domingo, 22 de setembro de 2013

50.000 operários marcham em Bangladesh por melhores condições de trabalho no sector Têxtil.

50.000 marcham em Bangladesh por melhores condições de trabalho no sector têxtil

Em Bangladesh, dezenas de milhares de trabalhadores têxteis saíram às ruas sábado em Dhaka, a capital, para exigir melhores condições de trabalho e um aumento no setor de salário mínimo.
Segundo a mídia local, cerca de 50 mil manifestantes participaram do protesto para exigir um aumento salarial de 5.000 taka (70 dólares). A mobilização, que durou quatro horas, é considerada a maior marcha da história da cidade capital.
Os trabalhadores também bloquearam as entradas para Daca e danificou dezenas de fábricas têxteis, localizados nas proximidades da mesma cidade que estão desempregados.
"Somos contra a parede, porque não temos escolha a não ser para levantar a nossa voz ... Não poupamos esforços para torná-lo sobre a nossa demanda", disse o presidente da Federação Têxtil Sommilito, Nazma Akter.
Cerca de quatro milhões de pessoas que trabalham nesse setor, em Bangladesh, um país que está em segundo a maior do mundo em termos de exportação de produtos têxteis e da indústria integra 80 por cento do seu produto interno bruto (PIB).
Atualmente, o governo está negociando com os proprietários de fábricas têxteis para aumentar o salário mínimo, mas eles se recusam a fazer o pedido, com o argumento de que os comerciantes estrangeiros, principalmente grandes empresas ocidentais querem comprar produtos baratos.

Desindustrialização, desemprego e pobreza assombram a Itália


Desindustrialização, desemprego e pobreza assombram a Itália

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Para os operários da Firem de Modena, da Dometic de Forli, da Hydronic-Lift de Milão, e de outras vinte e duas pequenas fábricas metalúrgicas espalhadas no norte da Itália, o fim das férias do verão revelou uma trágica realidade: os patrões, na calada da noite, mandaram desmontar os equipamentos para encaixotá-los com destino à China, Polônia, Sérvia, Eslovênia, Marrocos e Vietnã. Países onde o custo da mão-de-obra é quatro vezes menor que a italiana.
A maior parte das fábricas italianas que optaram por volatilizar seus equipamentos é filial de multinacionais européias que estão à beira da falência. 
Pobreza absoluta e relativa
Vigonovo – pequena cidade da região Veneto, com apenas 10.078 moradores (3.875 famílias) –, decidiu aliviar a pobreza absoluta na sua cidade, informando os gerentes de supermercados e de lojas de alimentação que a prefeitura de Vigonovo pagaria os alimentos roubados pelos velhos, os jovens e os estrangeiros que os furtavam por não terem nada a comer. A iniciativa do prefeito Zecchinato escandalizou grande parte da mídia, que o chamou de "oportunista alpinista midiático", mas conseguiu, finalmente, visualizar uma faceta da crise socioeconômica que hoje – mesmo se o governo tenta dissimular – apresenta sinais evidentes do prisma da fome na Itália.
Segundo as estatísticas do ISTAT (Sistema Estatístico Nacional), em janeiro de 2013, a Itália tinha uma população de 59.685.227 pessoas, das quais 4.300.760 (7,4%) de nacionalidade estrangeira. Dessas, hoje, 1.725.766 (6,8% das famílias) vivem em "pobreza absoluta", tendo uma renda mensal que não excede os 400,00 euros, enquanto 3.232.564 pessoas (12,7% das famílias) vivem em "pobreza relativa", desfrutando de uma renda mensal de no máximo 950 euros. Se considerarmos que o aluguer de uma casa  (cozinha, um quarto e uma sala) no subúrbio periférico de Roma ou de Milão não se encontra por menos de 400 euros; que uma passagem metro custa 1,50 euro; que um quilo de carne bovina de segunda qualidade custa 10 euros; e que a gasolina subiu até 1,95 euro o litro, é evidente que as famílias de operários ou de funcionários públicos com dois ou três filhos, mesmo com um salário de 1200 euros, vivem na "pobreza relativa", à causa do alto custo de vida que penaliza, sobretudo, os trabalhadores.
É necessário dizer que em 2003 havia poucos milhares de indivíduos considerados "indigentes". Porém, o crescimento da pobreza absoluta se deu com a subida do desemprego, que no setor privado foi violenta, sobretudo a partir de 2009. De fato, em julho de 2013 havia 22.509.000 trabalhadores com carteira assinada. Nesse período, 433.000 trabalhadores (1,9%) foram desempregados e nenhum deles foi reintegrado no trabalho fabril. Por isso, o exército dos desempregados chegou a 3.076.430 e 39,5% desse contingente é formado por jovens (homens e mulheres) entre 18 e 30 anos. Além disso, as estatísticas oficiais não avaliam mais a categoria dos chamados "desempregados crônicos", formada pelos trabalhadores ou funcionários considerados "velhos", por estarem entre os 50 e 62 anos, e aqueles que, apesar de estarem na faixa etária dos 40, não procuram mais trabalho.
Desempregados que com mais frequência buscam uma ocupação na economia ‘submersa’, para trabalharem ao lado dos imigrados estrangeiros (inclusive os clandestinos), sem nenhuma garantia contratual e com salários de no máximo 500 euros. Uma situação que testemunha de forma dramática como as leis dos mercados e a lógica política dos governos capitalistas que tornam ainda mais barbara a exploração sobre os trabalhadores,empurrando grande parte da sociedade italiana para os limites da indigência e da miséria. De fato, o que mais cresceu nos últimos três anos foi a economia submersa e a economia ilegal, ambas monitoradas pelos círculos mafiosos que, hoje, controlam a maior parte dos subúrbios e das periferias das grandes cidades italianas.
Diante desse problema, o "democrata" Giampiero D'Alia, ministro da Administração Pública, teve a brilhante idéia de "desempregar" 108.000 funcionários públicos e, consequentemente, não renovar os contratos temporários de 150.000 profissionais, que na sua maioria trabalham na saúde e na educação. Uma solução que, em Bruxelas, será ovacionada por Angela Merkel e David Cameron, mas que ampliará ainda mais o cenário da pobreza e das diferenças sociais na Itália.

sexta-feira, 20 de setembro de 2013

FINAL-Não é uma relíquia marxista ,mas um guia para a acção"

A educação da actividade revolucionária das massas

«A consciência da classe operária não pode ser uma verdadeira consciência política se os operários não estão habituados a reagir contra todos os casos de arbitrariedade e opressão, de violência e abusos, de toda a espécie, quaisquer que sejam as classes afectadas;» – sendo que devem reagir com uma visão socialista e não outra qualquer. «A consciência das massas operárias não pode ser uma verdadeira consciência de classe se os operários não aprenderem, com base em factos e acontecimentos políticos concretos e, além disso, necessariamente de actualidade, a observar cada uma das outras classes sociais em todas as
manifestações da sua vida intelectual, moral e política; se não aprenderem a aplicar na prática a análise materialista e a apreciação materialista de todos os aspectos da actividade e da vida de todas as classes, camadas e grupos da
população. (…) O conhecimento de si própria [da classe operária] está inseparavelmente ligado a uma clara compreensão não só dos conceitos teóricos…
ou melhor: não tanto dos conceitos teóricos, como das ideias elaboradas com base na experiência da vida política sobre as relações entre todas as classes da sociedade actual».

Esta recomendação de Lénine, de não confundir a política com a pedagogia, deve ser lembrada hoje, em particular, àqueles que repetem obstinadamente que os operários não têm compreensão, não têm consciência nem disposição para a luta, que são corruptos, devassos, aproveitadores, etc.

As «denúncias políticas que abarcam todos os aspectos da vida são uma condição indispensável e fundamental para educar a actividade revolucionária das massas».

Por isso, a nossa tarefa, a tarefa dos comunistas de hoje, é aprofundar, ampliar e intensificar as denúncias políticas e a agitação política. A nossa tarefa é dar mais daquilo que a experiência «económica» e fabril nunca ensinará aos operários, designadamente, conhecimentos políticos. Estes conhecimentos só os intelectuais socialistas podem adquirir, e é seu dever, se forem socialistas não só em palavras, fornecer este conhecimento aos operários, não só sob a forma de raciocínios,
brochuras e artigos (que frequentemente são um pouco maçudos), mas sob a forma de denúncias vivas sobre o que fazem no presente o governo e as classesdominantes em todos os aspectos da vida, sob a forma de respostas e reacções a estes actos.

