segunda-feira, 2 de março de 2015

Sobre as “lentes deformantes” na análise das relações internacionais

 Por ocasião dos últimos acontecimentos na Ucrânia e nos Balcãs


Por.Elisseos Vagenas Membro do CC do KKE
Chefe da Secção de Relações Internacionais

“Se a Bulgária foi privada da possibilidade de comportar-se como um Estado soberano, que pelo menos peça à União Europeia dinheiro pelo lucro perdido” (comentário de Vladimir Putin, Presidente da Rússia, a respeito da decisão de suspender a construção do gasoduto “South Stream”, depois das reticencias da Bulgária, sobre o seu trajecto).

“Temos que ter, finalmente, uma política externa alemã onde a segurança e a paz seja mais importante que as instrucções de Washington” (Sahra Wagenknecht, deputada e dirigente histórica do partido social democrata alemão Die Linke, durante a discussão no Bundestag sobre os desenvolvimentos na Ucrania).

Estas declarações de dois políticos conhecidos “refrescam” a nossa memória reiterando uma concepção que prevalece em relação à questão das relações internacionais e inter-estatais. Trata-se de uma concepção que nega a realidade criada pelo desenvolvimento desigual do capitalismo e promove a posição irrealista de que os países capitalistas com uma posição intermédia o alta (como a Alemanha) no sistema imperialista se comportam como as colónias no passado, isto é com uma obediência cega à “metrópole”.                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                            
Além disso, a este ponto de vista, junta-se muitas vezes o conceito de que esta situação é devida ao facto de “a política dominar a economia”, e que se dominassem os interesses económicos não existiriam, por exemplo, as sanções da União Europeia contra a Rússia, que destroem as vantajosas  relações económicas , ou os obstáculos postos pelos EUA e a União Europeia à construção do gasoduto de South Stream. Mas isso é verdade?

A força motriz da cooperação e dos antagonismos 

Claro que se pode ver à vista desarmada, que este ponto tem sérias deficiências. Pode-se perguntar, por exemplo, que a Alemanha, a chamada "locomotiva" da União Europeia, uma das economias mais fortes do mundo, não passa de um títere dos EUA, que segue cegamente as "instruções de Washington", como disse a já mencionada deputada alemã do partido oportunista Die Linke ("esquerda") 

É óbvio que a causa da convergência capitalista da Alemanha com os EUA, que apesar da sua reduzida participação no PIB mundial, continua a ser a economia capitalista mais forte, no “topo” da “pirâmide” imperialista, não se encontra aqui.

A causa da convergência entre os Estados capitalistas, assim como das rivalidades nas suas regiões, tem que ver com o seu desejo de salvaguardar o fortalecimento do poder e da força da burguesia de cada país. Com este fim, os governos sejam de “direita” ou de “esquerda”, sempre ao serviço da burguesia, pretendem criar alianças económicas, políticas e militares. Estas alianças podem ser bilaterais e multilaterais, como são a União Europeia e a NATO.

Escusado será dizer que nestes acordos, uniões e organizações, assim como na “rede” de relações entre os estados capitalistas em geral, cada burguesia participa segundo a força do seu país (económica, política e militar). Neste contexto, está ligado com os outros países através de milhares de vínculos de interdependência que têm um carácter desigual uma vez que a economia capitalista se caracteriza pela desigualdade.

É aqui que devemos procurar as razões pelas quais Alemanha e EUA convergem sobre a questão das relações com a Rússia e em torno dos acontecimentos na Ucrânia. Usamos a palavra convergência, não alinhamento, porque na postura da Alemanha existe um “denominador” comum com os EUA, ou seja, contra a Rússia, mas há muitas diferenças tanto neste caso como em muitos mais.

É óbvio que a burguesia alemã (a sua secção mais forte) considera que, precisamente neste período, lhe serve a convergência com os EUA, para exercer pressão sobre a  Rússia. Claro que há sectores da burguesia alemã que foram afetados negativamente e sofreram uma catástrofe económica devido a essa convergência com os EUA, na postura em relação Rússia. Tais sectores procuram outras alianças geopolíticas para a Alemanha. No entanto, parece que até este momento cedem a interesses mais fortes e à “linha” geral de fazer pressão sobre Moscovo. A burguesia da Alemanha já assegurou o seu abastecimento energético da Rússia através do “Nord Stream”.  Este gasoduto que pode transportar uns 55.000 milhões de metros cúbicos, cruza o Mar Báltico e fornece directamente a Alemanha, de gás natural . A burguesia da Alemanha assume que, pelo menos no futuro próximo, a Rússia, mesmo que quisesse, não podia cortar o fornecimento, tanto por razões económicas (a necessidade de recuperar receitas orçamentais), como por razões técnicas (falta de outras condutas que funcionem como alternativa a outros importadores). Além disso, o “terceiro pacote energético” da UE, procura conseguir quotas maiores  no mercado internacional de energia em detrimento dos monopólios energéticos russos bem como reforçar as suas posições na Ucrânia.

Assim, tanto a cooperação como as rivalidades entre os Estados capitalistas são motivadas pela rentabilidade do capital. O desenvolvimento das relações no “triangulo” EUA-Alemanha-Rússia, não é excepção.

O mesmo se pode dizer da Bulgária. Não se trata de uma “obediência cega” contra os “interesses nacionais” da Bulgária, como  lemos. Em primeiro lugar, são diferentes “os interesses nacionais” da burguesia búlgara, e os dos trabalhadores. Em primeiro lugar, a burguesia búlgara  está interessada em  assegurar a sua posição; procura ter o apoio da NATO e da UE (nas quais participa), para ter apoio em todos os momentos no caso de questionamento do seu poder pela classe operária e outros sectores populares. Para a Bulgária estas alianças, das quais depende para continuar e actualizar a exploração do povo, são de particular importância. Além disso, o seu sector mais forte acha que somente através dessas alianças vai conseguir aumentar a sua rentabilidade e fortalecer a sua posição na região e mais além. Claro que há também interesses capitalistas que têm diferentes prioridades económicas e geopolíticas, por exemplo, uma maior conexão com a Rússia capitalista, mas isso não significa que sejam favoráveis ao povo. Porque eles também têm o mesmo objetivo estratégico: a perpetuação do sistema de exploração da classe operária.

A política contra a economia?

A Bulgária perderá 400 milhões de euros por ano pelo cancelamento do gasoduto "South Stream", disse Vladimir Putim e tinha razão. Mas a burguesia bulgara está alinhada  com a UE e os EUA neste caso concreto, pois considera que pode ganhar muito mais com o decorrer do tempo. Por isso è errada a avaliação de que "a politica funciona contra a economia".


Isto vê-se ainda melhor com a participação do nosso país nas sanções da UE contra na Rússia, que levou a contra- medidas russas, com a proibição de importações de productos agrícolas gregos no mercado russo. O grande prejuízo que os productores gregos sofreram, assim como os exportadores de produtos gregos para a Rússia, não foi suficiente para impedir a participação do governo grego nesta “guerra” comercial da União Europeia contra a Rússia. Porquê? Pela mesma razão que promove no país todas as medidas anti-populares decididas em conjunto no seio da UE. Porque considera que estas servem a burguesia do país. Mesmo que afectem negativamente os sectores populares, apesar  de provocarem perdas para certos sectores da burguesia, prevalece o interesse estratégico da burguesia: a participação da Grécia na UE e na NATO trará enormes benefícios à burguesia no seu conjunto. É por isso que Lenin sublinhou que “a política é a expressão condensada da economia”.

Porque são perigosas as opiniões acerca da “soberanía”?

Vladimir Putim no seu discurso anual destacou, com alguma razão, que a Ucrânia não foi mais que um pretexto para a imposição de sanções contra a Rússia, já que o Ocidente há muito tem tentado travar o curso do país. Acrescentou também com razão, que os rivais internacionais da Rússia queriam  que a Rússia acabasse como a Jugoslávia. Ao mesmo tempo, recorreu à fraseologia "patriótica" para enganar os trabalhadores do seu país. Disse que "se para alguns países europeus a soberania nacional é um luxo, para a Federação Russa, a soberania, é uma condição absolutamente necessária para a sua existência". 
Claro que é a mesma pessoa que assinou a integração da Rússia na Organização Mundial de Comércio que coloca uma série de restrições em diversos sectores da economia russa.

A economia russa, uma potência capitalista emergente, está  hoje ligada de forma multifacetada à economia capitalista global. Estas relações implicam uma inter-acção constante. Pode falar-se de “soberania” acerca de um país que está completamente dependente dos preços internacionais do petróleo e do gás natural, como está a Rússia capitalista? Pelo menos metade do orçamento anual da Rússia depende do sector da energia, do petróleo e do gás natural. Mas além disso, de que “soberania” podem falar os trabalhadores, os desempregados, os sectores populares nas condições do capitalismo? É a mesma “soberania” que a do capitalista Roman Abramovich, dono da equipa de futebol inglês “Chelsea”?

