais vastas também, foram dirigidas contra os povos soviéticos, nos quais se incluía o povo judeu soviético. Os povos da URSS tiveram o maior sofrimento, tendo contado o maior número de mortos – 23 milhões – mas eles também faziam prova da mais feroz determinação do mais ardente heroísmo.

Até a agressão contra a União Soviética, não houvera grandes massacres de populações judias. Nesse momento, os nazistas não haviam encontrado ainda nenhum tipo de resistência séria. Mas, desde os seus primeiros passos no solo soviético, esses nobres alemães tiveram de enfrentar adversários oferecendo combate até sua última gota de sangue. Desde as primeiras semanas, os alemães sofreram perdas severas, e isso contra uma raça inferior, contra os eslavos, e pior ainda, contra os bolcheviques. A fúria exterminadora dos nazistas nasceu de suas primeiras perdas maciças. Quando a besta fascista começou a sangrar sob os golpes do Exército Vermelho,ela pôs em prática a “solução final” para o povo soviético.

A 26 de novembro de 1941, o 30º Corpo do Exército, ocupando um vasto território soviético, tinha ordenado encerrar nos campos de concentração, como reféns,“todos os indivíduos que eram das famílias dos resistentes”, “todos os indivíduos suspeitos de estarem em relação com os resistentes”, “todos os antigos membros do Partido” e “todos os indivíduos que ocupassem funções oficiais”. Para um soldado alemão morto, os nazistas decidiram matar ao menos dois reféns.

A 1º de Dezembro de 1942, quando de uma discussão com Hitler sobre a guerra dos resistentes soviéticos, o general Jodl resumiu a posição alemã nesses termos:
“No combate, nossas tropas podem fazer aquilo que elas quiserem: pendurar os resistentes com a cabeça para baixo ou esquartejá-los.”

A bestialidade com a qual os hitleristas perseguiam e liquidavam todos os membros do Partido, todos os resistentes, todos os responsáveis pelo Exército Soviético e seus familiares nos fizeram melhor compreender os sentidos dos Grandes Expurgos dos anos 1937-1938. Nos territórios ocupados, contra-revolucionários irredutíveis que não foram sido liquidados em 1937-1938 puseram-se a serviço dos hitleristas, informando-os sobre todos os bolchevistas, suas famílias, seus companheiros de luta.

Na medida em que a guerra no Leste adquiria um caráter cada vez mais encarniçado, a demência mortífera dos nazistas contra todo um povo se intensificou. Himmler, dirigindo-se aos dirigentes das SS, falava em junho de 1942 de uma “guerra de extermínio” entre duas “raças e povos” que se engajaram em um combate “incondicional”. Havia de um lado há “aquela matéria bruta, aquela massa, esses homens primitivos, ou melhor, esses sub-homens dirigidos pelos comissários políticos”, do outro lado, nós, os alemães”.

Um terror sanguinário,jamais praticado antes: tal foi a arma com a qual os nazistas quiseram obrigar os soviéticos à capitulação moral e política.
“Durante os combates para a tomada de Khárkov”, dizia Himmler, “nossa reputação de despertar o medo e de semear o terror nos precedia. Era uma arma extraordinária que era preciso sempre reforçar.”

E os nazistas tinham reforçado o terror.
A 23 de agosto de 1942, às 18 horas precisamente, mil aviões começaram a largar bombas incendiárias sobre Stalinegrado. Nesta cidade, onde viviam 600 mil habitantes, havia muitos imóveis construídos com madeira, reservatórios de combustíveis, reservas de carburantes para as empresas. Eremenko, que comandou a frente de Stalinegrado, escreveu:

“Stalinegrado foi imersa nos clarões do incêndio, rodeada de fumaças e fuligem. Toda a cidade ardia. Enormes nuvens de fumaça e de fogo turbilhonavam acima das usinas. Os reservatórios de petróleo pareciam vulcões vomitando suas larvas. Centenas de milhares de tranqüilos habitantes estavam em perigo. O coração apertava de compaixão pelas vítimas inocentes do canibalismo fascista.”

É preciso ter uma visão clara destas realidades insuportáveis para compreender certos aspectos daquilo que a burguesia chama de “stalinismo”. Durante a depuração, burocratas incorrigíveis, derrotistas e capitulacionistas foram ameaçados; muitos dentre eles foram enviados à Sibéria. Um Partido desgastado pelo derrotismo e pelo espírito de capitulação não teria jamais podido mobilizar e disciplinar o povo para se contrapor ao terror nazista. E foi isso que fizeram os soviéticos nas cidades sitiadas, em Leninegrado e em Moscovo. E mesmo no braseiro de Stalinegrado, os homens que sobreviveram jamais se renderam e finalmente participaram da contra-ofensiva.