As acusações de passividade e reaccionarismo dos operários não são mais do que indicadores da passividade, inacção e inconsistência dos próprios ideólogos e dirigentes que não cumprem o seu papel e limitam a sua actividade. Conclui-se pois que em vez de se queixarem da pouca actividade das massas e serem tão pouco exigentes em relação a si próprios, em relação à sua actividade, os comunistas devem antes elevar o seu papel de organizadores e revolucionários conscientes. Não é a direcção da luta económica que nos é exigida, mas a direcção da agitação política em todos os aspectos – eis o que transforma a luta profissional no movimento revolucionário de classe. É possível fazer muito mais para a luta económica se não restringirmos os nossos objectivos políticos às necessidades da luta exclusivamente económica ou exclusivamente parlamentar.

Como vemos a crítica de Lénine no livro Que Fazer? atinge de todas as formas a fuga aos verdadeiros deveres dos revolucionários: a organização e condução de uma agitação política diversificada, em que se deve ir a todas as classes da população, como teóricos, como propagandistas e como organizadores (pois «os comunistas apoiam todo o movimento revolucionário»).

E este trabalho teórico «deve orientar-se para o estudo de todas as particularidades da situação social política das diferentes classes». Disto, como salienta Lénine, ninguém deve duvidar.

Sobre os princípios organizativos     

Atrás já referimos que a estreiteza do trabalho de organização está inquestionável e inseparavelmente ligada (embora com frequência de modo inconsciente) com a restrição da teoria marxista e dos objectivos políticos dos comunistas. A inconsciência limita o nosso horizonte, incute-nos medo de nos afastarmos do carácter e nível do trabalho do partido, semi-de-massas, acessível,
habitual e tradicional.

Lénine exige a máxima consciência no trabalho organizativo, mostrando de que modo a estreiteza da concepção da luta teórica está ligada não só à estreiteza de vistas na luta política, mas também à restrição das tarefas revolucionárias. Com tal estreiteza de concepções e o culto da inconsciência «é absolutamente desnecessária uma organização centralizada (…) (que, por isso mesmo, não pode formar-se no decorrer de tal luta), uma organização que reúna num único impulso comum
todas as manifestações de oposição política de protesto e indignação, uma organização formada por revolucionários profissionais e dirigida por verdadeiros líderes políticos de todo o povo.»Tal organização não pode formar-se porque «o carácter da estrutura de qualquer instituição é determinado, natural e inevitavelmente, pelo conteúdo da actividade política dessa instituição.»

A existência de organizações cuja consciência se inclina perante a espontaneidade; «o prosternar-se perante formas de organização que surgem espontaneamente, o não ter consciência de como é estreito e primitivo o nosso trabalho de organização (…) a falta desta consciência é uma verdadeira doença do nosso movimento. Não é evidentemente uma doença própria da decadência,
mas do crescimento», considera Lénine.

Não terá o actual movimento comunista essa mesma doença? Esta conclusão impõe-se por si própria. Qual é o grau de consciência do trabalho de organização dos comunistas hoje? Não defendem por vezes alguns dirigentes partidários e organizadores atrasados formas estreitas de organização, directamente herdadas por nós do PCUS e ajustadas e adaptadas à legislação burguesa? Identificando esta doença no movimento do seu tempo, Lénine exigiu a mais intransigente luta contra toda a defesa do atraso, contra toda a legitimação da estreiteza de vistas; exigiu de cada qual que participa no trabalho prático a decisão inquebrantável de se desembaraçar desta estreiteza e do trabalho à moda antiga.

– Mas – dirão os que discordam – Lénine falava sobre o trabalho artesanal e a sua superação, enquanto nós temos um partido amadurecido, com história. – Pois aí é que está o problema – retorquimos nós. – Caminhamos por um trilho já aberto, fazemos tudo como de costume, sem pensarmos qual é a organização de que temos hoje necessidade. Aliás, Lénine entendia por trabalho artesanal uma organização insuficiente: o reduzido alcance de todo o trabalho revolucionário em geral, a falta de preparação e a falta de habilidade prática, a falta de continuidade e organização
entre determinadas frentes de trabalho, a falta de sistematização da propaganda e da agitação e, sobretudo, as tentativas de justificar esta estreiteza e erigi-la em «teoria» particular, isto é, o culto da espontaneidade. O último está de resto inseparavelmente ligado a uma concepção estreita da teoria marxista, do papel dos revolucionários e das tarefas políticas que se colocam ante eles.

Não será isto semelhante ao desejo de uma parte importante do aparelho do partido e de parte dos militantes de se agarrarem às estruturas partidárias existentes e habituais e, a partir delas, procurar uma base social e um eleitorado?

Não será isto semelhante à atitude burocrática para com a organização do partido e o seu trabalho, que continua a grassar na vida interna partidária desde o tempo do PCUS? O livro de Lénine obriga-nos a pensar nestas questões e induz-nos a reflectir sobre os resultados: «Arrastar [-se] na cauda do movimento, [é] coisa inútil no melhor dos casos e, no pior, extremamente nocivo para o movimento», avisa Lénine.

Ao resolver a primeira e mais urgente tarefa prática – criar uma organização de revolucionários –, Lénine mostrou a absurdidade e a nocividade de a misturar com a organização dos operários.

 Afirma que não pode haver movimento revolucionário sólido sem uma organização estável de dirigentes, que assegure a continuidade; que quanto mais extensa for a massa espontaneamente integrada na luta, massa queconstitui a base do movimento e que nela participa, mais premente será a necessidade de semelhante organização, e mais sólida deverá ser ela (já que será fácil aos demagogos de toda a espécie arrastar as camadas atrasadas da massa); que tal organização deve ser formada, fundamentalmente, por pessoas entregues profissionalmente às actividades revolucionárias; que a centralização das funções mais clandestinas não debilitará, antes reforçará a amplitude e o conteúdo da actividade de uma grande quantidade de outras organizações destinadas ao grande público e, por consequência, o menos regulamentadas e clandestinas possível.

Pode parecer que estas teses foram elaboradas para a Rússia autocrática e que o seu significado se limita a esse contexto. No entanto, Lénine insistiu que elas têm uma importância geral, como se constata no seu trabalho de 1919, Sobre As Tarefas da III Internacional.

 «Para vencer de facto o oportunismo(...) é preciso     

Primeiro, conduzir toda a propaganda e agitação do ponto de vista da revolução, em oposição às reformas, explicando sistematicamente às massas essa oposição, teórica e praticamente, a cada passo do trabalho parlamentar, sindical, cooperativo, etc. Em caso nenhum recusar (salvo em casos especiais, a título de excepção) a utilização do parlamentarismo e de todas as “liberdades” da
democracia burguesa, não recusar as reformas, mas encará-las apenas como resultado acessório da luta de classe revolucionária do proletariado. (…)

Segundo, deve-se combinar o trabalho legal e o ilegal. Os bolcheviques sempre o ensinaram e com particular insistência (…) Disto troçavam os heróis do oportunismo infame, exaltando fatuamente a “legalidade”, a “democracia”, a “liberdade” dos países e repúblicas da Europa Ocidental, etc. (…) 

Não há um único país no mundo, a mais avançada e a mais “livre” das repúblicas burguesas, onde
não reine o terror da burguesia, onde não esteja proibida a liberdade de agitação a favor da revolução socialista, de propaganda e de trabalho organizativo precisamente nessa direcção. Um partido que até ao presente não reconheceu isto sob a dominação da burguesia e não realiza um trabalho ilegal sistemático,mglobal, apesar de todas as leis da burguesia e dos parlamentos burgueses, é um partido de traidores e de miseráveis, que com o reconhecimento verbal da
revolução enganam o povo.

Terceiro, é necessária uma guerra constante e impiedosa para expulsar completamente do movimento operário os chefes oportunistas (…) Os partidos que em palavras são pela revolução mas na prática não realizam um trabalho constante pela influência precisamente do partido revolucionário, e só do partido revolucionário, em todas a espécie de organizações operárias de massas, são partidos de traidores.

Quarto, não se pode admitir que em palavras condenem o imperialismo, mas de facto não travem uma luta revolucionária pela libertação das colónias (e das nações dependentes) da sua própria burguesia imperialista. Isto é hipocrisia. É a política dos agentes da burguesia no movimento operário. (…)

Quinto, é uma enorme hipocrisia este fenómeno típico dos partidos (…) [oportunistas]: reconhecer em palavras a revolução e alardear perante os operários frases pomposas acerca do seu reconhecimento da revolução, mas de facto ter uma atitude puramente reformista para com os rudimentos, os germes, as manifestações de crescimento da revolução que constituem todas as acções de massas que quebram as leis burguesas, saem de toda a legalidade, por exemplo, as greves de massas, as manifestações de rua, os protestos dos soldados, os comícios entre as tropas, a difusão de panfletos nos quartéis e acampamentos, etc.