Uma discussão similar é levada a cabo no nosso país sobretudo pelo SYRIZA e os Gregos Independentes, assim como pelos partidos no poder, a ND e o PASOK, a respeito da “recuperação da soberania”. No entanto, não questionam a participação na União Europeia e na NATO, e muito menos o caminho do desenvolvimento capitalista do país. Torna-se claro que em nome da “soberania” (ou seja da sua preservação ou da sua recuperação) os políticos burgueses utilizam argumentos enganadores para agarrar os trabalhadores “debaixo de bandeiras alheias”. Quer dizer fazê-los lutar e sofrer pelos interesses da burguesia, para que esta fortaleça a sua posição no sistema capitalista mundial.

Igualmente perigosas são as posições que defende o Partido da Esquerda Europeia e o SYRIZA na Grécia em relação à União Europeia. Eles afirmam que se a UE supostamente, “se emancipa” dos EUA e da NATO, torna-se “soberana” e traçará uma política “europeia”, “a favor do povo e da paz”. O SYRIZA declarou inclusivamente, que neste caso a UE mereceria receber o Prémio Nobel da Paz. No entanto, na realidade, esta “emancipação” significaria simplesmente a disposição da UE, ou da sua parte mais forte, de lutar para adquirir mercados utilizando a sua força, ou mesmo as armas, tanto em cooperação com a NATO como por si própria. Isto já está sucedendo!

É inútil e enganador que os trabalhadores da Europa esperem que a UE mude. Isto acontece porque as directrizes políticas da UE não são determinadas por quem tem a maioria na UE, os de “centro esquerda” ou de  “centro direita”, mas pelo carácter do sistema social que predomina nesta. Este é o modo de producção capitalista, onde os meios de produção estão nas mãos de uns poucos capitalistas. Este carácter da UE também se reflete nos seus tratados.

A solução para o povo grego e os demais povos não radica no esforço enganador de “embelezar” a UE, nem no alinhamento com as forças políticas que em nome da “soberania” tratam de atracar os sectores populares ao serviço dos interesses de uns poucos e poderosos capitalistas.

A única solução é a retirada de todas as alianças imperialistas, com a conquista do poder pela classe operária e a socialização dos meios de produção.

 * O artículo foi publicado em 14/12/2014 no jornal “Rizospastis”, órgão do CC do KKE 


sexta-feira, 27 de fevereiro de 2015

Alfredo Barroso abandona o PS de que foi fundador

Declaração de António Costa é uma humilhação e uma vergonha para todos os socialistas, diz Alfredo Barroso. Foto do Facebook de AB

 Diz que não é possível continuar a militar no partido cujo secretário-geral declara que Portugal está hoje melhor do que há quatro anos e ainda presta vassalagem “à ditadura comunista e neoliberal da República Popular da China”. Afirma que não vai entrar em nenhum partido, mas irá apoiar e votar no Bloco de Esquerda.

Este desabafo da parte de Alfredo Raposo, não passa da "gota de água que fez transbordar o copo", é pena que não a tivesse tomado há mais tempo visto que o PS ao longo dos 40 anos que já levamos de "democracia" burguesa, sempre andou de braço dado com as politicas reaccionárias que contribuíram, para os baixos salários, desemprego e destruição dos direitos  sociais conquistados pelo  movimento operário e popular, antes e após o 25 de Abril. Mas como diz o povo "mais vale tarde, do que nunca", neste sentido apoiamos a denúncia e a atitude de A.Barroso em querer finalmente cortar com o PS.

Quanto há "ditadura comunista e neo-liberal da República Popular da China" a sua afirmação torna-se reaccionária e anti-comunista, na medida em que o PCdaChina há muito degenerou e traiu o comunismo e se transformou num partido burguês pró-imperialista.

 Quanto a optar pelo BE ou mesmo no PCP, aconselhamos caso esteja realmente interessado em combater o desemprego, a miséria e a defender a Soberania Nacional da ingerência imperialista, em particular da UE/FMI, a analisar a sua opção mais profundamente, tendo em conta as recentes cedências das promessas eleitorais pelo Syriza e o seu compromisso em manter o programa da Tróika assinado pelo governo anterior, por imposição da UE/FMI, a tal Europa em que a dita esquerda se revê e se quer manter.

!

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2015

Quando dizem que, agora, a carne é peixe.

Por:Partido Comunista da Grécia (KKE)

Ainda nos lembramos da imagem dos monges, na Idade Média, que diziam que a carne era peixe, a fim de superar as dificuldades do interminável jejum. Esta imagem encaixa-se perfeitamente nos desenvolvimentos que têm vindo a ocorrer na Grécia, nos recentes dias, sob o governo SYRIZA-ANEL. Eis alguns dados que o justificam: 

O SYRIZA, como partido de oposição, prometeu rasgar os memorandos que os Governos anteriores haviam assinado com os credores estrangeiros (a União Europeia, o Banco Central Europeu e o Fundo Monetário Internacional) e que continham as medidas antitrabalhadores e antipopulares. O SYRIZA, como partido do governo, revelou que concorda com 70% das “reformas” incluídas nos memorandos e discorda de 30%, que descreve como “tóxicas”. Na verdade, assume que não agirá unilateralmente, mas procura um novo acordo com os credores que, desta vez, não será chamado memorando, mas programa, acordo ou ponte. 

O SYRIZA, como partido de oposição, declarou guerra à troika dos credores estrangeiros e disse que iria colocar um fim a isso. O SYRIZA, como partido do governo, assume que falará com e responderá às “instituições”. Quais? A União Europeia, o Banco Central Europeu e o Fundo Monetário Internacional. Na verdade, exactamente as mesmas pessoas que constituem a tróika estão a tomar parte nas negociações em Bruxelas, em nome das “instituições”. 

 O SYRIZA, como partido de oposição, foi um crítico mordaz do governo ND-PASOK, que apoiou e participou nas sanções da UE contra a Rússia e acusou-os de serem servis, por causa desta postura. O SYRIZA, como partido do governo, apoiou as mesmas sanções da UE e, também, a sua escalada, caracterizando a posição do seu governo como um “significativo sucesso”. 

O SYRIZA, como partido de oposição, tomou uma posição contra as privatizações. Agora, como governo, de acordo com a declaração do ministro das Finanças, Y. Varoufakis, assume que “Queremos passar da lógica de vendas ao desbarato para a lógica do seu desenvolvimento, em parceria com o sector privado e os investidores estrangeiros”! Por isso, adopta as privatizações para reforçar o sector privado e tenta apresentar também outros métodos de privatização, como parcerias público-privadas e concessões aos grupos económicos, etc., como sendo benéficos. 

 O SYRIZA, como partido de oposição, caracterizava a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE) como o “livro negro do neoliberalismo”. O SYRIZA, como partido do governo, recebeu em Atenas, nos primeiros dias do seu mandato, Angel Gurría, Presidente da OCDE, que teve uma reunião com o Primeiro ministro A. Tsipras. A OCDE, de acordo com o governo de coligação SYRIZA-ANEL, é a organização que ajudará a elaborar uma lista de medidas, a fim de salvaguardar o desenvolvimento (capitalista) na Grécia. Medidas que substituirão a parte “tóxica” do Memorando, os notórios 30%.

 O SYRIZA, como partido de oposição, denunciou a decisão do anterior governo de pagar “dezenas de milhões de euros a empresas que prestam serviços jurídicos e aconselhamento financeiro”. O governo do SYRIZA-ANEL contratou a empresa “Lazard” como consultora para as questões da dívida pública e da gestão fiscal, obviamente apreciando a experiência proporcionada pelos anteriores governos do PASOK, de G. Papandreou. Isto não é por acaso! Além disso, o novo Ministro das Finanças, Y. Varoufakis (costumava ser um consultor de G. Papandreou) recorreu aos serviços dos ex-assessores de G. Papandreou, J. Galbraith e Elena Panariti, ex-deputada do PASOK. O primeiro é um economista americano, professor na Universidade do Texas, funcionário do Instituto Levy, bem conhecido apologista do capitalismo e um apoiante de uma fórmula mais expansionista para a gestão da crise. A última trabalhou para o Banco Mundial. Por outras palavras, ambos servem o sistema e os seus mecanismos. 

Podemos acrescentar mais à lista das retratações do governo do SYRIZA e da sua “esquerda”, como o facto de uma série de promessas feitas antes das eleições – por exemplo, o aumento do salário mínimo – serem remetidas para um futuro distante. Da mesma forma, podemos apontar outros marcantes exemplos de funcionários e assessores do social-democrata PASOK que agora estão a servir o governo “de esquerda”. No entanto, a questão mais importante é a de clarificar que tipo de negociações o atual governo grego está a realizar com a UE e os outros credores. 