Durante a agressão alemã, em junho de 1941, o general do exército Pavlov, no comando da frente Oeste, deu prova de incompetência grave e de negligência. A 28 de junho, a perda da capital bielorussa, Minsk, foi a consequência. Stalin convocou Pavlov e seu Estado-Maior a Moscovo. Jukov anotou que, “por proposta do Conselho Militar da Frente Oeste”, eles foram levados a julgamento e fuzilados. Elleinstein apressou-se em dizer que assim Stalin continuou a aterrorizar seu ambiente. Ora, frente à barbárie nazista, a direção soviética devia exigir uma atitude inquebrantável e uma firmeza a toda prova e todo  o acto de irresponsabilidade grave tinha de ser punido com o rigor necessário.

Quando a besta fascista começou a receber golpes mortais, ela tentou recobrar coragem com banho de sangue, praticando o genocídio contra o povo soviético caído nas suas mãos.

Himmler declarou a 16 de dezembro de 1943, em Weimar:
“Quando fui obrigado a dar, em um vilarejo, ordem para marchar contra os guerrilheiros e os comissários judeus, eu tinha sistematicamente dado a ordem de matar igualmente as mulheres e as crianças desses resistentes e desses comissários. Eu teria sido um relaxado e um criminoso frente a nossos descendentes se tivesse deixadovivas as crianças cheias de ódio daqueles sub-homens abatidos no combate do homem contra o sub-homem. Nós devemos ter consciência do fato de que nos encontramos em um combate racial primitivo, natural e original.”

O chefe da SS tinha dito em outro discurso em Kharkov, a 24 de abril de 1943:
“Por que meiospoderíamos tirar do russo mais homens, mortos ou vivos? Conseguiríamos isso matando-os, fazendo-os prisioneiros, fazendo-os trabalhar verdadeiramente e não devolvendo (alguns territórios) ao inimigo, senão após tê-los esvaziado completamente de seus habitantes. Entregar homens ao russo seria um grosso erro.”

Esta realidade de terror inaudito que os nazistas praticaram na União Soviética, contra o primeiro país socialista, contra os comunistas, é quase sistematicamente ocultada ou minimizada na literatura burguesa. Esse silêncio tem um objetivo muito preciso. Quanto mais as pessoas ignoram os crimes monstruosos cometidos contra os soviéticos, mais facilmente pode-se fazer engolir a ideia de que Stalin foi, ele também, um ditador comparável a Hitler. A burguesia escamoteia o verdadeiro genocídio anti-comunista para poder ostentar mais livremente aquilo que ela tem em comum com o nazismo: o ódio irreconciliável ao comunismo, o ódio de classe para com o socialismo. E para obscurecer o maior genocídio da guerra, a burguesia dirige exclusivamente os holofotes contra outro genocídio, o dos judeus.

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Imagem real de Stálin durante celebrações da vitória soviética sobre o nazismo.

Em um livro notável, Arno J. Mayer, cujo pai era sionista de esquerda, mostra que o extermínio dos judeus não começou senão no momento em que os nazistas, pela primeira vez, sofreram duras perdas. Foi em junho-julho de 1941, contra o Exército Vermelho. A bestialidade exercida contra os comunistas, depois as derrotas inesperadas que abalaram o sentimento de invencibilidade dos Ubermenschen, criaram o ambiente que permitiu o holocausto.

“O genocídio judeu foi forjado no fogo de uma guerra formidável para conquistar à Rússia um “espaço vital” ilimitado, para esmagar o regime soviético e para liquidar o bolchevismo internacional. (…) Sem a operação Barbarossa não teria havido nem poderia haver catástrofe judaica, de “solução final”.” Só quando os nazistas se confrontaram com a realidade das derrotas na frente russa,eles decidiram por uma “solução global e definitiva” do “problema judeu”, durante a conferência de Wannsee, em 20 de janeiro de 1942.

Os nazistas criaram depois de longos anos seu ódio ao “judeu-bolchevismo”, o bolchevismo sendo, segundo eles, a pior invenção dos judeus. A resistência feroz dos bolcheviques impediu os hitleristas de terminarem com seu inimigo principal. Então,eles dirigiram suas frustrações contra os judeus, que eles exterminaram em um movimento de vingança cega.