Se perguntarmos a qualquer (…) [oportunista] se o seu partido realiza esse trabalho sistemático, ele responder-vos-á ou com frases evasivas, que dissimulam a ausência desse trabalho – inexistência da organização e do aparelho necessário, incapacidade do seu partido para o realizar –, ou com declamações contra o “putschismo”, o anarquismo, etc. E é nisto que consiste a traição à classe operária (…)


Mas só hipócritas ou idiotas podem não compreender que os êxitos particularmente rápidos da revolução na Rússia estão ligados a um trabalho de muitos anos do partido revolucionário no sentido indicado, em que durante muitos anos se criou sistematicamente uma aparelho ilegal para dirigir as manifestações e as greves, para trabalhar no seio das tropas, se estudou em pormenor os meios, se redigiu literatura ilegal que fazia o balanço da experiência e educava todo o partido na ideia da necessidade da revolução, se formava os chefes das massas para semelhantes casos, etc., etc.»

Pensamos que estas teses de Lénine sobre a construção da organização de revolucionários podem também hoje servir de orientação aos comunistas. Pelo menos deve-se formar uma atitude consciente em relação a elas. Só então se poderá prosseguir na resolução das tarefas que se colocam ante o movimento operário.

Lénine, por mais de uma vez, expressou o desejo de que seria preferível ler menos os clássicos do marxismo, mas lê-los de forma mais aplicada, melhor, reflectindo mais seriamente sobre o que se lê. Não declamar simplesmente certas teses marxistas, mas saber resolver primeiro teoricamente os problemas para depois convencer a organização, o partido a as massas da justeza da decisão – eis o
que se exige de um revolucionário marxista.




segunda-feira, 16 de setembro de 2013

Entrevista com o Secretário Geral do CC do PC da Grécia, Dimitris Koutsoumpas, para o jornal do PCPE sobre a situação politica na Grécia e no mundo e a luta que deve ser travada contra o oportunismo

Entrevista com o Secretário Geral do CC do KKE, Dimitris Koutsoumpas, para o jornal do PCPE