As negociações têm um conteúdo concreto, que não está relacionado com o “alegado fim da austeridade” na Grécia e na Europa, como o SYRIZA e os outros partidos que participam no Partido da Esquerda Europeia pretendem. Além disso, Y. Varoufakis afirmou claramente que nos anos vindouros, sob o governo do SYRIZA, os trabalhadores têm de continuar a viver “frugalmente”. As negociações estão relacionadas com as necessidades dos grupos económicos que advêm das consequências da profunda crise capitalista, assim como da evolução da incerta recuperação capitalista na Grécia e na zona do euro como um todo.

 Estas negociações estão a ocorrer num terreno hostil ao povo. Isto é provado pela identificação do governo grego com países como a França, a Itália e, sobretudo, os EUA, com todas as implicações negativas que esta postura acarreta. Estes países podem exercer pressão sobre a Alemanha em defesa dos seus próprios interesses, mas continuam a mesma dura linha política contra o povo. 

Apesar da sua barulhenta propaganda sobre as negociações com a UE e os credores, o SYRIZA assume, ao mesmo tempo, que compartilha muito com eles e que continuará os compromissos anti-populares do país perante a UE e a NATO. Assim, o povo grego e os outros povos não devem cair na armadilha de serem separados em “merkelistas” e “obamistas” e divididos numa luta sob uma bandeira “alheia”. Eles têm de organizar a sua luta e exigir a reposição das perdas respeitantes aos seus rendimentos e aos seus direitos. 

Devem exigir a solução de todos os problemas dos trabalhadores e do povo, de acordo com as suas actuais necessidades. Devem lutar por uma saída que lhes traga esperança: a socialização dos monopólios, a saída das uniões imperialistas da UE e da NATO, com o povo a segurar as rédeas do poder. Isto preparará o terreno para o único, oportuno e realista caminho, que leva à verdadeira emancipação do povo: a construção de uma nova sociedade, uma sociedade socialista. 

sábado, 14 de fevereiro de 2015

SYRIZA, o novo pólo da social-democracia na Grécia!


 Entrevista de Elisseos Vagenas, membro do CC do KKE e responsável pela Secção de Relações Internacionais do CC, para o “Jornal de Negócios”, de Portugal 1* . 


-Como interpreta os resultados das eleições de domingo? 

A mudança de governo, com a coligação entre o SYRIZA e os Gregos Independentes (ANEL), reflete o descontentamento e a raiva do povo contra a ND e o PASOK, partidos que mergulharam o povo na pobreza e no desemprego durante a crise capitalista, bem como na falsa esperança de que o novo governo do SYRIZA poderia seguir uma linha política a favor do povo. O KKE considera que a coligação entre o SYRIZA e o ANEL seguirá o mesmo caminho: a linha do recuo e da transigência, dos compromissos com o grande capital, os monopólios, a UE e a NATO, com todas as implicações negativas para o povo e o nosso país. . 

- O que espera de um governo liderado pelo SYRIZA? 

Agradaram-lhe as decisões tomadas nestes primeiros dias? Apesar da barulhenta propaganda sobre as negociações com os parceiros-credores europeus e diferenças parciais, o SYRIZA continuará os compromissos antipopulares do país com a UE. Já admitiu que haverá um novo programa acordado com os credores. Mesmo que não se chame memorando, conterá condições contra o povo, como cortes nos serviços sociais públicos universais e gratuitos. As orientações estratégicas do programa do SYRIZA inserem-se no âmbito de servir os interesses dos grupos económicos – a estratégia da UE. O programa SYRIZA, em relação à maioria dos trabalhadores e das famílias populares, vai espalhar a pobreza e o desemprego por ainda mais pessoas. 

2 No que respeita às questões de defesa e política externa, o SYRIZA está comprometido com a NATO e a aliança estratégica com os EUA. A posição do governo em relação à questão da Ucrânia, apesar da fanfarronice, durou apenas três dias. No quarto dia, o governo grego alinhou com a UE e votou as mesmas sanções contra a Rússia que o anterior governo da ND-PASOK tinha apoiado (embora as tenha criticado de forma veemente como um partido de oposição), deixando a porta aberta para outras, brevemente. Outro exemplo característico é as declarações do Ministro da Defesa, que anunciaram a continuação da cooperação com Israel... 

- O SYRIZA fez uma coligação com o partido Gregos Independentes. Não faria mais sentido uma coligação com o KKE? Por que não aconteceu? 

Não, não faria qualquer sentido. Por que o SYRIZA e o KKE estão a seguir caminhos totalmente diferentes. Antes das eleições, o nosso partido considerou que o SYRIZA, caso não tivesse a maioria no parlamento, formaria governo com um dos partidos que, tal como o SYRIZA, são a favor da permanência do país na UE e na NATO; partidos que entendem que o povo tem de pagar uma dívida insuportável, pela qual não tem qualquer responsabilidade, partidos que insistem no caminho de desenvolvimento capitalista. O KKE tem uma posição diferente sobre estas questões fundamentais e luta pelo cancelamento unilateral da dívida, a saída da Grécia da UE e da NATO e a socialização dos meios de produção básicos, com a classe operária e o poder do povo. 

- Qual vai ser a posição KKE no Parlamento grego? Está disponível para aprovar medidas apresentadas pelo governo?

O KKE tem como sua tarefa principal fortalecer a oposição militante dos trabalhadores e do povo, dentro e fora do Parlamento, contra os monopólios e o seu poder, contra as alianças imperialistas. Vamos utilizar a força que nos foi dada pelo povo para contribuir para o reagrupamento do mundo do trabalho e o desenvolvimento da aliança social. Temos de fazer pressão, temos de lutar por todas as conquistas possíveis para as camadas populares e por medidas imediatas para aliviar o povo. Entre outras coisas, vamos examinar cuidadosamente todas as propostas de lei, tendo como critério os interesses dos trabalhadores e do povo, e apoiaremos qualquer proposta lei que ofereça verdadeiro alívio aos trabalhadores, o que sempre temos feito. .

 O que diferencia o KKE do SYRIZA?

 As diferenças são enormes. O SYRIZA é o novo pólo da social-democracia na Grécia e está interessado em gerir o poder da burguesia, com uma “imagem de esquerda”. O KKE é um partido da classe operária, que procura o derrube da barbárie capitalista e a construção de outra sociedade, socialista-comunista. 

Deve a Grécia sair da zona euro? 

Na nossa avaliação, isso não é suficiente. Sem os outros fatores que descrevemos – como a completa retirada da UE e da NATO, a socialização dos meios de produção e a diferente organização da economia e da sociedade – o retorno à moeda nacional, por si só, pode até levar a piores desenvolvimentos para as camadas populares. . 

Por toda a Europa, partidos de esquerda elogiaram a vitória do SYRIZA. Sente que o KKE ainda é o verdadeiro porta-voz dos ideais da esquerda na Grécia?

 Há alguns anos, os mesmos partidos celebraram o alegado “novo vento” da eleição de Hollande, na França. Hoje sabemos como isso acabou. Entre outras coisas, o KKE expressa as genuínas tradições militantes do movimento operário e popular no nosso país. O SYRIZA cortou todos os laços com estas tradições. . 

O KKE é conhecido pelos seus protestos de rua. Continuarão? 

Vamos continuar, com ainda melhor preparação e planeamento, utilizando todas as possibilidades; e contribuiremos para que a linha do contra-ataque seja adotada de forma mais abrangente pelo povo e, também, para o reagrupamento do movimento operário e popular, que é o fator decisivo que irá determinar o resultado da luta. Elisseos Vagenas Membro do CC do KKE e responsável pela Secção de Relações Internacionais do CC

1 A entrevista foi publicada no “Jornal de Negócios” do dia 2015/02/09.

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2015

Agressões e prisões pela polícia no bairro da Cova da Moura

MAIS UM CASO DE VIOLÊNCIA POLICIAL

QUE NÃO PODE FICAR IMPUNE

Na passada 5 feira, dia 5 de Fevereiro, uma brigada policial fez uma pretensa rusga na Cova
da Moura, numa pura demonstração de força e intimidação da população, tal como muitas vezes tem acontecido em muitos bairros do país. A certa altura, abordaram de forma provocatória um grupo de jovens do bairro, revistando-os e abusando-os verbalmente à espera de alguma forma de resposta violenta. Como não a obtiveram, os polícias começaram a agredir brutalmente um dos jovens, apesar de este não estar a oferecer qualquer resistência. 