Como a grande burguesia judaica era conciliadora para com o Estado hitlerista – em certos casos, cúmplice mesmo – a maioria dos judeus foi abandonada com resignação a seus carrascos. Mas os judeus comunistas, que agiam com o espírito internacionalista, combateram,com armas na mão, os nazistas e uma parte da esquerda judaica entrou para a resistência. A grande massa dos judeus pobres foi morta em câmaras de gás. Mas muitos ricos tiveram sucesso migrando para os Estados Unidos. Após a guerra, eles se posicionaram a serviço do imperialismo norte-americano e de Israel, a cabeça de ponte deste no Oriente Médio. Eles falam em profusão do holocausto dos judeus, mas em uma ótica pró-israelense; ao mesmo tempo, eles dão livre curso a seus sentimentos anti-comunistas e insultam assim a memória dos judeus comunistas que realmente enfrentaram os nazistas.

Para terminar, uma palavra sobre a forma pela qual Hitler preparou o espírito dos nazistas para massacrar indiferentemente 23 milhões de soviéticos. Para transformar seus homens em máquinas de matar, ele lhes enculcou que um bolchevique não era um homem, mas um animal.

“Hitler advertia suas tropas de que a força inimiga era ‘largamente composta de animais e não de soldados’, condicionados a combaterem com uma ferocidade animal.”

Para levar as tropas alemãs ao extermínio dos comunistas, Hitler lhes dizia que Stalin e os demais dirigentes soviéticos eram “criminosos enlameados de sangue (que tinham) matado e exterminado milhões de intelectuais russos, com sua sede selvagem de sangue… (e) que tinham exercido a tirania mais cruel de todos os tempos”.

“Na Rússia, o judeu sanguinário e tirânico matou, muitas vezes com torturas desumanas, ou exterminou pela fome com uma selvajaria verdadeiramente fanática cerca de 30 milhões de homens.”
Assim, na boca de Hitler, a mentira dos “30 milhões de vítimas de stalinismo” serviu para preparar psicologicamente a barbárie nazista e o genocídio dos comunistas e resistentes soviéticos.
Ressaltemos de passagem que Hitler inicialmente tinha posto essas “30 milhões de vítimas” na conta de… Lenin. De fato, essa mentira repugnante figurava já no MeinKampf, escrito em 1926, bem antes da coletivização e da depuração! Em ataque ao judeu-bolchevismo, Hitler escreveu:
“Com uma ferocidade fanática, o Judeu matou na Rússia cerca de 30 milhões de homens, muitas vezes sob torturas desumanas.”

Meio século mais tarde, Brzezinski, o ideólogo oficial do imperialismo norte-americano retoma palavra por palavra todas essas infâmias nazistas:
“É absolutamente razoável (!) estimar as vítimas de Stalin em no mínimo em 20 e talvez 40 milhões.”

Os méritos militares de Stálin

Como seria impossível avaliar finalmente os méritos militares daquele que dirigiu o Exército e os povos da União Soviética no curso da maior guerra, a mais pavorosa que a história já conheceu?

Apresentemos antes a opinião de Khruchov.
“Stalin tinha tentado muito fazer passar-se por um grande chefe militar. Reportemo-nos por exemplo a nossos filmes históricos. É desencorajante. Não se trata senão de propagar o tema segundo o qual Stalin era um gênio militar”.

“Não foi Stalin, mas sim o Partido inteiro, o governo soviético, nosso heróico exército, seus chefes talentosos e seus bravos soldados que alcançaram a vitória na grande guerra patriótica (tempestade de aplausos prolongados).”
Não foi Staline! Não Staline, mas o Partido inteiro. E este Partido inteiro obedecia sem dúvida às instruções do Espírito Santo.

Khrouchov fazia parecer glorificar o Partido, este corpo coletivo de combate, para diminuir o papel de Staline. Organizando o culto de sua personalidade, Stalin teria usurpado a vitória que o Partido “inteiro” tinha arrancado. Como se Staline não fosse o dirigente mais eminente desse Partido, aquele que, no curso da guerra, fez prova da mais espantosa capacidade de trabalho, da maior tenacidade e clarividência. Como se todas as decisões estratégicas não tivessem sido resolvidas por Stalin, mas contra ele, por seus subordinados.

Se Staline não foi um gênio militar, é necessário concluir que a maior guerra da história, aquela que a humanidade travou contra o fascismo, teria sido ganha sem gênio militar. Porque nesta guerra terrificante, ninguém desempenhou um papel comparável àquele desempenhado por Staline. Mesmo AverellHarriman, o representante do imperialismo americano, após ter repetido os clichês obrigatórios a propósito do “tirano que era Staline”, destacou sua “grande inteligência, sua fantástica capacidade de entrar nos detalhes, sua perspicácia e sua sensibilidade humana surpreendente, que ele pôde manifestar, ao menos durante a guerra. Eu acho que ele era mais bem-informado que Roosevelt, mais realista do que Churchill, sob vários aspectos o mais eficaz dos dirigentes da guerra.”