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Unidad y Lucha (jornal do PCPE – Partido Comunista dos Povos de Espanha): O 19º Congresso do KKE (Partido Comunista Grego), que o elegeu como Secretário Geral, ocorreu em abril. Quais foram as decisões fundamentais do Congresso?
Dimitris Koutsoumpas: Trata-se de um importante Congresso na história do Partido, dado que o 19º Congresso elaborou novos e atualizados Programa e Estatutos. Nestes 17 anos, a partir de 1996, quando se aprovou o anterior Programa de nosso Partido, acumulamos grande experiência das lutas e dos acontecimentos, tiramos conclusões de um profundo estudo sobre os acontecimentos relacionados com a construção e a derrota do socialismo na URSS. Trata-se de um estudo que enriqueceu a percepção do KKE sobre o socialismo. Tiramos conclusões gerais sobre questões de estratégia do KKE e do Movimento Comunista Internacional, baseados num estudo a fundo da História, de cuja discussão participou todo o Partido e a KNE (Juventude Comunista da Grécia).
Um assunto chave para um Partido Comunista é a elaboração de uma estratégia revolucionária atualizada para poder cumprir com sua missão básica que é orientar a classe trabalhadora e os setores populares pobres com competência ideológica, política e organizativa e capacidade, reunir as forças sociais para a Aliança Popular na luta que terá como objetivo e fim a conquista do poder popular, do socialismo. Os documentos do 19° Congresso respondem a esta questão crucial.
Focamos nossa atenção tanto na luta contra as consequências da crise capitalista como na luta contra a guerra imperialista e a participação, de qualquer modo, da Grécia nesta. Examinamos estes assuntos como um vínculo que pode impulsionar a organização ao reagrupamento do movimento operário em direção classista. Pretendemos construir uma Aliança Popular forte que tenha uma base social, que reúna a classe operária como vanguarda, assim como os semiproletários, camada social que vem crescendo na Grécia durante os anos da crise e que tem como renda básica o que ganha do trabalho assalariado, não da propriedade dos meios de produção, assim como os setores populares oprimidos de trabalhadores autônomos na cidade e camponeses pobres.
Consideramos que o papel dirigente do Partido, sua capacidade de se constituir na prática a vanguarda da classe trabalhadora, será obtido através da atividade do Partido com seus quadros e membros nos sindicatos, nas organizações de massas da aliança. Este papel não se dará com autoproclamação, nem com acordos políticos de cúpula. O próprio Partido o conquistará ao estar na cabeça da organização da luta, na orientação das organizações do movimento que constituirão a aliança em cada centro de trabalho, nas grandes fábricas, nos bairros operários. Ali se jogará o caminho da luta de classes e o KKE dá peso especial em sua política organizativa na construção de fortes organizações nas fábricas, na classe trabalhadora, com laços políticos com os operários, a quem não tratamos como votantes, de quem não nos aproximaremos em função do partido aos qual apoiem, mas por serem operários, trabalhadores autônomos, comerciantes, camponeses, potenciais companheiros de luta.
A grande maioria dos membros do Partido e da KNE (mais de 97%) votaram a favor das teses do Congresso, e isto mostra a determinação para superar obstáculos, atrasos, para que se cumpra o objetivo de ser um “partido que trabalha sob todas as circunstâncias”. Somos otimistas, mas com plena consciência das dificuldades.
UyL: Qual a explicação para o conceito “partido que trabalha sob todas as circunstâncias”?
DK: Significa que o Partido deve ser capaz de lutar sob quaisquer condições com a finalidade de reunir forças pela derrota revolucionária do poder burguês. Um Partido que não seja surpreendido pelos altos e baixos da luta de classes, que trabalhe diariamente para estar preparado no momento em que o curso da luta de classes coloca na agenda a questão da conquista do poder pela classe trabalhadora, em aliança com os setores populares pobres. Significa um Partido que seja capaz, combativo, que responda aos ataques do adversário, a todo tipo de mecanismo do Estado burguês. Um Partido com fortes laços com a classe operária, que faça um esforço constante na tarefa de criar fortes organizações partidárias nas grandes fábricas, nos centros de trabalho, que será a coluna vertebral de toda sua ação.
Para ser ainda mais claro, vou dar um exemplo: nos documentos do 19° Congresso opinamos que, no caso de implicação ativa mais direta numa guerra imperialista, as primeiras medidas de repressão serão tomadas contra o movimento trabalhador e popular e sua vanguarda. Em conclusão, é necessário que nosso Partido esteja em plena preparação. Além disso, qualquer que seja a forma que adote a participação da Grécia numa guerra imperialista, o KKE deve estar preparado para dirigir a organização independente da resistência trabalhadora e popular para que esta se vincule à luta pela derrota da burguesia nacional e estrangeira como invasor.
UyL: Nas últimas eleições gregas, o KKE foi criticado, não apenas na Grécia, por não participar numa coalizão com o SYRIZA. Qual é sua opinião sobre isto e o que responde aos que criticaram o KKE?
DK: Acreditamos que se pode tirar uma valiosa experiência da posição decisiva do KKE sobre este tema. Se o KKE, em junho de 2012, estivesse cooperado no governo com o SYRIZA, hoje em dia – em muito pouco tempo – teríamos decepcionado massivamente os trabalhadores, o movimento teria sofrido uma grande derrota. As grandes expectativas que, justamente, seriam fomentadas pelo povo, rapidamente seriam refutadas, dado que as chaves da economia se manteriam nas mãos dos capitalistas, dos monopólios. Por exemplo, como é possível resolver o problema do desemprego sem ter em suas mãos as fábricas, a produção industrial, etc..., para poder planificar a nível central? Como é possível desenvolver a economia sendo membro da UE, que impõe cotas, proíbe as exportações, etc?
O SYRIZA vai se transformando a um ritmo muito rápido numa socialdemocracia contemporânea. É um partido apologista da UE, da exploração capitalista em geral. Afirma que no marco do capitalismo é possível convencer os monopólios para que aceitem ir contra seus próprios interesses e redistribuir sua riqueza entre os trabalhadores. A própria experiência popular em condições de crise capitalista o desmente. A agressividade do capital, com o fim de tirar tudo dos trabalhadores, desfaz qualquer ilusão que seja fomentada pelo SYRIZA sobre supostos “capitalistas sãos que respeitarão as leis”, ou seja, que todo o arsenal antioperário já foi utilizado na Grécia nos últimos anos. O efeito do SYRIZA no seio da plutocracia grega não é casualidade. Seu “radicalismo útil”, como mencionado pelo próprio Presidente dos Industriais Gregos ao dar as boas vindas ao presidente do SYRIZA numa reunião com ele, prova que é conveniente para a burguesia na Grécia um partido que, em condições de crise, assegurará o tempo necessário de espera e um clima de consenso e de cooperação de classes, para que se aprovem outras medidas antioperárias. Por isso é infundado o “vamos todos juntos” para aliviar o povo.
Além disso, o KKE julgou negativamente tanto sua própria experiência de participação em governos burgueses no passado como a participação de outros partidos comunistas em governos burgueses, por exemplo, os Partidos Comunistas da Itália e da França nos governos de “centro-esquerda” quando a OTAN bombardeava a Iugoslávia. Também existem exemplos mais atuais, como as experiências do Chipre e do Brasil, que convencem inclusive os mais céticos de que a participação dos comunistas na gestão burguesa não pode oferecer nem sequer um alívio, porque o poder permanece nas mãos dos monopólios. Objetivamente, se dirigirá contra o povo, continuará a alternância dos governos burgueses que, no marco da economia capitalista, um é pior que o outro. O que tem que mudar é a classe no poder, não o administrador do poder dos monopólios.
UyL: Você diria que o processo de unificação do oportunismo é um fenômeno grego ou internacional?
DK: Não diria que se unifica em geral e em todos os lugares, mas se adapta às condições atuais e às necessidades da burguesia. Por exemplo, no caso do SYRIZA, a recente eliminação dos partidos integrantes e a criação de tendências num partido unificado com militantes, não como uma coalizão de partidos, como foi o SYRIZA até hoje, é uma adaptação necessária para levar a cabo de maneira mais eficaz a missão antipopular por eles assinada em nome do capital.
A crise capitalista nos recorda algumas características básicas do oportunismo. O oportunismo tem classe, raiz e base social. Nas condições de crise capitalista existe na Grécia, assim como na Espanha, uma experiência importante da pressão exercida, por exemplo, pelas forças pequeno-burguesas, pelas camadas médias que se destroem nestas conjunturas e buscam um rápido retorno a um estado anterior, às condições onde o capitalismo era capaz de fazer concessões sob a pressão exercida, em décadas anteriores, pelos países socialistas. Os chamados “movimentos dos indignados”, cujo papel revelaram tanto o KKE como o PCPE, em nossos países constituem uma expressão para distender o protesto popular, encaminhá-los por caminhos inofensivos. É possível observar experiência similar na chamada “primavera árabe”, onde o povo egípcio experimentou a alternância de diferentes administradores da burguesia, Mubarak, depois os “Irmãos Muçulmanos”, agora o exército.
Na Grécia, o KKE advertiu, a tempo, que a luta não será jogada apenas “nas ruas” sem planejamento, sem organização, sem o conteúdo correto de luta, mas nos centros de trabalho, através da organização da luta nos sindicatos, com a Aliança Popular e a participação dos próprios trabalhadores. O chamado movimento dos “indignados” “se desinflou”, porém deixou como “legado” as palavras de ordem reacionárias, geralmente contra “os partidos e os sindicatos”, que apontavam claramente contra o Partido Comunista e as forças classistas no movimento operário. Além disso, abriram caminho para o desenvolvimento de grupos e partidos nacionalistas, formações fascistas, como o Amanhecer Dourado nazista. As responsabilidades das forças oportunistas neste tema também são grandes.
Estes partidos são uma das cartas com que jogará a plutocracia para reformar o sistema político burguês. São sócios dispostos a participar de governos burgueses, que ajudarão para que o capital supere a crise capitalista da maneira menos dolorosa possível, levando o povo à quebra.
Porém, os partidos da chamada nova esquerda, que estiveram entre os primeiros que saudaram a derrocada do socialismo afirmando que isto inaugurava uma época de paz, tinham e, todavia, têm uma missão especial a que nunca renunciaram: a dissolução dos Partidos Comunistas, sua mutação, seu esfumaçamento em formações oportunistas como o SYRIZA ou “Esquerda Unida” na Espanha. Em termos de Europa, para alcançar estes objetivos, têm como ferramenta o chamado Partido da Esquerda Europeia, com a finalidade de manipular os Partidos Comunistas para que aceitem a eternidade do capitalismo e da UE como uma inevitabilidade.
Um ensinamento atual de Lenin é que a luta contra o imperialismo sem a luta incessante contra o oportunismo não tem sentido. Hoje em dia, destaca-se ainda mais a necessidade de um conflito tanto com a união interestatal imperialista na Europa, a UE, como com os partidos políticos que possuem esta mesma forma, como é o Partido da Esquerda Europeia, e, claro, destaca-se em geral a necessidade de um polo comunista a nível mundial.
UyL: Qual é sua análise da situação no Movimento Comunista Internacional?
DK: Desafortunadamente, a situação no Movimento Comunista Internacional permanece sendo ruim. Encontra-se numa profunda crise ideológica, política e organizativa que se manifesta nas posições dos Partidos Comunistas que abandonam o marxismo-leninismo, que se colocam na “cola” da socialdemocracia e, inclusive, abandonaram seus símbolos históricos, ou nas posições de outros partidos que se baseiam em elaborações antiquadas do Movimento Comunista Internacional, adotando uma etapa entre o capitalismo e o socialismo, que objetivamente conduz à participação em governos de gestão burguesa. Também conduz à aliança com forças burguesas e a confusões sobre o papel dos setores da burguesia e à incorreta distinção entre a burguesia “nacionalmente orientada” e a chamada “servil aos estrangeiros-compradores”. Vários Partidos Comunistas expressam posições similares sobre países tidos como dependentes, que são acompanhadas de declarações de “frentes pela libertação nacional”. Estas considerações interpretam erroneamente tanto o imperialismo (não como fase de desenvolvimento do capitalismo, mas apenas como “política de agressão”), como as relações desiguais entre os Estados capitalistas devido às diferenças que existem no ponto de partida histórico, no potencial de crescimento, na força econômica, política e militar de cada Estado.
Outros Partidos Comunistas invocam as particularidades nacionais para justificar sua renúncia às leis da revolução socialista, aos princípios da construção socialista em nome dos chamados “modelos nacionais” que, em essência, negam estas leis.
Um elemento e sinal da crise do Movimento Comunista Internacional é também a dificuldade de muitos Partidos Comunistas em superar ilusões sobre o chamado “mundo multipolar”, que reflete as agudas contradições e antagonismos interimperialistas, assim como o papel de organismos interestatais capitalistas como é a UE, BRICS, CELAC, ALBA, inclusive para reconhecer o elemento chave que determina a análise sobre a China, ou seja, que lá têm prevalecido as relações capitalistas de produção.
Particularmente na UE, a luta deve fortalecer-se. É preciso revelar seu caráter de organismo interestatal do capital, dar-se conta de que a política antipopular não se deve ao “neoliberalismo”, ao “capitalismo selvagem”, ao “capitalismo cassino”, mas ao próprio sistema de exploração. É preciso incriminar a estratégia do capital que busca reduzir o preço da força de trabalho e aumentar a rentabilidade dos monopólios.
O KKE trata com responsabilidade a necessidade de tomar iniciativas concretas no Movimento Comunista Internacional para abordar esta situação, para fortalecer as ferramentas e os recursos que têm a sua disposição os Partidos Comunistas que levam a cabo uma luta ideológica e política contra a ideologia burguesa e o oportunismo. A criação da Revista Comunista Internacional, com a contribuição essencial do PCPE, é um passo nesta direção.
UyL: As contradições interimperialistas estão se aprofundando. Você acredita que exista a possibilidade de uma nova guerra imperialista em curto prazo?
DK: Os acontecimentos avançam e neste momento está se preparando um novo ataque militar imperialista contra a Síria. Seus falsos pretextos já foram vistos em várias ocasiões, como no ocorrido no Iraque, Iugoslávia, Afeganistão e, mais recentemente, na Líbia. A provocação que montaram não só não é convincente, mas que supõe um grande desafio. Hoje em dia é importante que nós comunistas desempenhemos um papel principal na organização da luta para condenar a guerra imperialista, para impedir a participação do governo de cada país, para fortalecer a luta para que se fechem as bases e todo tipo de infraestrutura que são ponto de partida para os ataques militares dos EUA, da UE e da OTAN.
O papel dos governos de Obama e Hollande é particularmente instrutivo para os que se enganaram pelas ilusões semeadas pelas forças oportunistas na Grécia. Rapidamente demonstrou-se que “a pomba da paz”, como o SYRIZA chamava o prêmio Nobel, Obama, e o “vento da mudança” de Hollande eram falcões que, para servir de qualquer maneira aos benefícios dos monopólios, massacram os povos. Faz-se mais que evidente a relação capitalismo-crise-guerra.
Também destaca a necessidade de superar as lógicas pacifistas que estão contra a guerra em geral, não especificamente contras as guerras imperialistas. Por exemplo, hoje em dia uma oposição geral às guerras sem que se relacione às causas que as engendram conduz a uma armadilha para a classe operária e os setores populares pobres na gestão da exploração, a fomentar ilusões. Porém, já temos experiência sobre a paz imperialista com pistola na cabeça como sobre a guerra imperialista. Trata-se de duas faces da mesma moeda. Nós comunistas defendemos a guerra justa da classe trabalhadora para libertar-se das cadeias das relações capitalistas de produção.
No 19° Congresso discutimos muito sobre a possibilidade de uma guerra imperialista, uma possível participação de nosso país nesta e as tarefas dos comunistas. Um assunto principal é como se garantirá a luta ideológica, política e organizativa independente da classe trabalhadora que não se alinhará atrás de uma ou outra potência imperialista, atrás de um ou outro setor da burguesia em cada país.
Tradução: Partido Comunista Brasileiro (PCB)