Seguiram-se disparos, incluindo sobre outros habitantes que entretanto tinham ido ver o que se passava e que puderam testemunhar todo o episódio. Uma voluntária da Associação Moinho da Juventude foi atingida na perna e na nádega. O jovem, a sangrar, foi algemado e levado para a esquadra de Alfragide. Aí, os polícias juntaram-se para o agredir com cassetetes e pontapés, ao mesmo tempo que o insultavam. Só seria libertado no dia seguinte, depois de o terem acusado de apedrejar a carrinha da polícia, uma acusacão impossível, já que ele na altura estava a ser revistado.

Um grupo de pessoas, entre os quais dois dirigentes do Moinho, decidiu dirigir-se à esquadra para exigir a libertação dele. Apesar da abordagem pacífica deles à entrada da esquadra, foram logo insultados e baleados e depois, dentro da esquadra, foram algemados, violentamente agredidos e ameaçados de morte. Cinco deles foram detidos e levados pela polícia para a esquadra da Damaia e depois para um hospital, devido aos ferimentos que tinham sofrido. A polícia e a comunicação social tentou apresentar o que se passou este episódio como sendo um gang a invadir a esquadra.

Este é mais um dos muitos casos de provocação e violência policial que alastram em particular nos bairros negros das periferias e que não podem ficar sem resposta. A cada dia que passa, a polícia provoca, invade, agride, insulta e prende ilegalmente sobretudo jovens de etnias que o sistema considera inferiores, através dos seus agentes nas forças de repressão, nas quais se expandem cada vez mais, com encorajamento oficial e com total impunidade, sentimentos de ódio racista.

Isto não acontece por acaso, acontece numa altura em que a crise do sistema impõe condições de vida cada vez mais horrendas e desumanizadoras aos sectores mais explorados e oprimidos da sociedade, com particular destaque para os descendentes de africanos, que são empurrados para o desemprego (esmagadoramente os jovens) e para uma vida em bairros onde lhes são negadas as mais elementares condições de sobrevivência. Este sistema não tem nada para lhes oferecer e pretende esmagar-lhes os horizontes.

Isto está a acontecer em todo o mundo dito avançado, em toda a Europa e nos EUA (onde chega a limites extremos, como os assassinatos endémicos de afro-americanos e latinos que geraram a recente grande onda de protestos e indignação). O objectivo é impor um brutal sistema de medo permanente que impeça os jovens de se revoltarem, sob qualquer forma, desde as mais erradas às mais avançadas, contra uma vida sem perspectivas e para mudar a sociedade. O objectivo é dividir, colocar brancos e negros uns contra os outros e entre eles mesmos, fazer com que cada um lute por “privilégios” neste sistema, numa luta do “nós”contra “eles”, do “eu” acima dos “outros”, numa guerra pela sua “fatia” da opressão. São objectivos em que estão empenhados todos os órgãos deste brutal sistema, desde a polícia à comunicação social, passando por todos os órgãos deste estado opressor.

É necessário lutar contra esta repressão e opressão e acabar com a lógica divisora deste sistema, com esta forma de pensar e de agir. É necessário enfrentar a realidade e pensar que não é apenas uma questão de mudar de mentalidade, mas sim de mudar as bases opressoras desta sociedade. Denunciar todos estes casos e lutar lado a lado para mudar tudo isto, lutar por uma sociedade em que não haja estas divisões e que crie as condições para as pessoas viverem a sua criatividade e em condições humanas.

Temos de lutar e resistir. Lutar pelos que foram agredidos, presos e desumanizados neste caso. Lutar e resistir para denunciar todos estes casos, lutar e resistir contra a criminalização de todo um grupo étnico, contra as detenções, os ataques e o terror policial. Lutar por ligar todas as lutas contra este sistema, que são parte da mesma luta. E lutar e resistir para construir uma sociedade melhor. Isto é possível e é cada vez mais necessário.

As provocações e a violência policial têm de acabar!

Punição exemplar de todos os polícias envolvidos!

Organiza-te contra a violência policial e o racismo!

Participa nas acções de protesto!

10 de Fevereiro de 2015
Basta!

Concentração contra a violência policial e contra o racismo 12 de Fevereiro de 2015, pelas 17 horas
Frente ao Parlamento.

Colectivo Mumia Abu-Jamal
10 de Fevereiro de 2015

facebook.com/pages/Colectivo-MUMIA-Abu-Jamal/361860907279943

terça-feira, 3 de fevereiro de 2015

Assim vai o capitalismo nos E.U.A: 16 milhões de crianças usam cupões de alimentação



 Como consequência da crise económica e do aprofundamento da exploração capitalista, dezenas de milhões de trabalhadores norte-americanos e suas famílias são atirados para a extrema pobreza.

E.U.A: 16 milhões de crianças usam cupões de alimentação  

Dados oficiais indicam que se trata do índice mais alto desde o início da crise económica iniciado em 2008.

Os números revelados sobre a pobreza juvenil  pela entidade de Censos dos EUA estimam que uns 16 milhões de crianças receberam cupões para  adquirir  alimentos durante  2014.

De acordo com a população infantil registada nos EUA estima-se que haja um em cada cinco crianças nesta situação.

Segundo informações da agência de noticias AP uns nove milhões de crianças americanas  se encontram registados no Programa de Assistência de Nutrição Suplementar desde o ano de 2007 e desde então se mantêm num nível alto.

Em relação à população total, uns 26 milhões de pessoas receberam cupões de alimentação em 2007, segundo o Departamento de Agricultura, a quantidade de população nestas condições ascendeu  até aos 46,5 milhões durante o ano passado.

Números oficiais publicados no passado mês de Novembro informam que 49,5 por cento da população beneficiou de alguma classe de subsídio do programa de assistência social até 2012, alguns destes foram suspendidos por decisão do Congresso em 2013. 

 Estes números revelam ainda que 46 milhões de Norte-americanos vivem na pobreza e de entre estes 14,4 milhões são trabalhadores a trabalhar meio tempo de trabalho e 4,4 milhões a tempo completo.

domingo, 1 de fevereiro de 2015

Os direitistas "Gregos Independentes" (ANEL) são os parceiros do governo da "esquerda radical" (SYRIZA)


"Não há nenhuma possibilidade de formar um governo de coalizão com Panos Kamenos (líder do partido ANEL). Pertence ao espaço da direita. A trajectória e as posições de Panos Kamenos colocam-no à direita da Nova Democracia. Um governo de esquerda-anti memorando que dependa do voto de Panos Kamenos não pode durar." Dizia em 2012 D.Papadimulis, alto quadro do SYRIZA, eurodeputado e vice-presidente do Parlamento Europeu. 

Alguns de nós lembrámos estas declarações ao ouvir que o SYRIZA e os nacionalistas do ANEL chegaram a acordo para formar governo.

O líder do ANEL, Panos Kamenos era quadro da Nova Democracia e ministro dos Transportes Marítimos, nos governos da Nova Democracia, usando desta posição de alta responsabilidade para apoiar a grande rentabilidade dos armadores gregos. No novo governo Panos Kamenos foi nomeado Ministro da Defesa…

Muitos ficaram surpreendidos. Outros ficaram paralisados. Em particular, muitos trabalhadores no estrangeiro, influenciados pela “tormenta” da propaganda dos meios de comunicação internacionais sobre o “SYRIZA esquerdista”, “perigoso para a União Europeia”, ficaram justificadamente chocados. Especialmente os que, devido às “lentes” deformantes dos meios de comunicação, comemoraram a formação do governo da  “esquerda radical” em que afinal se encontrou espaço para os nacionalistas do ANEL. Ficou demonstrado uma vez mais que o termo “esquerda” não consegue definir correctamente as forças políticas, os seus objetivos e as suas alianças. Se os trabalhadores da Europa, que o “Partido da Esquerda Europeia” (PEE)  chamou a comemorar a vitória do SYRIZA, pusessem os seus “óculos” de classe, poderiam ver que o SYRIZA “esquerdista” é um partido a favor do capital, da UE e da NATO. Portanto, não há motivo para celebrar.

No entanto, é bom realçar que, na Grécia a formação do dito governo não foi surpresa. A cooperação do SYRIZA e do ANEL não é nova. Começou em Março de 2013, quando os presidentes dos dois partidos, usando como pretexto os acontecimentos no Chipre, se reuniram, fizeram declarações conjuntas e discutiram a formação de uma “frente” comum.

Recordamos que o KKE desde o primeiro momento salientou que havia base política para a formação de um governo do SYRIZA com o ANEL ou com outros partidos e isto reflectiu-se a nível governamental.

O KKE deixou claro que o SYRIZA é o novo partido social democrata, com uma política a favor dos monopólios, da UE e da NATO. Um partido social democrata contemporâneo em lugar do PASOK, um partido de gestão burguesa que carrega o pagamento da dívida sobre o povo e fala de orçamentos equilibrados, que apoia o capital com fundos, enquanto oferece migalhas ao povo. Por isso, com base no exposto, não duvida em cooperar mesmo com os nacionalistas para formar um governo burguês.