“Staline presente, não havia mais lugar para ninguém. Onde estavam então nossos chefes militares?”, exclamou o demagogo Khrouchov. Ele bajulava os marechais: não foram vocês os verdadeiros gênios militares da II Guerra Mundial? Finalmente, Jukov e Vassilevski, os dois chefes militares mais eminentes, deram a sua opinião, respectivamente 15 e 20 anos após o relatório infame de Khruchov.
Escutemos inicialmente o julgamento de Vassilevski.

“Staline formou-se como estrategista. (…) Após a batalha de Stalingrado e particularmente a de Kursk, ele elevou-se ao máximo da direção estratégica. Stalin passa a pensar manejando as categorias da guerra moderna, ele se familiariza perfeitamente com todas as questões da preparação e da execução das operações. Ele exige então que as operações militares sejam conduzidas de forma criadora, dando conta plenamente da ciência militar, que elas sejam enérgicas e manobradas, tendo por objeto o deslocamento e o cerco do inimigo. Seu pensamento militar manifesta nitidamente a tendência a massificar as forças e os meios, a fazer um emprego diversificado de todas as variantes possíveis do começo das operações e de sua condução. Stalin começa a compreender bem não apenas a estratégia da guerra, o que lhe foi fácil, pois ele possuía a maravilhosa arte da estratégia política, mas também a arte operacional.”

“Stalin entrou duradouramente na história militar. Seu mérito indubitável esteve em que, sob sua direção imediata enquanto comandante supremo, as Forças Armadas soviéticas foram firmes nas campanhas defensivas e cumpriram brilhantemente todas as operações ofensivas. Mas, tanto quanto eu tenha podido observar, ele não falava jamais de seus méritos. Em todo caso, jamais o ouvi falar disso. O título de Herói da União Soviética e a posição de Generalíssimo lhes foram conferidos por proposta dos comandantes da frente ao birôpolítico. Quanto aos erros cometidos durante os anos de guerra, ele falava deles honestamente e francamente.”

“Stalin, eu estou profundamente convencido, particularmente a partir da segunda metade da Grande Guerra Patriótica, que foi a figura mais forte e mais brilhante do comando estratégico. Ele se desempenhou com sucesso na direção das frentes, de todos os esforços do país, na base da política do Partido. (…) Stalin permaneceu em minha memória como um chefe militar rigoroso, de forte vontade, a quem não faltava ao mesmo tempo encanto pessoal.”

Jukov começa por nos dar um perfeito exemplo do método de direção, exposto por Mao TseTung: concentrar as ideias justas das massas para retorná-las sob a forma de diretivas às massas.

“Foi a Joseph Stalin em pessoa que foram atribuídas soluções de princípio, em particular aquelas concernentes aos processos de ataque da artilharia, a conquista do domínio aéreo, os métodos do cerco do inimigo, o deslocamento dos contigentes inimigos cercados e sua destruição sucessiva por agrupamentos etc. Todas essas questões importantes da arte militar são frutos de uma experiência prática, adquirida no curso dos combates e das batalhas, fruto de reflexões aprofundadas e conclusões tiradas dessa experiência pelo conjunto dos chefes e pelas próprias tropas. Mas o mérito de J. Stalin consiste em ter acolhido de modo adequado os conselhos de nossos eminentes especialistas militares, de os ter completado, explorado e comunicado rapidamente sob a forma de princípios gerais nas instruções e diretivas dirigidas às tropas, com vistas a assegurar a conduta prática das operações.”

“Até a batalha de Stalingrado, J. Stalin não dominava senão em suas grandes linhas os problemas da estratégia, da arte operacional, da posta a prova das operações modernas,no nível de uma frente e, no último caso, aquelas de um exército. Mais tarde, sobretudo a partir de Stalingrado, Stalin adquiriu a fundo a arte de montar as operações de uma frente ou de várias frentes e dirigiu tais operações com competência, resolvendo bem vários problemas de estratégia.

“Na direção da luta armada, Stalin era de modo geral ajudado pela sua inteligência natural e sua riqueza de intuição. Ele sabia descobrir o elemento principal de uma situação estratégica e, em consequência, sabia responder ao inimigo, desencadear tal ou qual importante operação ofensiva.
“Não há dúvida: ele foi digno do comando supremo.”

Extraídos do livro Um Outro Olhar Sobre Stálin, de Ludo Martens.
Via PCR do Brasil