sábado, 14 de setembro de 2013

Parte 4-Não é uma relíquia marxista ,mas um guia para a acção"

Há política e política

«Muito frequentemente, a luta económica dos operários (…) está ligada (embora não inseparavelmente) à política burguesa», assinala Lénine. Mas o reconhecimento da «luta política que surge espontaneamente do próprio movimento operário (ou, com mais exactidão: os anseios e reivindicações políticas dos operários)», não significa que haja uma elaboração independente de uma
política socialista específica, que «corresponda aos objectivos gerais do socialismo e às actuais condições». Este «instinto», isto é, o inconsciente (o espontâneo), não leva o proletariado a elaborar tal política mas sim a agarrar-se aos «primeiros meios que se encontra ao seu alcance» os quais na sociedade moderna serão sempre meios de luta trade-unionistas, e a ideologia «que se encontra ao seu
alcance» é a ideologia burguesa (trade-unionista).

«Do facto de os interesses económicos desempenharem um papel decisivo não se segue de maneira alguma que a luta económica (= sindical) tenha uma importância primordial, porque os interesses mais essenciais, “decisivos”, das classes só podem ser satisfeitos, em geral, por transformações políticas radicais; em particular, o interesse económico fundamental do proletariado só pode ser satisfeito por meio de uma revolução política que substitua a ditadura burguesa pela ditadura do proletariado.»

A incompreensão disto fez com que «em vez de se exortar a marchar para a frente, a consolidar a organização revolucionária e a alargar a actividade política, incitou-se a voltar para trás, para a luta exclusivamente trade-unionista».

Para Lénine isto significa «suprimir por completo a consciência pela espontaneidade», o que reflecte um conhecimento fragmentário do marxismo, a sua deformação e banalização. A consciência dos revolucionários foi suprimida por ideólogos que interpretaram o marxismo no espírito da espontaneidade, por aqueles operários que se deixaram arrastar pelo argumento de que o aumento de
um copeque por rublo está mais próximo e é mais valioso do que todo o socialismo  e toda a política; de que apresentando reivindicações podem melhorar a sua situação, sabendo que o fazem, não para vagas gerações futuras, mas para eles próprios e para os seus próprios filhos. Lénine assinala a este propósito que «frases deste género foram sempre a arma preferida dos burgueses da Europa Ocidental», que dizem aos operários que «a luta exclusivamente sindical é uma luta para eles próprios e para os seus filhos, e não para vagas gerações futuras com um vago socialismo futuro». A concepção trade-unionista da política manifesta-se na limitação da luta àquela que pode «prometer certos resultados tangíveis» e na rejeição da luta que «não promete absolutamente nenhum resultado tangível».

Como afirma Lénine, a isto deve-se responder assim: também nós, comunistas, como todos os burgueses da Europa Ocidental, queremos integrar os operários na política, só que não apenas na política trade-unionista, mas precisamente na política socialista. «A política trade-unionista é precisamente a política burguesa da classe operária».

A propósito disto é interessante o pensamento de Lénine de que a supressão da consciência pela espontaneidade pode produzir-se de duas maneiras: ou de modo espontâneo ou em resultado de uma luta aberta entre duas concepções diametralmente opostas e da vitória de uma sobre a outra. De tudo isto impõe-se a conclusão de que no nosso movimento comunista pós-soviético também se assiste à
supressão da consciência pela espontaneidade, e neste caso de modo inconsciente e espontâneo. Como se a estreiteza das concepções teóricas do antigo PCUS de Khruchov-Bréjnev, a pequenez das tarefas políticas e organizativas, a burocratização e a perda do carácter revolucionário do partido tivessem por inércia transitado para o nosso tempo. Os partidos que tomaram o lugar do PCUS não conseguiram desenvolver-se e amadurecer. No período pós-soviético assistimos, não à constituição e desenvolvimento de partidos de novo tipo, mas ao restabelecimento de organizações segundo o modelo do período soviético, do qual transitaram estas ou aquelas formas de trabalho. Até o conceito de «consciência» (leia-se «hábito») lhes chegou já pronto, tal como as normas estatutárias, que não
foram questionadas nem ajustadas. O que quer dizer que, na realidade, estas organizações surgiram espontaneamente. No entanto, são poucos os que se apercebem de que está em curso a supressão da consciência pela espontaneidade, e que a atitude negligente em relação à teoria conduz à inconsciência no nosso movimento.

Não foi por acaso que Lénine considerou que todas as divergências entre socialistas conscientes e admiradores da espontaneidade têm um interesse geral. O ponto central destas divergências é a questão da luta política. A polémica proporciona-nos exemplos de concepções erróneas sobre esta questão. 

Obviamente que os admiradores da espontaneidade não negam em absoluto a política. Simplesmente desviam-se constantemente da concepção socialista para a concepção trade-unionista da política, rebaixando a primeira ao nível da segunda. É também este o sentido das teses de alguns líderes da actualidade, os quais,evidentemente, não negam a política revolucionária, simplesmente consideram que não é oportuna, elegendo como mais adequada aos tempos que correm a política do gradualismo e da denúncia do regime antipopular.

A fim de evitar interpretações erradas, Lénine fez questão de notar que os marxistas entendem por luta económica a «luta económica prática», que Engels chamou «resistência aos capitalistas» e que, nas condições de legalidade, foi designada como luta profissional, sindical ou trade-unionista. O despertar da consciência de classe e o início da luta sindical constituiu o ponto de partida para a difusão do socialismo. No entanto, estes embriões de organizações revolucionárias só podem dar origem e fazer parte constituinte da acção revolucionária se forem correctamente utilizados. Dominados pela espontaneidade apenas conduzem à luta «exclusivamente sindical» e a um movimento operário não revolucionário.

Cabe assinalar que a crítica de Lénine não significa que se deve ignorar os objectivos trade-unionistas, pelo contrário, deve-se garantir o seu cumprimento consequente.

«A luta económica é a luta colectiva dos operários contra os patrões para conseguirem obter condições vantajosas de venda da força de trabalho, para melhorarem as suas condições de trabalho e de vida.» Esta luta é, necessariamente, uma luta profissional, porque as condições de trabalho são
extremamente variadas nas diferentes profissões, e, portanto, a luta pela sua melhoria deve forçosamente ser travada por sindicatos e associações sindicais. Os sindicatos operários procuraram sempre concretizar as suas reivindicações salariais e de melhoria das condições de trabalho por intermédio de «medidas legislativas e administrativas».

Mas isto nada mais contém do que a luta por reformas económicas e sociais. E aqueles que se intitulam comunistas não podem limitar-se a isto. Aquele que é de facto comunista «subordina, como parte de um todo, a luta pelas reformas à luta pela liberdade e o socialismo».

Os comunistas têm o dever de dirigir a «luta da classe operária não só para obter condições vantajosas de venda da força de trabalho, mas para que seja destruído o regime social que obriga os não possuidores a venderem-se aos ricos».

Um comunista concebe «a classe operária não só na sua relação com um dado grupo de patrões, mas nas suas relação com todas as classes da sociedade contemporânea, com o Estado como força política organizada.» Assim, os comunistas não podem «circunscrever-se à luta económica», mas devem
«empreender activamente o trabalho de educação política da classe operária, de desenvolvimento da sua consciência política.»