Esta é a cola que une o SYRIZA a um partido com posições nacionalistas como o ANEL, que anteriormente chegou a cooperar a nível parlamentar com o “Amanhecer Dourado” fascista. Um exemplo típico é que os seus deputados na votação para a suspensão da imunidade dos deputados do Amanhecer Dourado para serem levados a tribunal pelos assassinatos e agressões contra trabalhadores e imigrantes, votaram… “presente”. Obviamente os cargos governamentais são uma recompensa pela sua postura…

Além disso, o ANEL mantem uma posição reacçionária sobre o tema da imigração e, de “caça de imigrantes ilegais”, uma posição similar à do Amanhecer Dourado. Não se devem subestimar propostas ridículas apresentadas pelo ANEL como “o renascimento dos Jogos Olímpicos antigos num lugar perto de Olimpia com atletas de origem grega. Os jogos serão realizados como na antiguidade e os atletas competirão como os antigos”…

As posições e a estratégia do ANEL, tal como as do SYRIZA, têm como meta salvar os monopólios. O ANEL acrescenta a esta linha política palavras de ordem nacionalistas e proclamações em “defesa do helenismo” que “é ameaçado por Merkel”, e trata de ocultar e embelezar o papel da União Europeia.

Este nacionalismo subjacente é a outra face do cosmopolitismo do capital, que é utilizado regularmente pelo SYRIZA.
Obviamente o que está sendo atacado não é o “helenismo”. Quem está a ser  impiedosamente atacada é a classe operária e as camadas populares, e isso vai continuar independentemente da forma de gerir a crise capitalista, independentemente dos gestores do poder burguês, mesmo quando chegar a recuperação tão esperada pelos burgueses.

Outro exemplo característico no programa governamental do ANEL é a referencia ao estabelecimento de um “subsídio de desemprego” que permitirá ao empregador “pagar aos trabalhadores somente a parte do salário líquido mensal, não coberto pelo subsídio".  É portanto mais um partidário da subvenção aos empregadores. O  SYRIZA tem propostas similares quanto à implementação de programas de trabalho flexível na União Europeia que apoiam o capital e “reciclam” o desemprego.

Além disso, no seu programa económico, o ANEL defende “A despenalização do empreendedorismo”. Esta posição do ANEL encaixa na do SYRIZA sobre o apoio do  empreendedorismo saudável, e nos elogios da Federação Helénica de Empresas ao novo governo. Podemos ver como estão a tremer os industriais gregos no seu comunicado recente: “AFederação, como representante de base das empresas gregas organizadas, estará ao lado do governo e proporcionará ao primeiro ministro as posições da política industrial e o plano para o crescimento da economia grega, assim como a rede de relações com a comunidade empresarial europeia e internacional”.

Em termos de Educação, o ANEL é partidário das universidades privadas e quer permitir a sua criação no nosso país. “A abolição legal plena e real de asilo em instituições de ensino e nas universidades, e as ocupações, serão rigorosamente  punidas pelo código  penal” e “as Escolas profissionais exemplares irão cooperar com as empresas”. Obviamente, que o facto de o SYRIZA ter deixado claro que tanto a Educação como a Saúde continuarão a ser espaços abertos à actividade empresarial, confirma a coerência deste governo.

Não acreditamos que seja necessário dar mais exemplos…

O comunicado do Comité Central do KKE sobre o resultado das eleições destaca que: “A alternância governamental e, em concreto, o novo governo do SYRIZA, não constitui uma mudança política favorável ao povo. O governo de coalizão SYRIZA-ANEL irá manter os compromissos antipopulares do país com a UE e os credores e isso, efectivamente, dará descanso ao sistema político burgués que procura assimilar o povo mais profundamente através da recomposição do sistema político burguês, num momento crítico para o povo e para o seu movimento. O SYRIZA admitiu já que após as eleições haverá um programa a acordar com os credores. Este programa, mesmo que não se chame memorando ou  não tenha a forma típica do memorando actual, incluirá condições antipopulares.

O KKE, consequente com o que dizia antes das eleições, não vai apoiar ou dar “voto de tolerância” ao novo governo. Usará a agrupação de forças, que existe nesta fase, para fazer o que prometeu aa povo, ou seja, ser uma forte oposição operária e popular no parlamento, com propostas a favor do povo, mas sobretudo no movimento para que se fortaleça a aliança popular para o presente e o futuro. Para que se fortaleçam as lutas contra a União Europeia, os memorandos permanentes, os monopólios, o capital e o seu poder que estão aqui, presentes. Para que se recuperem as grandes perdas que  os trabalhadores sofreram no período da crise. Para que os trabalhadores assalariados e os independentes não paguem  de novo, mas sim os grupos monopolistas e o capital, para que não distribuam as migalhas aos que vivem em pobreza extrema.”

quinta-feira, 22 de janeiro de 2015

O caos nas urgências dos hospitais públicos

Pode dizer-se que não há palavras para descrever a pouca vergonha que se está a passar nos serviços de urgência dos hospitais do SNS e a forma como o governo e ministro estão a lidar com o problema. Em menos de um mês oito cidadãos morreram aparentemente por falta ou deficiente atendimento após, ao contrário do que mandam as regras nestas situações, muitas horas de espera nos serviços de urgência. A imprensa fala em mais de 1900 mortes no período do Inverno, particularmente frio este ano, devido a diversas morbilidades; todas elas estarão relacionadas com a descida da temperatura e do aparecimento da gripe sazonal, fazendo fé no que a imprensa diz, número que aparentemente não estará longe do que ocorre em outros anos. O que tem sido fora do normal são as mortes de pessoas, quase todas idosas, que esperam muitas horas por cuidados que não são prestados em tempo útil.

Ainda estamos todos lembrados da epidemia da legionella que há pouco mais de dois meses fez 12 mortes e infectou 375 pessoas, tendo o governo levado bastante tempo a identificar o foco causador e a tomar medidas. Foi a terceira maior epidemia no mundo, bem reveladora da política seguida pelo governo PSD/CDS-PP quanto à Saúde Pública, quer no que concerne às medidas de fiscalização e prevenção quer à resposta em termos de cuidados de assistência. A mesma política encontra-se agora ilustrada nas mortes nos serviços de urgência hospitalar que não têm conseguido dar resposta como seria de esperar, sabendo-se antecipadamente que as idas às urgências aumentam substancialmente nesta época do ano. O governo desculpa-se com o “frio”, com a “reforma antecipada dos médicos” e acusa as notícias de “alarmismo” infundado e de “falsidade” na análise das mortes ocorridas e promete medidas salvíficas do género “alargamento dos horários de funcionamento dos centros de saúde”, “contratação directa de novos médicos”, “proibição (!?) de médicos e enfermeiros tirarem férias no período do Carnaval”, “abertura de mais camas de internamento (!?, este governo acabou com 700 camas)… e da possibilidade das “urgências privadas poderem vir a tratar doentes do Serviço Nacional de Saúde em alturas de maior afluência aos hospitais”, segundo despacho assinado, curiosamente de forma muito discreta em 9 de Janeiro, pelo secretário de Estado Adjunto do Ministro da Saúde.

E terá sido esta medida que trouxe mais alguma luz sobre as verdadeiras razões do caos que se vive nas urgências dos hospitais públicos, que fazem mover o ministro especialista em cobrança de impostos e que dão para entender o escarcéu feito por alguma imprensa de referência situada mais à direita. Não há dúvida de que as mortes por legionella e as mortes ocorridas nas urgências, e que poderiam ter sido perfeitamente evitadas, são devidas à política de austeridade levada a cabo nos últimos três anos e meio, o mesmo tempo de mandato deste governo fascista, que tem cortado na Saúde e na Administração Pública em geral com a redução de pessoal e corte brutal nos salários. Mas, mais do que isso, são a consequência lógica de uma estratégia, que vem de há muito, desde o 1º governo de maioria absoluta do PSD/Cavaco, de privatização da Saúde e concomitante destruição do SNS. Só com a degradação do SNS, com o seu subfinanciamento, a não contratação de pessoal, o encerramento de serviços e diminuição do número de camas, ao mesmo tempo que se financia por diversas maneiras o negócio da medicina privada, é que este terá possibilidade de se instalar e progredir. O privado já possui 30% dos internamentos e das consultas, só faltavam as urgências, o “frio” e a “gripe” (o negócio das vacinas parece que já deu o que tinha a dar) deram o mote, o “caos das urgências” confirma a necessidade, a imprensa do regime faz a propaganda… e a medida (o oportuno e "silencioso" despacho feito por uma figura menor do governo) já está tomada.