Mas a educação política não se pode limitar à propaganda da ideia de que a classe operária é hostil à sociedade burguesa, não basta explicar a opressão política de que são objecto os operários, tal como não bastava explicar-lhes o antagonismo entre os seus interesses e os dos patrões. «É necessário fazer agitação a propósito de cada manifestação concreta desta opressão» [política], tal como se faz a propósito das manifestações de opressão económica, orientando-a para as diferentes classes da sociedade que são vítimas dela, uma vez que a opressão se manifesta nos mais diferentes aspectos da vida e actividade humana. 

quinta-feira, 5 de setembro de 2013

Parte 3-Não é uma relíquia marxista ,mas um guia para a acção" : Sobre a consciência do movimento revolucionário do proletariado.

Sobre a consciência do movimento revolucionário do proletariado.

Atrás referimos que a consciência socialista é para Lénine a única base que pode garantir a vitória do comunismo. Foi em torno desta questão (a relação entre a consciência e a espontaneidade) que Lénine identificou a essência das divergências entre os ideólogos da época da «crise do marxismo», reflectida no livro Que Fazer?.

No entendimento de Lénine, a social-democracia [assim se chamava na altura o socialismo revolucionário (N. Ed.)] é a junção do movimento operário com o socialismo. Aos ideólogos da classe operária cumpre contribuir para o desenvolvimento da consciência de classe do proletariado, da sua organização e coesão para a luta política contra o regime capitalista. Mas Lénine exige que a questão da consciência esteja presente tanto no trabalho teórico como no político e organizativo, considerando que a fraqueza do movimento operário reside precisamente na insuficiente consciência e iniciativa dos dirigentes revolucionários.

Por isso, na sua opinião, a análise destas divergências é de um enorme interesse geral e merecedora de atenção, uma vez que a tarefa dos comunistas não é sobreporem-se mas sim elevar o movimento operário ao nível do seu programa.

Hoje, como há 100 anos, nem todos os comunistas compreendem a afirmação de Lénine de que os operários não tinham nem podiam ter consciência socialista.

Vemos de novo comunistas, de que Marx falou, que apenas vêem miséria na miséria, não descortinando o seu aspecto destruidor, revolucionário, que derrubará a velha sociedade. Afirmam que não existem «manifestações» do movimento operário. Esta expressão corrente, assinala Lénine, decorre antes de mais de uma compreensão imprópria e indecorosamente estreita da teoria de Marx. 

Em resposta a tais conjecturas, salienta que só um conhecimento superficial pode levar a pensar que Marx agiu perante um proletariado preparado. «O programa comunista de Marx foi por ele elaborado antes de 1848 (…) O movimento operário social-democrata, que mostrou a todos de forma evidente o
papel revolucionário e unificador do capitalismo, começou duas décadas mais tarde, quando a doutrina científica do socialismo tomou a sua forma definitiva, quando a grande indústria se difundiu mais amplamente e surgiram numerosos divulgadores, enérgicos e talentosos, desta doutrina nos meios operários.

 Fazendo uma interpretação falsa dos factos históricos e esquecendo o enorme trabalho investido pelos socialistas para infundir consciência e organização ao movimento operário, os nossos filósofos, além disso, atribuem a Marx as concepções fatalistas mais absurdas. Como se, na sua opinião, a organização e a socialização dos operários ocorressem por si próprias e, consequentemente, alegam, se ao vermos
o capitalismo não vemos o movimento operário então isso é porque o capitalismo não cumpre a sua missão e não porque nós trabalhamos ainda de forma insuficiente na organização e propaganda entre os operários».Pior ainda é quando, a partir desta objecção sobre a falta de movimento operário, começam a sonhar com a «pacificação da luta económica secular das classes antagónicas».

Em vez de cairmos no «manilovismo», escreve Lénine, é preciso compreender que se deve procurar dar à luta organização e consciência e que para isso é preciso empenharmo-nos na militância comunista. Para que «a acção progressiva do capitalismo» se revele, é preciso que os comunistas se lancem energicamente ao trabalho pela sua causa: elaborar uma interpretação detalhada da nossa história e da realidade actual, identificando no concreto todas as formas de luta de classe e exploração; divulgar esta teoria junto dos operários, ajudá-los a assimilá-la, e conceber as formas de organização mais apropriadas às condições actuais para difundir o comunismo e unir os operários numa força política.

Como Lénine sublinha, a consciência da oposição irreconciliável entre os interesses dos operários e todo o actual regime político e social, ou seja, a consciência socialista, não surge do antagonismo espontâneo entre operários e patrões, esta só pode ser introduzida de fora. «A classe operária, exclusivamente com as suas próprias forças, só é capaz de desenvolver uma consciência trade -unionista, quer dizer, a convicção de que é necessário agrupar-se em sindicatos, lutar contra os patrões, exigir do governo estas ou aquelas leis necessárias aos operários, etc. Por seu lado, a doutrina do socialismo nasceu de teorias filosóficas, históricas elaboradas por representantes instruídos das classes possidentes, por intelectuais.»

Deste modo, a doutrina teórica do socialismo científico contemporâneo surge de modo completamente independente do crescimento espontâneo do movimento operário, surge como resultado do desenvolvimento do pensamento da intelligentsia socialista revolucionária. Concordando com K. Kautski, Lénine demonstra que se trata de um profundo erro imaginar que o movimento operário, por si próprio, é capaz de elaborar uma ideologia independente. É completamente erróneo imaginar que a consciência socialista constitui um resultado directo da luta de classes do proletariado. Como doutrina é evidente que o socialismo tem as suas raízes nas relações económicas actuais tal como a luta de classe do proletariado.

«Mas o socialismo e a luta de classes surgem um ao lado do outro e não derivam um do outro; surgem de premissas diferentes. A consciência socialista moderna não pode surgir senão na base de profundos conhecimentos científicos»A presença de revolucionários, ideólogos e dirigentes suficientemente
preparados e armados com a teoria socialista é uma condição necessária para assegurar o carácter socialista do movimento operário, uma vez que é necessário desenvolver a consciência política da classe operária até ao nível da consciência política socialista. A tese de que «a consciência socialista é algo introduzido de fora na luta de classe do proletariado e não algo que surgiu espontaneamente no
seu seio» comporta um série de importantes conclusões:

1. Aos ideólogos do movimento operário exige-se consciência. A insuficiente consciência e iniciativa dos dirigentes revolucionários, a sua impreparação para levarem a cabo as tarefas gigantescas de direcção ideológica e de concentração dos operários numa força política são vistas como uma manifestação de fraqueza do movimento operário. A este propósito sublinha a recomendação de Engels: «Em particular, os dirigentes deverão instruir-se cada vez mais em todas as questões teóricas, libertar-se cada vez mais da influência da fraseologia tradicional, própria da antiga concepção do mundo, e ter sempre presente que o socialismo, desde que se tornou uma ciência, exige ser tratado como uma ciência, isto é, ser estudado. A consciência assim alcançada e cada vez mais lúcida deve
ser difundida entre as massas operárias com grande zelo e deve consolidar-se cada vez mais fortemente a organização do partido e a dos sindicatos».

2. É a unidade ideológica que determina a unidade organizativa e prática do partido, o que transmite consciência e unidade à luta revolucionária do proletariado. Está relacionada com isto a tese da necessidade de junção da teoria marxista com o movimento operário, sem a qual o movimento não se torna independente e revolucionário, mas permanece subordinado à burguesia quer em termos
ideológicos quer em termos práticos. Ao mesmo tempo, também a teoria, mesmo a mais revolucionária, corre o risco de não passar de boas intenções se não se efectuar a sua junção com as forças revolucionárias reais.

No entanto, em certas circunstâncias, a junção do movimento operário com o socialismo não ocorre, permanecendo como objectivo. Foi o caso do grupo «Emancipação do Trabalho», que, como assinalou Lénine, apenas no plano teórico fundou a social-democracia e deu o primeiro passo ao encontro do movimento operário. A fundação no plano teórico significa que alcançou a unidade ideológica marxista, o que preparou as bases para a unidade prática e organizativa do movimento do proletariado na Rússia.

A principal tarefa teórica do marxismo é destruir a mentira dos ideólogos burgueses sobre a realidade, independentemente das suas boas intenções ou boa consciência. «O primeiro dever daqueles que querem procurar “os caminhos paraa felicidade da humanidade” é não se enganarem a eles próprios, é terem a coragem de reconhecer abertamente aquilo que existe. E quando os ideólogos dos trabalhadores compreenderem isto e o sentirem, então reconhecerão que os “ideais” devem consistir em (…) formular as tarefas e objectivos desta “dura luta das classes sociais”, que é travada ante os nossos olhos na nossa sociedade capitalista; que o êxito se mede (…) não pela elaboração de conselhos à “sociedade” e ao “Estado”, mas pelo grau de difusão destes ideais numa determinada classe da sociedade; que o ideal mais elevado não vale um tostão furado enquanto não souberdes fundi-lo solidamente com os interesses daqueles que tomam parte na luta económica». Conferir um carácter ideológico à luta em curso – eis a base sob a qual Lénine considera necessário construir o programa. «O marxismo encontra os seus critérios de avaliação na formulação e na explicação
teórica da luta que se trava ante os nossos olhos das classes sociais e dos interesses económicos».