E, assim, o negócio da Saúde em Portugal vai de vento em popa, enquanto o povo vai morrendo, à fome e à falta de cuidados médicos. É o que acontece quando um governo sem legitimidade continua em funções e tem pressa em acabar a missão para que foi investido: privatizar tudo o que seja passível de ser privatizado, empobrecer o mais possível o povo português, no processo imparável de acumulação e concentração do capital. Não basta demitir o ministro, como muito boa gente tem defendido, mas todo o governo, que há muito deveria ter sido lançado borda fora.

Apelo do Comité Central do KKE para as eleições de 25 de Janeiro de 2015



É NECESSÁRIO QUE NO DIA APÓS AS ELEIÇÕES O KKE ESTEJA FORTE!


OPOSIÇÃO POPULAR FORTE, UNIDADE E LUTA PELO DERRUBE DO SISTEMA!

Trabalhadores, empregados, trabalhadores independentes, desempregados, camponeses, reformados, jovens e mulheres de familias populares.

Apelamos a que apoiem e fortaleçam decisivamente o KKE nas eleições gerais. 

Pensem que após as eleições, o novo governo, a União Europeia e os memorandos permanentes, as velhas e novas medidas antipopulares exigidas pelo capital, para tornar mais competitivo o mercado capitalista mundial, vão continuar a torturar o povo.

Continuarão a existir as leis anti laborais que foram votadas por todos os governos e que não vão ser suprimidas.

Continuará a existir a dívida insuportável que é reconhecida pela ND, PASOK, SYRIZA e  todos os partidos da União Europeia, que pedem ao povo que a pague embora não tenha sido ele quem a criou, nem deva nada.

Continuará a existir as contradições e as disputas na zona euro sobre a gestão do défice  da dívida, que foi criada pelos capitalistas, e é paga com o fim de aumentar os lucros capitalistas, de acordo com a lei do mais poderoso, sempre à custa dos interesses populares.

Acima de tudo, continuará a existir o capital, os monopólios nacionais e estrangeiros que têm o controle da economia, e o poder real permanecerá, e exigirá ainda mais privilégios na fase de recuperação, sempre à custa do povo. Para investir exigirão que a força de trabalho seja ainda mais barata e subjugada. O desemprego continuará, mesmo que se façam alguns investimentos.

Continuará a existir o poder do capital, o estado que serve fielmente os interesses dos monopólios à custa do povo e define o papel de cada governo.

Independentemente do curso das negociações com a Troika e da transição para uma nova fase de supervisão, os monopólios exigem novas medidas antipopulares, tal como o completo desmantelamento do sistema de segurança social, novos cortes nos salários e nos rendimentos do povo, privatizações, e a restricção da actividade sindical. Portanto, em tempo de crise como em tempo de recuperação, o povo não será aliviado sem luta, sem entrar em conflito com os interesses do capital.

Por isso, no dia após as eleições, o povo trabalhador precisa de um KKE forte no parlamento, e em toda a parte, uma força de resistência e contra ataque operário e popular.

É a garantia contra a insegurança e a incerteza em que a classe operária e o povo se podem apoiar.

Um KKE forte para se abrir caminho para a única solução favorável ao povo, o cancelamento unilateral e completo da dívida, a saída da União Europeia e da NATO, a socialização dos monopólios, para a prosperidade do povo, com a classe operária no poder, por uma perspectiva socialista. O povo precisa do  seu próprio governo, o governo do poder operário e popular, e com o KKE a desempenhar um papel de liderança. Para se tornarem realidade os ideais e valores do povo por uma sociedade sem exploração do homem pelo homem.

Um KKE forte para que o povo não se deixe enganar novamente pela chantagem e as ilusões. Porque o KKE estará contra os governos de uma ou de outra versão da gestão burguesa que não só não garantem a recuperação das enormes perdas do povo, como  seguem o mesmo caminho que conduz a maiores riscos e tratarão de enganar novamente o povo com migalhas. O KKE desempenhará um papel importante dentro e fora do Parlamento, para que exista uma oposição militante, que exerça uma verdadeira pressão popular. Isso não tem existido até agora devido a vacilações ou a ilusões.

Um KKE forte porque é a força que, sem contrariedades nem recuos, desempenha um papel importante na organização da luta do povo pela abolição de todas as leis relacionadas com o memorandum e a recuperação das perdas do povo. Esforça-se de forma consequente e desinteressada pela justa causa  dos trabalhadores, dos empregados, pelos direitos dos jovens, das mulheres, dos desempregados, dos trabalhadores independentes, dos camponeses pobres, para organizar a solidariedade do povo.

Um KKE forte porque luta contra a participação da Grécia nas alianças e guerras imperialistas que estão em curso ou se estão a preparar para servir os interesses dos grandes grupos empresariais. Defende os direitos de soberania do país contra a NATO e a UE, contra os que enganam dizendo que  as organizações imperialistas protegerão os direitos soberanos, a paz e a segurança do povo. Luta pela saída da Grécia da NATO, para que a Grécia deixe de apoiar e participar em intervenções militares à custa dos povos.

Um KKE forte para que se reavive o movimento operário e popular, para que se estabeleça e se reforce a aliança social popular contra os monopólios e o capitalismo. Luta pelo isolamento e derrota da ideología e da actividade fascista do Amanhecer Dourado.

Trabalhadores, jovens, desempregados, reformados. 

Face à batalha eleitoral, o governo de coalizão ND-PASOK e funcionários da União Europeia investem novamente na propaganda alarmista e na extorsão, para enganar o povo e conseguir o seu consentimento para a continuação desta política antipopular. Invocam a estabilidade e a suposta  necessidade de não colocar em perigo os sacrifícios do povo grego. Os dilemas de intimidação não se dirigem principalmente à disputa bipartidária com o SYRIZA. O governo sabe muito bem que o SYRIZA não questiona a UE nem o sistema capitalista. A extorsão e os dilemas  dirigem-se sobretudo ao povo e têm como objetivo assegurar a submissão do povo ao caminho antipopular e aos tormentos que traz.

O governo mente quando afirma que as novas medidas antipopulares se podem evitar se houver estabilidade política e se apaziguem os credores. Porque as velhas e novas medidas  não são apenas uma exigência dos credores. São directivas da União Europeia desde há anos, parte integrante da estratégia do grande capital na Grécia e na Europa, para que a força de trabalho se torne ainda mais barata. Em todos os países da UE e da zona euro se realizam essas reformas antipopulares tanto com governos de direita (p.ex. na Alemanha) como social democratas (p.ex. em França, em Italia).

Portanto, o governo e outros centros do poder burguês (a Federação Helénica de Empresas, meios de comunicação etc.) falam constantemente da “necessidade de continuar com as reformas, inclusivamente por vontade própria”. O SYRIZA está a esconder esta realidade do povo. As reformas que propõe estão na lógica da União Europeia e dos empresários.

O SYRIZA não é uma alternativa favorável ao povo. Está a tentar ganhar as eleições e por isso  tem-se transformado rapidamente num partido de gestão burguesa anti operária. Oculta as causas da crise económica capitalista e esconde a cara da exploração do capitalismo, o poder do capital.

A liderança do SYRIZA não só oferece garantías aos credores, à União Europeia, aos “mercados” que não vai actuar unilateralmente, antes lhes pede que confiem e apoiem um governo do SYRIZA porque pode servir melhor os seus interesses (reuniões com fundos de investimento na City de Londres). Além disso, mesmo a nivel de slogans, abandonou as declarações acerca da “anulação” e “abolição” do memorandum e sobretudo das leis de compensação para a recuperação das prejuízos do povo, o restabelecimento do 13º e 14º salário, da 13ª e 14ª pensão para os reformados, e a abolição dos pesados impostos. Não questiona os mecanismos de vigilância da UE, os orçamentos equilibrados, os semestres europeus, quer dizer “os memorandos permanentes” à custa dos povos. Neste contexto, está a promover alianças com antigos dirigentes, ministros e deputados do PASOK, da Izquierda Democrática etc. que apoiaram os memorandos e as medidas antipopulares.

Ao mesmo tempo, o SYRIZA está a utilizar a falsa retórica “radical” de forças oportunistas no seu interior, sobretudo da chamada “Plataforma de Esquerda”, tratando de apanhar as pessoas de esquerda, os trabalhadores jovens que estão preocupados e têm uma posição política militante. Repete-se a táctica conhecida da social democracia, do PASOK, que tem uma tendência “esquerda” que supostamente está a exercer pressão sobre a liderança, quando na realidade lhe oferece um alibi de esquerda. No mesmo sentido, as alianças eleitorais formadas por ANTARSYA estão a desorientar o povo já que têm alguns objetivos de luta como “a saída do euro” sem romper com o quadro actual de controle da economía pelo poder do capital.

O SYRIZA, sobretudo nos últimos dois anos, tem-se mostrado útil para o capital com o fim de minar o movimento operário e popular. Não só não utilizou a sua alta percentagem eleitoral para o fortalecimento da mobilização do povo, como promoveu a ideia da “espera”, a ideia de confiar o seu futuro a outros, restringindo a intervenção popular à participação nas eleições e na decisão de que governo vai implementar a política antipopular. Isto também mostra que não está disposto a entrar em conflito com os interesses capitalistas na Grécia e na Europa. A vida  demostrou que o aumento da percentagem eleitoral do SYRIZA, será à custa da luta operária e popular.

Trabalhadores, jovens, desempregados, reformados.

Nos últimos tempos, tornou-se ainda mais claro que a disputa entre o governo e o SYRIZA se centra nos “mercados”, ou seja, sobre qual dos dois ganhará o “favor” do capital. Estão tratando de assumir o papel do negociador mais capaz para os interesses do capital e não para os interesses do povo. Ambos falam de “consenso nacional”, que significa a paz social e de classes, a submissão do povo aos interesses do capital.

As suas diferenças têm que ver com a fórmula de gestão do desenvolvimento capitalista. Ambos embelezam o seu conteúdo antipopular e de classe. O SYRIZA está a pedir o  relaxamento da disciplina fiscal rigorosa, unindo forças com a França e a Itália que estão continuamente  a tomar medidas à custa dos seus povos, para exercer uma maior pressão sobre a Alemanha.

No entanto, ao mesmo tempo, o governo e o SYRIZA estão a ocultar que nem o ajuste da dívida nem o relaxamento da disciplina fiscal vai levar ao alívio do povo mas ao aumento do apoio estatal aos grupos empresariais nacionais, e dos investimentos. A redução da dívida, seja pela proposta da ND ou pela do SYRIZA, será feita através de um acordo com os parceiros e será acompanhada por novos compromissos impopulares, tal como aconteceu com o “corte” do PSI em 2012, e noutros países.

No entanto, nenhuma mudança na forma de gestão pode impedir a eclosão da crise, nem levar a um desenvolvimento capitalista favorável ao povo. Isto foi demonstrado pelo exemplo dos EE.UU. e do Japão.

O governo de coalizão da ND-PASOK e SYRIZA, apesar das suas diferenças, enganam o povo prometendo-lhe o mesmo: que se a economia capitalista se fortalecer, o povo beneficiará. Isto é mentira. Qualquer forma de recuperação capitalista será construída nas ruínas dos direitos dos trabalhadores, não dará trabalho decente para os milhões de desempregados. As chamadas vantagens “comparativas” para a reconstrução da economia do país, invocadas pelo governo e pelo SYRIZA, têm a ver com as capacidades das grandes empresas de conseguir ainda maior rentabilidade.

Mesmo que a recuperação, se alcance, será fraca num período em que a recessão em alguns países capitalistas fortes ou o sobre endividamento de estados pressagiam um novo ciclo de crises mais profundas. Portanto, o capital insiste num “consenso nacional” que não é rejeitado nem por ND-PASOK, nem pelo SYRIZA, amarrando o povo aos interesses do capital. A sua disputa tem que ver com quem vai chegar à frente.

Na nova festa do capital somente haverá migalhas para o povo. O governo e o SYRIZA competem entre si e prometem dar migalhas para a “pobreza extrema” que resultam da hemorragia de outros trabalhadores e se desvanecem no dia seguinte devido às medidas antipopulares. Ambos promovem a política da União Europeia e do capital com medidas de tipo “recolher dinheiro dos pobres para apoiar os indigentes”, que não custam nada ao capital. Servem o objetivo do capital de que a base dos salários e das pensões deve ser o miserável rendimento mínimo garantido.

A ND distribui o “dividendo social” e o SYRIZA promete cantinas e a recuperação do 13º mês para os reformados mais necessitados. Mesmo a proposta do SYRIZA de restaurar o salário mínimo é uma frase vazia porque não afeta milhares de trabalhadores, sobretudo os jovens que trabalham com relações laborais flexíveis e nem sequer recebem o salário mínimo reduzido. Na essência, fomenta a conhecida  propaganda reacionária, sobre trabalhadores privilegiados e não privilegiados que abre o caminho para um ataque contra a maioria dos trabalhadores com maiores salários. Além, em muitos países da União Europeia o aumento dos salários mais baixos  separadamente, sem a recuperação das convenções colectivas, foi utilizado para a diminuição do salário médio.

Não devemos conformar-nos com migalhas. O critério da postura e luta do povo devem ser as suas próprias necessidades e as dos seus filhos. O critério deve ser também o grande potencial de desenvolvimento que oferecem a tecnologia, a ciência, o potencial de desenvolvimento do país, para a satisfação das necessidades das pessoas, se tudo isto estiver ao serviço do povo.

Trabalhadores, jovens, desempregados, reformados.

Dirigimo-nos a vós entendendo o vosso desejo de se livrarem dos memorandos, das políticas injustas e dos governos antipopulares. Sentimos a  vossa ansiedade pelo futuro, pelos vossos filhos, por viver dias melhores.

Confiamos no povo e no seu poder. O povo tem a força e a responsabilidade de não ser espectador passivo, de não ser enganado pelos ataques antipopulares levados a cabo pelos governos da União Europeia e do capital. O povo pode tirar conclusões e não permitir que se repita o sistema bipartidário antipopular do passado.

O KKE tem de ser forte em todos os lugares, porque é o único verdadeiro opositor dos monopólios e do seu poder, da UE, dos memorandos permanentes, dos governos antipopulares.

Haverá um governo após as eleições. Na verdade, há vários partidos e formações dispostos a contribuir para isso. Para o povo o que é importante é que o KKE seja forte, para que o povo também seja forte.

Vocês sabem que o KKE é uma força estável e firme contra todos os ataques anti operários e anti populares. Sabem o que o KKE fez durante 96 anos e que foi a única força da oposição operária e popular dentro e fora do parlamento nos últimos 3 anos, a partir das eleções de 2012. Em toda a parte se nota a contribuição e o impacto da luta dos comunistas. No entanto, também viram que a redução da influência eleitoral do KKE teve um impacto negativo na dinâmica e no carácter de massas do movimento operário e popular. No entanto, como sabem o KKE não se deu por vencido. Apoiou os trabalhadores assalariados, os  camponeses, os trabalhadores independentes, os reformados, os alunos e os estudantes pelo direito à saúde, à segurança social, à pensão, à educação, à protecção da renda e da habitação, das instalações para os trabalhadores independentes e os camponeses contra empréstimos usurários e impostos insuportáveis. O KKE nunca mentiu ao povo.

Dirigimo-nos sobretudo aos que pensam justificadamente que a situação não pode continuar assim, que “eles têm que ir”. Há que rejeitar o governo actual ao rejeitar a estrategia da União Europeia e do capital, e não eleger outro governo que vá aplicar a mesma estratégia com algumas diferenças insignificantes para o povo. Cada uma e cada um deve pensar que: nos anos anteriores  alternaram governos de um só partido e governos de coalizão, extorquindo o voto do povo, fomentando o medo do “pior” e ilusões sobre o mal “menor”. Mas o que mudou para o povo? Enquanto o país permanece preso nas cadeias da União Europeia e do caminho de desenvolvimento capitalista que ficou antiquado e obsoleto, a armadilha do “mal menor” levará a outros governos anti populares. O povo deve libertar-se dos governos anti populares e da sua política, e tomar ele mesmo o poder. A situação actual na Grécia e a nível internacional não permite perder mais tempo.

Dirigimo-nos a vocês que se sentem radicais, de esquerda, progressistas, que tendes experiência e memória, que tomaram parte nas lutas e que hoje pensam votar SYRIZA, com um peso no coração e pouca esperança, na lógica do “mal menor”.  Hoje, podem ver mais claramente que a liderança do SYRIZA dá credenciais ao capital e aos organismos imperialistas e corta todos os laços com a história do movimento popular. Dá oportunidade às forças mais reacçionárias de caluniar as tradições combativas do nosso povo. Rapidamente está a ocupar o lugar da social democracia, adoptando uma versão pior que antes porque a situação do capitalismo é pior e a situação do movimento operário é também pior.

Dirigimo-nos a vocês que mesmo não concordando com o KKE em tudo ou que têm reservas quanto a algumas posições, entendam, no entanto, que o KKE é o apoio firme do povo. Tudo o que o povo ganhou, ganhou-o com lutas e com o KKE na primera linha. Quando o movimento e  KKE se viram debilitados, o povo também teve perdas.

Pensem que força estará amanhã ao lado do povo, na primeira linha da luta pelos salários, o trabalho, e seus direitos.