Deste modo, as questões da teoria não são de modo nenhum bagatelas, nem são inócuos os erros teóricos. Por trás dos raciocínios teóricos estão interesses, e a teoria é a representação dos diferentes interesses das diferentes forças sociais. A diferença de concepções sobre uma mesma realidade conduz na prática, como resultado, a diferentes sistemas de acção. A diferença num aspecto teórico, por exemplo, uma concepção diferente sobre o domínio do capital, arrasta consigo uma
diferença prática. É precisamente da concepção da realidade que decorre directamente o programa de acção, e do grau de objectividade desta concepção depende o programa em concreto que dela decorre, depende no fim de contas o êxito do seu cumprimento.

Se o ideólogo está em condições de compreender que o capitalismo não é uma casualidade, mas um produto directo do actual sistema económico (social, político e jurídico), que se formou na luta entre forças sociais opostas, então encontrará a saída no desenvolvimento das contradições de classe desse regime económico; verá que não há saída da sociedade burguesa fora da luta de classe do proletariado
contra a burguesia. A luta contra uma classe só pode ser travada por outra classe – eis a saída. Neste caso, a tarefa do ideólogo será servir única e exclusivamente essa classe, o seu desenvolvimento autónomo e pensamento independente, o que não só diminuirá o tempo de existência da sociedade burguesa, acelerando o seu declínio, como lhe porá fim, dando mais força e capacidade combativa à classe operária. Lá onde o capital domina tudo, lá onde é travada uma luta surda de interesses é preciso «não encobri-la, mas expô-la; não sonhar: “melhor seria que fosse sem luta”, mas desenvolvê-la para a tornar mais vigorosa, contínua, consequente e, sobretudo, mais ideológica».

Assim, Lénine insiste na unidade dos aspectos teóricos e práticos do socialismo revolucionário. A desconformidade e descoordenação entre estes dois aspectos levam a dissensões e vacilações, ao divórcio entre as palavras e os actos. Em particular, o fenómeno do culto da espontaneidade, da diminuição do papel dos socialistas conscientes no movimento revolucionário do proletariado, bem como a consolidação teórica deste servilismo, foi considerado por Lénine como reaccionário, exigindo por isso uma luta implacável contra a espontaneidade na luta de classe do proletariado.

Quando as concepções teóricas estão suficientemente esclarecidas nos seus principais traços essenciais, torna-se possível eliminar mal-entendidos e incompreensões no aspecto prático do socialismo, colocá-lo no terreno da luta de classes, ajustar o programa político, os modos de actuação, a táctica. Na acção prática, a corrente socialista revolucionária «como é sabido, assume a tarefa de
dirigir a luta de classe do proletariado e de organizar esta luta».

Tudo o que seja diminuir o papel dos socialistas conscientes, dirigentes e ideólogos, e qualquer impreparação e inépcia da sua parte constituem concessões à espontaneidade e significam «– independentemente da vontade de quem o faz – o reforço da influência da ideologia burguesa sobre os operários.» Com efeito, se está excluída qualquer possibilidade de uma ideologia autónoma elaborada pelas próprias massas operárias no decurso da própria luta, nesse caso a questão só pode colocar-se do seguinte modo: ou ideologia burguesa ou ideologia socialista. Como sublinha Lénine: «Não há meio-termo (porque a humanidade não elaborou nenhuma outra “terceira” ideologia; além disso, em geral, na sociedade dilacerada por contradições de classe, não pode nunca existir uma ideologia à
margem das classes ou acima das classes). Por isso, tudo o que seja rebaixar a ideologia socialista, tudo o que seja afastar-se dela significa fortalecer a ideologia burguesa».

O desenvolvimento espontâneo do movimento operário marcha precisamente para a sua subordinação à ideologia burguesa, porque o movimento operário espontâneo é o trade-unionismo, é uma luta «exclusivamente profissional», uma luta estritamente económica, e isto significa precisamente «a escravização ideológica dos operários pela burguesia». Por isso, explica Lénine, os admiradores da espontaneidade insinuam-se junto dos operários menos desenvolvidos. Dizem que os operários apenas estão interessados em lutar por reivindicações que proporcionem resultados palpáveis. A tarefa dos ideólogos socialistas, dos revolucionários comunistas, «consiste em combater a espontaneidade, em fazer com que o movimento operário se desvie desta tendência espontânea do trade-unionismo de se acolher debaixo da asa da burguesia e em atraí-lo para debaixo da asa do movimento revolucionário.» Não atrair os operários para o socialismo equivale «a ceder o campo de actividade» aos ideólogos que «arrastam o movimento operário “pela linha da menor resistência”, isto é, pela linha do trade- unionismo burguês ou (…) que o arrastam pela linha da “ideologia” cleropolicial».

 Reduzir a luta económica ao trade-unionismo, à política trade-unionista, é amarrar os operários à ideologia burguesa através da luta espontânea, desprovida de consciência e de ideologia de classe.
 É preciso uma luta árdua contra a espontaneidade – insiste Lénine.

A escravização ideológica dos operários pela burguesia realiza-se através da fragmentação da classe operária por várias ideologias: uma parte concentra-se nos sindicatos, outra nos partidos sociais-democratas, uma terceira sente-se protegida por polícias de sotaina, uma quarta está fascinada com as sociedades por acções, etc., etc. Conseguir a supremacia dos operários e a sua solidariedade em torno da bandeira da ideologia socialista só é possível por via de uma luta incessante contra todas as outras ideologias. E este trabalho revolucionário exige uma intervenção de grande amplitude na propaganda e agitação política e na organização. A tarefa dos socialistas conscientes consiste em transformar a política trade-unionista na luta política socialista, elevar os operários até ao grau de consciência política socialista. 

domingo, 1 de setembro de 2013

Declaração do Tribunal Iraque sobre a intervenção militar imperialista contra a Síria.


EUA, França e Reino Unido preparam ataque à Síria

Mais um crime à sombra das “armas de destruição massiva”

Declaração do Tribunal-Iraque

As ameaças proferidas nos últimos dias pelos dirigentes norte-americanos, britânicos franceses não deixam dúvidas de que está em marcha um ataque militar à Síria por parte
destas potências.

De novo se invoca a vontade da “comunidade internacional”, ou seja, a cobertura legal da ONU para levar a cabo o crime. Mas ao mesmo tempo vão-se ouvindo vozes de que a intervenção tem de ir por diante, com ou sem apoio das Nações Unidas.

Antes mesmo de os inspectores da ONU chegarem a qualquer conclusão acerca das acusações sobre o uso de armas químicas, os EUA, seguidos pelos seus cães de fila em França e no Reino Unido, dão como culpado o regime de Damasco. Ou seja, a decisão está tomada, haja ou não provas. Lembram-se do Iraque?

Estes recentes desenvolvimentos são fáceis de perceber à luz do que foi a história dos últimos dois anos de guerra civil na Síria.

A contra-revolução

Na primavera de 2011, como no resto do mundo árabe, protestos populares surgiram na Síria contra o regime de Assad. Mas rapidamente as manifestações — reprimidas à bruta pelo poder — foram transformadas numa rebelião financiada e armada por uma vasta  coligação de interesses que reuniu as monarquias reaccionárias do Médio Oriente, a França, o Reino Unido, os EUA e Israel, e a que se associou a Turquia.

Tal como na Líbia, tratou-se de um contra-ataque das forças imperialistas e dos seus fieis aliados na região para estancar e reverter a onda popular que queria expulsar os ditadores e exigia democracia e condições de vida dignas. A partir daí, a luta deixou de ser um levantamento popular pela democratização do país, e passou a ser uma guerra pelo domínio da Síria conduzida pelas potências europeias e norte-americana.

Todavia, os conflitos de interesses e a diversidade de obediências dos rebeldes que combatem na Síria (na verdade, bandos de mercenários de todas as proveniências) torna os incapazes de propor um programa político digno de crédito, de conquistar o apoio das massas populares e mesmo de bater no plano militar o regime de Assad. Nos últimos meses, de facto, as tropas de Damasco retomaram o controlo de zonas estratégicas eviraram o curso da guerra.