O KKE faz um chamamento a todos os jovens preocupados, aos trabalhadores, aos reformados, a todas e todos que não se conformam com a pobreza e o derrotismo a unir forças com ele.

Convida-os a votar e fortalecer o KKE em toda a parte. Para que se fortaleça o povo, a resistência e a luta popular, a aliança popular contra os monopólios e o capitalismo, para abrir o caminho na perspectiva do poder operário e popular.

terça-feira, 13 de janeiro de 2015

Entrevista de Giorgos Marinos, membro do Bureau Politico do CC do KKE, ao jornal UZ do Partido Comunista Alemão, sobre as eleições do próximo dia 25 e a ingerência imperialista na actual situação económica e politica na Grécia


UZ: Os recentes acontecimentos na Grécia conduziram a eleições gerais em 25 de Janeiro. Como actuará o KKE nesta luta eleitoral? Será capaz de enfrentar com sucesso a polarização prevista em torno do cenário “a favor” ou “contra” a UE?


Giorgos Marinos: A polarização que descreve (em relação à UE) não é a que se previa dado que ambos os partidos que aspiram a formar o próximo governo (a ND e o SYRIZA) estão comprometidos com a UE. De facto, o presidente do SYRIZA, A. Tsipras, declarou explicitamente: “Pertencemos ao Ocidente[…] à UE e à OTAN. Isto é indiscutível.” Assim pretendem criar uma polarização entre, por um lado, o medo fomentado pela ND de que se não prosseguirmos a actual política antipopular , será um desastre e, por outro, a exploração da indignação do povo e as ilusões de gestão que o SYRIZA fomenta, que mesmo com o seu grande resultado eleitoral não  contribuiu para o desenvolvimento das lutas operárias.

O nosso partido tem levado a cabo importantes lutas, e um trabalho de educação das massas, demostrando aos trabalhadores que qualquer que seja a forma de gestão burguesa seguida no âmbito da UE, e da OTAN, o caminho do desenvolvimento capitalista, nunca será em beneficio dos trabalhadores e das outras camadas populares. A solução é fortalecer o KKE em toda a parte, inclusivamente no parlamento, para que se fortaleça a luta do povo e se prepare o caminho para mudanças radicais.

 UZ: Os meios de comunicação na Alemanha dizem, de uma forma alarmista, que a Grécia entrará em colapso se a “esquerda radical”, quer dizer, o SYRIZA, ganhar as eleições. A UE já se envolveu na luta eleitoral. Quais são as suas expectativas em relação à política que se espera que Alexis Tsipras virá a seguir?

Giorgos Marinos: Na Alemanha há alguns que falam de forma alarmista, tal como faz o partido governamental da ND na Grécia; no entanto, outros sectores do capital manifestam-se de modo diferente e apoiam abertamente um possível governo do SYRIZA. 

É verdade que os dois partidos (ND-SYRIZA) têm divergências que expressam as diferenças existentes entre os países da zona euro e os diferentes sectores dos grupos monopolistas, da burguesía, e dos empresários. A opinião dominante na Comissão, na UE, na Alemanha, traduz uma linha política restritiva, a continuação das medidas de austeridade para que o país consiga sair da crise e para que a zona euro no seu conjunto não entre em crise. Por outro lado, existe uma opinião que fala de uma política mais expansiva - disse-o inclusivamente o presidente do Banco Central Europeu, Mario Draghi-, quer dizer um relaxamento fiscal para que se gere liquidez e se proporcione dinheiro aos empresários para investimentos. Afirmam que desta maneira a economia “respirará”, como defende o SYRIZA. No entanto, esse dinheiro não é para o povo mas para os diversos sectores da plutocracia, para os monopólios.

Assim, quando o SYRIZA discute com a ND sobre quem dará maior impulso à rentabilidade do capital, à “competitividade” da economía, ao pagamento da dívida, não pode haver expectativas de que um governo do SYRIZA, que se transformou num partido social democrata, implementará uma política favorável ao povo. Demostrou-se na práctica que os “governos de esquerda”, tanto na Grécia como na Europa, foram as “pontes” que levaram a políticas mais “direitistas”.

UZ: Que caminho propõe o KKE que o país siga no que respeita à dívida e à UE?

Giorgos Marinos: O KKE demostrou que o povo não têm a culpa da dívida; a culpa é do capital e dos governos que o apoiam. Em suma, a dívida deve-se à adesão do país à CEE e à UE, que destruiu sectores tradicionais da economia, e em geral ao caminho de desenvolvimento capitalista uma vez que o Estado pediu empréstimos para servir a rentabilidade do capital e agora pede aos trabalhadores que paguem. Nòs apelamos às pessoas para que não reconheçam a dívida.

Além disso, repare que tanto o plano da ND para o “alargamento” do pagamento da dívida, que é aceite también por quadros do SYRIZA, como o objetivo oficial do SYRIZA e do FMI do “corte” da dívida, para que volte a ser “sustentável”, não liberta o povo desta carga financeira insuportável, não dá lugar à recuperação dos percas nas receitas que o povo sofreu desde a eclosão da crise capitalista; Nem impedem a continuação das medidas antipopulares.

O que o povo deve fazer é criar condições na sociedade a fim de preparar  o caminho para o cancelamento unilateral da dívida, a retirada da Grécia da UE e da OTAN, o desenvolvimento de uma economia baseada nas necessidades do povo e não na rentabilidade do capital. Esto requer o poder operário e popular. A condição prévia para isso é o reagrupamento do movimento operário e popular, a formação da aliança popular da classe operária com as outras camadas populares, algo que pode ser levado a cabo através do fortalecimento decisivo do KKE.

UZ: O KKE rejeita a participação no Partido da Esquerda Europeia (PEE). Quais são as razões que levaram a essa decisão? Não existem razões que favoreçam esse tipo de cooperação?

Giorgos Marinos: O KKE tem 96 anos de actividade incessante. Desde a sua fundação, o nosso Partido foi e continua a ser um partido internacionalista. Há 16 anos, o KKE tomou a iniciativa de começar os Encontros Internacionais de Partidos Comunistas e Operários, em Atenas. Responde activamente aos convites de outros partidos, toma iniciativas de coordenação de actividades a nivel mundial e regional. Portanto, as nossas diferenças com o PEE não têm que ver com a questão de haver  coordenação da actividade, mas em que direcção deve ser essa coordenação.

Ou seja, o KKE considera que é necessário fortalecer a actividade conjunta contra a guerra, e as intervenções imperialistas, contra o desenvolvimento capitalista, contra as medidas anti operárias e anti populares, contra as organizações imperialistas da UE e da OTAN, contra qualquer organização imperialista. O nosso objetivo deve ser a criação duma estratégia revolucionária contemporânea a nível internacional.

Isto não pode ser feito pelo PEE que foi formado com base nas decisões da própria União Europeia. Todos os chamados “partidos europeus” (o PEE também) aceitam obrigatoriamente nos seus documentos, e apoiam, esta “construcção” imperialista da UE, da qual recebem apoios.

O KKE promove a nível europeu uma nova forma de cooperação e reunião de partidos comunistas e operários com base em principios comuns. Até agora na “Iniciativa para o estudo, o desenvolvimento dos assuntos europeus e a coordenação da acção” participam 29 partidos que não são membros ou  membros plenos do PEE e baseiam-se nos principios do socialismo científico, unidos pela visão de uma sociedade sem exploração do homem pelo homem, sem pobreza, sem injustiça social, sem guerras imperialistas.

Ao mesmo tempo estamos claramente comprometidos com a luta contra a UE, que é uma opção do capital e promove medidas a favor dos monopólios, reforça as suas características como bloco económico, político e militar imperialista, contra os intereses da classe operária, dos sectores populares, aumenta o armamento, intensifica o autoritarismo e a repressão estatal. Acreditamos no direito de cada povo a escolher soberanamente o caminho do seu desenvolvimento , incluindo o direito de retirar-se das várias dependencias da UE e da OTAN, e o direito à opção socialista.

Em nossa opinião, cada partido comunista europeu que queira cumprir com a sua missão histórica, como partido da classe operária, com uma perspectiva socialista, será práticamente obrigado a tomar parte na nossa frente comum contra os monopólios, o capitalismo e as suas organizações, como a UE e a OTAN. De outra forma, deslizará de forma aberta ou encoberta na intenção inútil de “humanizar” a UE e o capitalismo, perderá a sua identidade comunista. Consequentemente, responderá erradamente ao dilema “socialismo ou barbarie”, “reforma o revolução”, colocado pela revolucionária alemã Rosa Luxemburgo nos seus escritos. Ou seja, estará na margem oposta dos interesses operários e populares, onde hoje se encontra, entre outros o PEE.

 UZ: Desejamos sucesso nas eleições e nas lutas que 2015 trará!