Tal como na Líbia, uma vez mais, tornou-se evidente que uma vitória militar dos rebeldes só poderia dar-se com a intervenção directa das potências que fomentam a rebelião. Mas para isso era preciso encontrar um pretexto adequado. E é esse o ponto em que estamos agora.

A provocação

A oposição da Rússia e da China nas Nações Unidas travou, até agora, a intervenção militar das forças imperialistas. Para tornear este obstáculo, franceses, britânicos e israelitas trabalharam incansavelmente para arranjar uma provocação à medida que permitissechocar convenientemente a opinião pública. 

Há meses atrás, Barack Obama estabeleceu a “linha vermelha”: o uso de armas químicas não seria tolerado. Estava assim encontrado o tema; a partir daí era uma questão de preparar as coisas no terreno.

A primeira tentativa, em Maio passado, de acusar Assad de usar armas químicas “contra a população civil”, saiu furada porque os investigadores da ONU chamados ao terreno descobriram não apenas que as tropas de Assad não tinham usado armas químicas, mas que, pelo contrário, tinham sido os rebeldes a fazê-lo. Mais: um grupo de rebeldes foi nessa mesma altura detido pelas autoridades turcas na posse de uns quantos quilos de gás sarin.

Mas isto, é claro, não conta para a história que as potências agressoras fazem do conflito. Se assim fosse, metade do zelo com que os dirigentes norte-americanos, britânicos e franceses agora acusam Assad de crimes contra a humanidade teria bastado para acabar com a aventura militar dos rebeldes.

Nas notícias recentes sobre o uso de armas químicas, poucas provas há de que elas tenham sido usadas e, menos ainda, que tenha sido o regime sírio a fazê-lo. Apesar de a investigação dos inspectores da ONU, que está em curso, não ter concluído nada, tanto o presidente francês Hollande, como o vice-presidente norte-americano Biden, como o ministro britânico dos Estrangeiros Hague decretaram já que está “provado” o uso de gás sarin bem como a “culpa” do regime de Damasco. Tal como há 10 anos George Bush “provou” que o Iraque tinha armas de destruição massiva, quando os inspectores da ONU as procuravam por todo o lado e não as encontravam...

Os “Factos sobre a Síria” abaixo registados mostram bem como está em curso uma montagem para neutralizar a opinião pública diante da barbaridade que se prepara.

Os serviçais de sempre

A unanimidade que a comunicação social adopta, sem quaisquer provas, na acusação do regime sírio; a veemência com que um responsável do PS português apelou à intervenção militar; a colaboração canina do governo e das autoridades portuguesas com as potências europeias e os EUA — estão a levar de novo o país a tornar-se cúmplice de mais um crime de guerra e de uma violação flagrante do direito internacional.

Dez anos depois da miserável colaboração na invasão do Iraque e dois anos depois do servil apoio no ataque à Líbia, as autoridades portuguesas e os partidos do “arco do poder” mostram que, contra o que apregoam, não respeitam nem estão dispostos a bater-se seja pelos direitos humanos, seja pela Carta das Nações Unidas, seja pela democratização da Síria. Apenas as move o propósito de dizer que sim à linha ditada pelas forças imperialistas.

Este historial mostra ao povo português o papel criminoso de todos os que falam em seu nome sem mandato — do “seu” Estado, do “seu” governo, das “suas” autoridades. E exige, portanto, plena solidariedade com o povo sírio e uma clara condenação da agressão em marcha. Factos sobre a Síria (*)
Não há absolutamente nenhuma prova ou confirmação de que o governo de Assad tenha efectuado o suposto ataque químico.

Os inspectores de armas das Nações Unidas estão na Síria, a pedido directo do governo sírio, para provar que não foi o regime de Assad que usou armas químicas.

O governo de Assad tem cooperado plenamente com as equipas de inspecção de armas.

Carla Del Ponte, uma investigadora de Direitos Humanos das Nações Unidas, afirmou em Maio que o governo sírio (acusado já então) não usou armas químicas, mas que os rebeldes o tinham feito.

Também em Maio, 12 membros das forças rebeldes sírias foram presos na Turquia na posse de perto de 3 quilos de sarin, o gás que, alegadamente, teria sido utilizado no recente ataque.

Em Janeiro, o Daily Mail, um destacado jornal britânico, informou que os rebeldes estavam a planear um ataque químico para culpar o governo sírio, a fim de justificar a intervenção dos EUA. O relatório foi baseado em fugas de informações provindas de empresas militares privadas.

Apesar de seu historial de atrocidades, incluindo estupro, assassinato e tortura, os rebeldes recebem armas e financiamento directamente dos EUA e dos seus aliados. A ONU informou mesmo que recrutam crianças, além de cometerem outras violações do direito internacional.

Os membros da equipa de inspecção das Nações Unidas manifestaram abertamente as suas dúvidas sobre o ataque químico. O dr. Ake Sellstrom, o chefe da equipa, declarou “suspeitos” os relatórios do suposto ataque.

Os relatos sobre o ataque são extremamente inconsistentes. Alguns apontam mais de 1.300 mortos, outros falam em menos de 200, outros ainda em mais de 350. Os números são contraditórios e totalmente sem fundamentação.

O relatório divulgado pelos Médicos Sem Fronteiras, que o governo norte-americano tem usado para culpar Assad, não é baseado em informações próprias, mas em relatos recebidos de um grupo rebelde sírio. De resto, os MSF demarcaram-se do aproveitamento feito pelos EUA e exigiram que a inspecção da ONU seja levada a cabo.


Vídeos do suposto ataque foram divulgados na internet por aliados dos rebeldes sírios antes de o ataque ter ocorrido. A credibilidade desses vídeos está ser amplamente questionada por especialistas em armas químicas. As vítimas não apresentam os sintomas próprios de quem é atingido pelo gás de nervos sarin e as pessoas que tratam dos feridos não usam equipamento adequado.

Os EUA estão neste momento a pressionar a equipa de inspecção de armas da ONU para terminar o seu trabalho. Mas os inspectores insistem que devem ser autorizados a continuar as investigações e a determinar os factos reais.

Apesar de toda a confusão e inconsistência que rodeiam as acusações sobre este suposto ataque, o governo dos EUA, juntamente com seus aliados na Grã-Bretanha e França estão abertamente a criar as condições para um ataque à Síria.

30 de Agosto de 2013
Tribunal-Iraque (Audiência Portuguesa do Tribunal Mundial sobre o Iraque)
(*) Fontes: International Action Center, Nova Iorque (iacenter.org), comunicação social e internet.

terça-feira, 27 de agosto de 2013

Coligação imperialista prepara-se para nova vaga de destruição e morte!

Sem qualquer prova que o regime Sírio tenha utilizado "armas químicas" o poder imperialista americano e seus tradicionais aliados, a Inglaterra, França, Turquia e Israel, agora com o "democrata" Obama à cabeça, utilizam os mesmos argumentos e expedientes que Bush utilizou para justificar a sua assassina intervenção militar no Iraque, onde  se provou não haver "armas de destruição maciça".

A agressão militar em preparação contra a Síria, como antes no Kosovo contra a Sérvia, num total desrespeito pela soberania e vontade de que sejam os povos a decidir os seus próprios destinos, revelam que os seus propósitos neste tempo de crise geral porque passa o sistema económico capitalista, pode ir para muito mais além do que atacar a Síria e outros países na região do Médio Oriente e Norte de África, como por exemplo saber até que ponto as outras potências suas concorrentes, a China e a Rússia tomarão partido, ou seja, ao mesmo tempo que agridem a Síria tratam de saber e de medir  forças para uma possível intervenção no Irão, o que pode abrir a porta e desembocar numa nova guerra mundial.

Por outro demonstra a todos os que se indignam e opõem a tais agressões e banditismo, ao desrespeito pelo que se designa de direito internacional, que tal direito no mundo capitalista não passa de uma farsa para enganar os povos e ao mesmo tempo para justificar as guerras de agressão sempre que os interesses da burguesia imperialista sejam colocados em causa, como aconteceu na Sérvia, no Iraque, no Afeganistão, na Líbia e agora na Síria.

Enquanto o capitalismo/imperialismo dominar o mundo e não for varrido da face da Terra, o direito internacional será sempre o direito de quem é mais forte e domina, a prova disto mesmo está na falta de qualquer consequência sobre os crimes bárbaros que têm cometido por qualquer Tribunal de Direito Internacional. Daí a necessidade da nossa solidariedade com o povo sírio e de todos os outros na região, que a nossa oposição à guerra imperialista se  transforme numa luta mais geral  e em guerra aberta contra o próprio capitalismo.